O homem que avalia o Brasil

Edição 249

Responsável pelo rating soberano brasileiro, diretor da Standard & Poors explica porque o país pode perder o tão festejado “grau de investimento”

O sinal de alerta está aceso. A Standard & Poors mudou a perspectiva do rating soberano do Brasil de estável para negativa. A nota ainda não foi rebaixada, continua em BBB/A-2, porém a sinalização da agência de rating mostra que se a direção continuar a mesma e houver deterioração dos indicadores econômicos, o tão comemorado grau de investimento, alcançado no final de 2008 e melhorado no final de 2011, pode ser perdido.

Em entrevista exclusiva à Investidor Institucional, o argentino Sebastian Briozzo, principal responsável pelo rating soberano do Brasil explica em detalhes os motivos para a mudança negativa da perspectiva. Ele comenta também a necessidade de mudança na direção da política econômica e fiscal do país. O principal elemento que pode definir o rebaixamento da nota é a ampliação da política fiscal expansionista do governo, ainda mais em 2014 que é um ano eleitoral.
O baixo nível de crescimento da economia e o aumento da dívida pública em relação ao PIB (Produto Interno Bruto) são indicadores que podem ajudar a rebaixar a nota do Brasil. A perda do grau de investimento ainda não é uma perspectiva imediata, pois a nota teria que descer dois degraus (o primeiro degrau é o BBB- e depois BB+). Porém, a simples mudança de perspectiva já tem repercutido fortemente no fluxo de investimentos estrangeiros, que tem deixado a bolsa brasileira. Confira entrevista com o diretor de rating soberano da Standard & Poors:

 

Investidor Institucional – O que significa a mudança de perspectiva de estável para negativa?

Sebastian Briozzo – A nota não mudou ainda, a avaliação é a mesma, o rating é o mesmo. Mas além do rating, temos a perspectiva que é um sinal de como o rating pode ficar no futuro. Basicamente, com a perspectiva negativa, verificamos que os riscos aumentaram e que podemos ter um rebaixamento do rating. É uma indicação de um em três que o rating pode ser rebaixado.

 

II – É uma probabilidade de rebaixamento de um terço? Qual é o prazo que vale a perspectiva?

SB – Exatamente. É uma chance de um em três para que a nota seja rebaixada. A perspectiva costuma valer para um prazo de dois anos. Isso não quer dizer que temos que esperar dois anos, pode ser antes. Mas é o prazo que estaremos olhando para o risco do país e para as mudanças das políticas e os resultados econômicos e fiscais.

 

II – Quais os principais motivos da mudança da perspectiva de estável para negativa?

SB – O crescimento econômico do Brasil ficou bem abaixo do que esperávamos nos últimos dois anos. Tivemos uma elevação no rating em novembro de 2011 (de BBB- para BBB) e de lá pra cá o crescimento tem sido muito mais baixo que o esperado, principalmente pelo desenvolvimento do investimento, que foi muito mais fraco que o previsto e continuou fraco até há pouco tempo. Neste primeiro trimestre de 2013 houve uma pequena recuperação, mas ainda de níveis muito baixos. Isso é algo importante, daqui pra frente não está claro que teremos uma recuperação do investimento e do crescimento. Os sinais em relação ao investimento do setor privado tem sido um pouco ambíguos. Algumas pesquisas de confiança do setor privado mostram que os sinais não são positivos. Então, nesse contexto, a perspectiva negativa sinaliza um risco que o governo possa ter uma política fiscal mais expansionista que possa colocar os níveis de endividamento do Brasil acima dos patamares atuais. Pode levar com o tempo a uma situação de maior risco em comparação com outros mercados de mesmo rating.

 

II – A previsão de crescimento para o Brasil também foi reajustada para baixo. Explique quais os motivos da redução?

