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Vivest quer disputar mercado
Sucessora da Funcesp, a entidade planeja vender em grande escala planos e serviços nas áreas de previdência e saúde a fundos de pensão

A Fundação Cesp (Funcesp), o maior fundo de pensão de patrocínio privado do país, com uma carteira de ativos por volta de R$ 32 bilhões, chamou a atenção do sistema fechado de previdência complementar ao anunciar, em 27 de julho, a mudança de sua marca para Vivest. Aprovada em novembro do ano passado e desde então mantida em absoluto sigilo, a troca de nome, além de atender a antigas reivindicações dos vários patrocinadores conquistados pela casa desde a sua constituição há 51 anos, reflete a disposição da entidade de oferecer em grande escala ao mercado planos de complementação de aposentadorias e de saúde, projeto que teve como marco inicial a criação, no segundo semestre de 2019, de uma gerência comercial.
“A abertura ao mercado, que já vinha sendo debatida internamente há tempos, tem por objetivo primordial garantir a manutenção, a médio e longo prazo, do patrimônio líquido da entidade. Se nada fosse feito, seria inevitável uma progressiva redução dos recursos, já que grande parte da população atendida pela Vivest é composta por aposentados e dependentes previdenciários”, comenta o presidente Walter Mendes, que logo após ter assumido o posto de comando, em outubro de 2018, colocou em prática o programa de ampliação do raio de ação da fundação.
Os resultados não tardaram a surgir. Ainda no ano passado, a fundação comemorou as adesões da Sabesp e da Enel aos seus planos de saúde, garantindo 64 mil novos participantes. Na previdência complementar, depois de ter desenvolvido um plano de Contribuição Definida (CD) sob medida para os novos funcionários da Sabesp, a Vivest se prepara para anunciar uma parceria na área de planos instituídos e segue a ofertar a sua expertise para pequenas e médias entidades. O público-alvo é composto por cerca de 90 fundos de pensão com reservas garantidoras na faixa de R$ 500 milhões a R$ 3 bilhões, que correspondem a 30% do sistema.
“As entidades de menor porte já enfrentam grandes dificuldades em razão do desafio representado pela redução estrutural dos juros, que exige práticas e técnicas de investimento mais sofisticadas, e das crescentes exigências regulatórias, que dão trabalho de sobra até mesmo para as grandes fundações”, diz Mendes. “Acreditamos que esses dois obstáculos poderão servir de estímulo para adesões à Vivest, que apresenta custos operacionais bem reduzidos.”
Confira a seguir os principais trechos da entrevista de Walter Mendes à Investidor Institucional.

Investidor Institucional – Quando a mudança de nome e a abertura ao mercado entraram na pauta da antiga Fundação Cesp, a Funcesp?
Walter Mendes – Ambos os projetos eram cogitados há anos, bem antes da minha chegada à fundação, em outubro de 2018. Havia um consenso de que o nome era inadequado e impreciso, pois a entidade, que surgiu em 1969 como Fundação de Assistência aos Funcionários da Cesp, já contava, há tempos, com muitos outros patrocinadores. De forma simultânea, havia uma preocupação com a perenidade, pois a maioria dos planos previdenciários da casa é madura, tem um horizonte definido. Em razão disso, era debatida internamente a ideia de tornar a entidade uma consolidadora, que prestasse serviços a outros agentes do sistema em previdência e saúde, com a criação de uma gerência comercial.

Os dois projetos, portanto, começaram a sair do papel em 2019?
O processo de mudança da marca, na verdade, já estava formalmente em andamento, a cargo de uma empresa contratada. Mas surgiram alguns problemas e resolvemos retomar o projeto da estaca zero no ano passado. Já a proposta da gerência comercial foi incluída no planejamento estratégico para 2019 e aprovada pelo conselho deliberativo em novembro de 2018.

Quais os principais resultados, até o momento, da abertura ao mercado?
No ano passado, aumentamos em 80%, de 80 mil para 144 mil vidas, a população atendida por nossos planos de saúde com as adesões da Sabesp e da Enel. A negociação com a Sabesp, que já havia tentado terceirizar o atendimento em saúde, sem sucesso, foi rápida e envolveu também a criação de um plano previdenciário de contribuição definida voltado aos novos funcionários. No caso da Anel, atingimos os objetivos de ampliar negócios com patrocinadores dos planos previdenciários e de trazer de volta uma empresa com a qual operamos no segmento até 2001.

Há perspectivas de adesões de outras empresas aos planos de saúde da Vivest?
Com o retorno da Enel, zeramos a conta entre os nossos patrocinadores previdenciários: todos eles, sem exceção, contam com planos de saúde da Vivest para os seus funcionários. Pretendemos, no entanto, oferecer-lhes, em breve, uma nova linha de planos de saúde, voltada principalmente à prevenção, que teve grande sucesso entre os funcionários da entidade.

E com relação a empresas sem vínculos com a casa, como era o caso, anteriormente, da Sabesp?
Foram abertas várias negociações, mas, por lei, só podemos negociar pacotes compostos por planos de saúde e previdenciários, a exemplo do acordo firmado com a Sabesp. Essa exigência tem criado algumas dificuldades, mas seguimos em tratativas com potenciais parceiros. O fato é que contamos com o essencial na área: grande experiência e planos de saúde com preços mais do que razoáveis em relação à elevada qualidade oferecida.

Quais os planos envolvendo a prestação de serviços em previdência complementar para outras fundações?
Nosso foco são fundos de pensão sólidos e bem geridos de menor porte. Muitos deles simplesmente não vão conseguir lidar sozinhos com as crescentes demandas regulatórias. Tivemos muito trabalho, por exemplo, para cumprir todas as exigências da Resolução 32 do Conselho Nacional de Previdência Complementar, que estabeleceu novos parâmetros para a divulgação de informações para participantes e assistidos de planos de benefícios. Se a Vivest, que é uma das maiores entidades do sistema, teve de executar uma série de ajustes para atender a norma, não fica difícil imaginar os desafios enfrentados por fundações pequenas ou até médias em razão da Resolução 32.

