Mainnav

Fiagros caem no gosto do investidor
Fundos do agronegócio já atraíram cerca de 50 mil investidores e acumulam patrimônio de R$ 4 bilhões apenas um ano após regulamentação pela CVM

Edição 347

Os Fundos de Investimento nas Cadeias Produtivas Agroindustriais (Fiagros), criados pelo Congresso Nacional e regulamentados pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) no ano passado, rapidamente caíram no gosto do investidor brasileiro. Em menos de um ano em operação, esse novo instrumento de financiamento do agronegócio já atraiu em torno de 50 mil investidores e contabiliza cerca de R$ 4 bilhões nos 13 fundos em negociação na B3 até o final de maio.
Embora o volume ainda esteja muito aquém da necessidade de recursos do Plano Safra, ao redor de R$ 250 bilhões ao ano, esse patrimônio deve crescer significativamente nos próximos anos dado o potencial dos fiagros, avalia o gestor dessa classe de investimentos da Galapagos, Felipe Solski. A gestora fez recentemente uma oferta pública primária de fiagro, estando em “período de silêncio” determinado pela CVM, razão pela qual Solski evitou falar sobre produtos específico. “Estou proibido”, diz.
Nesta entrevista à Investidor Institucional, ele fala sobre o veículo, as adequações pendentes na regulamentação, do papel na expansão do mercado de crédito voltado à agropecuária, entre outros temas. “Neste primeiro momento, o desenvolvimento dos fiagros vai focar mais no crédito por causa dos juros altos. Mas, melhorando o ambiente macroeconômico, com as taxas voltando ao patamar de um dígito, começaremos a ter oportunidade de operações diretas na aquisição de terras”, afirma o executivo. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Investidor Institucional – Qual a importância da regulamentação dos fiagros, feita pela CVM no ano passado?
Felipe Solski – A rigor, uma parte desse mercado já existia antes mesmo da regulamentação que a CVM fez em julho do ano passado, que era a compra e venda de terras agrícolas através de fundos imobiliários. O mercado de fundos imobiliários é 40%, ou até um pouquinho mais, formado por fundos de CRI [Certificados de Recebíveis Imobiliários]. A grande novidade proporcionada pela regulamentação da CVM foi a possibilidade de fazer um fundo de CRA [Certificado de Recebíveis do Agronegócio].
A regulamentação dos fiagros foi, inclusive, baseada na dos FIIs. Acha que isso foi bom?
Acho que por causa dessa característica os fiagros podem fazer tudo o que um fundo imobiliário faz, desde que voltado para o agronegócio, inclusive comprar matrículas imobiliárias desde que sejam matrículas rurais, mas pode ir além pois também pode comprar CRAs. Essa foi a grande evolução que a gente enxergou no mercado. Inclusive hoje, de todos os fiagros listados, não há nenhum de terras. Todos são de crédito para o agronegócio.

Por que isso acontece?
Um pouco é pelo momento macroeconômico. A taxa de juros está em um nível elevado e isso tende a beneficiar a renda fixa. Por isso, os fundos estão voltados para o crédito. São operações de dívidas que estão dentro desses fiagros, em formato de CRAs. Até agora, o mercado de fiagros se desenvolveu em cima desse mercado de crédito.

Quais as vantagens de basear a regulamentação dos fiagros nos FIIs?
A grande vantagem é o tempo que se ganhou. Os fundos imobiliários demoraram 15 a 20 anos para se consolidarem, tiveram todo um período de adaptações, de evolução, que os fiagros não precisarão passar porque já pegaram um arcabouço regulatório atualizado, adequado às necessidades dos investidores. É exatamente a mesma regulamentação, acrescida da possibilidade de comprar CRAs e LCAs [Letra de Crédito do Agronegócio].

