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Os cotistas não perdoam | Resultados dos multimercados guiam as aplicações, penalizando Adam e Gávea após ficaram abaixo do CDI enquanto ARX tem salto na base de cotistas

A Adam Capital foi fundada em 2016 por Márcio Appel, gestor que ganhou fama no mercado pelos anos que passou à frente dos multimercados da asset do Safra, especialmente o Galileo. Nos dois primeiros anos de atividade os resultados da nova asset foram excepcionais, com um retorno acumulado de 34,14% entre 2016 e 2017, contra 20,13% do CDI no período. Graças ao bom desempenho da casa e à fama de Appel, em um período relativamente curto a Adam alcançou a impressionante marca de R$ 30 bilhões em ativos sob gestão, se tornando uma das maiores casas independentes do mercado local.
De 2018 para cá, no entanto, a gestora tem vivido uma fase não tão boa. O rendimento do principal fundo macro da casa em 2018 foi de 4,97%, ficando abaixo dos 6,42% do CDI. E em 2019 o mau desempenho prosseguiu, com retorno de 4,57% para o fundo macro, perdendo para os 5,95% do CDI.
Em função dessa performance aquém das expectativas, a Adam sofreu no ano passado a maior fuga de cotistas dentre as gestoras não ligadas aos grandes bancos – a asset perdeu quase metade da sua base de clientes, que passou de 60,2 mil em 2018 para 36,2 mil em 2019, segundo dados da Economática. E não foram só os investidores que começaram a abandonar o barco. A Adam também perdeu profissionais experientes, como Ruy Alves, que cuidava das ações globais e saiu em fevereiro para a Kinea Investimentos.
Consultores que acompanham a asset citam duas razões principais para justificar o momento ruim da Adam. Um deles, por mais contraditório que possa parecer, é o próprio sucesso da gestora em seus primeiros anos. “Eles ficaram muito grandes e falta profundidade no mercado local para investir todos os recursos sob gestão”, afirma um consultor. “Embora alocar parte da carteira no exterior seja uma possibilidade, falta expertise aos gestores locais para operar os ativos globais de maneira adequada”, diz o especialista.
O outro motivo apontado para explicar a má fase da Adam corrobora essa percepção do consultor, de que algumas gestoras não tem o know-how necessário para atuar no mercado global. “A Adam está já há algum tempo com uma visão de fim de ciclo econômico global e apostou contra o mercado acionário americano”, diz outro especialista. “O problema para eles é que a tese não se confirmou, com uma valorização de quase 30% do S&P 500 no ano passado”. Procurada, a Adam não respondeu aos pedidos de entrevista.
Entre as principais casas independentes de multimercados, a Gávea, do ex-presidente do Banco Central (BC) Armínio Fraga, também teve em 2019 um desempenho abaixo do mínimo aceitável pelos investidores. O principal fundo macro da gestora rendeu 5,40% e ficou 0,55 ponto percentual abaixo do CDI. Mais uma vez o cenário global, que representa cerca de 75% da carteira, é a principal razão para o resultado ruim. Bernardo Carvalho, gestor da Gávea, cita operações na Ásia e na América Latina fora do Brasil como os maiores responsáveis pelo baixo retorno do fundo no ano passado. Ainda que em ritmo mais moderado em comparação com a Adam, a performance apresentada também gerou perda de cotistas para a Gávea, que chegou em dezembro do ano passado com 1,8 mil CPFs cadastrados em sua base, ante 3,4 mil no final de 2018.

Enquanto assets com desempenho abaixo do CDI foram penalizadas pelos cotistas, as que entregaram os maiores alphas em relação ao benchmark viveram o cenário inverso, com maior ingresso de novos investidores. O fundo macro da ARX Investimentos, por exemplo, subiu 13,50% em 2019 ao apostar majoritariamente em ativos domésticos. Com isso, a sua base de cotistas saltou de 15,6 mil para 122,9 mil em um ano.
No entanto, quem mais ganhou cotistas em 2019 foi a asset da XP, com a entrada de 174 mil novos investidores, passando para 279,7 mil. Nesse caso, contudo, apenas o desempenho não é o suficiente para explicar o movimento – um dos principais multimercados da casa rendeu 9,8% no ano passado. Nos últimos meses, após o aporte de recursos do Itaú, a XP ganhou escala e apostou pesado no marketing para atingir o grande público, com inserções em horários nobres na TV e com o presidenciável Luciano Huck como garoto propaganda. Além disso, o IPO de US$ 2,25 bilhões em dezembro na bolsa americana Nasdaq também contribuiu para manter o nome da XP em destaque no mercado durante todo o ano.

