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“Não é hora de gerar turbulências”
Ex-diretor do BC, Reinaldo Le Grazie, diz em entrevista anterior à alta da Selic que ela era necessária mas deveria ocorrer de forma “mais ou menos moderada”

Edìção 334

Com uma trajetória de 37 anos no mercado, o ex-diretor de política monetária do Banco Central, Reinaldo Le Grazie, não anda nada satisfeito com as posições do governo federal em vários temas da agenda econômica. Além de considerar atabalhoada e deselegante a recente intervenção do Palácio do Planalto na Petrobras, que resultou na mudança no comando da estatal, ele também é contrário a uma elevação abrupta da Selic. Na entrevista que deu a esta publicação em 16 de março, quando a decisão de elevar a Selic em 0,75 ponto percentual ainda não tinha sido tomada (o consenso do mercado era de 0,50 pp), ele disse: “como as perspectivas da atividade econômica para este ano e 2022 são fracas, o ideal teria sido iniciar o ajuste da política monetária de uma forma mais branda. Não é hora de gerar turbulências no mercado”.
Embora identifique mudanças de caráter global nas cadeias tradicionais que causam inflação, ele considera que os fortes aumentos de preços no mercado nacional, muito acima da média do exterior, refletem problemas domésticos. “Com a desvalorização do real frente ao dólar, não há como evitar novas altas da gasolina e do diesel. A solução é buscar formas para reduzir a taxa de câmbio, o que só será possível com a implantação de políticas econômica e fiscal mais responsáveis”.
Graduado em administração pública pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e com cursos de extensão no francês Insead e na London School of Economics and Political Science, Le Grazie esteve por três anos e meio anos na diretoria do Banco Central e antes teve passagens por instituições como o Lloyds Bank e a Bradesco Asset Management (Bram). Desde agosto de 2019 ele é sócio da gestora paulista Panamby Capital. Confira a seguir os principais trechos da entrevista concedida à Investidor Institucional.

Investidor InstitucionalO que está acontecendo com os índices de inflação? O IPCA dá uma coisa, o INPC dá outra, e o IGP-M é um caso à parte, com uma variação muito acima dos demais. O que está acontecendo?
Reinaldo Le Grazie – A inflação está mudando as cestas de consumo – e não só no Brasil, mas em todo o mundo. A inflação é provocada por cadeias tradicionais, cujo funcionamento vem sofrendo alterações. A leitura dos índices ficou mais difícil, e, o que é pior para o consumidor brasileiro, os preços em queda são de produtos e serviços de menor demanda, como passagens aéreas e hospedagens, ao passo que os preços dos itens de maior procura, caso dos alimentos, estão subindo. Ou seja, embora a variação anual do IPCA, por exemplo, esteja por volta de 4%, os gastos com o consumo do dia a dia de toda a população – jovens, idosos, baixa, média e alta renda – vêm crescendo a taxas superiores.

Quer dizer, não tem nada a ver com aquecimento de demanda?
Exato. Essa mudança das cestas de consumo tem como principal origem, no Brasil e no exterior, uma inflação gerada por choques de preços de commodities. O detalhe é que o impacto desse fenômeno está sendo muito mais profundo e persistente do que se previa anteriormente.

Qual o impacto dessas commodities?
O petróleo vem apresentando um impacto maior sobre o bolso do cidadão, já que o preço do produto tem forte peso do câmbio em sua composição. Como o governo local perdeu credibilidade, o dólar se encontra atualmente em um patamar superior em cerca de 15% ao que seria razoável, o que obriga o consumidor brasileiro a gastar muito mais com gasolina e diesel. Além disso, a China, que deve crescer 8% neste ano, está adquirindo aço e também minério de ferro em larga escala, para reforçar a sua infraestrutura. Essa demanda causou aumentos expressivos nas cotações do metal, elevando os preços dos automóveis, da construção civil e de todos os setores que utilizam o aço como insumo ao redor do mundo.

E em relação às commodities agrícolas, qual o impacto da demanda chinesa?
Em razão de problemas que enfrentou com seus rebanhos, a China está comprando grandes volumes de proteína animal, provocando elevações nas cotações internacionais de carnes bovina e de frango. O mesmo fenômeno ocorre com commodities agrícolas. É o caso da soja, utilizada como ração para a engorda dos frangos. O problema é agravado, insisto, pela falta de credibilidade do governo brasileiro, que se reflete na taxa de câmbio. Se o Brasil inspirasse confiança para investidores e agentes econômicos, os preços das commodities em geral no mercado local estariam em um patamar bem inferior.

Depois de crescer 2% em 2020, em meio à crise gerada pela Covid-19, a China promete crescer 8% neste ano. Ela vai vai liderar o próximo ciclo de desenvolvimento global?
Não tenho dúvidas a respeito. A China está dando um baile no resto do planeta: vem comprando muito aço, tomou providências para manter aquecida a demanda interna por crédito e está realizando grandes investimentos em infraestrutura. Ela vai continuar a puxar a economia global, contando com a forte colaboração dos Estados Unidos, que devem crescer ao redor de 7% neste ano. China e Estados Unidos seguirão como as principais locomotivas no cenário internacional em termos de crescimento e inovação tecnológica.

Como o Brasil poderia se inserir nesse cenário de expansão liderado pelos dois?
Para garantir espaço no novo ciclo de expansão da economia global, o Brasil terá, antes de mais nada, de mudar a postura da sua diplomacia. O antagonismo entre Estados Unidos e China é crescente, como demonstram as polêmicas envolvendo as tecnologias 5G. O Brasil, portanto, não pode se alinhar de forma incondicional, como tem feito, com nenhum dos dois blocos. O ideal é que negocie, ponto a ponto, as questões com Estados Unidos e China.

