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“Selic deve chegar a 12%”
Mesmo com a alta da taxa Selic nas últimas reuniões do Copom, a inflação persiste e só deve começar a ceder a partir de março do ano que vem

Edição 342

O ex-diretor de política monetária do Banco Central, Reinaldo Le Grazie, avalia que o aumento dos juros básicos da economia, a taxa Selic, está ocorrendo num ritmo adequado, com o Banco Central usando os instrumentos de que dispõe com efetividade para tentar conter o rápido aumento da velocidade da inflação. O problema é o aumento rápido a inflação subiu de forma abrupta, em consequência de um aumento grande da demanda por bens no período pós pandemia. “Não é falta de oferta, a oferta continua”, analisa o ex-diretor do BC. “Mas há um equilíbrio novo, precisa de um tempo para ajustar”.
Na sua opinião, a Selic deve subir ainda nas próximas duas reuniões do Copom, em fevereiro e março de 2022, chegando a uma taxa em torno de 12%. ao ano “Talvez cravar 12% seja um pouco alto, mas eu diria que deve ser algo em torno de 12%”, diz Le Grazie. “Se o cenário for mais altista, mais inflacionário, talvez tenha que fazer um pouco mais, mas também pode não precisar de tudo isso. Tem que ir ajustando, a gente sabe que o viés é de mais inflação, no mundo e no Brasil”.
Graduado em administração pública pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e com cursos de extensão no francês Insead e na London School of Economics and Political Science, Le Grazie esteve por três anos e meio anos na diretoria do Banco Central e antes teve passagens por instituições como o Lloyds Bank e a Bradesco Asset Management (Bram). Desde agosto de 2019 ele é sócio da gestora paulista Panamby Capital. Confira a seguir os principais trechos da entrevista concedida à Investidor Institucional.

Investidor Institucional – Estamos fechando o ano com a Selic a 9,25%. Qual a sua opinião, é pouco, é muito, é adequado?
Reinaldo Le Grazie – Estamos no caminho correto. A taxa de juros começou a ficar contracionista há uns dois meses, não muito mais do que isso. Então, a gente só começou a combater essa inflação forte, efetivamente, há pouco tempo. Os modelos mostram que uma taxa em torno de 12% é o que vai fazer a inflação convergir para a meta de inflação. Talvez cravar 12% seja um pouco alto, mas eu diria que é algo em torno de 12%. Eu acho que estamos no caminho correto.

Até quando vai esse aumento da Selic?
A taxa vai ter que subir um pouquinho ainda, eu acredito que esse ciclo de alta da Selic vai até março, acho que acaba em março, o Copom tem a capacidade de levar a taxa até 11,5% a 12% em mais duas reuniões, a de fevereiro e a de março. Aí encerra o ciclo.

Qual sua projeção para a inflação de 2022?
Acho que vamos ter uma inflação em torno de 5%, com viés de alta, mas vai depender de várias condições que a gente não controla, como preço de commodities, força do dólar e outras coisas, mas eu diria que 5% com viés de alta é um bom número. Já para 2023, com esse nível de taxa que a gente está indo agora, acho que é possível trazer a inflação de novo para um nível mais próximo da meta.

Na sua opinião, o BC se atrasou no momento de começar a elevar a taxa Selic?
Veja, a estratégia global dos bancos centrais foi ficar atrasado. Por que? Porque a inflação nos países avançados estava muito baixa desde a chamada grande moderação, ocorrida no ano de 2008, e desde então os bancos centrais vinham tentando fazer a inflação subir. Então eles ficaram atrasados propositadamente, mas não estavam desconfortáveis com isso. O FED (Banco Central dos Estados Unidos), por exemplo, que hoje está na liderança da política monetária global, foi muito enfático nesse aspecto, dizendo que deixaria a inflação andar um pouco para depois ajustar no médio prazo. E está conseguindo fazer essa gestão de uma maneira adequada. Já no caso dos emergentes, embora a realidade não tenha sido exatamente essa, a alta de inflação veio muito rápida. O reflexo disso é que os emergentes, como o Brasil por exemplo, estão correndo para fazer os ajustes de maneira compatível com a velocidade rápida da alta da inflação. Então, não acho que o BC ficou atrasado, acho que ele teve que responder rápido e está respondendo.

Esse ano, a gente vai ficar muito acima da meta da inflação, o ano que vem também. Na sua opinião, seriam necessários ajustes na meta de inflação?
Acho que não, não se deve fazer isso não. Está formalizado, é importante reforçar o conceito de meta de inflação. Não dá para ficar mudando meta de inflação quando descola. Não deu, não deu! Justifica e bola prá frente. O que não pode é ficar olhando prá ela. Eu ficaria muito incomodado se o Ministério da Fazenda mudasse a meta da inflação.