Fundos hedge só querem esquecer 2018

Os fundos hedge ficaram devendo aos investidores em 2018. De um universo de 450 fundos de gestores globais monitorados pelo grupo de investimentos alternativos do HSBC, somente 16 apresentaram resultados positivos no ano passado informa reportagem do jornal britânico Financial Times. O pior desempenho na listagem foi obtido pelo Trias L/S, da asset suíça Entrepreneur Partners, que acusou perda de 26,9% na última temporada. “O ano de 2018 foi difícil para os gestores que conduzem estratégias de hedge de compras ou a descoberto para ações europeias em geral”, comentou a gestora, que tem sede em Zurique.

Gigantes como GAM, Schroders e BlackRock também não escaparam do vermelho, segundo a mesma reportagem. O Systematic Cantab, administrado pela suíça GAM, relatou perda de 23,1% no ano passado, enquanto o fundo da gestora focado em macro teve queda de 13%. “2018 foi um ano desafiador, mas não um ano que nos levasse a questionar se a dinâmica do mercado mudou. Estratégias centradas em tendências incluem a expectativa de prejuízo nos pontos de reversão de preços e a compensação por assumir esse risco é a capacidade de ter um desempenho positivo em momentos prolongados de aversão a riscos ou de mercados em baixa”, diz Anthony Lawler, chefe do GAM Systematic.

A BlackRock, a maior gestora de ativos do mundo, registou encolhimento de 19,9% no seu fundo BSF European Diversified Equity Absolute Return. Segundo a empresa americana, a elevação de juros nos Estados Unidos, as tensões comerciais e a imprecisão do final do ciclo do mercado atual ocasionaram um rendimento abaixo do esperado para as empresas exportadoras.

De acordo com levantamento da consultoria eVestment, a indústria global de fundos hedge acusou retração de 4,86% no último ano. Trata-se do terceiro pior desempenho registrado pela pesquisa neste século, superado apenas pelos índices de 2011 (- 4,99%) e de 2008 (15,75%), período marcado pela eclosão, nos Estados Unidos, da crise financeira que abalou o planeta.

Persevera Asset lança seu primeiro fundo multimercado

Depois de receber, em maio, o sinal verde da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) para iniciar as suas operações, a novata Persevera Asset Management lançou no mês passado o Compass FIC, um multimercado que compra cotas do máster do mesmo nome. Segundo o sócio-fundador da gestora, Guilherme Abbud, o máster atua com renda fixa, ativos no exterior, moedas, ações e arbitragens”. diz. O objetivo do fundo, que é focado no segmento de family offices, é garantir retornos entre quatro e cinco pontos acima do CDI com volatilidade de 6% a 9%.

Segundo Abbud, a meta de captação é de R$ 100 milhões até o fim do primeiro trimestre de 2019. A distribuição será por plataformas eletrônicas, que já estão sendo contatados pela Persevera. “Para o próximo ano, planejamos o lançamento de um fundo nos mesmos moldes para a previdência aberta. O passo seguinte serão produtos voltados para fundos de pensão”, diz Abbud.

Além dele, que é ex-gestor dos fundos multimercados do HSBC e da Bradesco Asset Management, integram a Persevera o diretor de risco Cesar Dammous, o gestor de renda variável fundamentalista Fernando Fontoura, o gestor de moedas e juros Nicolas Saad e o gestor de renda variável global top down Marcelo Sagae. “Somos nove mas até a virada do ano devemos contratar outras três pessoas”, diz Abbud.

Legatus lança fundo multimercado e abre captação para FIP

A Legatus, gestora de recursos especializada no segmento de shopping centers, está lançando um novo fundo multimercados. O produto será gerido pelo diretor de gestão de portfólio, Luis Roberto Zaratin, que está na casa desde o final do ano passado quando deixou a Riviera Investimentos. Segundo Zaratin, o novo multimercado será direcionado ao público institucional e terá estratégias de bolsa, juros e moedas. A meta é dar 140% do CDI, informa o diretor.

