Bram disputa mercado de ETFs | Depois de apresentar produto ancorado no Ibovespa, gestora prepara estratégia do gênero para renda fixa e investimentos no exterior

Ainda em processo de formação, com uma massa de recursos por volta de R$ 20,24 bilhões, o mercado doméstico de fundos de investimentos ancorados em índices e cotados em bolsas de valores, os chamados ETFs (acrônimo de exchange traded funds), começa a ganhar escala e novos competidores de porte. Anteriormente formado por BB DTVM, BlackRock, Caixa, Itaú Asset Management e Mirae, o grupo de instituições com operações no segmento passou a contar, desde junho, com a Bradesco Asset Management (Bram), que apresentou o seu BOVB11, baseado no Ibovespa e devidamente listado na B3. Os R$ 750 milhões captados na operação, que rapidamente se multiplicaram para a casa de R$ 1,78 bilhão, garantiram à estreante, de cara, o terceiro posto no ranking nacional dos gestores de ETFs, atrás apenas de Itaú (R$ 11,87 bilhões de patrimônio líquido em agosto último) e BlackRock (R$ 10,76 bilhões), e aguçaram de vez a disposição da casa de oferecer mais opções na área.
“A queda da taxa Selic abre espaço para uma forte oferta de ETFs, que são uma excelente opção de diversificação para investidores em geral – inclusive os institucionais, que representam cerca de 80% do volume de aplicações no BOVB11”, comenta o superintendente-executivo da Bram, Ricardo Eleutério. “O potencial de crescimento do produto nesse novo cenário estrutural, marcado por juros em patamares reduzidos, é enorme. Basta dizer que os fundos de índices contabilizam, no mercado global, ativos de cerca de US$ 5 trilhões, o correspondente a 10% do patrimônio líquido total dos veículos de investimentos, ou seja, 9,8 pontos percentuais a mais do que no Brasil”, complementa o executivo.

ETF de renda fixa – No momento, o executivo e a sua equipe estão debruçados sobre dois projetos do gênero. O primeiro, com lançamento previsto ainda para este ano, é um ETF de renda fixa. Será, salvo surpresas, o terceiro da modalidade no país. Os pioneiros no nicho foram Mirae e Itaú, que apresentaram o FIXA11 e o IMAB11 em setembro de 2018 e junho último, pela ordem. O segundo teve como patrocinador o Tesouro Nacional, que, em parceria com o Banco Mundial, promoveu, há 12 meses, uma licitação para a escolha do gestor do referido fundo, para o qual se comprometeu a realizar uma emissão direta de Notas do Tesouro Nacional da série B (NTNs-B) proporcional à captação. Apesar do prestígio dos organizadores e das garantias oferecidas, a asset do Itaú foi a única inscrita. “Consideramos que as condições da licitação não eram interessantes. Resolvemos desenvolver o produto por conta própria”, diz Eleutério.
O primeiro desafio da Bram será eleger um índice de referência distinto dos adotados por Itaú e Mirae, que optaram, respectivamente, pelo IMA-B, atrelado ao IPCA, e um indicador próprio, desenvolvido sob encomenda pela S&P Dow Jones, baseado em contratos futuros de depósitos interfinanceiros (DI) de três anos. Há três potenciais candidatos em análise, mas a gestora, por cautela, não dá pistas a respeito. “Uma coisa é certa: a carteira do ETF terá prazo médio de vencimento superior a 720 dias, para garantir aos investidores pessoas físicas a alíquota de 15% de Imposto de Renda, qualquer que seja a duração da aplicação, e a não incidência do chamado ‘come cotas’, como é conhecida a antecipação, em maio e novembro, do Imposto de Renda sobre os rendimentos de fundos de investimento”, observa o superintendente-executivo.

