Incerteza e volatilidade no novo cenário
Marcelo Giufrida é sócio e CEO da Garde Asset Management

Com base nas minhas conversas e discussões com os dirigentes dos fundos de pensão ao longo dos últimos meses, pude observar algumas características comuns ao momento por que passam as entidades e os roteiros que se desenham para os próximos passos.
A celebrada queda dos juros, em parte estrutural (resultado do progresso das reformas) e em parte conjuntural (retomada lenta da economia, ainda operando com ociosidade), tem produzido profundos efeitos nos diversos setores do mercado financeiro: empresas mudando a forma de financiar seu crescimento, utilizando os instrumentos do mercado de capitais local; investidores realocando suas poupanças para produtos de maior ambição de retorno, portanto de maior risco; bancos, corretoras, gestores e plataformas de investimento adaptando suas estruturas e equipes para sofisticar a oferta e a análise de uma gama muito mais diversificada de alternativas de aplicação.
Como parte do mercado financeiro, as fundações de previdência também estarão experimentando os mesmos fatores citados acima, em maior ou menor grau, dadas as características técnicas do segmento. Por exemplo, na parcela de benefícios definidos, quem fez a lição de casa já deve ter uma boa carteira de títulos longos, adquiridos a taxas muito superiores às atuais e, portanto, rendendo acima das metas. Resta o risco de reinvestimento, nada desprezível, porém marginal no presente momento.
No entanto, para uma parcela grande dos participantes as reservas ainda estão em fase de constituição e, portanto, a maior parcela dela será constituída daqui para a frente, nas novas condições de retorno e risco dos ativos. Considerando as dinâmicas recentes decorrentes da estrutura de incentivos de todos os atores do segmento, acredito que o sistema deverá passar por uma grande alteração.
A elevada taxa de juros que vigorou por muitos anos até há pouco tempo, e a possibilidade de marcar títulos de renda fixa na curva, levou grande parte dos fundos a reduzir muito sua parcela de ativos de risco. Mesmo nos fundos em que há a possibilidade de escolha do perfil de investimento pelo participante, a volatilidade do retorno dos planos com perfil mais dinâmico ao longo do tempo redundou em uma redução da parcela neles alocada.
Desse modo, na média temos uma baixíssima exposição dos fundos a ativos de renda variável, no menor patamar histórico, mesmo levando em conta que as ações tiveram retorno acima de 80% no acumulado dos últimos 3 anos!
Uma consequência desse processo foi o relativo desinteresse em investir em ativos fora do universo dos títulos públicos e a consequente perda dessa expertise em toda a comunidade associada à gestão das EFPCs: os conselhos, os dirigentes e os participantes se veem agora diante do desafio de buscar alternativas que possibilitem atingir retornos em linha ou acima das metas, porém permanecem desconfortáveis com a variação da rentabilidade. Em alguns casos, após um período de maior oscilação, há uma pressão, originada dos órgãos superiores, dos funcionários ou da patrocinadora no sentido de reduzir o risco para “restaurar” a estabilidade dos períodos anteriores. No entanto, essa “solução” não é viável, pois o retorno das aplicações de curto prazo está meramente acima da inflação, e nesse sentido será certo que o plano não irá atingir a meta atuarial.

Compartilhar desafios – Como avançar então? Primeiramente, é importante compartilhar com todas as instâncias de governança o tamanho dos desafios e obter apoio para um plano de longo prazo, que permita à fundação alterar de forma importante o processo de investimento daqui para a frente.
Quanto aos órgãos internos de supervisão e controle, formais ou não, seria interessante levar a eles o debate dos modelos propostos pelas consultorias de investimento, que tem promovido um processo contínuo de difusão das melhores práticas de alocação e seleção de ativos e gestores. Em seguida à aprovação de um curso de ação, tentar obter um alinhamento quanto ao prazo de maturação das estratégias, negociando com os membros desses organismos o apoio à manutenção do plano de voo naqueles momentos em que as oscilações naturais farão aumentar as pressões por abortar ou reverter parte da nova forma de alocação.
Com relação aos participantes, reforçar as iniciativas de educação financeira, utilizando os conhecimentos e as técnicas das finanças comportamentais para mitigar a natural ansiedade de quem lida com uma poupança de longo prazo, mas compara os retornos trimestrais com aplicações do dia a dia.
Dos gestores, cobrar uma melhoria da geração de alfa, um maior alinhamento das taxas de administração com o valor agregado dos produtos, sem cair na tentação de utilizar apenas o preço como critério de seleção. Para obter uma redução do custo médio de gestão, combinar estratégias ativa e passivas, como os ETFs.
Para os dirigentes, enfim, a missão será equilibrar-se no meio desse mar de mudanças, não sucumbindo aos mesmos vieses que idealmente deveriam ser evitados pelos demais integrantes da comunidade das respectivas entidades. E buscar juntos às autoridades de supervisão uma evolução da legislação permitindo mais flexibilidade para alocar os recursos, sem comprometimento dos controles de risco, e prazos de avaliação da situação patrimonial mais compatíveis com o horizonte dos benefícios.

Planos família – Os fundos de pensão brasileiros têm buscado nos últimos anos novas formas de dinamizar suas atuações, entre elas a criação dos planos família como uma possibilidade de aumentar seu campo de atuação e com isso oferecer aos participantes e patrocinadoras um serviço melhor a um custo mais competitivo. Dessa forma, se aproximam dos desafios que os gestores de recursos têm experimentado ao longo dos anos, e nesse sentido será sempre útil a troca de experiências e o contínuo intercâmbio entre os profissionais dessas áreas.
Sabemos da diversidade das estruturas e situações individuais de cada uma das fundações, e as observações acima não podem ser generalizadas. mas acredito que todas estão passando por pelo menos alguns dos desafios citados acima.
Será um momento muito importante para o avanço do nosso sistema de previdência.

Marcelo Giufrida é Sócio e CEO da Garde Asset Management.