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Sem mudar de rumo
Comprada pelo Banco Inter no final do ano passado, a DLM Invista mudou o nome para Inter Asset mas mantém a mesma direção e a mesma equipe

Referência em fundos de investimento ancorados em títulos de crédito privado, a mineira DLM Invista passou a atender, há poucas semanas, pelo nome de Inter Asset. A troca foi resultado da aquisição de 70% do capital da empresa, em novembro do ano passado, pelo Banco Inter, controlado pela família Menin - proprietária da construtora MRV. O ingresso do Inter, detentor de uma carteira de mais de 7 milhões de clientes no segmento de varejo e assim como a ex-DLM também com sede em Belo Horizonte, ampliando os horizontes de mercado da gestora, além de lhe garantir acesso privilegiado a recursos e infraestrutura para a expansão das operações. As principais novidades, contudo, param por aí.
“A estrutura, o processo de gestão, o comitê executivo e a equipe não sofreram quaisquer alterações”, assinala Daniel Castro, sócio-fundador da DLM e agora CEO da Inter Asset. “Os negócios com renda fixa e crédito privado, que renderam grande prestígio à casa, continuam a ser executados da mesma forma, pelas mesmas pessoas e com os mesmos ratings. A rigor, a principal mudança foi a adoção de uma nova nomenclatura”.
A grade de produtos, entretanto, vem crescendo e seguirá a receber reforços nos próximos meses. Além de ter herdado um pacote de oito fundos de seu novo controlador, a gestora prepara o lançamento, para o primeiro semestre do próximo ano, de um fundo lastreado em certificados de recebíveis (CRIs). “É um projeto 100% alinhado com a nossa expertise”, diz Castro, que considera a hipótese de dar sequência ao processo de prospecção de outros nichos de mercado. “Poderemos, sim, vir a trabalhar com outras classes de fundos que façam sentido para a casa, mas sempre com equipes apartadas e totalmente focadas naquilo que trouxermos de novo.”
Criada em 2003 pelos irmãos Daniel e Marcelo, junto com o amigo Luiz Ian, a DLM atuou de início como gestora dos recursos de seus sócios-fundadores. A decolagem ocorreu no fim da década passada, com a criação de uma área de wealth management e a formação de uma clientela de investidores profissionais e institucionais, bancos de investimentos e family offices. Passados dez anos, o negócio se prepara para um novo salto, agora ao lado de um parceiro de peso. “Estamos em expansão. Além de reforços na grade de produtos, planejamos reforçar nossa equipe, hoje formada por cerca de 25 profissionais, com cinco contratações”, diz o CEO.
Confira a seguir os principais trechos da entrevista concedida por Daniel Castro à Investidor Institucional.

Investidor Institucional – Como ocorreu a aproximação com o Banco Inter?
Daniel Castro – Eu e o Marcelo conhecemos o João Vitor Menin, CEO do Inter, e alguns dos principais executivos do banco há muito tempo. Todos nós trabalhamos no mercado e, além disso, moramos na mesma cidade, Belo Horizonte, o que facilitou a aproximação. Foi, enfim, um namoro antigo que se consolidou com a aquisição, pelo Inter, de uma participação de 70% do banco na asset.

A DLM Invista vinha crescendo bem com suas próprias forças. Por que vocês desistiram do crescimento orgânico?
Foi uma decisão puramente estratégica. Poderíamos, claro, seguir crescendo de forma orgânica. Percebemos, no entanto, que o alinhamento estratégico com o Inter em torno de um projeto muito mais ambicioso viabilizaria maiores avanços em intervalos de tempo bem menores. Afinal, nosso sócio sempre busca alcançar participações relevantes em novos segmentos de atuação.

A fusão proporcionou ganhos operacionais à asset?
Costumo dizer que uma gestora é uma obra inacabada. Por mais que a gente estruture e aperfeiçoe processos, temos sempre de nos adaptar às novas tecnologias, à evolução da gestão de risco, de questões regulatórias etc. O Inter nos garante muito mais força e recursos para fazer frente a estes e outros desafios. De quebra, passamos a contar com um ferramental mais rico em tecnologia, processos e equipe. Com esses avanços, estamos nos preparando para adicionar novas verticais de investimentos em classes com as quais não atuávamos antes da fusão.

Em quais segmentos novos vocês pretendem entrar?
Há um nicho muito afinado com a nossa cultura, fortemente centrada em renda fixa e crédito privado, que é o de fundos imobiliários. Temos um projeto de fundo de certificados de recebíveis imobiliários, CRIs, que, como disse, tem tudo a ver com a nossa expertise. Devemos apresentar o novo produto ao mercado no início do próximo ano, provavelmente.

Outros fundos de investimento estão em estudo?
Pretendemos expandir também a grade da família Inter Selection, que hoje conta três FOFS, ou seja, fundos de fundos: um de ações, um multiestratégia e um de infraestrutura. Eles são geridos pela nossa área de wealth management, que conta com uma estrutura inteiramente segregada, inclusive na gestão de risco. Em operação há dez anos, essa divisão já é robusta e tende a ganhar ainda maior volume com o lançamento de novos FOFs e a sua fusão com a estrutura equivalente do Inter, que deu origem, recentemente, à InterWealth Management.