Taxas baixas – Os planos da asset incluem um apelo ao bolso dos investidores. A ideia é oferecer, na área de renda fixa, taxas de administração inferiores às da concorrência, seguindo a mesma estratégia do BOVB11, cujo “pedágio”, de 0,20% ao ano, é o menor da sua faixa de mercado. “Estamos buscando um ponto de equilíbrio, uma taxa que garanta uma justa remuneração pelos serviços prestados e seja, ao mesmo tempo, o mais acessível possível”, diz Eleutério, que já definiu um dos públicos-alvo. “Os ETFs de renda fixa, acreditamos, devem atrair muitos investidores atuantes no mercado de tesouro direto, que movimenta cerca de R$ 56 bilhões. A meta traçada para o nosso produto é um volume de aplicações na faixa entre R$ 500 milhões e R$ 1 bilhão.”

Mercado em formação
Principais indicadores do segmento de ETFs no país
  Patrimônio líquido
(em R$ milhões)
Fundos listados
na B3
Itaú Asset Management 11.870,61 8
BlackRock 10.760,91 5
Bradesco Asset Management 1.788,67 1
Mirae 210,46 1
Caixa 89,43 1
BB DTVM 32,9 1
Fonte: Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) e B3

 

O terceiro item da família de ETFs da Bram, ainda em fase de elaboração, promete trazer inovação ao segmento. O veículo em questão, com lançamento previsto para 2020, é um fundo de investimentos no exterior que será atrelado a umas das centenas de índices de renda variável existentes no mercado internacional. Uma das prioridades estabelecidas é a seleção de um referencial que ofereça blindagem em relação à forte onda de intempéries no cenário externo, com o acirramento da guerra comercial entre Estados Unidos e China, a retração das economias europeias e a novela que se tornou a saída do Reino Unido da União Europeia, o Brexit. “Para mitigar riscos, avaliamos, entre outras propostas, basear a carteira em papéis de nichos e setores com grandes perspectivas e, portanto, maior capacidade de resistência a eventuais crises externas. Dois exemplos são tecnologia e cuidados com a saúde”, explica Eleutério.
A investida da Bram no filão começou a ser planejada em 2018, 15 anos após o surgimento do primeiro fundo de índices nacional, o PIBB11, da Itaú Asset Management. O projeto teve como marco a criação de uma equipe e de uma mesa de operações voltadas a produtos indexados. O novo time não tardou a mostrar serviço. Antes mesmo de formatar o BOVB11, contribuiu para o desenvolvimento, com o recurso a tecnologias quantitativas, de três fundos previdenciários que somam, com 12 meses de operações, R$ 13,2 bilhões em carteira. A equipe aguarda, agora, o sinal verde da cúpula da asset para iniciar a ampliação da grade de fundos indexados. “Outros ETFs poderão surgir, pois estamos empenhados em oferecer diversificação aos investidores. Se houver espaço e demanda, iremos reforçar o nosso enxoval na área”, diz Eleutério.

ETF de Renda Fixa do Itaú capta R$ 2 bi; negociação das cotas começam hoje na B3

A primeira emissão do IT Now ID ETF IMA-B Fundo de Índice, o ETF Renda Fixa administrado pelo Itaú Asset Management, distribuiu 29,6 milhões de cotas, a R$ 67,50, perfazendo uma captação total de R$ 2 bilhões. As cotas passaram a ser negociadas na B3 nesta segunda-feira, com nome de pregão IT NOW IMA-B e código de negociação de IMAB11.
O ETF IMA-B é o primeiro do gênero no Brasil e conta com o apoio do Tesouro Nacional e do Banco Mundial. O objetivo do investimento é refletir as variações de rentabilidade, deduzidas taxas e despesas, do IMA-B, índice calculado pela Anbima. O IMA-B é uma carteira sintética composta por todas as NTN-Bs emitidas pelo governo brasileiro com diferentes vencimentos. O peso de cada título no índice é definido pelo valor de mercado dos ativos.

