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China assusta os mercados
Com setor imobiliário super endividado, China começa a migrar para uma economia de crescimento baseado em consumo e tecnologia de ponta

Edição 340

A crise da gigante chinesa do setor de construção, a Evergrande, com passivo financeiro de mais US$ 300 bilhões e que ameaça dar o calote em um leque grande, mas ainda não completamente mapeado, de credores tem feito as bolsas de valores do mundo todo oscilarem de acordo com os sinais, ora positivos ora negativos, que a empresa e o governo passam ao mercado. “O governo chinês, tudo indica, terá de injetar dinheiro na Evergrande para garantir os pagamentos dos credores”, analisa o coordenador de Estudos em Relações Econômicas Internacionais do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), Fernando Ribeiro. “O episódio não representa um risco sistêmico, mas é mais um sinal do elevado grau de endividamento do setor imobiliário da China, que foi estimulado pelas autoridades locais durante anos a fio.”
O economista analisa a transição que a China está tentando administrar, de um modelo altamente concentrado em investimentos do setor imobiliário para um crescimento baseado em consumo, e diz que a grande interrogação é como será feita essa transição. Se eles conseguirão fazer essa transição de forma suave ou se ela será traumática, essa é a dúvida do mercado. Em entrevista à Investidor Institucional ele fala sobre o crescimento da China, as dificuldades da Evergrande, a busca de um modelo novo de crescimento e a tentativa de posicionar o país na ponta da tecnologia.Confira, a seguir, os principais trechos da entrevista concedida por Fernando Ribeiro à Investidor Institucional.

Investidor InstitucionalA taxa de crescimento do PIB chinês caiu de dois dígitos há alguns anos para a faixa dos 7% atualmente, podendo recuar ainda mais em razão da atual crise energética. Quais as razões desse declínio?
Fernando Ribeiro – A China vive, de fato, uma fase de desaceleração. Isso já era, inclusive, esperado, pois é difícil para qualquer economia sustentar taxas de crescimento na faixa de 10% ao ano depois que a renda atinge níveis mais elevados. Foi assim na Coreia do Sul, no Japão, países que também tiveram longos períodos de crescimento acelerado e depois caíram. Já há alguns anos os analistas vêm indicando a desaceleração do crescimento chinês para algo em torno de 6% a 5% ao ano – até um pouco menos, a depender das circunstâncias.

Mas essas projeções sinalizavam a desaceleração para daqui a alguns anos. O que causou essa mudança de expectativas?
A pandemia da Covid-19 embolou todo o meio de campo e contribuiu fortemente, sem dúvida, para o desaquecimento. Mas, de qualquer maneira, já havia, desde o fim da primeira década do século, um consenso de que a China não conseguiria manter a evolução do PIB na casa de dois dígitos por muito tempo. Obviamente, contudo, ninguém sabia o momento preciso em que isso iria ocorrer.

As autoridades chinesas se prepararam para esse desaquecimento?
O governo chinês incorporou essas perspectivas ao seu planejamento há algum tempo em razão, entre outros fatores, da redução da oferta de mão de obra e da queda dos rendimentos do capital investido no setor de construção ao longo das últimas décadas. A principal questão para as autoridades locais é como administrar essa redução do crescimento sem causar maiores problemas econômicos e sociais, especialmente. Eles precisam continuar a ter um crescimento suficiente para assimilar a mão de obra que vem do campo, principalmente, para poder manter o crescimento da renda da população.

A China vem enfrentando problemas de endividamento no setor imobiliário, que colocaram em xeque a Evergrande, um dos gigantes do setor. Essa crise pode comprometer o projeto de redução controlada do crescimento?
Não dá para dizer que esses eventos, inclusive a crise da Evergrande, tenham sido inesperados. Análises feitas pelo menos nos últimos cinco anos, talvez até um pouco mais, destacavam o elevado e crescente nível de endividamento das empresas de construção na China, que tinha uma estratégia de crescimento muito baseada na concessão de crédito – para empresas em geral e, principalmente, para empresas de construção e infraestrutura. A China passou muitos anos investindo forte na construção de prédios e obras de infraestrutura. Metrôs e rodovias, por exemplo, começaram a surgir por todo o país. Há milhões de apartamentos vazios e vários sistemas de metrô subutilizados.

