Volatilidade à vista

Edição 298

Eleição de 2018 sem um consenso em torno de candidatos comprometidos com as reformas entra no radar dos gestores de assets

Há um ano das eleições presidenciais de 2018, a total indefinição de um candidato claramente identificado e comprometido com as reformas econômicas começa a acender um sinal amarelo nas mesas dos gestores de recursos. A experiência mostra que os mercados têm dificuldade em precificar de forma tão antecipada os riscos inerentes às eleições, então, por ora, não há mudanças estruturais de posições nas carteiras. Mas a percepção é de que a multiplicidade de candidatos traz um risco maior de haver surpresas no pleito e, por isso, o câmbio e os juros devem se manter voláteis. “Até que tenhamos um cenário mais concreto, de qual será a força de um candidato pró-mercado, vai haver volatilidade. Então a tendência é de que as posições das carteiras sejam mais arbitrais dos que direcionais”, diz Marcelo Mello, vice-presidente da SulAmérica Investimentos.
O cenário para as eleições está totalmente aberto e conta com muitos possíveis candidatos: o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Geraldo Alckmin (PSDB), João Dória (PSDB), Jair Bolsonaro (PSC), Marina Silva (Rede), Ciro Gomes (PDT), Henrique Meirelles (PSD) e Luciano Huck (sem partido). O risco que o mercado está começando a ver é de que uma falta de unidade dos partidos ou candidatos que historicamente defendem o tripé macroeconômico leve a um cenário em que um candidato descomprometido com a atual política econômica vença a próxima corrida presidencial.
“É muito difícil antecipar os candidatos, já que pela lei só saberemos das filiações em abril e das candidaturas em agosto, o que ainda está muito longe. Então acreditamos que isso será mais sentido pelo mercado no ano que vem”, afirma Marcelo Giufrida, sócio e gestor da Garde Investimentos. “Quem vão ser os candidato vai ter muita influência nos cenários que a gente desenhou.” O prazo para a filiação partidária daqueles que querem ser candidatos nas Eleições de 2018 termina em abril e agosto é quando os partidos políticos e coligações devem registrar seus candidatos. O pleito será realizado no dia 7 de outubro de 2018 e, se houver, o segundo turno ocorrerá no dia 28 do mesmo mês.
Giufrida vê o país se encaminhando novamente para um contexto binário. Em um cenário há a manutenção das políticas atuais, com a questão fiscal melhorando aos poucos, o que traria credibilidade e faria com que o mercado antecipasse os efeitos disso no preço dos ativos. No outro cenário, a política econômica daria uma guinada em direção à praticada pelo governo anterior, o que faria com que o investidores desenhassem um panorama totalmente diferente, reagindo de maneira bastante negativa. “São dois cenários possíveis muito distintos e hoje o que temos no mercado é uma mistura dos dois, onde o preço atual dos ativos é uma média entre eles. Mas diferentemente do que acontece em outras situações, a média não é o cenário mais provável, ao contrário, é o cenário menos provável”, afirma Giufrida. Para a Garde, os primeiros sinais das eleições vindos das pesquisas eleitorais não são bons e assim devem continuar nos próximos meses.
Segundo a última pesquisa de intenção de votos divulgada pelo Ibope, do fim de outubro, se a eleição presidencial fosse realizada naquele momento o segundo turno seria disputado entre o ex-presidente Lula e o deputado federal Jair Bolsonaro. O petista teria 35% das intenções de voto contra 13% do parlamentar. O resultado é parecido com o do último levantamento feito pelo Datafolha, em setembro, em que Lula lidera com vantagem significativa sobre os principais adversários, com pelo menos 35% das intenções de voto nos cenários testados, com candidaturas de Bolsonaro, Marina, Alckmin e Dória.