Ainda de acordo com Zaratin, a casa também está dando início à captação de uma nova tranche para um Fundo de Investimentos em Participações (FIP), no valor de R$ 320 milhões. O fundo, que investe no segmento de shopping centers, estava fechado e tem R$ 200 milhões sob gestão. As duas novas iniciativas vão ampliar a atuação da empresa, que mantinha apenas um Fundo de Investimentos em Participações (FII) aberto ao público.

De onde virá o retorno? | Os multimercados conseguiram ótimos resultados no ano passado, aproveitando os juros em queda, mas como será este ano? 

Edição 303

 

Embalado em grande parte por estratégias que aproveitaram o movimento da curva de juros da segunda metade de 2016 para cá, os fundos multimercados tiveram um expressivo aumento de demanda ao longo de 2017 e 2018. Flexíveis em suas estratégias, eles tiveram um de seus melhores anos em 2017, analisa o sócio da Vinci Partners, Fernando Lovisotto. “O fechamento do juro e a alta das bolsas, tanto local quanto nos EUA, foram os principais fatores para alavancar os ganhos”. A grande questão é saber se agora, com a elevada Selic ficando para trás, ainda haverá espaço para novos retornos espetaculares.
As estratégias “macro”, que apostam em movimentos dos juros, moedas e bolsa continuam sendo praticadas de maneira predominante, mas tem passado por adequações. Hoje entram mais moedas e juros internacionais nas cestas de arbitragem, as operações long & short ganham mais espaço e crescem os fundos especializados em determinados ativos, como os de risco de crédito. A tendência mostra que os gestores estão dispostos a diversificar cada vez mais. O boom foi tão rápido que levou ao fechamento de alguns fundos, já que os gestores não tinham como manter o mesmo modelo no novo cenário. Alguns acabaram sendo substituídos por fundos-espelho, com estratégias semelhantes, e outros ficaram abertos apenas para institucionais.
Para os fundos de pensão, os multimercados são uma alternativa atraente de rentabilidade sem aumentar muito a exposição a risco. Entretanto, embora algumas fundações já tenham elevado seus percentuais de alocação no segmento, com resultados bastante positivos, o entusiasmo é calibrado com a cautela na escolha das estratégias adequadas e de gestores capazes de continuar agregando alfa de maneira consistente. Além disso, uma grande parte dos recursos dos fundos de pensão está alocada em ativos marcados na curva, o que tende a retardar o direcionamento ao risco.
“É uma descoberta importante, porque esses fundos podem agregar retorno sem agregar muito risco; na bolsa, por exemplo, para obter um retorno agregado de 6% ao ano acima da inflação acrescenta-se 20% de risco, enquanto nos multimercados para esse mesmo percentual de retorno adicional só tomamos 5% a 6% a mais de risco”, argumenta Marcelo Giufrida, sócio fundador da Garde, uma das maiores gestoras independentes de multimercados. Essa relação risco/retorno é uma vantagem, diz Giufrida, até porque “a diversificação de investimentos feita no passado recente pelos fundos de pensão era muito voltada a produtos diferentes do dia a dia de gestão dessas entidades (ações, small caps, IMA-B, etc)”, o que não acontece com os multimercados. O limite máximo legal para as entidades fechadas de previdência complementar investirem nessa categoria, que é de 10% de seus ativos totais, é um fator que tende a emperrar um avanço maior nas carteiras.

Volatilidade – O número de cotistas em multimercados mais do que dobrou em 2017, impulsionando as captações. Enquanto os multimercados captaram R$ 33,3 bilhões no primeiro trimestre do ano passado, os fundos de renda fixa tiveram captação líquida de R$ 5,8 bilhões e os fundos de ações de R$ 9 bilhões.
Essa maior demanda por multimercados trouxe também maior exposição ao risco por parte dos institucionais. Por sinal, os multimercados de alta volatilidade (até 6% ao ano) tem sido bastante procurados por essa classe de investidores. Por conta disso, a Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) está reforçando sua supervisão, considerando o processo de suitability (análise de perfil do investidor e na forma de atuação desses fundos). Como a entidade adota o modelo de supervisão baseada em risco, ou seja, dedica maior empenho a monitorar produtos que possam representar riscos sistêmicos, a atenção sobre os multimercados cresceu. Esse já era o foco em 2017 e será mantido em 2018, informa o superintendente de Supervisão de Mercados da Anbima, Guilherme Benaderet.

