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Menos crescimento, incerteza
A tendência global é de menos crescimento, incluindo dos Estados Unidos e China, mas o fim da alta dos juros americanos pode ajudar os emergentes

Com o mundo desenvolvido tendendo a crescer menos, principalmente Estados Unidos e China, as economias locais vivem uma fase de incerteza. A Western, a exemplo do que outras casas de gestão já estão fazendo, tem reduzido sua previsão de crescimento do PIB brasileiro. Passou de 2,5% no ano passado para 1,9%, em março último, com viés de baixa
Para o responsável pela área de investimento da asset, Marcelo Guterman, isso pode fazer o Banco Central reduzir a taxa básica de juros nas próximas reuniões do Copom. Veja a entrevista dele à revista investidor Institucional:

Investidor Institucional O mercado financeiro tem revisado as projeções do PIB. Como estão as previsões da Western?
Marcelo Guterman – Estávamos com a previsão de 2,5% no ano passado, baixamos para 1,9%, em março último, com viés de baixa. Os dados econômicos estão mais fracos, de uma maneira geral. O importante é que estamos com as expectativas de inflação ancoradas, mesmo com essas duas leituras do IPCA dos dois últimos meses, que vieram acima do esperado, mas nossa visão é que foram dois pontos fora da curva, causados basicamente por alimentos e domicílio. Isso deve fazer com que o Banco Central decida retomar um pequeno ciclo de baixa da Selic.

IINo início do ano passado o cenário também era bastante benigno até que os caminhoneiros entraram em greve por causa dos preços do diesel. Eles voltaram a se mobilizar. Isso não representa um risco?
MG – A greve dos caminhoneiros do ano passado foi um evento de cauda, que estava fora do radar e que, de repente, surpreendeu os mercados. No cenário atual, o pressuposto é que o câmbio permaneça bem comportado, o que não era o caso no ano passado.

IIEntão o câmbio deve ser colocado sob observação?
MG - Se houver algum evento que leve o câmbio para outro patamar, por fatores externos ou internos, isso eventualmente pode fazer com que o Banco Central fique onde está. Mas é preciso lembrar que no ano passado, apesar da greve dos caminhoneiros e apesar do choque do câmbio, que foi bastante substantivo, de mais de 30%, o Banco Central não se movimentou.

IIMas embora ele não tenha se movimentado, a greve de 2018 gerou pânico e em seguida queda dos mercados.
MG – É verdade. Você tocou em um ponto importante, pois este foi um dos principais motivos pelos quais a Western performou tão bem no ano passado. Nós aproveitamos esse momento em que o mercado entrou em pânico. Alguns dos clientes com que conversávamos tinham receio de que o Banco Central promovesse um choque de juros. Afinal, o câmbio passou de R$ 4. Mas na nossa visão isso não fazia sentido, pois a inflação estava um ponto abaixo do centro da meta, com um hiato de produtos gigante e não havia fuga de capitais. Então, não havia motivo para um choque de juros. E essa análise se confirmou. Aumentamos bem a nossa posição entre junho e agosto e ganhamos no último trimestre.

II - Vc acha que a situação hoje é a mesma?
MG – Eu diria talvez seja um pouco menos confortável porque a inflação está rodando na meta, ao passo que em maio do ano passado estava rodando um ponto abaixo do centro da meta. Então, qualquer choque adicional de câmbio vai afetar negativamente e talvez o Banco Central tenha de se movimentar, sim. Mas é importante observar que no ano passado o FED estava subindo a taxa de juros. No ano passado, primeiro veio a desvalorização cambial e depois a greve dos caminhoneiros. A greve foi efeito da desvalorização cambial, que afetou o preço do diesel. Era, portanto, uma situação inversa da atual.

IIQual o impacto na situação deste ano?
MG - Neste ano, se ocorrer a greve dos caminhoneiros o câmbio não vai andar, porque lá fora o FED parou de subir os juros e aí o Banco Central vai baixar a taxa de juros, vai baixar a Selic. Por quê? Porque o choque de uma nova greve dos caminhoneiros será contracionista, contribuirá para a diminuição do PIB.