O histórico de bons retornos da Vivest também será usado na atração desse público?
Sem dúvida, mas não apenas isso. A redução dos juros jogou por terra o expediente padrão, adotado durante anos a fio por muitas fundações de menor porte, de comprar e estocar títulos públicos federais para garantir o cumprimento, sem maiores esforços, das metas atuariais. A gestão, agora, tem um grau de sofisticação bem superior e exige uma maior exposição a ativos de risco, que demandam, claro, maior expertise na área de investimentos.

E quanto aos valores a serem cobrados pela prestação de serviços?
Serão vantajosos, até porque os custos operacionais da Vivest são reduzidos. Os custos administrativos, por exemplo, correspondem a cerca de 0,18% do patrimônio líquido da entidade. É o segundo menor índice do sistema, superior apenas ao da Previ.

Qual o perfil das fundações que estão no radar da Vivest?
São cerca de 90 entidades com patrimônios líquidos na faixa de R$ 500 milhões a R$ 3 bilhões. Esses valores são condizentes com a nossa realidade: fundações abaixo de R$ 500 milhões agregariam pouco volume à nossa massa de recursos, e acima de R$ 3 bilhões já começariam a fazer sombra aos atuais patrocinadores.

E como estão os contatos com essas fundações?
A pandemia atrapalhou a abordagem. Mas, mesmo assim, já estabelecemos contatos com mais de uma dezena de entidades e constatamos real interesse em nossa proposta. Estamos dando sequência a essas negociações e, em outra frente de atuação, realizando prospecções junto a empresas ligadas aos grupos econômicos de nossos patrocinadores.

No ano passado, a Vivest lançou o seu primeiro produto instituído, o Familinvest, voltado aos familiares em até quarto grau dos participantes dos planos patrocinados da casa. Essa nova opção também está sendo oferecida a outras entidades?
O Familinvest, que já acumula um patrimônio líquido de R$ 5 milhões, nos abriu, de fato, novas oportunidades. Ele está, sim, em pauta em negociações mantidas com entidades e, também, com associações e conselhos profissionais. A Vivest pretende se tornar referência no segmento instituidor e deve anunciar, já nos próximos meses, sua primeira parceria na área. Há muitas instituições interessadas na proposta, pois o fato é que, ao longo dos últimos anos, a população começou a dar maior valor à questão previdenciária.

A entidade conta com 107 mil participantes em seus planos de complementação de aposentadorias, dos quais cerca de 15 mil ativos. Com a abertura ao mercado, a meta é elevar esse contingente em que proporções?
Os planos de expansão incluem, antes de mais nada, uma “pescaria” em nossos “aquários”, para conquistar as adesões de cerca de 3 mil funcionários das patrocinadoras que ainda não aderiram aos planos previdenciários da Vivest. Penso, no entanto, que o indicador mais importante para a entidade é o patrimônio líquido. A intenção, a médio e longo prazo, é atrair novos patrocinadores e instituidores que garantam, ao menos, a manutenção do volume de recursos sob a administração da entidade, hoje ao redor de R$ 32 bilhões. Assim, conseguiremos manter nossos custos operacionais em patamares reduzidos e seguir atraindo bons profissionais no mercado.

E as metas em relação aos planos de saúde?
Da mesma forma, o objetivo mínimo a ser atingido é manter o contingente de vidas. Volumes elevados de contribuições dão margem a boas negociações, que, por sua vez, permitem reajustes inferiores aos praticados pelo mercado, garantindo a permanência dos participantes.

A gerência comercial foi criada no segundo semestre último, com a contratação de Lucas Schmidt, que veio da Mercer. Há planos de reforçar a área, em razão dos muitos contatos e negócios em andamento?
Não no momento. Recorrendo ao jargão futebolístico, o nosso gerente comercial é um meio-campista talentoso que arma e participa das jogadas de ataque. Ele tem total liberdade para isso, já que não exerce outras funções.

Não seria muito mais fácil oferecer planos e serviços a outras fundações como Funcesp, um nome que era referência no sistema? A mudança de marca, que exige apresentações e explicações, não dificulta a estratégia de abordagem do mercado?
Ao contrário, a mudança até facilita essa tarefa. A marca anterior, além de inapropriada, como frisei, dava margem a interpretações e leituras equivocadas. Eram frequentes, por exemplo, as referências à Funcesp como entidade patrocinada por empresas estatais, condição que há muito tempo já não correspondia à realidade. Da mesma forma, volta e meia, a fundação era confundida com outro grande nome do sistema, a Funcef. Com a nova marca, adequada a uma entidade multipatrocinada, nos livramos de vez de mal-entendidos, o que vai contar pontos a favor do processo de abertura ao mercado.

Que diretrizes foram seguidas na definição da nova marca?
A ideia, desde o início do processo, era uma marca que mesclasse saúde e previdência, presente e futuro – conceito também adotado no novo logotipo da entidade, formado por dois elos. Foram analisadas, claro, várias opções, mas o nome Vivest, que representa uma fusão de viver e bem-estar, teve o consenso da diretoria. A proposta foi aprovada pelo conselho deliberativo em novembro do último ano.

O surto da Covid-19 atrapalhou a apresentação da nova marca?
A eclosão da pandemia, em março, gerou alguma incerteza em relação à programação anteriormente estabelecida. Acabamos adiando o anúncio em cerca de um mês, para o fim de julho. Como estava tudo pronto, decidimos que não dava mais para ficar esperando.