Política de risco – A demanda por fundos multimercados é justificada, acredita Lovisotto: “é hora de acumular gorduras por meio de retornos mais robustos e melhor relação risco/retorno, mesmo porque a partir de meados de 2019 estaremos muito provavelmente vivendo um ambiente de seca na rentabilidade dos ativos”. Em 2018, ele acredita que esses fundos continuarão a apresentar retornos atrativos. “Com a inflação bem ancorada, o prêmio embutido na curva futura de juros ainda é interessante”.
A crescente diversificação nas estratégias dos multimercados é um trunfo para as fundações usarem na busca de superação de suas metas atuariais, mas precisam conhecer bem os gestores e suas políticas de risco e certificar-se de que haja transparência sobre os mercados envolvidos. “Não há sentido em aumentar o risco numa única classe de ativos, como a bolsa, a vantagem dos multimercados é oferecer uma carteira diversificada para navegar bem ao longo do tempo”, destaca Lovisotto.
Apostar em renda fixa, bolsa, moedas, crédito e exterior é o melhor caminho, aposta Lovisotto. O fundo oferecido pela Vinci é um multi-estratégia e, na bolsa, busca prêmios ao investir em empresas de qualquer tamanho que estejam melhor ajustadas.

Análise qualitativa – “É uma classe de ativo que funciona bem para a diversificação; as fundações começaram a incrementar sua alocação por conta do fechamento dos juros mas os multimercados têm mandatos para ganhar em situações diversas”, aponta o consultor André Aloi, da PPS Portfolio Performance. Segundo ele, embora os retornos tenham sido importantes nos últimos 48 meses, é preciso ir além dos números e analisar resultados de forma qualitativa. “Temos que compreender quais foram os gestores que apenas surfaram a onda do fechamento dos juros, detalhar suas estratégias e medir quanto conseguiram agregar de valor para não ter uma impressão ilusória”. Daí a necessidade de conferir tudo o que está na “caixinha” de um multimercado.
Já existe um número razoável de fundos multimercados com histórico de cinco anos ou mais e que passaram por vários cenários, mas muitos estão fechados à captação porque cresceram demais. Isso leva o investidor a ficar em dúvida na hora de escolher um produto que não esteja no topo dos rankings. “É nesse momento que precisamos fazer uma análise do “banco de reservas”, ou seja, de fundos fechados para captação que podem abrir novamente mais adiante”, sugere Aloi.

Renda variável sem monotonia – A volalilidade da conjuntura brasileira tem ajudado os multimercados focados em renda variável a exibirem ganhos cada vez mais robustos. “O ambiente para geração de retornos em renda variável é fértil no Brasil, com alfas mais significativos do que existem em outros países”, diz Alexandre Rezende, da gestora Oceana, cujo multimercado usa exclusivamente instrumentos de renda variável e ativos locais. “A bolsa aqui é muito movida por fatores macroeconômicos, políticos e crises, mais do que pelos resultados das empresas”, diz Resende. “Os resultados fundamentados em produção, custos, enfim, na realidade operacional das companhias, são meio que deixados de lado”.
Segundo ele, isso abre oportunidades para gestores que operam com base em análises fundamentalistas, que aproveitam algumas distorções de preços das bolsas para se posicionarem. Isso inclusive dentro de fundos multimercados, o que explica os bons retornos de alguns. “A volatilidade é a grande aliada para o investidor fundamentalista, que é o nosso caso”, conta Rezende.
Segundo Marcelo Toledo, superintendente executivo de macroeconomia da Bram, a asset do Bradesco, “o interesse pelos multimercados está mais forte do que imaginávamos e os fundos de pensão tem particular interesse pelos fundos estruturados”. De acordo com ele, a questão é saber se essas carteiras continuarão entregando resultados vis a vis o CDI. Como a volatilidade é o grande alimento para balizar retornos, a dúvida é se os juros mais baixos permitirão manter as performances. “Em periodos de taxas de juros menores, tivemos volatilidade de 30% enquanto a Selic caiu de 14% para 6%”, diz Toledo.
O cenário para 2018 no Brasil é de inflação baixa e proximidade do fim do ciclo de afrouxamento monetário, avalia Marcelo Toledo. A Bram já revisou para baixo a projeção do PIB para este ano, para 2,4%. As incertezas político-eleitorais também ajudam a criar incertezas que cobram estratégias de investimento adequadas. “Além disso, o ambiente lá fora aponta para o ajuste dos juros nos EUA, o Fed deve deixar para trás a política monetária ultra expansionista, movimento que também deve ocorrer na zona do euro a partir de 2019”. avalia Toledo.

