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Nos bastidores da Fazenda
Investidor Institucional antecipou o vai‑e‑vem da indicação do novo chefe da equipe econômica do segundo mandato de Dilma Rousseff

Joaquim Vieira Levy, ministro da FazendaHenrique MeirellesEdição 266

 

Enquanto o mercado vinha apostando na indicação de Henrique Meirelles como novo Ministro da Fazenda e, por isso, o Ibovespa vinha ganhando fôlego na primeira quinzena de novembro, a reportagem da Investidor Institucional antecipou que o ex-presidente do Banco Central não seria o escolhido. Em uma nota publicada na Investidor Online em 12 de novembro, uma diretora do Banco Original revelou uma conversa de Meirelles com o comando da instituição - controlada pela holding J&F, da qual ele é presidente do conselho consultivo - que dificilmente Dilma Rousseff o escolheria para o lugar de Guido Mantega. A informação correu rapidamente para os principais veículos e canais de comunicação do mercado e no dia seguinte, o Ibovespa apresentava forte recuo.
Não foi apenas a antecipação da saída de Meirelles do páreo pelo comando da equipe econômica que foi noticiada pela revista. Com a equipe trabalhando no Congresso Brasileiro dos Fundos de Pensão, realizado em São Paulo entre os dias 12 e 14 de novembro, a reportagem entrevistou Nelson Barbosa, que era o outro nome cotado para a pasta da Fazenda. Em entrevista no último dia do evento, depois de sua palestra em um dos painéis, ele revelou que não tinha recebido o convite para assumir o comando da equipe econômica. O mais interessante, porém, não foi nem a saída de Meirelles, nem o redirecionamento de Barbosa para a pasta do Planejamento, mas sim, uma entrevista realizada com aquele que seria realmente confirmado na Fazenda.
Poucos dias antes do congresso dos fundos, no início de novembro, o editor-chefe da Investidor Institucional, Luis Leonel realizou uma longa entrevista exclusiva com Joaquim Vieira Levy. A entrevista foi publicada na edição 265, de novembro, que circulou no evento. Na época, o terceiro nome cotado para a Fazenda era Luiz Trabuco Cappi, presidente do Bradesco, e chefe de Levy, que ainda era o diretor superintendente da Bram – Bradesco Asset Management. Com a recusa de Trabuco, começava a entrar o nome de Levy, que havia sido secretário do Tesouro Nacional entre 2003 e 2006. Seu nome ainda não era comentado publicamente, mas já começava a ser cogitado pela presidente Dilma.
Na entrevista concedida para a revista, o executivo da Bram já dava sinais de que tinha condições para assumir como futuro Ministro da Fazenda, ao indicar as principais medidas que a nova equipe deveria adotar para corrigir os erros das políticas macroeconômicas (ver box). Ele circulou pelos corredores do Congresso dos Fundos de Pensão e ficou um longo tempo no estande do Bradesco, conversando com sua equipe e com dirigentes de fundos de pensão. Naqueles dias, poucos desconfiavam que Levy poderia ser escolhido para a Fazenda, o que foi confirmado oficialmente no final de novembro.