Acha que a alta da Selic para 12% em 2022 resolve, sozinha, a pressão inflacionária?
Não está fácil para ninguém, o Banco Central vai ter que se virar. O nível de 12% da Selic é adequado pelo que a gente sabe e conhece hoje, com câmbio a R$ 5,70 por dólar, petróleo a 75 dólares, commodities todas pressionadas, inclusive as agrícolas, gargalo no setor de logística e o FED aumentando juros. Agora, esse cenário pode mudar e ai vamos ter que acompanhar. E pode mudar para qualquer dos dois lados, tanto as commodities podem arrefecer um pouco de preço, porque subiu demais e ai funciona a lei da oferta e demanda, além da grande incógnita do petróleo já os EUA resolveram entrar um pouco na briga e a OPEP não quer fazer os preços dispararem, quanto os preços também podem subir mais por causa do El Ninho, da questão do preço de gás natural que eleva o preço de fertilizante e pode puxar o preço dos produtos agrícolas. Então, tem uma série de questões que podem mudar o cenário. Mas pelo que a gente conhece hoje, 12% é uma taxa que consegue fazer a inflação no Brasil ser declinante em direção à meta de 2023. É uma taxa suficiente para ancorar as expectativas, vamos dizer assim.

Você disse que a inflação veio forte no mundo todo, porque isso aconteceu?
Realmente a demanda voltou muito forte, é uma demanda que estava adiada. Como mudaram os hábitos de consumo, também apareceram vários gargalos. Não é falta de oferta, a oferta continua, o problema é que a demanda cresceu muito rápido no pós-vacinação. Tudo isso faz com que você tenha um equilíbrio novo, precisa de um tempo para ajustar. É por isso que os países avançados disseram, vamos suportar uma inflação um pouco mais alta porque depois a coisa se ajusta. No caso do Brasil, é a mesma coisa, se o cenário for mais altista, mais inflacionário, talvez tenha que ir um pouco além dos 12%, mas também pode não precisar de tudo isso. Tem que ir ajustando, a gente sabe que o viés é de mais inflação, no mundo e no Brasil. Tem que ir ajustando, não adianta querer resolver tudo para amanhã.

O Brasil tem um histórico de inflação de inércia. A gente corre o risco de subir a taxa de juros, derrubar a economia e a inflação se manter alta? Ou seja, um cenário de estagflação?
Risco tem, mas política monetária funciona. No ano que vem vamos ter uma atividade econômica fraca, e estamos falando de crescimento de PIB de 0% com viés de negativo, então a atividade já vai ser fraca. Com uma taxa de juros contracionista, que é a direção que a gente está tomando, eu acho que tem tudo para a inflação cair. Então, nós vamos ter uma atividade fraca com inflação declinante no ano que vem. Eu não gosto de rotular como estagflação, mas a realidade é essa: inflação alta mas declinante e uma atividade fraca, mas não só por causa dos juros. A atividade vai ser fraca também pela baixa confiança do consumidor, dos empresários.

Por causa da política econômica?
Nós estamos com uma política econômica inadequada, e é por isso que o Brasil não vai crescer em 2022. Eu não gosto de rotular de estagflação, prefiro falar de inflação alta mas declinante e atividade fraca, provavelmente negativa. É um cenário difícil. Como a inflação está alta e a atividade já está negativa, tem que fazer o ajuste de juros rápido. Por isso estou considerando que até março o Copom tem que fazer tudo o que precisa fazer, porque tem que fazer rápido para quebrar a espinha da inflação e depois colaborar com a recuperação do produto. E aí dá ressaca.

Quando volta a ter espaço para os juros começarem a cair de novo?
O BC não baixa os juros antes de janeiro de 2023, na minha opinião.

Os Estados Unidos sinalizaram um aumento da taxa de juros americana na última reunião do FED. A gente vai para um cenário de fly to quality?
Não é só cenário de fly to quality, é também a força do dólar, a força da atração do dólar. Com a taxa de juros mais alta, e crescendo mais, sem dúvida que a maior economia do mundo vai exercer uma força de atração muito grande. Então não é só fly to quality, é também porque parece ser um bom negócio. Sem dúvida, a gente corre esse risco, e esse é mais um dos desafios que pode mudar o cenário, como eu falei há pouco.

Qual o efeito no câmbio?
Quando o FED puxa os juros, os países emergentes sofrem, em particular os emergentes da América Latina. As moedas da América Latina são as que mais tendem a desvalorizar com a alta do juro americano. Mas vamos ter que acompanhar, por enquanto eu acho que o processo nos EUA está indo muito bem.

O mercado de capitais brasileiro está preparado para essa atração do dólar? Ou teremos que manter juros altos, numa volta do reinado do CDI?
Não, acho que é por pouco tempo. O processo que o Copom agora imprimiu, de ir até 12% ou próximo de 12%, vai permitir que a taxa de juros caia mais forte depois. Não vai para 4% mas vai prá 8%. Eu não vejo razão para a gente não conseguir controlar a inflação no médio prazo. Então eu acho que a gente não vai voltar para um ambiente de CDI não.

A independência do Banco Central foi fundamental?
Acho que foi um fator super importante, relevante, é uma grande evolução do arcabouço institucional e ajuda nesse momento. Sim, acho que foi um fator muito importante. O Banco Central está de parabéns por ter conseguido chegar lá.