Espelho EUA x Brasil – A fraca expectativa de crescimento econômico para o Brasil no momento em que a economia dos EUA continua forte tem levado os multimercados a fazer apostas firmes no dólar. “Nosso fundo opera os ciclos econômicos em vários países e em 2018 estamos trabalhando com a diferença Brasil/EUA”, conta o gestor de multimercados da Pacífico Gestão de Recursos, Felipe Pádua. Como o crescimento aqui vai decepcionar, ainda há espaço para apostar na queda das taxas médias e longas dos juros brasileiros.
Os EUA, com sua perspectiva de alta dos juros, funcionam como um espelho para inspirar as posições compradas e vendidas. “Essa diferença favorece a compra do dólar aqui, até porque a eleição brasileira é um fator imprevisível e talvez não esteja bem precificado ainda”, diz Pádua. De todo modo, o fundo da Pacífico está focado na evolução dos ciclos econômicos e das mudanças para os mercados, com predominância de operações de renda fixa e moedas. “Muita estabilidade não favorece os multimercados”.
Os multimercados “macro”, que são os mais usuais, tendem a continuar crescendo, mas os fundos “micro” (com mais long&short) também tem um papel relevante no mercado hoje, avalia o diretor de investimentos da Western Asset Management, Paulo Clini. Segundo ele, “muitos gestores apostam no “kit Brasil” e geram retornos acima da média porque usam alavancagem, mas é preciso saber quais estratégias são realmente capazes de gerar valor, mesmo que os ativos locais não vão tão bem”. Para Clini, “parte relevante da melhora obtida com o kit Brasil já ficou para trás, agora é preciso assumir mais risco global”.
A Western aposta nessa vertente, com ênfase nos mercados globais. Uma das operações mais atraentes é fazer posições compradas e vendidas em juros internacionais (juro americano versus juro alemão), por exemplo. “Isso dá mais consistência aos resultados porque modifica muito a correlação com os ativos locais sem deixar de aproveitar oportunidades nos mercados domésticos”, explica o diretor da Western, Heitor Stefanoni.
A flexibilidade para migrar entre diferentes classes de ativos, assim como entre ativos locais e offshore, é cada vez mais importante para os gestores de multimercados, observa Stefanoni. Mas, segundo ele, muita gente ainda não enxerga isso porque os ativos locais andaram bem nos dois últimos anos. “Hoje a coqueluche do mercado são os multimercados de alta volatilidade, mas eles não são necessariamente os melhores para institucionais”, analisa. Segundo ele, “faz mais sentido para os institucionais ter uma participação mais constante em fundos de baixa volatilidade”.

Desafio off shore – Um dos principais pontos a se considerar na análise de carteiras de multimercados, principalmente para investidores institucionais, é manter estratégias diversificadas e descorrelacionadas, que garantam melhores retornos, avaliam os gestores da Bram. A casa oferece duas famílias de multimercados, uma de baixa e outra de alta volatilidade. A estratégia macro é de baixa volatilidade, obtendo rentabilidade de 128,3% do CDI em 2017 e 152,5% do CDI em 2018, até abril. Na família de alta volatilidade, de retorno absoluto, a exposição a risco é duas vezes maior do que na família de fundos macro, mas o retorno foi de 201,1% do CDI em 2017 e de 213% do CDI em 2018, até abril.
Segundo o superintendente de Renda Fixa da Bram, André Fontenelle, o grande desafio em 2018 será estender a posição off shore até o final do ano, principalmente em renda fixa. O alvo da gestora lá fora é especificamente América Latina, focando o mercado de juros no México e as diferenças entre as taxas de curto, médio e longo prazos, bem como os ativos disponíveis no Chile, que podem ajudar a turbinar os resultados dos multimercados.