A alta das commodities, uma pauta que tradicionalmente favorece o Brasil, pode nos favorecer também dessa vez?
As perspectivas são muito boas nesse sentido, já que o Brasil é grande produtor e exportador de commodities em geral. Mas, além de grandes ajustes nas políticas de relações exteriores, o país precisa agregar valor à sua produção e se inserir no boom tecnológico em curso no cenário internacional. Enquanto a Europa e os Estados Unidos estão desenvolvendo vários projetos espaciais, a agenda brasileira segue estacionada no tempo. Muitas empresas locais, é fato, apostam em novas tecnologias, mas o país como um todo está ficando para trás, o que é uma pena.

Como superar esse gap, que se agrava cada vez mais? Por exemplo, nos setores de tecnologia avançada e nas chamadas biotechs, que usam tecnologias avançadas na área da saúde, praticamente não temos empresas.
A solução demanda, necessariamente, aberturas comercial e econômica, além da manutenção dos talentos locais e da atração de talentos estrangeiros – quesito no qual, diga-se, os Estados Unidos, que são um país de imigrantes, involuíram nos últimos anos, devido a políticas de restrição à imigração. No caso específico do Brasil, é necessário um maior grau de integração com o mundo, com a cadeia produtiva global. Como não estamos caminhando nessa direção, na verdade estamos longe disso, algumas empresas estrangeiras estão saindo do país.

Muitos dizem que a abertura acaba com as empresas nacionais.
Na verdade, o que ocorre, e esse é um fenômeno que pode ser comprovado em todo o mundo, é que a abertura estimula mudanças e melhorias nas empresas e na economia em geral. Quando um país percebe que não tem vocação ou condições para fabricar este ou aquele produto, o melhor a fazer é recorrer às importações, tratando, em contrapartida, de realizar apostas firmes na produção de itens nos quais ele tem condições de se destacar, de fazer diferença. A solução é esta.

Mas parece que o governo está indo na contramão dessa agenda, como mostra a recente alteração no comando da Petrobras para tentar conter os preços dos derivados. Isso surtirá efeito?
Não. Os preços dos combustíveis à base de petróleo tendem a seguir em alta, pois, como frisei, um dos principais elementos da sua composição é o câmbio. Com a desvalorização do real frente ao dólar, não há como evitar novas altas da gasolina e do diesel. A solução é buscar formas para reduzir a taxa de câmbio, o que só será possível com a implantação de políticas econômica e fiscal mais responsáveis.

Qual a sua avaliação do trabalho que vinha sendo feito pelo Roberto Castello Branco à frente da Petrobras?
A direção da Petrobras estava no rumo correto. Castello Branco fez um excelente trabalho, assim como alguns de seus antecessores recentes. Acredito, inclusive, que os novos presidente e membros do conselho de administração manterão a diretriz de redução de investimentos para garantir uma maior eficiência à estatal. A Petrobras ainda tem muito a fazer nesse sentido.
Qual a repercussão da mudança de comando na Petrobras entre investidores, locais e estrangeiros?
Acho que é algo absolutamente normal o acionista majoritário de uma empresa executar mudanças na diretoria de uma controlada. A prática é usual em qualquer canto do planeta. O problema, no caso da Petrobras, foi a forma atabalhoada e deselegante – que já se tornou marca registrada do atual governo – como isso foi feito. O impacto da intervenção foi muito ruim, mas não creio que terá grandes efeitos sobre a estatal, pois ela vem sendo blindada nos últimos anos e não há mais como reverter esse processo. Sob a nova direção, a Petrobras pode até não evoluir, mas não tende a piorar.

Os reajustes nos preços dos combustíveis eram, de fato, feitos com grande frequência. Poderiam ser mais espaçados?
Acho difícil. Hoje, refinarias, distribuidores e postos de combustíveis repassam as variações dos preços do petróleo nos seus produtos de forma quase que online. Não há milagre à vista, pois o petróleo é uma commodity com cotação internacional.

O Copom se reúne hoje (essa entrevista foi feita quando o Copom ainda não tinha publicado a nova taxa Selic), a expectativa é de alta de 0,5 ponto percentual. Qual sua previsão?
Considerando a persistência da inflação de um lado, e que a inflação no mundo todo está subindo, com a curva de juros também subindo no mundo inteiro, não dá para a gente não começar a normalização parcial da política monetária agora. Mas embora a curva de juros no mundo esteja subindo, a taxa básica, se não me engano, não subiu. Então, o Brasil vai ser o primeiro. Então, por esse lado e pela fraca atividade econômica que estamos prevendo para os anos
de 2021 e 2022, seria razoável começar de uma maneira mais ou menos moderada.

Aumentar 0,5 ponto percentual é muito?
Tem que buscar a normalização de uma maneira serena, com parcimônia. Não dá para fazer uma alta forte. O ideal era ter começar mais devagar, com cuidado para não fazer estragos. Não é hora de fazer turbulência no mercado.

Quais as suas projeções para os PIBs de 2020 e 2021?
Estamos trabalhando na Panamby Capital com 3% neste ano e 2,8% no próximo. São índices medíocres, que, a se confirmarem, corresponderão a um crescimento por volta de apenas 1,5% em relação ao PIB de dois anos atrás.

São resultados que não recuperam nem o que perdemos recentemente. Porque não crescemos, nem com esse boom das commodities, o que está mudando no mundo?
O que está mudando no mundo ou no Brasil? O mundo está se tornando mais tecnológico, mais eficiente, enquanto o Brasil permanece com baixos índices de produtividade. Conseguimos nos destacar na exportação de matérias-primas, mas a nossa pauta de exportações de manufaturados é muito pobre.

O País está se desindustrializando?
Estamos fazendo a mesma coisa do mesmo jeito que fazíamos há anos.