E quais são as desvantagens?
Algumas questões específicas, ainda não discutidas, podem ser vistas como desvantagens. Por exemplo, um fiagro imobiliário pode ser o dono de uma terra mas não pode operar essa terra, contratar prestador de serviço para plantar nessa área. Ele tem que arrendar essa terra para um terceiro. Já o fundo imobiliário pode, o fii pode comprar um terreno, contratar terceiros e construir um imóvel. Então, acho que tem algumas adaptações que devem acontecer mais à frente.

Os juros subsidiados do Banco do Brasil ao agronegócio pode atrapalhar o desenvolvimento dos fiagros?
Nos últimos anos, o Plano Safra tem sido cada vez mais insuficiente para cobrir os custos de produção. Por exemplo, em 2020 o agronegócio avançou 24,31%, passando a representar 26,6% do Produto Interno Bruto, contra 20,5% em 2019. Apesar disso, no ano seguinte os recursos disponíveis para o Plano Safra cresceram apenas 6%. Então, esse é um recurso cada vez mais direcionado a pequenos produtores. O acesso dos grandes agricultores está cada vez mais difícil. Obviamente, o mercado de capitais não vai disputar com esse recurso subsidiado do BB, que segue como a primeira linha de crédito de cada um desses tomadores. Mas será a segunda linha de crédito, mais adequada para o perfil de pagamento desses produtores. Temos falado com médios e grandes produtores e visto muita aceitação da parte deles ao novo produto, com progresso nas discussões e operações.

O que mais desperta o interesse?
A gente traz para o mercado de capitais um benefício que os produtores não encontravam nos bancos, que é um crédito mais alongado, de cinco anos e com amortizações anuais. Os agricultores estavam acostumados a tomar recursos no início do plantio, pagar na safra e voltar a pedir dinheiro no ano seguinte. Se ocorresse uma quebra de safra, um problema climático, um imprevisto nos preços, tinham de entrar em renegociação, o que, muitas vezes, custa caro porque existem as penalidades padrões. Um modelo de crédito mais alongado abre outras possibilidades, por exemplo abre a possibilidade aos tomadores de desenvolverem novas áreas. Muitos produtores buscam alternativas para o que chamamos de abrir novas terras, quando já tem a terra mas precisa realizar o processo de fertilização, bastante custoso e demorado, para começar a produzir. As vezes não faz sentido tomar crédito no mercado bancário para abrir essas áreas, que demoram algumas safras para ter a produtividade das terras férteis. O fiagro é um instrumento mais adequado.

Na sua opinião, o crescimento dos fiagros se dará mais por papéis (CRAs e LCAs) ou diretamente na área produtiva?
Neste primeiro momento vai focar mais no crédito, é tendência indiscutível pelo nível atual da taxa de juros. Isso facilita muito as operações de crédito. Mas acredito que melhorando o ambiente macroeconômico, com juros em patamares mais normalizados, de um dígito, começaremos a ter oportunidade de operações diretas na aquisição de terras, de fundos mais especializados em special situations. Por exemplo, como a compra de uma terra em condições de degradação que é submetida a um investimento para torná-la mais produtiva. Ou seja, a queda dos juros deve abrir um leque amplo de potenciais operações em um setor que responde pela maior fatia do nosso PIB. Mas neste primeiro momento, de juros altos, o mercado vai se desenvolver e crescer em cima de papel mesmo.

Quantos fiagros já estão operando e qual é o tamanho desse mercado, hoje?
De acordo com dados do final de maio, são 13 fiagros já listados para negociação na B3 e 27 registrados na CVM. Outro dado interessante que ilustra o interesse do público em geral é que esses veículos já contam com mais de 50 mil investidores.

Qual o perfil do investidor de fiagro?
É 100% de pessoas físicas. É o investidor acostumado com fundos de CRI e que tem visto boas possibilidades de retorno nessa nova classe. Os fiagros, e aqui temos uma questão macroeconômica que os diferencia dos fundos imobiliários, são por essência mais expostos ao CDI, enquanto os fundos imobiliários de CRI estão mais indexados ao IPCA. Com o crescimento do CDI, muita gente está olhando para os fiagros com esse viés. É um aspecto que vem atraindo a atenção dos investidores.