Expertise local – Com seu multimercado fechado ao público desde 2017, a Garde mantém um FIC aberto exclusivamente para investimentos de fundos de pensão, e considera que isso lhe permite conciliar melhor os prazos e estar mais disponível para esses investidores. “A abordagem das fundações é mais formal, exige mais tempo para as decisões e, como a nossa casa cresceu de maneira consistente nesses cinco anos de existência já entramos nos critérios de seleção dos institucionais”. A estratégia da Garde, diz Giufrida, mantém operações com juro, câmbio e bolsa (local e internacional).
Este ano, segundo Giufrida, deve ser favorável à bolsa mas a renda fixa vai continuar bem e a parcela internacional deve crescer prevê o gestor. “Nossa análise é macro, fundamentalista, e embora nosso multimercado seja prioritariamente voltado para os ativos locais nós mantemos uma avaliação constante dos cenários globais e vinculamos parte do fundo a isso, até por uma questão de disciplina”, complementa.

Crédito privado – A Captalys considera que o desempenho espetacular dos fundos macro no ano passado foi obtido basicamente em cima da curva de juros, mas avalia que esse movimento já foi esgotado. “Sem o óbvio, fica mais difícil para esses gestores conseguirem resultados tão expressivos a partir de agora”, diz a CEO da Captalys, Margot Greenman. Ela aposta exclusivamente em multimercados focados em ativos de crédito privado e construiu tecnologia proprietária para monitorar e controlar esses ativos.
“Temos nos preparado para esse momento de juro baixo porque o potencial é grande em comparação ao mercado internacional. Um movimento já perceptível é a chegada de originadores de crédito ‘não tradicionais’, ou seja, não bancos”, explica Margot. “Esses originadores estão chegando ao Brasil em quantidade nunca vista; nesse caso fazemos um trabalho específico para avaliar a qualidade desses créditos e avaliar sua adequação”, explica.

Segunda onda – Para CEO da Sul América Investimentos, Marcelo Mello, a curva a termo de juros ainda apresenta oportunidades interessantes de retorno, por isso a asset mantém estratégias de juros no alvo dos seus multimercados. O crescimento atual desses produtos, reflete uma segunda onda. “A expansão anterior foi em cima do “kit Brasil”, apostando na valorização do real e na queda do juro, hoje a dinâmica é totalmente diferente e a diversidade é muito maior”, ressalta. “Por exemplo, nas operações com moedas foram incluídas diversas outras divisas estrangeiras além do dólar, nas posições de arbitragem foram incluídos muito mais mercados do que no passado”.
É o que Mello chama de segundo “boom” dos multimercados. Essa classe de fundos, que chegou a representar 21% da indústria em 2012 e havia recuado, voltou a representar 21% do total. “Acreditamos que seja uma posição sustentável e não tão dependente do juro, que deixou de ser o principal fator de risco para essas carteiras”, pondera Mello. Segundo ele, os produtos estão direcionais, com muita arbitragem (long&short inclusive), visão de curto prazo e maior diversidade de ativos, com uma gestão mais tática.
Ainda de acordo com ele, a grande novidade no momento é o estilo de gestão. “Quando o cenário ficar mais claro, com menor grau de incerteza caso o Brasil siga uma agenda ortodoxa de governo, tendemos a mudar isso para um estilo diferente, unidirecional”, diz.

Geração de alfa – “A mudança no ambiente de juros não deve afetar o desempenho dos multimercados”, analisa o diretor da Bahia Asset Management, César Aragão. “O objetivo dessas carteiras é gerar alfa, 99% fazem isso tendo o CDI como referência, o retorno nominal foi alterado entre 2016 e 2018 com a queda da Selic mas a geração de alfa permanece”, diz Aragão. Segundo ele, o crescimento dos fundos não significa necessariamente uma mudança nas estratégias, inclusive porque o juro real continua alto, em torno de 5% ao ano. “A única diferença é que agora os movimentos de juros serão mais simétricos”.
De acordo com Aragão, a demanda por fundos estruturados tem sido o foco dos institucionais. “Os fundos enquadrados na 3.792 são cheios de regras e restrições, não podem ter alavancagem nem fazer day-trade, por exemplo, então as fundações vão para os estruturados”.
O multimercado da Bahia tem rendido 173% do CDI em mais de cinco anos de existência, apostando em juros, moedas, bolsa e risco de crédito. “Nosso foco é Brasil mas também o euro e moedas de países emergentes”. O fundo será fechado em maio porque cresceu muito mas a gestora vai lançar um fundo igual, destinado apenas aos fundos de pensão.

