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Volatilidade está no mundo todo
Com pouco mais de R$ 25 bilhões investidos no Brasil, basicamente em infra-estrutura e setor imobiliário, o CDPQ convive bem com nossa volatilidade

Edição 343

As decisões de investimento da Caisse de Depot et Placement du Quebec (CDPQ), um dos dois fundos de pensão canadenses com presença no Brasil, é sempre vista com interesse pela comunidade financeira local. Afinal, com 400 bilhões de dólares canadenses (o que dá uns 315 bilhões dólares americanos) de investimentos globais, dos quais 6,5 bilhões de dólares canadenses (o que dá uns 5 bilhões dólares americanos) aplicados no Brasil, não poderia ser diferente. “O CDPQ é um investidor de longo prazo. Quando foi feita a análise para investir no Brasil, foi uma análise demorada que considerou o histórico e a natureza de um mercado emergente como o Brasil, que é diferente de Europa e da América do Norte”, diz o chefe do escritório do Brasil, Denis Jungerman. Ele garante que o fundo, por ter investimentos basicamente em setores defensivos, “está bem protegido” em relação às turbulências de curto prazo que o País enfrenta.
Contratado pelo CDPQ há quatro anos, quando o fundo resolveu montar um escritório no País após mais de 15 anos de atuação no mercado de investimentos local, Jungerman tinha todas as credenciais para a posição que assumiu. Formado em engenharia de produção, desde o início de sua carreira profissional sempre trabalhou na área financeira, passando por empresas como McKinsey, Merrill Lynch (hoje Merrill Lynch Bofa), JP Morgan e Credit Suisse, além de ter aberto para a norte-americana em private equity TPG Capital o primeiro escritório no Brasil, que acabou fechando em 2016 por conta da instabilidade provocada pelo movimento de impeachment e troca do governo Dilma pelo de Michel Temer. “Então resolvi empreender um pouco, mas logo recebi o convite para montar o escritório da CDPQ”, diz.
“Me atraiu o fato do CDPQ não ser um fundo monoproduto, essa possibilidade de trabalhar com infraestrutura, private equity, dívida estruturada e várias coisas”, diz. “Também gostei da missão, que é cuidar bem do dinheiro de pessoas que não têm essa sofisticação e são obrigados a entregar o dinheiro ao fundo de pensão para ele aplicar de uma forma extremamente profissional. O CDPQ cuida disso, é uma missão que me atraiu”, diz Jungerman em entrevista à Investidor Institucional. Veja a seguir os principais trechos da entrevista:

Investidor Institucional – Por favor, pode nos dar breve descrição do CDPQ?
Denis Jungerman – O CDPQ é basicamente um fundo que paga aposentadorias e pensões para as famílias de uma parcela dos funcionários públicos da província de Quebec, um estado do Canadá. Isso inclui professores, bombeiros e policiais desse estado. Para isso tem um processo ultra rigoroso, super profissional, de gestão do seu portfólio de investimentos, que em junho de 2021 somava C$ 400 bilhões (dólares canadenses), o que dá uns US$ 315 bilhões.

Qual o perfil de investimentos do fundo?
No início, na década de 1960, o fundo investia só no Canadá, depois passou a investir nos Estados Unidos e hoje investe em 65 países. Menos de um terço dos recursos totais são investidos no Canadá, percentual que provavelmente vai cair, o resto é EUA, Europa, China, Índia, Brasil, México, um monte de mercados espalhados pelo mundo. Evoluiu de investimentos simples, conservadores e líquidos, basicamente comprando títulos do governo canadense, para áreas muito mais complexas e ilíquidas, ou seja, infraestrutura, private equity, dívida estruturada, ativos imobiliários, ações e ativos de dívidas de vários tipos.

Como foi o processo da vinda para o Brasil?
O escritório do CDPQ no Brasil vai fazer quatro anos, abrimos em maio de 2018, mas antes disso nós já investíamos no Brasil. Investimos no Brasil há uns 15 anos, em ações, participações minoritárias, instrumentos de dívidas, chegamos a fazer investimento em private equity mesmo sem ter um time local. Então, há pouco mais de quatro anos foi tomada a decisão de montar o escritório, me contrataram e formamos uma equipe que hoje é formada por 16 pessoas, incluindo CDPQ e Ivanhoe Cambridge, que é nosso braço de investimentos no setor imobiliário.

Qual é o grau de maturidade da fundação hoje, recebe mais aportes do que paga aposentadorias ou já está no momento inverso?
Nós ainda estamos no final daquela fase onde as contribuições são maiores que os pagamentos. Mas imagino que ao longo dos próximos cinco, dez anos, os pagamentos serão maiores que as entradas. Não dá para precisar muito, porque têm questões atuariais a se levar em conta.