Que tipo de problemas esses erros de cálculo podem trazer a médio e longo prazo?
A subutilização das construções em geral tem relação direta com a queda dos rendimentos do capital investido, que significa que é um capital que vai render muito menos do que seria normal. Esse problema já estava no radar das autoridades chinesas e dos especialistas, então já se sabia que não seria possível seguir investindo em construção e infraestrutura no mesmo ritmo dos anos anteriores. O que eles estão tentando administrar, e faço a ressalva de que as coisas são meio opacas dentro do governo chinês, é como sustentar o crescimento da economia sabendo que o investimento nesse setor tem que cair.

Qual é a estratégia, pelo que se conhece, que eles estão seguindo?
Eles precisam substituir o investimento do setor da construção por algo que vai estimular a demanda, então o governo vem trabalhando um esquema para que o consumo das pessoas cresça, deixando em segundo plano o setor de construção. Só que esse é um processo delicado, porque você tem de fazer a substituição evitando quedas muito fortes, ainda que temporárias, nas taxas de crescimento. Isso é o que eles estão tentando fazer agora, tomando inclusive uma série de medidas de restrição financeira. As dificuldades enfrentadas pela Evergrande são consequência, em sua maior parte, do elevado grau de endividamento da empresa, mas refletem também, em certa medida, desse aperto nos financiamentos de imóveis.

Eles têm como administrar uma eventual quebra da empresa?
Acho que sim, pois como é um mercado mais fechado, sem aqueles problemas de alavancagem que existiam nos Estados Unidos na época do sub-prime, então eles têm mais condições de administrar e evitar que vire uma crise sistêmica. Tanto é que ninguém está apostando numa crise sistêmica, todos estão apostando numa crise localizada na qual o governo vai ter que botar dinheiro para cobrir o buraco principalmente das empresas que são credoras da Evergrande.

Na sua visão, portanto, a resposta do governo chinês está na direção e no timing certos?
O governo sabe que tem que fazer a transição de um sistema de investimento em construção, principalmente infraestrutura, para um sistema com mais consumo de pessoas. Resta saber se terão condições de executar essa transição de uma maneira suave, efetuar um soft landing. A tarefa nada tem de simples, pois o objetivo traçado é efetuar uma transição para uma economia de taxas de crescimento mais baixas e com um padrão diferente do existente nos últimos anos. Os otimistas apostam que a China conseguirá superar esses desafios talvez com alguns sobressaltos, como a quebra de uma grande empresa como parece que está acontecendo agora, mas sem amargar uma recessão. Já aqueles mais pessimistas, que acreditam muito nas forças de mercado, acham que o governo chinês poderá ser atropelado pelo mercado, por maior que seja o seu grau de controle sobre a economia. Eles acham que acontece um evento como o da Evergrande, depois outro parecido, e quando vê a economia está indo para o buraco.

Em que ponto dessas duas vertentes o senhor se situa?
Com base na observação do que ocorreu na China ao longo dos últimos anos, não estou totalmente do lado dos otimistas, mas estou mais alinhado com esse lado do que com o outro. De fato, as autoridades chinesas mostraram até hoje, pelas crises que enfrentaram, que têm mecanismos de controle sobre a economia muito grandes e efetivos. O governo tem condições de lidar com uma crise como a da Evergrande, de efetuar a transição dos investimentos alavancados para o consumo, mas eu não acho que isso será tão suave quanto os otimistas acreditam.

Quais serão, a seu ver, os efeitos práticos desse ajuste em curso na China sobre a economia global?
O mundo tende a ficar cada vez mais sujeito e sensível aos solavancos da economia chinesa. Qualquer coisa que acontecer por lá terá efeitos globais, a exemplo do que vem ocorrendo no caso da Evergrande. O crescimento da China, em suma, passará a ser cada vez mais crucial para o crescimento mundial, o que quer dizer que eventuais desacelerações da sua economia terão forte impacto sobre todo o planeta, inclusive os Estados Unidos.

E com relação ao Brasil?
Não vejo mudanças significativas em relação ao cenário atual. Vamos continuar sensíveis às oscilações de várias commodities que exportamos para a China, que obviamente não são muito desejáveis mas os produtores brasileiros têm condições de assimilar bem, mas continuaremos exportando grandes volumes de soja, minério de ferro e petróleo para o mercado chinês. A demanda por alimentos, em particular, vai continuar a crescer pelo menos nos próximos dez anos. A China não tem a menor condição de não aumentar fortemente suas importações de alimentos, embora até esteja investindo na agropecuária doméstica. Eles estão, por exemplo, executando projetos de expansão da produção de carne, para depender menos de produtos importados. Mas é uma iniciativa de longo prazo. Durante muito tempo, a China terá de importar carne do Brasil e de outros países, até porque essa transição do crescimento para o consumo que eles querem fazer irá alterar hábitos de consumo e vai bater diretamente na área de alimentos.