Momento único – Para Guilherme Foureaux, da gestora MRJ Marejo, a indústria de investimentos vive um momento único no Brasil, que favorece os fundos multimercados e outros produtos mais agressivos. Segundo ele, para impulsionar a rentabilidade das carteiras no atual ambiente de juros baixos será preciso focar a alocação em produtos mais agressivos, do ponto de vista de risco/retorno, e ter uma especialização nesses segmentos uma vez que eles tendem a ter uma volatilidade maior.
Os institucionais tem espaço para migrar para os fundos mais agressivos, avalia Foureaux. “Mas essa migração também enfrenta um desafio complexo porque, devido a decisões que acarretaram perdas e déficits nos planos recentemente, há um ambiente de punições a alguns fundos e gestores, e isso acontece justamente no momento em que os fundos de pensão precisam ser mais agressivos em suas políticas de investimento para alocar mais em bolsa, exterior e multimercados”.

Ajustando o foco | Com redução dos prêmios na renda fixa, fundos ampliam escopo de atuação e reforçam equipes de gestão em busca de alfa

Edição 299

 

Após terem apresentado retorno destacado ao longo do ano de 2017 com contribuição importante da renda fixa, as gestoras independentes de fundos multimercados começam a prospectar novas classes de ativos em busca de fontes de retorno que mantenham a atratividade dos produtos junto aos investidores. Nesse sentido, o aumento da exposição das assets à renda variável doméstica e global tem tido papel importante. E para atuarem com maior propriedade nos mercados internacionais, casas como Mauá, Garde e Adam reforçaram suas equipes nos últimos meses com profissionais especialistas no tema.
A Mauá Capital incrementou seu time ao longo do primeiro semestre com a contratação de três profissionais – dois economistas e um gestor – para ajudá-la na pesquisa de potenciais regiões a receberem aportes da casa que até então ainda eram pouco exploradas. Chegaram à asset nos últimos meses o gestor Guilherme Sbagia (ex-Garde) e os economistas Ângelo Polydoro (ex-Brasil Plural) e Fernando Friaça (ex-Bozano).
Por conta da expertise trazida pelos novos profissionais, hoje a Mauá tem amplo conhecimento sobre a dinâmica da política monetária e sobre como votam os diretores que compõem os bancos centrais de Argentina e Colômbia. “Estamos replicando exatamente o trabalho analítico que fazemos para cobertura de Brasil para Argentina e Colômbia, e esse conhecimento tem nos ajudado a buscar posições nos mercados de juros e moeda nos dois países, que são os segmentos em que temos maior atuação também localmente”, afirma Marcelo Lubliner, sócio da Mauá.
Entre as razões para ter escolhido os dois países da América Latina, Lubliner aponta, além da proximidade regional que facilita uma visita se necessária, o processo de alteração nas taxas de juros que também estão ocorrendo por lá, além da profundidade e liquidez que permitem montar e desmontar posições de maneira ágil. “Buscamos a experiência dos profissionais que trouxemos para entender a dinâmica dos nossos vizinhos e operar quase como se fossemos locais desses países”.
O executivo acrescenta que o México também desperta o interesse da casa, mas pelo fato de o país também estar próximo de um pleito presidencial, a Mauá preferiu aguardar o desfecho da disputa para então adotar um posicionamento na região.
Lubliner ressalta que o aumento no escopo de atuação da gestora permitiu a reabertura dos multimercados que haviam sido fechados em meados de 2017, à medida que ocorreu um incremento na capacidade de gerir volumes maiores de recursos. No entanto, apesar das novas exposições em América Latina, a maior exposição que a asset carrega no mercado internacional atualmente está nos juros dos Estados Unidos. “Existe uma falta de sintonia entre o que o mercado precifica para os juros americanos nos próximos anos em relação ao que o Fed tem sinalizado que vai fazer, e entendemos que isso gera uma grande oportunidade”.

