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“Investidores ignoram o clima”
Na avaliação de Gustavo Pimentel, um dos titulares do Investidores pelo Clima, no Brasil o tema não é valorizado nem por adeptos do conceito ASG

Criado no último ano pela consultoria Sitawi, o movimento Investidores pelo Clima (IPC) está empenhado em conscientizar assets, fundos de investimento e fundações de previdência, entre outros agentes do mercado doméstico, sobre a importância das questões climáticas na definição de políticas de aplicações de recursos. A tarefa não é fácil, já que, na avaliação do economista Gustavo Pimentel, diretor da Sitawi e um dos titulares do IPC, nem mesmo os seguidores locais do conceito ASG – que contempla critérios ambientais, sociais e de governança – dão a devida importância ao tema. “Nesse ponto, o Brasil está completamente à margem dos fundamentos dos investimentos ASG no cenário global”, observa Pimentel, que acumula em seu currículo passagens por Unibanco, SR Rating, Accenture e pela matriz do banco ABN Amro, na Holanda.
Com pouco mais de oito meses de trajetória, o IPC já apresenta, no entanto, resultados concretos. Contando com 15 participantes, que respondem pela gestão de ativos avaliados em mais de R$ 2 trilhões, o movimento comemorou, há poucas semanas, o compromisso público assumido por quatro grandes gestoras – a JGP e as assets do BTG Pactual, Itaú e Santander – de dar prioridade às questões climáticas em decisões de investimento. A conquista foi fruto de seis reuniões realizadas, desde janeiro, com o grupo de 15 investidores, que incluíram, além da apresentação de conceitos e teorias do universo ASG, execuções de alguns trabalhos.
“Desenvolvemos em conjunto com seis investidores exercícios de cálculo da pegada de carbono, como é conhecido o método de medição de emissões de gases causadores do efeito estufa, em seus portfólios”, diz Pimentel. “O objetivo é estimular todos os participantes do IPC a operar com portfólios mais resilientes às mudanças climáticas e menos intensivos em gases de efeito estufa.”
Confira a seguir os principais trechos da entrevista de Gustavo Pimentel à Investidor Institucional.

Investidor Institucional – Na avaliação do movimento Investidores pelo Clima, os investidores brasileiros dão a devida atenção à questão climática?
Gustavo Pimentel – No plano internacional, o clima é o tema mais importante do conceito ASG. A quantidade de fundos de investimento de baixo carbono, iniciativas de descarbonização de portfólios e de engajamentos de investidores que cobram providências de empresas do segmento fóssil é muito grande lá fora. No Brasil, contudo, a questão climática nunca foi relevante. Basta dizer que o país ainda não tem um mercado de carbono estabelecido, o que isenta as empresas domésticas de custos pela emissão de gases de efeito estufa.

Mas o Brasil já conta com mais de 60 signatários – fundos de pensão e assets, principalmente – do Principles for Responsible Investment, o PRI, referência global no critério ASG. Isso não demonstra uma maior sensibilidade em relação ao assunto?
Nem mesmo os investidores brasileiros que se dizem aderentes ao princípio ASG dão a devida importância aos temas climáticos, pois consideram, em sua grande maioria, que são “questões de médio e longo prazo” – mantra repetido desde meados da década passada. Só que o médio e o longo prazo estão se esgotando e a mudança do clima – que vai causar uma elevação da frequência de eventos extremos, como tempestades e estiagens – já é uma realidade.

Como o IPC pretende contribuir para elevar a conscientização dos investidores sobre o clima? Quais os seus objetivos principais?
O IPC é uma iniciativa da Sitawi em conjunto com o Instituto Clima e Sociedade, uma fundação filantrópica que apoia projetos para colocar o Brasil no rumo de uma economia de baixo carbono, em linha com o Acordo de Paris. Seu objetivo é sensibilizar e capacitar investidores profissionais e institucionais brasileiros para que eles possam, efetivamente, priorizar a variável climática nos seus investimentos. A ideia, em síntese, é que eles reduzam as pegadas de carbono de suas carteiras de investimento.