Gestão – Os gestores ainda mantém posições construtivas para os fundamentos da economia brasileira. Isso se deve à saída da política e a volta da economia para o primeiro plano. Pela primeira vez em muito tempo, o cenário político tem perdido relevância desde que a segunda denúncia contra o presidente Michel Temer foi rejeitada pelo Câmara dos Deputados e, com exceção da Previdência, as outras reformas foram aprovadas: teto de gastos, terceirização e reforma trabalhista. “Esse descolamento da política em relação a economia deve continuar porque, mesmo com a incerteza do lado fiscal, o crescimento da atividade deve continuar”, diz Ronaldo Patah, estrategista de investimentos do UBS Wealth Management. O UBS prevê que o Produto Interno Bruto (PIB) cresça 3,1% no ano que vem, ante uma estimativa de 2,5% dos economistas consultados pelo Relatório Focus, do Banco Central.
Dado que o cenário atual ainda é benigno, as carteiras das gestoras seguem com posições alinhadas à recuperação da economia e à queda da taxa de juros. Os fundos da Garde têm posição comprada em bolsa, aplicada em juros de até um ano, vendida em dólar contra o real, quase zerada em títulos públicos indexados à inflação (NTN-B), posição internacional em moedas de emergentes contra a de mercados mais fortes e tomada em juros na Europa. “Temos uma visão construtiva de economia global e Brasil, mas não estamos no ponto mais alto da alocação, e sim da média para baixo”, diz Giufrida. Isso porque ele vê um cenário de transição tanto aqui quanto lá fora, com o fim do ciclo de queda da Selic no Brasil, o aperto monetário nos Estados Unidos e os ajustes que a China deve promover após definir a liderança do Partido Comunista para os próximos cinco anos.
Mas para o próximo ano os gestores prevêem ter que navegar em águas menos tranquilas, o que vai exigir uma atuação diferente da atual. “Do ponto de vista do estilo, a gestão deve ser mais tática, com posições de arbitragem mais de curto prazo. Essa deve ser a dinâmica até a gente perceber uma construção melhor do mercado para o futuro e para a eleição”, diz Mello, da SulAmérica. Segundo ele, a tendência será a de fazer posições de arbitragem, de um vencimento contra outro no mercado de juros, ou de uma ação contra a outra na bolsa. Em algumas carteiras, a gestora já vem aplicando isso. Com a curva de juros futuro mostrando uma inclinação grande, títulos prefixados com vencimento em 2021 têm mostrado muito mais prêmio do que o mesmo título de curto prazo, e a gestora tem aproveitado essas distorções para montar posições de arbitragem na parte curta, média e longa da curva de juros. Giufrida, da Garde, também vê um cenário mais tático no ano que vem, com posições que até podem ser direcionais, mas com horizonte de maturação mais curto e objetivo de retorno mais modesto. “As posições terão um horizonte menor do que foi nesse ano, que tinha uma tendência mais clara e definida”, afirma.

Cenário – O cenário externo também parece favorável, com a liquidez global ainda jogando a favor de economias emergentes. Patah, estrategista do UBS, observa que o pano de fundo global pode afetar muito a dinâmica do mercado local. “O mundo está num momento positivo, com um crescimento forte este ano, projetado em 3,8%, e que deve se repetir no ano que vem”, afirma. Segundo ele, o desafio do mundo deixou de ser de crescimento e passou a ser de normalização das políticas monetárias. O Federal Reserve (Fed, banco central americano) iniciou o movimento de alta das taxas de juros e redução de seu balanço. Já a Europa continua com o programa de compra de títulos, ainda que tenha começado a reduzi-lo. Mas ainda assim, liquidez não será um problema, segundo Patah. “Os bancos centrais dos EUA e da Europa compraram US$ 11 trilhões de títulos nos últimos anos. O que vai começar a sair é muito pequeno se comparado ao total, e a Europa ainda continua comprando, então não será suficiente para reduzir a liquidez do mercado”, diz o estrategista do UBS.
O fluxo de recursos estrangeiros para a bolsa brasileira é positivo em R$ 10 bilhões no acumulado do ano até 21 de novembro, segundo dados da B3. Mas o investidor local ainda não tem mostrado uma grande disposição para a renda variável, observa Mello, da SulAmérica. A queda da Selic o tem levado a migrar primeiro para fundos multimercados, de renda fixa com gestão ativa e crédito privado. “Não esperamos um fluxo tão relevante para a bolsa até uma decisão política mais clara”, afirma. Segundo os dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), os fundos de investimento em ações têm uma captação líquida (aportes menos saques) de R$ 6,8 bilhões no acumulado do ano até outubro, enquanto os fundos multimercados têm saldo de R$ 87,7 bilhões.