Há planos traçados para reforçar a carteira de clientes institucionais?
O segmento está entre as nossas prioridades. Uma das estratégias que vamos adotar na abordagem das fundações de previdência é a oferta de fundos exclusivos, outra especialidade da mesma equipe que responde pela formatação dos FOFs.

O varejo tende a se tornar mais relevante para a Inter Asset do que era para a DLM?
Não tenho dúvidas a respeito, pois o Inter já soma mais de 7 milhões de clientes no varejo e segue crescendo a taxas elevadas no segmento. Não por acaso, há alguns meses o Inter Selection Ações chegou a ocupar o terceiro posto no ranking de fundos de renda variável com maior número de cotistas no país. Estamos muito contentes com a pulverização de negócios que o varejo vem nos proporcionando.

O Inter Selection Ações era da DLM ou veio do Inter?
Ele é uma criação da nossa área de wealth management. Só foi rebatizado, assim como a gestora. A sua carteira é composta por cotas de fundos conduzidos por algumas das assets mais respeitadas em renda variável, casos de Atmos, Bogari, Absoluto Partners e Brasil Capital.

Os investidores locais estão olhando cada vez com mais interesse o mercado de gestores globais. Vocês pretendem atuar nesse mercado?
Este é um caminho sem volta, um movimento não só saudável mas também necessário. Nada melhor do que contar com diversificação de mercados, moedas, diferentes curvas de juros mundo afora e ações de setores que ainda não são negociados na B3. Com o passar do tempo, os investimentos no exterior tendem a fazer parte de estratégias de todas categorias de investidores, das pessoas físicas aos institucionais. Como apostamos nessa evolução, já estamos traçando projetos a respeito.

Os acordos de distribuição da DLM serão mantidos ou haverá mudanças?
Não há motivo para mudanças. Os contratos com os distribuidores, assim como os demais compromissos firmados antes da fusão, permanecem em vigor.

O foco da casa continuam a ser os fundos de crédito privado?
É natural que seja assim, pois somos especialistas na área e seguimos crescendo nela. A família de produtos ancorados em crédito privado ganhou, inclusive, em diversidade, com as apresentações, nos últimos anos, de novidades em fundos previdenciários, de infraestrutura e multimercado. Um dos destaques recentes é o multimercado Trafalgar, que investe, entre outras opções, em bonds latino-americanos. Trata-se, enfim, de uma grade eclética, que atende à busca de diversificação pelos investidores.

A renda fixa vive um momento complicado no Brasil, com a taxa Selic e o CDI nos menores patamares da história. Quais as perspectivas desses mercados?
O mercado local de crédito privado, é fato, vem enfrentando grandes desafios. Seguem na memória dos operadores, por exemplo, os diversos casos de fundos com cotas negativas no pior momento da crise causada pela pandemia da Covid-19, em março. Mas também é fato que o segmento vem ganhando sofisticação, como demonstram as crescentes emissões de títulos que oferecem percentuais de spread sobre as taxas de risco, estruturadas principalmente por bancos, deixando de lado o CDI como referência. Outros sintomas de amadurecimento são a chegada de novos emissores ao mercado e o alongamento dos prazos das operações.

No último trimestre do ano passado, os fundos de crédito privado também sofreram fortes desvalorizações, que resultaram em uma onda de resgates. Há riscos de novas derrapagens no curto e médio prazos?
Aquele, sem dúvida, foi um momento muito tenso e complexo. Consta até que o Banco Central teria cogitado uma intervenção. A situação, contudo, melhorou muito de lá para cá. Há emissões primárias vindo a mercado e encontrando boa demanda, inclusive com rateio de ordens. É preciso, no entanto, avançar em debates sobre alguns temas, como a liquidez do mercado secundário, a precificação de títulos e mudanças do mecanismo de incentivo das debêntures incentivadas, para atrair os investidores institucionais.

A migração das carteiras para ativos de risco deve ser longa, devido ao grande espaço da renda fixa no Brasil. Quais as suas projeções para os próximos anos?
Esse processo de migração, é fato, atingiu uma escala expressiva, mas, pelo que observo, já perdeu intensidade. É natural que seja assim, pois a renda fixa e o crédito privado tem e sempre terão espaços reservados nas estratégias de diversificação de aplicações dos investidores em geral, especialmente dos profissionais e institucionais. O que pode ocorrer, como assinalei, é a progressiva substituição do CDI, como balizador de fundos e títulos, pelo IPCA e por benchmarks em IMA-B e IMA-B 5.

A asset responde hoje pela gestão de cerca de R$ 4 bilhões. Qual seria sua meta para os próximos anos, digamos 2025?
É difícil cravar um número, mas posso garantir que reunimos as condições necessárias para crescer a taxas muito elevadas. Hoje, temos estrutura para triplicar, quadruplicar ou elevar em escala ainda maior o volume de operações, sem dificuldades. O sucesso alcançado pela DLM no passado foi resultado de processos de estruturação prévia que viabilizaram saltos expressivos. É um cuidado que tem de ser tomado por gestoras especializadas em crédito privado, como a nossa, pois sem a estrutura necessária o rápido crescimento de volumes pode causar problemas de liquidez e na pulverização do portfólio. Nunca nos expusemos a riscos do gênero.