Os signatários do PRI não têm esse mesmo compromisso?
Não. Quem assina o PRI, que tem por base seis princípios bem amplos, não assume compromisso algum com o clima e nem é obrigado a descarbonizar portfólios. Os signatários do PRI, caso da Sitawi, se comprometem apenas a participar de ações coletivas para incentivar investimentos ASG. Trata-se de uma iniciativa de caráter aspiracional, que abre aos seus participantes um conjunto de recursos, guias, manuais, workshops, grupos de trabalho etc. O simples fato de assinar o PRI não garante, absolutamente, que o investidor esteja envolvido, de fato, em ações voltadas à redução de emissões de gases de efeito estufa ou outros projetos do gênero.

No caso do Investidores pelo Clima, qual a diferença prática?
A intenção, como disse, é estimular investidores de maior porte, profissionais e institucionais, a inserirem, de fato, a variável climática na gestão de suas aplicações. O primeiro passo para isso é ajudá-los a calcular a pegada de carbono dos seus portfólios em várias classes de ativos: renda variável, renda fixa focada em crédito privado, private equity, imóveis etc. Para cada uma delas temos maneiras de calcular a pegada de carbono.

E a seguir?
O segundo passo é avaliar se os portfólios estão expostos a riscos climáticos e, também, se contribuem para acelerar ou frear a mudança climática. Os compromissos assumido pelos signatários do IPC podem, portanto, contemplar vertentes distintas: a redução da pegada de carbono em toda a carteira ou a criação, por exemplo, de um fundo de renda variável lastreado em papéis de empresas ou setores menos intensivos em gases de efeito estufa.

Qual o balanço das atividades do IPC desde o seu surgimento, em outubro?
O IPC mobilizou uma legião de investidores, sensibilizou, capacitou, apresentou dezenas de casos de investidores internacionais comprometidos com o princípio ASG. Discutimos diferentes abordagens, mostramos ferramentas e apresentamos bases de dados. Elaboramos, enfim, um pacote educacional para que esse investidor consiga identificar qual caminho trilhar.

Quantos investidores participam do IPC?
São 15, no total, com ativos por volta de R$ 2 trilhões. Desde o início do ano, eles participaram de cinco encontros presenciais e um virtual, este após a eclosão da pandemia da Covid-19. Nessas reuniões, realizamos exercícios com seis participantes: escolhemos uma ferramenta e trabalhamos em conjunto com eles para calcular a pegada de seus portfólios completos ou de algumas classes de ativos. O trabalho resultou na publicação do relatório da pegada de carbono da Fama Investimentos, por iniciativa da própria gestora.

A Fama, no entanto, já é referência no cenário doméstico, há tempos, em conceito ASG. O IPC já conseguiu catequizar, por assim dizer, empresas sem tanta tradição no respeito a compromissos climáticos?
Os exemplos mais expressivos são a JGP e as assets do BTG Pactual, Itaú e Santander, gestoras de mais R$ 1,2 trilhão, que assinaram, no início de junho, um compromisso de priorizar questões climáticas em suas decisões de investimento. Isso significa que elas continuarão a medir as pegadas de carbono em seus portfólios e também buscarão engajar no processo as empresas investidas.

Muitos gestores e investidores que se dizem dispostos a abrir espaço para o conceito ASG em seus portfólios se queixam da reduzida oferta de debêntures “verdes” no Brasil. A reclamação procede?
De fato, o estoque dos chamados green bonds não é dos mais expressivos no país: são apenas 27 séries certificados pela Sitawi, que somam R$ 12 bilhões. Os interessados, no entanto, podem avaliar os emissores de debêntures convencionais em relação aos seus desempenhos ASG e climáticos.

Não faltam, portanto, opções de papéis climaticamente corretos no mercado doméstico?
Encontrá-los é fácil. O problema é que os investidores, nesses casos, têm de calcular o desempenho ASG e as pegadas de carbono dos emissores, já que as debêntures convencionais, ao contrário dos green bonds, não apresentam essas informações. A tarefa pode ser feita na unha, mas fica muito mais fácil com o recurso a ferramentas disponíveis no mercado, gratuitas e pagas, que utilizamos nos exercícios realizados no IPC, no primeiro semestre, com seis investidores.