Café da manhã – Durante o Congresso dos Fundos de Pensão, os dois nomes mais cotados para substituir o ministro Guido Mantega, eram os de Henrique Meirelles e de Nelson Barbosa. Ambos participaram direta ou indiretamente do evento organizado pela Abrapp (Associação Brasileira das Entidades Fechadas de Previdência Complementar). O terceiro nome, de Luiz Trabuco, já era descartado pois ele tinha confidenciado a alguns amigos mais próximos que dificilmente deixaria a presidência do Bradesco.
Naquele momento, o nome de Meirelles vinha ganhando força. Além de participar com um estande no evento dos fundos de pensão, o Banco Original organizou um café da manhã no dia 13 de novembro com Meirelles. Foi um encontro fechado no Hotel Transamérica, ao lado do local onde era realizado o congresso, para cerca de 50 convidados. Acabaram participando cerca de uma centena de gestores de fundos de pensão e de assets.
Durante o café da manhã, Meirelles fez uma apresentação de perspectivas e cenários para 2015. “Foi uma apresentação bastante neutra sobre o cenário para o próximo ano. Ele disse que a economia brasileira não está em uma situação tão dramática”, disse Fernando Lovisotto, diretor da Vinci Partners, que estava presente ao encontro. Para Paulo Julião, diretor financeiro do fundo de pensão Economus, Meirelles tentou transmitir um tom otimista. “Ele falou que os problemas não são tão graves e tão diferentes de outros momentos e que precisamos de mais otimismo”, contou o diretor. Durante a apresentação, porém, Meirelles não falou sobre a possibilidade de assumir o Ministério da Fazenda.
A informação que Meirelles não seria indicado para a pasta da Fazenda tinha vazado um dia antes. Em uma conversa nos corredores do evento, o editor-executivo Alexandre Sammogini falou com a diretora de mercado de capitais do Original, Kátia Moroni. Em uma pergunta se Meirelles seria o futuro ministro, Kátia respondeu: “Não, ele não será o Ministro da Fazenda”, disse. Questionada como é que podia afirmar com tanta convicção, confirmou: “Eu trabalho com ele, sei que não será indicado”, falou. Em seguida, a reportagem apurou que Meirelles tinha se reunido naquela semana com a direção do Original e confidenciado que tinha poucas chances de ser indicado para comandar a nova equipe econômica.
Meirelles teria dito que em uma escala de 0 a 10, que as chances de assumir como novo ministro era de apenas 2. Ou seja, que tinha 80% de chance de não ser o escolhido. A informação começou a circular e ganhar força, junto com uma série de especulações que tentavam explicar porque ele não seria o escolhido. Um dos motivos apontados era a indisposição da presidente para nomear Meirelles, com quem tinha travado embates no segundo mandato do presidente Lula. Além disso, a nomeação de Meirelles criaria uma sombra muito grande de Lula sobre Dilma. Isso tudo era especulação, pois a presidente estava viajando para reunião do G-20 na Austrália. Porém, a conversa de Meirelles com a sua equipe do Banco Original começava a fazer sentido.
No último dia do congresso dos fundos, Nelson Barbosa deu uma entrevista coletiva depois de sua palestra no evento. Ele disse que não tinha recebido o convite da presidente Dilma para a Fazenda. Naquele momento, o mercado e a imprensa já não conseguia mais apostar em um novo nome para o cargo. Nos dias seguintes, após o retorno de Dilma ao Brasil, o nome de Trabuco voltou a ser especulado, mas realmente, ele não teria disposição para deixar a presidência do Bradesco e o projeto de suceder Lázaro Brandão no conselho de administração do banco. É provável que no processo de recusa do convite, Trabuco e Lázaro Brandão tenham sugerido o nome de Levy como opção. Ele tinha experiência internacional, tinha sido do FMI e do BID, experiência de governo, no primeiro mandato de Lula e não deixava de ser um nome muito bem aceito pelo mercado.

Pulso firme – Uma das características mais ressaltadas por colegas da indústria de assets em relação ao novo Ministro da Fazenda, Joaquim Levy, é o pulso firme e a defesa de ideias próprias. São atributos vistos como positivos e necessários para o novo chefe da equipe econômica do governo Dilma Rousseff. “O Levy tem a cabeça de um engenheiro, tem ideias próprias e vai a fundo em tudo o que faz”, diz Fábio Masetti, superintendente comercial da Bram, que trabalhou com Levy nos últimos quatro anos. O executivo acredita que Levy, que tem a formação de engenharia naval, dará uma importante contribuição para o novo governo. “É o perfil que o novo governo está precisando e que o mercado estava esperando”, diz Masetti. Ele ressalta ainda sua grande capacidade de trabalho. “Ele procura formar ideias próprias dos principais assuntos e para mudar de posição, tem que ser convencido”, diz o superintendente comercial.
O mercado recebeu muito bem a confirmação do nome de Levy para a Fazenda. Uma das leituras é que o executivo representa uma grande mudança em relação à atual equipe econômica, mais subordinada às orientações da presidente Dilma.
Uma das missões centrais da nova equipe é a recuperação do equilíbrio fiscal, e neste ponto, Levy também é visto como uma pessoa capaz de cortar os gastos. “O problema central não é a política monetária, mas sim a política fiscal. E o Levy é um especialista que consegue encontrar onde os gastos podem ser cortados”, diz Eduardo Yuki, economista-chefe do BNP Paribas Asset Management.