SB – Nossa previsão é de 2,5% para este ano (era de 3,25% anteriormente), e algo próximo a 3% em 2014. Claro que há fatores macroeconômicos e microeconômicos. Mas um dos principais fatores é que o investimento no Brasil não tem se recuperado como prevíamos. Interessante que por mais que existam melhorias em alguns setores da economia e alguns indicadores da macroeconomia, o investimento caiu 4% no ano passado. É uma queda muito forte, ao final do ano passado, o nível de investimentos comparado com o PIB ficou em 18%, quando esperávamos uma taxa de 20%, 21% e até 22%. Então, fica difícil crescer a taxas maiores de 3% sem criar taxas inflacionárias bem marcadas.

 

II – E quais as dificuldades para o aumento dos níveis de investimento?

SB – Não há uma única resposta, mas claramente, ainda que o governo admita que existe a necessidade de aumento do investimento privado, ele não tem alcançado sucesso em suas estratégias de desenvolvimento do setor privado. As concessões estão demorando muito. E como te disse, as pesquisas que mostram os níveis de confiança da indústria não atingem resultados favoráveis.

 

II – O baixo nível de poupança interna também dificulta o aumento dos investimentos no setor produtivo e infraestrutura?

SB – São questões bem estruturais, claro que uma poupança interna baixa é uma limitação para o aumento dos investimentos. Mas o Brasil em particular não tem uma poupança interna menor que a maioria das economias latinoamericanas. É uma limitação comum a quase todos os países, com alguma exceção de algum país que tenha uma situação fiscal muito boa como o Chile, que tem uma comodity muito forte. Cerca de 30% da receita fiscal chilena vem do preço do cobre, mas é uma exceção. Em todos os demais países, a poupança também tem níveis baixos, mas em outros países como o Peru e a Colômbia tem sido mais bem sucedidos em desenvolver concessões, o que tem incentivado o desenvolvimento econômico geral. O Brasil é um país mais complexo, muito grande, com uma grande diversidade de partidos políticos. É uma democracia bem estabelecida, mas a aprovação de reformas é politicamente muito difícil. Em outros países está sendo mais fácil avançar rapidamente na questão das concessões.

 

II – O Brasil tem uma situação privilegiada de equilíbrio fiscal atualmente. Isso conta a favor do rating do país?

SB – O Brasil tem melhorado bastante o equilíbrio fiscal nos últimos anos, por isso, tem alcançado algum espaço para atuar na recuperação da economia. Mas ao mesmo tempo, esse espaço não é muito grande. Isso porque a dívida do governo ainda é alta, a rolagem da dívida no curto prazo também é muito alta. Há espaço, mas é pequeno. O reconhecimento que o espaço não é grande seria importante. Falando em números, talvez o Brasil não precise, como no passado, de uma superávit primário de 3,1%. Talvez possa ter uma superávit primário menor, mas fica a dúvida de quanto menor, e quanto o governo pode alterar sua política fiscal. Espaço existe, mas não é grande porque o Brasil ainda precisa de um superávit pra conter a expansão da dívida. Então tudo que é empréstimo do banco de desenvolvimento e bancos estatais também são questões importantes porque também tem impacto fiscal.

 

II – Qual a previsão de superávit primário para este ano?

SB – Estamos trabalhando com previsão de 1,8% para 2013.

 

II – E os gastos públicos do governo brasileiro, tem afetado a avaliação?

SB – Como te disse, quando falamos da equação fiscal, estamos nos referindo à equação de receita e despesa. Há o reconhecimento do governo que o espaço que há para aumento do gasto é pequeno. Então, a questão é se a economia se recuperar, se o governo vai querer aumentar ainda mais os gastos, mais despesas, para terminar com um superávit primário bem menor. Ainda que não seja necessário mais um superávit de 3,1%, mas ainda precisa de um resultado significativo. O espaço para aumentar as despesas no Brasil é menor que em outros países de economias mais desenvolvidas. Estamos preocupados com a política fiscal expansionista que pode afetar a relação da dívida pública com o PIB.