A pressão ESG [de Ambiental, Social e Governança, em inglês], sobre fundos de investimento hoje é grande. Acha que os problemas que o setor agrícola enfrenta na área ambiental pode dificultar a expansão dos fiagros?
Temos um histórico no país que liga agronegócios a potenciais desmatamentos e queimadas. Bancos públicos e privados líderes na concessão de crédito ao agronegócio já estão olhando há tempo para esses aspectos, e não operam mais com tomadores envolvidos em ações negativas para o meio ambiente. Já tivemos um primeiro momento de profissionalização e separação desses casos, mas isso sempre ficou muito da porta para dentro. O banco fazia esse processo, aprovava os bons casos e reprovava os maus, mas nunca divulgou essas informações para o mercado. Acredito que neste momento podemos estar diante da chance de começar a fazer isso, de profissionalização desse mercado, inclusive com certificações ESG que destaquem os produtores rurais com as melhores práticas ambientais, sociais e de governança. Trazer os produtores para o mercado de capitais pode estimulá-los a buscar essas certificações.

Mas como fazer essa profissionalização?
Hoje, são pouquíssimas casas que fazem essas certificações. Ainda é muito caro e burocrático ter um CRA Verde, como chamamos. Mas o crescimento dos fiagros pode resultar em avanço das certificações, atraindo novos players com mais eficiência, permitindo aos produtores seguir as práticas ESG. Os bancos já estavam olhando isso e acho que os fiagros ajudam no desenvolvimento desses compromissos, principalmente ambientais.

Porque o mercado financeiro demorou tanto a chegar ao agronegócio? A vizinha Argentina, por exemplo, há décadas já tem instrumentos para investimentos no campo. Por que no Brasil demorou tanto?
Porque nunca precisamos. Os bancos públicos brasileiros e suas linhas subsidiadas foram capazes de suprir a necessidade de crédito do campo até pouco tempo atrás. Não havia um instrumento adequado do lado do mercado de capitais, mas também não existia a necessidade e nem a busca pela criação de um novo instrumento. A demanda por crédito adicional provocou pressão no Congresso Nacional para a instituição desse veículo. O processo foi conturbado: por indicação da equipe econômica, o presidente Jair Bolsonaro vetou a isenção de imposto para o fiagro, o tema voltou para o Congresso Nacional, que derrubou o veto, assegurando a isenção. Mas cada vez mais o país tem limitações fiscais que o setor privado e o mercado de capitais buscam suprir.

Qual o tamanho do mercado de fiagros hoje?
Ainda é um pedaço muito pequeno das necessidades do setor, são R$ 4 bilhões em patrimônio diante da necessidade de financiamento de R$ 250 bilhões, que é o tamanho do Plano Safra. Mas acredito que o espaço dos fiagros vai aumentar. Nunca houve uma exigência tão latente por alternativa de fund como agora. Isso empurrou a procura por alternativas e o instrumento surgiu como uma solução muito bem pensada para o setor. O fiagro foi um mecanismo encontrado para que a crescente falta de crédito para o agronegócio tivesse um potencial suprimento através do mercado de capitais.

Qual o peso dos fiagros na estrutura da Galapagos?
A Galapagos já opera outros instrumentos voltados para o agronegócio, inclusive muito antes do fiagro operávamos com um FDIC [Fundo de Investimento em Direitos Creditórios] voltado para financiar produtores agrícolas. Com a criação dos fiagros, a gente vê um grande potencial de crescimento nessa área mas é difícil dimensionar quanto ela vai representar dentro dos nossos negócios. Entretanto, podemos dizer que é um dos setores nos quais depositamos boa parte das nossas atenções.