Vocês já têm o resultado dos investimentos de 2021? Conseguiram bater a meta?
Ainda não saiu o resultado do segundo semestre de 2021, então não dá para fechar o resultado de 2021, mas minha impressão é que o resultado foi positivo. Sei porque participo de fóruns internacionais de negócios que concluímos e, no geral, o retorno tem sido positivo. Em relação à meta, acho altamente provável que a gente supere, mas mais uma vez digo que essa é só a minha impressão.

Quanto o CDPQ tem investido no Brasil e quais os principais ativos?
Em junho de 2021 tínhamos C$ 6,5 bilhões, o que dá pouco mais de US$ 5 bilhões (R$ 25,7 bilhões ao câmbio de meados de fevereiro), investidos no Brasil. Grande parte disso são investimentos imobiliários, feitos pela Ivanhoe Cambridge, que é 93,5% da CDPQ e 6,5% de outros grupos canadenses. A companhia têm autonomia, até por terem minoritários, e investem no Brasil através de dois pilares: um é a Ancar Ivanhoe, que é uma joint venture com a família Carvalho para investimentos em shoppings e centros comerciais, e outro mais recente, que nasceu há três anos, é uma joint venture com a norte-americana Prologis para atuar em armazéns logísticos, na qual a Ivanhoe Cambridge tem 80%. Eles compram terrenos e constroem armazéns top line, mais modernos, muito mais seguros, muito mais eficientes. Além disso, a CDPQ tem uma participação de 35% na transportadora de gás natural TAG, com os outros 65% controlados pela nossa sócia italiana Engie. E também temos uma sociedade com a Telefonica Vivo na empresa de fibra óptica FiBrasil, com 50% de cada sócio.

E investimentos líquidos, vocês têm?
Temos um portfólio grande de ações brasileiras, são participações minoritárias em empresas de alta qualidade, é um portfólio relevante. Quando a gente tem que pagar aposentadorias e pensões, precisa ter uma parte do portfólio em investimentos líquidos.

Vocês também investem em títulos públicos no Brasil?
Sim, temos um portfólio de dívida. Como é um portfólio líquido, ele muda várias vezes ao longo do ano, mas a gente tem participações em dívidas governamentais, dívida privada, dívidas estruturadas, além de algumas operações de conversíveis que a gente chama de quase equity.

Se fosse dividir esse C$ 6,5 bilhões em ações, títulos públicos, títulos privados e ativos ilíquidos, como você dividiria?
Acho que, grosso modo, seriam C$ 2,5 bilhões em infraestrutura, C$ 2 bilhões em imobiliário e mais C$ 2 bilhões dividido nos vários instrumentos de dívida e portfólio de ações.

Quais são as perspectivas para os novos investimentos no Brasil?
Acho que vamos crescer em infraestrutura, principalmente pelo lado da TAG, agora com a empresa já fazendo os investimentos com a própria geração de caixa. A FiBrasil, que tem um programa Capex muito importante, talvez demande aportes adicionais com transferência. E os novos setores que a gente está olhando, mas não quer dizer que os investimentos vão acontecer, são o setor elétrico, transmissão de energia, geração renovável eólica e solar. A gente também tem olhado estradas e saneamento, eu diria que são setores onde temos mais chance de entrar pelo lado de infraestrutura.

E o setor de private equity, vocês não estão olhando?
Já tivemos investimentos em private equity, na área de educação, mas vendemos. Fomos acionistas da Somos Educação, que acabou sendo vendida para a Kroton Educacional. Mas nosso time de private equity tem olhado bastante os setores defensivos, ou por funcionarem por contratos ou por serem essenciais como saúde, educação, serviços financeiros ou áreas de alto crescimento em tecnologia. Também vamos continuar a olhar dívida estruturada, que é interessante no Brasil, operações conversíveis, instrumento de dívida estruturada. E no lado imobiliário, além daqueles dois pilares que a Ivanhoe já tem, ela busca um terceiro pilar que ainda não está definido mas pode ser bem diferente dos dois primeiros. Apenas para dar um exemplo, o que não quer dizer que seria algo similar no Brasil, nós anunciamos no Chile uma joint venture em parceria com a Greystar para investir em residencial multifamílias.

A CDPQ/Engie tinha comprado originalmente 90% da TAG e só recentemente adquiriu os 10% restantes que estavam nas mãos da Petrobras. Porque só agora, em primeiro lugar, e há a intenção por parte da TAG de fazer aquisições na área de gás?
A TAG foi um grande investimento, realmente só compramos 90% à época porque era o que a Petrobras tinha colocado à venda. Quando ela se dispôs a vender o resto, compramos. E em relação à intenção da TAG de comprar outras empresas, a TAG não vai comprar ninguém. O crescimento da empresa daqui para a frente vai ser sempre orgânico, vai investir organicamente em gasodutos e conquistar novos mercados e clientes.