ETF de renda fixa não entusiasma | Grandes gestoras não participaram da disputa para fazer o produto do Tesouro

Não despertou muito interesse de grandes gestoras, como Bram e Caixa o tão aguardado ETF de renda fixa, que após cerca de cinco anos das discussões iniciais no mercado e no governo teve seu edital lançado em maio pelo Tesouro. Embora o resultado do edital do Tesouro para selecionar a casa que colocaria o primeiro veículo do segmento no mercado brasileiro ainda não tenha sido anunciado, a Mirae Asset se antecipou e lançou no início de setembro seu próprio ETF de renda fixa no país.
O Tesouro não informou quantas nem quais gestoras participaram do edital, mas há especulações de que não foram muitas as casas interessadas no produto. Procuradas por Investidor Institucional, casas como BB DTVM, Itaú e BlackRock, que já atuam no mercado brasileiro de ETF, preferiram não se manifestar.
Segundo o CEO da Bradesco Asset Management (Bram), Ricardo Almeida, não há muita diferença entre um ETF de renda fixa e um fundo indexado passivo que acompanha determinado índice. “Por essa razão a gestora não participou do edital lançado pelo Tesouro, já que temos uma grade bem completa de fundos passivos, e ao menos no momento, não trabalhamos na estruturação de um produto do tipo”, diz o executivo.
Almeida afirma também que alguns aspectos técnicos e operacionais, como a eventual dificuldade de encontrar ativos de renda fixa no mercado de balcão que possam replicar perfeitamente o índice no ETF, dada a baixa liquidez do secundário, podem até mesmo encarecer o veículo em comparação com um fundo passivo. “Dado o volume dos institucionais, eles conseguem taxas mais em conta em fundos passivos do que deve ser a cobrada pelo ETF do Tesouro”, afirma o executivo.
No mercado de renda variável, prossegue o CEO da Bram, essa possível dificuldade em encontrar ativos no mercado para replicar determinado benchmark no fundo de índice não existe, já que as operações são realizadas na bolsa. E por essa razão a asset do Bradesco está no momento em estudos para lançar seu primeiro ETF de ações no mercado. “Não temos ainda, no entanto, estimativa de quando deve ser o lançamento ou qual será o índice de referência”, pondera Almeida.
De acordo com o executivo, nos mercados desenvolvidos o segmento de ETFs de renda fixa é representativo pelas vantagens tributárias que oferece aos investidores, o que segundo ele não acontece no Brasil.
A Caixa também optou por não participar do edital lançado pelo Tesouro, mas segundo o superintendente nacional de gestão de ativos de terceiros, Sérgio Bini, está nos planos do banco a estruturação de um produto do tipo nos próximos meses. “Mas ainda não temos nada concreto a respeito”, ressalta Bini, que prefere não detalhar os motivos que fizeram a Caixa decidir não participar do edital do governo.

Amadurecimento – Na avaliação do superintendente da Caixa, o mercado brasileiro ainda precisa de uma cultura mais forte de investimentos em bolsa, onde serão negociadas as cotas do ETF de renda fixa, para que as gestoras tenham maior interesse em lançar novos produtos desse tipo. “Nos últimos anos tivemos uma estagnação, com até uma pequena queda no número de investidores pessoa física negociando na bolsa brasileira”, constata o especialista.
O fato da Selic estar na mínima histórica, reconhece Bini, reduz um pouco a atratividade do produto, não apenas do ETF de renda fixa mas também da classe como um todo. “Com a taxa em 6,5% o investidor acaba buscando outras alternativas que possam entregar maior retorno”.