A Sitawi, uma das mentoras do IPC, atua como consultoria ou é uma ONG?
Com 12 anos de trajetória, a Sitawi é uma organização híbrida que busca mobilizar capital para produzir impacto socioambiental positivo. Trabalhamos nessa interface das finanças com a sustentabilidade. Contamos com um braço ONG, constituído como uma organização sem fins lucrativos de interesse público, uma Oscip, que atua, principalmente, na gestão de fundos filantrópicos, investimentos de impacto em pequenos negócios e organizações de impacto. Nosso projeto mais conhecido é uma plataforma de empréstimo coletivo, emprestimocoletivo.net, que permite a pessoas físicas investirem, em conjunto com a Sitawi, em pequenos negócios de impacto, no modelo fintech peer-to-peer.

De que forma o trabalho com o critério ASG é desenvolvido?
Atuamos em consultoria e também em pesquisa de temas relacionado ao ASG, ao clima e à sustentabilidade com uma equipe de 30 profissionais. A Sitawi assessora o sistema financeiro e participantes do mercado de capitais em geral para incorporarem o sistema ASG em filosofias, estratégias, políticas, processos, decisões e produtos. Treinamos profissionais e oferecemos um amplo pacote de serviços para um público bem diversificado que inclui fundos de pensão, seguradoras, bancos de desenvolvimento, bancos comerciais, fundos de private equity e de venture capital etc.

E com relação às pesquisas? O que a Sitawi faz exatamente?
Avaliamos empresas, ativos e projetos em relação aos seus desempenhos ASG. O trabalho dá origem a relatórios específicos que são vendidos para clientes interessados em usar essas informações em seus processos de investimento. Não fazemos valuations de empresas e nem apresentamos recomendação de compra e venda de papéis, mas temos opiniões formadas em relação ao critério ASG sobre 160 empresas brasileiras listadas em bolsa ou emissoras de debêntures.

Essas informações são públicas, como um rating, ou restritas?
O relatório é privado, é vendido por meio de assinaturas. Só os nossos clientes têm acesso.

Quantos investidores são atendidos pela Sitawi?
A lista inclui, entre outros, nove gestores de investimentos com foco em ações e crédito, seis de private equity e venture capital e dois family offices. Além disso, como observei, já atendemos 27 emissores de títulos – casos de Suzano, Enel, Taesa e Omega – que tiveram seus green bonds chancelados pela Sitawi.

Além da Sitawi, há outros certificadores de títulos verdes no mercado brasileiro?
Alguns players globais que compraram agências de rating ASG nos últimos anos, como Bloomberg, MSCI, MorningStar e Moody’s, oferecem serviços no mercado local, mas nem todos contam com escritórios no país. As duas únicas empresas brasileiras que atuam no segmento são a Sitawi e a Resultante.

Quais as origens e razões da “pegada ASG” da Sitawi?
A Sitawi, que significa “desenvolver” e “florescer” no idioma swahili, do leste africano, surgiu em 2008 pelas mãos de seu CEO, Leonardo Letelier, reconhecido no Brasil e no exterior como um dos pioneiros no cenário de finanças sociais e investimentos de impacto. Eu me juntei ao time no início da década para conduzir a operação de finanças sustentáveis, conceito ao qual havia sido apresentado durante uma estada por 12 meses na Holanda, onde os temas ASG têm forte presença no setor financeiro e nos investimentos. Inicialmente centrado em consultoria, o trabalho em finanças sustentáveis passou a contemplar pesquisas e iniciativas coletivas, caso do IPC. Em síntese, a Sitawi é hoje um misto de consultoria e instituto de pesquisa, com uma pitada de fintech, que busca sensibilizar o mercado em relação aos temas ASG, sempre apresentando as novidades na área.