IIVocê considera consistente essa posição do FED, de não elevar os juros nos Estados Unidos?
MG – É uma decisão bem consistente, sim. A nossa matriz, nos Estados Unidos, considerava, inclusive, que o FED já deveria ter interrompido a alta dos juros em meados do ano passado porque a inflação não estava subindo, apesar do desemprego muito baixo. Então, já fazíamos a leitura que o FED está fazendo agora. O receio agora é oposto, é de uma desaceleração mais forte da economia americana. Este é o receio do momento: a desaceleração da economia global.

IIPrincipalmente do mundo desenvolvido, segundo as previsões.
MG - O Japão está relativamente fraco, apesar da grande quantidade de estímulos. A Europa também. O grande receio hoje é ver China e Estados Unidos desacelerando de forma mais forte. Este, contudo, não é o nosso cenário base. O nosso cenário base é de um crescimento um pouco mais fraco, então passa longe de uma recessão global.

IIQual a sua previsão para o crescimento da China?
MG – Estamos trabalhando com uma projeção de crescimento do PIB chinês por volta de 6,5% para este ano.

IIEntão, vocês não estão trabalhando com a possibilidade de um desaquecimento significativo na China?
MG – A China tem espaço, tanto monetário quanto fiscal, para continuar dando estímulo nessa transição de longo prazo de uma economia de exportação para uma economia de consumo. Eles vão continuar desacelerando, 6,5% já é muito mais baixo do que as taxas de cinco anos atrás, mas não é nenhuma catástrofe.

II - Qual sua percepção sobre a tendência das taxas de juros no Brasil?
MG – Vamos olhar na direção da política monetária nos Estados Unidos. O FED, como se sabe, tomou outro rumo a partir do fim do ano passado e prosseguiu nele agora em março, o que é importante para ativos de risco de uma maneira geral. Estamos falando da parte mais longa da curva de juros, que acaba sendo beneficiada. E localmente tem a questão da atividade econômica local, que está surpreendendo negativamente, afetando a parte mais curta da curva de juros. Isso pressiona as taxas para baixo.

IIComo os investidores devem se posicionar? O que os institucionais, que têm metas atuariais a cumprir, devem fazer?
MG – Esta é a pergunta que ouço todos os dias em visitas a institucionais. Mas não há nenhum segredo a respeito O pessoal terá de aumentar sua exposição ao risco e diversificar as carteiras. Hoje o mercado tem mais instrumentos para enfrentar esse cenário de juros baixos do que no passado. Um exemplo são os investimentos no exterior, já amplamente conhecidos, mas ainda não muito explorados. E há muitos instrumentos diferentes, outros tipos de risco.

IIQue tipos?
MG - Dá para aumentar o risco de forma diferente, sem precisar, necessariamente, aumentar a duration da carteira ou aumentar a presença na bolsa local, que eram, até há algum tempo atrás, as únicas opções. Não tem jeito: para bater a meta atuarial, os investidores terão de correr mais risco ou, então, baixar a meta atuarial. Ou, ainda, uma combinação dessas duas estratégias.

IICrédito privado seria um desses riscos?
MG – O crédito privado é uma diversificação importante não apenas em razão da necessidade de aumentar o retorno das carteiras no curto prazo. Ele é importante para os bons e os maus momentos, pois garante um colchão de rentabilidade ao longo do tempo. Vivemos um ciclo ruim do crédito de 2015 a 2017, mas mesmo assim as nossas carteiras de crédito aqui na Western, mesmo com títulos ruins, performaram relativamente bem. Hoje, especificamente, no curto prazo, até pelo excesso de demanda por papéis de crédito, todo mundo está procurando alternativas ao CDI, alternativas sem muita volatilidade. Esse excesso de demanda acaba pressionando os spreads do crédito para baixo.