Retornos – Para o diretor de investimentos da Mirae, André Pimentel, embora a taxa de juros esteja na mínima histórica, mesmo nos vértices mais curtos da curva de juros, que são aos quais o ETF da casa estará exposto, os prêmios oferecidos estão bem acima dos 6,5%. “A taxa de julho de 2021, por exemplo, está próxima de 10,20%, entendemos que é um patamar bastante atrativo, de dois dígitos, quando nos desenvolvidos o prêmio ainda está muito abaixo disso”. O BNP Paribas vai atuar como administrador do fundo, e a Mirae ainda busca uma instituição para trabalhar como formadora de mercado.
Pimentel explica que a casa optou por não participar do edital lançado pelo Tesouro porque já vinha há dois anos trabalhando na estruturação de seu próprio ETF de renda fixa. “Foi uma coincidência nosso produto ter ficado pronto em momento próximo ao lançamento do edital”, afirma Pimentel, que reconhece que após a divulgação do edital o trabalho de estruturação foi acelerado para que a Mirae fosse a primeira a colocar no mercado brasileiro um produto do tipo.
A expectativa da Mirae é de, ao longo dos próximos dois anos, captar cerca de R$ 10 bilhões com o novo produto, tendo entre o público em potencial investidores institucionais e estrangeiros.
“A decisão de colocar um prazo de três anos é para oferecer uma boa liquidez aos investidores, e junto com a taxa de 0,30%, foram as formas que encontramos de trazer um produto competitivo”, diz o gestor.

Tesouro vê com bons olhos evolução do nicho
Através de nota, o Tesouro Nacional informou que o processo de seleção do gestor do ETF ainda iria se estender por mais alguns dias. “O ETF é uma inovação financeira bem-sucedida no mundo, porque é uma aplicação flexível, transparente e democrática, voltada tanto para pessoas físicas quanto para investidores institucionais. Esse mercado ainda não existe no Brasil e por isso o Tesouro Nacional, em conjunto com o Banco Mundial, apoia o lançamento do produto no país, pois o vê como uma maneira de desenvolver o mercado, estimular a educação financeira e trazer esses benefícios para os pequenos e grandes aplicadores locais”, aponta a autoridade monetária no comunicado. A nota do Tesouro acrescenta ainda que trata-se do primeiro ETF apoiado pelo emissor – que é o próprio Tesouro Nacional – do mundo, e que ao emitir diretamente a cesta de títulos para a carteira do gestor, o Tesouro reduzirá os custos de lançamento do produto.
“É importante destacar”, prossegue o órgão do governo, “que este não é um produto do Tesouro Nacional e sim um produto apoiado pelo emissor mas gerido e ofertado por uma instituição privada”. Segundo o Tesouro, o seu objetivo com o projeto é, sobretudo, fomentar esse mercado, “por isso a instituição vê com bons olhos o surgimento do interesse de gestores e corretoras em torno dessa modalidade de aplicação. Todo o projeto de lançamento, que envolveu discussões ao longo dos anos e um trabalho conjunto com outras instituições, foi bastante frutífero nesse sentido, pois resultou na definição da forma de tributação, na criação de sistemas de negociação em conjunto com a B3 e na elaboração do arcabouço regulatório para o ETF”, finaliza o comunicado.

B3 começa a negociar ETF de renda fixa da Mirae

A B3 iniciou nesta segunda-feira, 10 de setembro, a negociação do primeiro ETF de renda fixa do Brasil, desenvolvido pela Mirae Asset Global Investments em conjunto com a provedora do índice de referência S&P Dow Jones Indices. Segundo comunicado da B3,  produto seguirá o S&P/B3 Índice de Renda Fixa, que medirá o desempenho de uma carteira hipotética composta por contratos futuros de DI de três anos. Aos adquirir as cotas do ETF negociadas na B3, o investidor passa a deter indiretamente todos os ativos de renda fixa da carteira teórica do índice de referência.

O ETF foi desenvolvido pela Mirae antes do lançamento do ETF do Tesouro Nacional, que lançou um edital para selecionar um gestor para o ETF de renda fixa. O caminho feito pela Mirae Asset, entretanto, foi de se antecipar a esse movimento e não se vincular ao edital, encerrado no dia 6 de agosto. Já o vencedor do edital do ETF do Tesouro Nacional foi a Itaú Asset Management. O índice de referência será o IMA-B, que representa a evolução de carteira de títulos indexados a índices de preços, as NTN-B.