A TAG recebeu uma autorização recente para expansão. Pode falar disso?
A empresa recebeu autorização para um novo gasoduto dirigido a uma térmica que está sendo construída em Sergipe. É uma das primeiras expansões significativas da rede de gasodutos no Brasil. Essa é uma área que vai dar muitas alegrias, tem um mundo de coisas acontecendo em gás natural, um produto que tem um papel super interessante enquanto combustível de transição. Embora seja de fonte fóssil, é o mais limpo dos fósseis e ocupa um papel importantíssimo numa transição energética.

Qual é a visão de vocês sobre investimentos ESG, sobre economia limpa?
O CDPQ está na linha de frente disso no mundo, é um dos fundos mais adiantados, tem coisas que alguns fundos estão anunciando só agora e a gente já faz há muito tempo. Desde 2017 estamos assumindo compromissos ESG. E em setembro de 2021 o CDPQ subiu a régua, assumindo vários compromissos públicos bem ambiciosos e mensuráveis, para não ficar só em declarações de princípios. Por exemplo, em 2017 a gente tinha C$ 18 bilhões em ativos de baixo carbono e o objetivo era chegar a C$ 36 bilhões em 2023, mas como atingimos esse objetivo antes subimos a meta para C$ 54 bilhões em 2023. Ou seja, é um valor bem maior num prazo relativamente curto. Tem toda uma lista do que se encaixa nesta categoria, como energia renovável, transporte elétrico etc.

E os setores poluentes da carteira, como serão tratados?
Até o final deste ano de 2022 vamos sair totalmente da exploração de petróleo, de carvão e de refinarias. Pode até afetar o retorno da carteira, mas é uma maneira de você realocar o teu dinheiro da economia de fóssil e poluentes para outra coisa. Mas tem uma parte super relevante da economia que é alto carbono, são as indústrias de cimento, aço, metais, etc, que vai continuar a existir e precisa continuar a existir para o resto da economia poder funcionar. Então vamos ajudar essas indústrias a baixar a pegada de carbono, a virar médio carbono. E por último, 100% dos nossos novos investimentos passarão por análises super detalhada de ESG, de intensidade de carbono, de diversidade, de inclusão, de governança, de transparência com acionistas. Então, o ESG faz parte do nosso processo de investimento.

Como você vê o momento de incertezas que o Brasil vive, do ponto de vista macroeconômica, político?
O CDPQ é um investidor de longo prazo. Quando foi feita a análise para investir no Brasil, foi uma análise demorada que considerou o histórico e a natureza de um mercado emergente como o Brasil, que é diferente de Europa e da América do Norte. Ajudou também que a gente já tinha algumas operações aqui na área imobiliária, através da Ivanhoe, e escritórios em países como México, China e Índia, entre outros, que são diferentes mas têm algumas questões de volatilidade, de complexidade etc que são similares. Não são idênticas mas são parecidas às que o Brasil enfrenta. Então o CDPQ já tem experiência, e calma, para analisar e enfrentar esse tipo de coisa.

Podem prejudicar as empresas nas quais vocês investem?
Temos uma preferência grande por setores defensivos, e setores defensivos são aqueles que aguentam muito desaforo, são resilientes. São setores que são super essenciais ou são ancorados por contratos de longo prazo, indexado à inflação ou a dólar, e se você tem uma dessas coisas duas, ou as duas juntas, mesmo que não te dê imunidade a qualquer mudança mas você está bem protegido. Temos shopping centers, gasodutos, armazéns logistícos e no caso da FiBrasil os contratos são de mais curto prazo, mas a questão da essencialidade é absolutamente clara. Hoje você prefere sair de casa sem a tua carteira ou sem o seu celular? Eu prefiro sair sem a minha carteira pois eu consigo pagar coisas com o celular.

Isso quer dizer, em outras palavras, vcs podem se dar ao luxo de esperar a tempestade passar?
Não é só isso. Tenho dois pontos a acrescentar sobre porque a gente está tranquilo com o Brasil. Primeiro, o País tem um track record que é muito bom no que se refere ao tratamento do investidor estrangeiro, podia até fazer um trabalho melhor de contar essa boa história. Se o Brasil é um país complicado para investir, ele é igualmente complicado para o brasileiro e para o estrangeiro. O estrangeiro é tratado igual, isso contou muito na hora da gente entrar. E em segundo, eu falo brincando mas é sério, hoje o mundo todo está muito mais volátil. Se no Brasil a volatilidade vem pela eleição e questões macro, na Europa vem pela Grécia, nos Estados Unidos vem também pela questão eleitoral, no Canadá vem pelos protestos dos caminhoneiros, veja o que aconteceu lá. Então, numa escala relativa, a volatilidade está subindo em todos os lugares.