Evolução – Na Garde Asset, o CEO Marcelo Giufrida conta que nos últimos meses também tem sido feito um trabalho de ampliação do universo de investimentos possível para a carteira dos multimercados, movimento que o executivo considera natural dentro de um processo de evolução do mercado e dos gestores locais.
Em uma tendência predominante entre as assets independentes locais mais recentemente, a Garde também tem aumentado a exposição de seus fundos aos ativos de mercados internacionais. Para isso a gestora conta hoje com um time de cinco profissionais, entre analistas e gestores, que concentram sua atenção nos mercados globais. Esse time com o foco no exterior começou a ganhar forma no ano passado, quando foi contratado José Valente, oriundo da GAP; em abril de 2017 chegou Rodrigo Ferreira, vindo da Modal Asset, e em outubro último a equipe recebeu seu reforço mais recente com a chegada de André Shiokawa, que acumula passagens pela Kondor e BTG Pactual.
Giufrida ressalta que desde o início a Garde já tinha exposição global em seus fundos, mas agora o leque de ativos internacionais no radar da asset foi ampliado. A maior atuação da gestora nos mercados internacionais tem se dado através de operações de câmbio, mas também em juros e bolsa, tanto em mercados desenvolvidos como nos emergentes. Na parte de ações globais a gestora de Giufrida opera através de índices, sem considerar ações de maneira isolada.
Além disso, há cerca de 1,5 ano a asset já havia ampliado seu escopo de atuação ao trazer três profissionais para iniciar as estratégias de ‘long and short’ em seus multimercados. Foram contratados na ocasião Francisco Kops, que desde 2014 atuava como head de research no J. Safra, e Guilherme Camacho e João Santos, que faziam parte da equipe da estratégia ‘long and short’ da Canvas Capital. “Temos passado por um processo normal de desenvolvimento da gestão, que entendo ser saudável, e não necessariamente porque os juros caíram e agora precisamos fazer outra coisa, mas pela busca por diversificação do alfa dos fundos”, diz Giufrida.

Bovespa – A Adam Capital, por sua vez, iniciou em julho a alteração do portfólio de seus fundos multimercados, praticamente zerando a posição em juros, substituindo-a por uma comprada em Bovespa. Apesar da forte valorização já apresentada pelas ações da bolsa brasileira, André Salgado, sócio fundador da Adam, ressalta que a casa ainda enxerga bastante espaço para que o momento positivo do segmento prossiga em 2018. “Com a queda dos juros a alavancagem financeira e operacional de muitas companhias ainda vai cair de maneira expressiva e contribuir para que elas apresentem melhores resultados”, prevê o especialista.
Salgado diz ainda que, a despeito do cenário político incerto, devido ao elevado nível de ociosidade que ainda se faz presente na economia, a inflação deve seguir comportada mesmo no ambiente previsto de crescimento mais forte do PIB, o que deve permitir que a Selic também siga em patamares baixos, favorecendo os ativos de renda variável.
Além disso, em abril a asset já havia contratado os gestores Ruy Alves, da JGP, e Fernando Gonçalves, da Gávea, que são os responsáveis por fazer a análise das melhores ações globais para os fundos da casa. Até então a exposição dos fundos da Adam ao mercado acionário internacional se dava por meio de índices. Salgado ressalta que a gestão dos fundos segue centralizada em Márcio Appel, que conta com o auxilio dos dois gestores especializados em ativos globais para a fatia internacional do portfólio, e de Fábio Landi para a carteira como um todo.
A estratégia em bolsa global teve início no fundo Strategy, lançado em julho pela Adam. A gestora tinha a intenção de ampliar a estratégia de ações internacionais para os outros fundos da casa no início de 2018, mas com o bom resultado entregue por ela nesse curto espaço de tempo, o movimento foi antecipado para outubro. “O bom resultado que tivemos com a estratégia global de ações não é tanto em termos de retorno, até porque o prazo para fazer essa análise ainda é curto, mas principalmente por conta da descorrelação que ela propicia em relação aos ativos que temos em Brasil, o que reduz o risco e dá mais equilíbrio aos fundos”, explica Salgado. As principais posições em ações globais da Adam estão nas bolsas americana e alemã, e em empresas de propriedade intelectual de tecnologia e biotecnologia.