 

II – Como tem se comportado a relação da dívida pública com o PIB?

SB – Os níveis da dívida do governo em relação ao PIB está em elevação nos últimos quatro anos. Deve chegar a 60% do PIB neste ano, o que é uma relação preocupante, ainda mais se considerarmos que 2014 é um ano eleitoral, que pode levar a uma expansão fiscal ainda maior. Em todo caso, o Brasil tem mostrado comprometimento com políticas fiscais mais prudentes, então é uma questão de reafirmar esse compromisso.

 

II – Quais são as dificuldades de desenvolvimento do setor privado?

SB – Como te dizia, o processo de concessões tem acontecido muito devagar, com avanços e retrocessos, por exemplo, com a discussão sobre a taxa interna de retorno dos projetos. Com medidas como por exemplo com a redução da tarifa elétrica no Brasil, que consideramos positiva, mas a implementação da mesma foi difícil. Levou a uma queda importante na avaliação das empresas do setor elétrico. Essas são algumas das questões que tornam mais difícil o desenvolvimento do setor privado em ritmo mais acelerado.

 

II – Quais são as indicações para o Brasil reverter a perspectiva negativa?

SB – Acho que a questão fiscal é sem dúvida a mais importante. Se tivesse mais claro os planos de médio e longo prazo. O que ocorre se a economia não se recuperar, se a economia não crescer 2,5% este ano e no ano que vem, o governo vai arriscar mais pelo lado do setor público. Vai emprestar para os bancos públicos 100 bilhões de reais ou 40 bilhões. Então, seria importante saber se o governo pretende adotar uma política fiscal expansionista ou não.

 

II – E qual a avaliação sobre os programas de incentivo do consumo das famílias, realizados pelos bancos estatais?

SB – São ferramentas importantes, pois o nível de consumo das famílias vem desacelerando, mas a questão é como utilizá-las sem incorporar riscos para a economia. Sem dúvida, os bancos públicos no Brasil tem realizado um papel importante, mas qualquer banco que tem crescimento perto de 35% a 40% por ano, é um crescimento muito alto. Sempre que há crescimentos desse nível, trazem riscos maiores. Acreditamos que o Brasil vai continuar utilizando essas ferramentas, mas é importante que contenha também os riscos do setor.

 

II – A Standard & Poors ajustou recentemente também a perspectiva do rating de algumas das maiores instituições financeiras no Brasil. Isso tem a ver com o aumento do risco no setor financeira no país?

SB – Não. Na verdade os ratings estão vinculados. O rating de crédito soberano é muito importante para a avaliação do rating de cada país. Então isso está vinculado com a avaliação do crédito soberano.

 

II – Neste momento, estamos presenciando diversas manifestações sociais pelo país inteiro. Isso já está afetando a avaliação do risco do Brasil?

SB – Claro que sempre olhamos para a situação política, para antecipar as medidas de política econômica, tudo está relacionado. Mas acho que os níveis de protesto que vemos no Brasil não são motivo de preocupação para nós ainda. Claro que as manifestações no Brasil, em comparação com outros países, são uma novidade. Não são muito comuns no Brasil nos últimos anos. Então se essas manifestações se tornarem uma questão mais importante na direção da política geral do governo, então, poderemos considerá-las com maior atenção.

 

II – Então, as comparações que se fazem com manifestações sociais na Turquia e na Grécia com os recentes episódios no Brasil não estão sendo consideradas ainda?

SB – Não, não, acho que ainda não chegou no nível desses países. A questão é que as manifestações no Brasil são um fenômeno que ainda não é muito comum, é uma novidade.

 

II – E a situação conjuntural da queda do Ibovespa. Isso pode levar a um rebaixamento mais imediato do rating?

SB – Sempre estamos avaliando os acontecimentos do mercado. Mas em geral estamos olhando para um horizonte um pouco mais longo. Não seria de esperar que vamos realizar alguma mudança mais imediata.