Uma das maiores apostas da China atualmente é a Nova Rota da Seda, que prevê investimentos gigantescos em obras de infraestrutura na Ásia, Europa, Oriente Médio e África. Esse projeto corre riscos em razão de problemas com a Evergrande?
Não acredito. Há recursos suficientes para desenvolver a Rota da Seda que, diga-se, já é uma realidade. A China já conta, inclusive, com provisões para alguns países que ela sabe que não honrarão os financiamentos liberados. O problema será desses devedores, que ficarão em situação difícil e terão de oferecer contrapartidas ao governo chinês. Muitos analistas acreditam que a China vai se aproveitar disso para aumentar sua influência sobre outras nações. Ou seja, os empréstimos que não forem pagos garantirão como retorno um maior poder geopolítico para Beijing.

A China está apostando muito no desenvolvimento de tecnologias de vanguarda, caso do 5G. Qual o papel que essas tecnologias vão representar no desenvolvimento da China?
A geração de tecnologias de ponta é, ao lado do processo de transição do modelo de crescimento para o consumo, um dos principais desafios do país. A China quer se tornar um player no segmento para bater de frente com os Estados Unidos e outras nações com forte tradição em pesquisa e desenvolvimento. Os investimentos na área são pesados, com destaque para telecomunicações e tecnologias de desenvolvimento sustentável. Eles estão colocando muito dinheiro nisso, apostando que esse é o futuro, e de fato é, mas essa transição para uma economia de alta tecnologia é uma tarefa das mais complexas. Os japoneses conseguiram dar esse salto, mas depois a sua economia estagnou.

Tem chance de a China não conseguir dar esse salto?
Acho que eles podem não conseguir na extensão que desejam, ou seja, podem conseguir em algumas áreas e em outras talvez não. Eles estão na ponta em algumas áreas, como no 5G, por exemplo, e vêm se destacando em outras tecnologias de telecomunicações e tecnologias verdes, mas virar um país de alta tecnologia em diversas áreas é algo mais complexo. A tecnologia é algo muito dinâmico, tem a ver inclusive com hábitos de consumo das pessoas, surgem as vezes de onde menos se espera.

A transição para uma economia de conhecimento demanda fortes investimentos em educação. Isso vem ocorrendo na China?
E como! Eles já estão conseguindo posicionar suas universidades entre as melhores do mundo, o que faz uma tremenda diferença. Além disso, o país realiza fortes investimentos em educação básica muito forte há muito tempo. Há uma consciência, portanto, de que são necessárias educação de base e universidades, que são os principais polos de inovação. O caso americano é típico: o conhecimento é gerado nas universidades e transferido para centros de pesquisa e outras referências na área, como a NASA.

O modelo político da China, que não é de mercado, poderá gerar obstáculos ao crescimento do país?
Eles são uma economia de mercado, mas não no sentido liberal da palavra, e do ponto de vista político não são democráticos. Essa falta de democracia é o principal argumento dos críticos do modelo chinês, que acreditam que, em algum momento, o autoritarismo e o excesso de centralização das decisões vão acabar travando as engrenagens da economia, impedindo novos avanços.

Como aconteceu com a antiga União Soviética?
A União Soviética, de fato, é frequentemente citada como exemplo pelos críticos do modelo chinês. Os soviéticos investiram muito, largaram na frente na corrida espacial e alcançaram outras conquistas importantes, mas depois quebraram. E quebraram por falta de democracia, pois o seu sistema não conseguiu dar respostas a grandes desafios. Mas creio que a União Soviética não serve como referência, porque ela nunca teve uma economia de mercado.

Que outras diferenças existem com relação à finada União Soviética?
A China tem uma classe média já expressiva, e tem conseguido evoluir tecnologicamente em algumas áreas, inclusive com a participação de empresas privadas, o que não ocorreu na União Soviética. Ela está tentando combinar uma forte presença do setor público na economia com o dinamismo característico da iniciativa privada. Há dúvidas, no entanto, sobre a capacidade desse sistema se adaptar, por exemplo, à necessidade de uma abertura política. De qualquer forma, o modelo chinês é absolutamente inédito. Teremos a oportunidade de testemunhar a evolução dessa experiência única e ver onde ela vai dar.