Estrangeiros – Outro ponto ressaltado por profissionais de assets é o impulso aos investimentos estrangeiros e a internacionalização do mercado de capitais doméstico que Joaquim Levy sempre procurou fomentar, desde quanto foi secretário do Tesouro Nacional, no primeiro mandato do ex-presidente Lula, entre 2003 e 2006. “Quando estava no Tesouro Nacional, Levy foi um dos responsáveis pela regulação que passou a isentar os investidores estrangeiros do pagamento de Imposto de Renda sobre aplicações em títulos públicos”, diz Flávio Gonçalves Almeida, da BB DTVM. Ele se refere às regras da Medida Provisória 281, de 2006.
Na mesma linha de ação, Levy procurou abrir espaço para a internacionalização do mercado de assets, enquanto atuava pela Bram. Ele foi o idealizador de um dos primeiros fundos de BDRs (Brazilian Depositary Recepts), que são ativos negociados na bolsa doméstica mas atrelados às empresas americanas. Em seguida, a Bram lançou também uma série de fundos globais, de América Latina, Europa e Australásia (Ásia e Oceania), com ações de empresas estrangeiras.

Fiscal, Fiscal e Fiscal, disse Levy em entrevista

Foi essa a resposta do presidente da Bram - Bradesco Asset Management, Joaquim Levy, para uma das respostas publicadas em entrevista exclusiva para Investidor Institucional (ed. 265 de novembro de 2014), sobre sua fórmula para conciliar crescimento econômico, juros baixos e inflação controlada. A entrevista trazia os principais pontos de vista do executivo sobre o momento da economia brasileira, incluindo quais seriam, na sua opinião, os ajustes necessários para recolocar o País no caminho do crescimento.
Perguntado sobre qual deveria ser o ponto de equilíbrio, no novo governo, para conciliar crescimento econômico, juros baixos e inflação controlada, Levy deu a seguinte resposta: “Vou fazer um paralelo com uma expressão comum nos EUA: o valor de uma casa é definido por três fatores, que são localização, localização e localização. Pois bem, o equilíbrio aqui tem três ingredientes, que são fiscal, fiscal e fiscal”.
Em relação às fragilidades atuais do País, Levy disse que “o desafio para o Brasil é o nosso baixo nível de poupança. “Estamos tentando aumentar o investimento sem aumentar muito a poupança doméstica, e conscientes dos limites da poupança externa. Definir uma linha de ação em relação a isso é um imperativo para alinhar expectativas”, disse.
Sobre o ciclo de elevação da taxa de juros, ele diz que “a subida da Selic é positiva na medida em que sinaliza o compromisso com a estabilidade de preços, mas o que realmente vai fazer a diferença é um conjunto de políticas que permita os juros baixarem de maneira persistente e segura, tornando os investimentos de longo prazo cada vez mais atraentes. Esse é um trabalho diário, de muita paciência e humildade”.
A necessidade de retomar o equilíbrio fiscal foi um dos pontos ressaltados por ele na entrevista ao citar o exemplo da economia australiana. “O novo governo [da Austrália] está começando um aperto fiscal importante e os juros, ainda que observando as dilações do aperto nos EUA, têm sido pró-ativos”, disse na entrevista. Ainda em relação à condução da política econômica australiana, Levy destaca o nível da taxa de investimento, mais alta que a do Brasil. Para ele, um dos grandes entraves para a volta do crescimento da economia brasileira é o baixo nível de investimentos no setor produtivo, principalmente, na infraestrutura.
“O menor crescimento da China deve exigir mais de nós. Além disso, a urgência para destravarmos a infraestrutura aumentou, até pelo cenário global em que a produtividade será ainda mais importante”, disse Levy.