II - Montar carteiras de crédito nesse ambiente fica mais difícil?
MG - Isso é bom para quem já tem estoques desses papéis, mas é ruim para aqueles que querem montar carteiras de crédito. Nós aqui na Western temos até perdido algumas emissões porque o mercado está fazendo negócios a preços muito mais baixos. Há, enfim, uma demanda adicional, devido à taxa de juros baixa, e a oferta ainda não está acompanhando.

IIÉ que as empresas não estão demandando crédito devido a atividade econômica estar andando de lado. As poucas emissões são muito disputadas.
MG – Esse é o problema. Elas não estão emitindo papéis no volume suficiente para atender a demanda do mercado. Isso está pressionando os spreads para baixo e provocando alongamentos dos prazos dos papéis. Hoje você encontra títulos de cinco e sete anos, o que não era comum há um ano atrás e com spreads relativamente baixos. Então, é preciso um pouco de cuidado com o crédito, porque ele é muito bom quando está tudo bem: quando a volatilidade é baixa, ele te dá aquele adicional ao CDI. Só que, se você tiver uma incerteza adicional ou uma desaceleração da economia, os spreads podem subir, o que pode prejudicar a performance das carteiras de crédito. É preciso expertise para comprar crédito.

IIE sobre renda fixa no exterior, há oportunidades de ganho para os investidores institucionais brasileiros?
MG – Nós, da Western, desbravamos o mercado de renda fixa no exterior. Antes, quando se falava em investimento no exterior, a conversa se limitava a renda variável. Ninguém queria saber de renda fixa no exterior, até porque ninguém precisava disso. As aplicações no Brasil davam conta do recado com sobras. Só que isso vem mudando. Lá fora, renda fixa não é só a taxa básica de juros dos Estados Unidos. Há um mundo de oportunidades na área. Você conta com uma série de instrumentos diferentes, que pagam taxas interessantes.

IIMas podem ser muito voláteis.
MG - Você consegue operar moedas de forma linkada com alguns investimentos. Aqui na Western, por exemplo, temos um fundo que opera juros e moedas lá fora com uma volatilidade comparável às dos fundos mais agressivos aqui do Brasil. E boa parte dessa volatilidade, o que é surpreendente, vem de operação na curva de juros dos Estados Unidos. Ou seja, basta você operar na curva de juros dos Estados Unidos para gerar uma volatilidade bastante alta, mas que pode trazer uma rentabilidade também expressiva. Estamos falando de dólar mais 6%. Se você fizer o hedge para dentro do Brasil, você tem CDI mais 3%, CDI mais 4%.

IIO que você pensa sobre fundos quânticos operando com crédito? É uma tendência que está forte no exterior, vai chegar ao Brasil?
MG – Tudo o que é forte no exterior acaba chegando nos emergentes e no Brasil. Mas o que realmente interessa são os resultados que esses movimentos e tendências propiciam no fim do dia. Há algum tempo, por exemplo, falava-se muito em smart beta. A novidade chegou por aqui e teve alguma repercussão, mas hoje não se ouve mais falar em smart beta por aqui.

IIAs estratégias smart beta não foram adotadas pelos gestores brasileiros?
MG – Nós operamos, aqui na Western, com cerca de 90% dos fundos de pensão de multinacionais. Não vemos ninguém operando com smart beta. No nosso universo, não se ouve mais falar a respeito. É diferente do que acontece com os investimentos no exterior, essa é uma novidade que veio, de fato, para ficar.

II - Então você acha que os fundos quânticos podem não pegar, como os smart beta?
MG - Quanto aos fundos quânticos, eles têm o seu nicho. O grande problema de você trazer coisa lá de fora aqui para dentro, principalmente no que se refere a crédito, é a liquidez. A liquidez de crédito lá fora é uma, a liquidez de crédito aqui dentro é completamente diferente, é muito menor. Então, não vejo muito espaço para você operar um fundo desses, que obedece a alguns algoritmos, no mercado local. Agora, a utilização de inteligência artificial nos processos de decisão vem crescendo ao longo do tempo. Só que isso não é estratégia. Ela vai contribuir para a informatização de procedimentos tradicionais.