A hora é de olhar para a frente e virar a página
Piero Minardi é presidente da Assoc. Bras. de Private Equity & Venture Capital - Abvcap

Olhe à sua volta: o Private Equity está em todo lugar. Os fundos administrados pelos gestores reunidos na Associação Brasileira de Private Equity & Venture Capital (Abvcap) têm ajudado a construir a moderna economia brasileira. A empresa aérea que nos leva, a agência de turismo que marca a viagem, o aplicativo que entrega comida tarde da noite, a escola onde nossos filhos estudam, a clínica do check-up anual, a farmácia onde compramos remédios. Cada um desses mercados, e dezenas de outros, tem sido transformado pela presença de fundos de private equity e venture capital – que, com sua experiência, conhecimento e disponibilidade de recursos, ajudam as nossas empresas a mudar de patamar. Dos mais de 160 IPOs do mercado brasileiro nos últimos 15 anos, 46% tiveram um fundo por trás. Nos últimos 8 anos, este percentual está acima de 60%. Podemos dizer, com total convicção, que o private equity tem papel fundamental no desenvolvimento do nosso mercado de capitais.
O impacto do nosso setor na economia brasileira é enorme, e vai ser muito maior a partir de 2020. Meu otimismo vem de uma constatação simples. As condições econômicas nunca foram tão propícias, e vejo sinais promissores de que a indústria de fundos de pensão está retomando a percepção da simbiose que existe entre nossos dois universos – uma simbiose que pode beneficiar milhões de brasileiros, pensionistas e aposentados.
Viver com juros baixos é novidade em terras brasileiras, mas tem sido a realidade nos últimos anos nas economias desenvolvidas – que, como se sabe, convivem agora com juros negativos. Portanto, a pressão por busca de alternativas que tragam bons retornos já é sentida com força por poupadores de fora há algum tempo. O private equity surge como alternativa natural, o que ajuda a explicar o contínuo crescimento dessa classe de ativos mundo afora. Nos Estados Unidos e no Reino Unido, o private equity já responde por quase 30% das novas alocações de fundos de pensão.
No Brasil, sabemos que as coisas ainda estão muito longe de chegar a esse ponto. As questões que se colocam são: 1) O que nos impediu?; 2) O que está sendo feito para mudar essa realidade? e 3) Por que pode ser diferente dessa vez?
Recentemente, a indústria de private equity no Brasil sofreu as consequências de um grande mal-entendido. O mau uso de um instrumento – o FIP, ou Fundo de Investimento em Participações – deu a uma indústria séria um problema reputacional injustificado. Gestoras que se prezem jamais permitiriam aquele tipo de situação – os fundos reunidos na Abvcap estão comprometidos com retornos de longo prazo, buscados com seriedade e muito esforço. O FIP, não custa reforçar, é apenas um instrumento. Mas a infeliz constatação é que muitos confundiram FIP com private equity e, na dúvida, se afastaram de uma indústria que gera tanto valor para seus investidores.
O mau uso dos FIPs acabou também por contaminar as próprias fundações investidoras, que tiveram algumas de suas equipes de investimentos atingidas por questionamentos injustificados.

Gestores experientes – O ecossistema de private equity e venture capital nunca foi tão pujante no Brasil. Temos uma grande quantidade de gestores que, com mais de uma década de experiência, passaram por vários ciclos de investimentos em diferentes momentos da economia com resultados excelentes. Temos uma indústria de prestadores de serviços (consultores, advogados, auditores, banqueiros) que entende e apoia os gestores. Temos um marco regulatório sólido, desenvolvido ao longo dos últimos 25 anos, e em constante aprimoramento. Temos um mercado de capitais real e estabelecido, que se tornou nos últimos anos uma alternativa clara de captação para as empresas e de saída para os fundos.
As pessoas que formam esse mercado são de altíssimo nível, como só se encontram em alguns poucos países onde a indústria existe há muito tempo. Falo isto a partir da minha própria experiência de mais de 20 anos como gestor de fundos e conhecendo em detalhe a dinâmica da indústria em países como China e Índia. O gestor brasileiro está mais do que qualificado para captar e investir na classe de ativos de PE e VC. Nenhum – repito, nenhum – mercado emergente tem gestores e ecossistema de PE/VC da qualidade dos que temos no Brasil hoje.
Pelo lado dos investidores institucionais e fundações, o desafio de manter a rentabilidade e atingir ou bater metas atuariais em um cenário de taxas de juros e spreads muito menores do que o histórico – cenário este que vai se manter por um longo período – traz também a necessidade de buscar classes de ativos alternativos. A existência de gestores especializados e gabaritados nestas classes de ativos torna-se crucial para que o investidor institucional possa alocar capital buscando retornos maiores. Entender como desenvolver e implantar uma estratégia consistente de alocação, selecionando gestores e desenvolvendo programas de alocação por safra, é parte do novo processo e deste desafio que estes investidores enfrentam. Exatamente como vem acontecendo nos países desenvolvidos já há algum tempo.
Ou seja: os gestores nacionais precisam do capital alocável para continuar crescendo e ganhando escala, para poder desenvolver mais produtos ilíquidos e oferecê-los ao mercado investidor. Por outro lado, os investidores institucionais e fundações precisam da classe de ativos como forma de poder alocar capital em ativos com perfil de risco diferente daqueles em que historicamente investiram. Investir nesta classe de ativos exige uma compreensão dos riscos e preparação para perdas eventuais – sim, pois são parte inerentes ao investimento de médio e longo prazo que é típico do private equity.
O papel das fundações é fundamental no desenvolvimento desse mercado. O afastamento que se deu entre ambos nos últimos anos pela contaminação e mau uso das estruturas de investimento disponíveis é prejudicial para os dois lados.
No último ano, Abvcap e Abrapp mantiveram um diálogo extremamente frutífero que começará a trazer efeitos ao longo dos próximos meses. Creio que a simbiose que mencionei acima é hoje percebida por todos. Um estudo do Insper e da Spectra mostrou que carteiras locais de private equity e venture capital têm batido, de forma consistente, o desempenho dos mercados líquidos brasileiros. O paradoxo é que esse retorno beneficiou pequenos poupadores e aposentados mundo afora, mas não no Brasil.
Felizmente, estamos virando essa página, para o benefício de milhões de brasileiros.

Piero Minardi é Presidente da Associação Brasileira de Private Equity & Venture Capital - Abvcap.