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A inevitável e imprescindível agenda ESG | Marcelo Mello

Edição 332

√Č interessante falar sobre as quest√Ķes ESG (do ingl√™s environmental, social & governance) no fechamento de 2020. O ano foi emblem√°tico para esta agenda, que se consolidou e ganhou for√ßa entre as lideran√ßas corporativas e do mercado de investimentos ap√≥s duas d√©cadas desde o surgimento das primeiras iniciativas. A ‚Äúmoda‚ÄĚ parece recente, mas o tema definitivamente n√£o √©. J√° se passaram 21 anos desde o lan√ßamento do primeiro √≠ndice de sustentabilidade no mundo, o Dow Jones Sustainability Index (1999), praticamente 20 anos desde o lan√ßamento do primeiro fundo de investimentos respons√°veis no Brasil (2001), 15 anos desde o lan√ßamento do √ćndice de Sustentabilidade Empresarial da B3 (2005) e 13 anos desde o lan√ßamento do PRI, principal acordo de investimentos respons√°veis no mundo (2007). Afinal, por que s√≥ agora o ESG entrou de fato no mainstream dos investimentos?
O aprendizado sobre os impactos das quest√Ķes ESG nas empresas e, por consequ√™ncia, nos portf√≥lios de investimento, envolve o desenvolvimento de estudos e cases que suportem a principal tese de investimentos ESG, de que empresas que integram esta agenda na sua estrat√©gia t√™m um desempenho acima de seus pares de mercado. A afirma√ß√£o tem sua fundamenta√ß√£o na maior dilig√™ncia na gest√£o de riscos, que levaria a uma maior preserva√ß√£o do valor das companhias. Probabilidades mais baixas de acidentes, mitiga√ß√£o de conflitos com stakeholders, menor exposi√ß√£o a conflitos de interesse s√£o exemplos de aspectos considerados na an√°lise de controv√©rsias ESG analisadas pelos investidores. Em seu Guia ESG, a Anbima refor√ßa a tese relatando estudo de Friede, Bush, & Bassen (2015) em que foram analisados mais de 2 mil trabalhos sobre a correla√ß√£o entre a ado√ß√£o de pol√≠ticas ESG e o desempenho financeiro. A conclus√£o foi que quase 90% dos trabalhos mostraram correla√ß√£o neutra ou positiva sendo que em 63% a correla√ß√£o foi positiva.
Um outro fator que começa a fazer diferença, no entanto, é que estas mesmas empresas também apresentam um diferencial competitivo por estarem mais alinhadas às novas demandas do mercado, preparadas para mudanças regulatórias e, portanto, conseguem ser mais inovadoras. Saem da agenda da preservação para a geração de valor.
Com essa constata√ß√£o, analistas e gestores passaram a considerar as quest√Ķes ESG como uma proxy de qualidade de gest√£o. Inicialmente pela via da governan√ßa corporativa, j√° plenamente incorporada pelo mercado, mas cada vez mais trazendo os aspectos ambientais e sociais para a pauta dos di√°logos e questionamentos com as companhias. O tema ganhou for√ßa em pa√≠ses desenvolvidos e em algumas regi√Ķes o volume de recursos que adota alguma estrat√©gia de integra√ß√£o ESG na decis√£o de investimentos ultrapassa os 50% do AuM dos mercados, como √© o caso na Europa, Canad√° e Austr√°lia.

No Brasil, tivemos uma primeira onda ESG a partir do lan√ßamento do ISE e do PRI, que aconteceram entre os anos de 2005 e 2007. O √≠ndice pautou o lan√ßamento de fundos de sustentabilidade, at√© ent√£o escassos no mercado local, enquanto o acordo internacional permitiu que se criasse um debate organizado em torno das quest√Ķes ESG para os investidores institucionais. Fomos os primeiros no mundo a ter uma rede local de signat√°rios do PRI, organizada pela Previ (representante da Am√©rica Latina no Conselho do PRI) e que virou modelo para o desenvolvimento de outras 9 redes nos EUA, Europa, √Āsia e Oceania. Ter um debate local foi fundamental para trazermos as especificidades do nosso mercado e dos nossos investidores, tanto entre os fundos de pens√£o como gestores de recursos. A SulAm√©rica Investimentos passou a integrar essa rede em 2009, participando ativamente das iniciativas locais e pontes com os investidores globais focados em avan√ßar na agenda de integra√ß√£o ESG.
Por alguns anos acompanhamos a evolu√ß√£o do mercado internacional ‚Äúde longe‚ÄĚ. As estrat√©gias de integra√ß√£o ESG no Brasil foram predominantemente de produtos best in class, fundos que selecionam as melhores empresas de cada setor para a composi√ß√£o do portf√≥lio, ou de integra√ß√£o transversal √†s an√°lises e modelos de valuation, segundo as pesquisas realizadas pela Anbima. Nos √ļltimos anos, no entanto, com a queda da taxa b√°sica de juros e a necessidade de diversifica√ß√£o das carteiras, o ESG se tornou uma tese de investimentos mais atrativa para os investidores institucionais locais, at√© que este ano tivemos um boom do tema no pa√≠s e no mundo.
As discuss√Ķes a partir da pandemia trouxeram √† luz os riscos da vulnerabilidade social e os potenciais impactos do atual modelo de neg√≥cios sobre o meio ambiente. Passamos a falar em capitalismo de stakeholders, redu√ß√£o das desigualdades sociais como caminho para a resili√™ncia econ√īmica, mercado de carbono, preserva√ß√£o do capital natural... temas que requerem um aprofundamento de conceitos e a participa√ß√£o ativa das lideran√ßas do setor p√ļblico e privado. A agenda saiu das √°reas t√©cnicas de meio ambiente e sustentabilidade para a mesa dos Conselhos de Administra√ß√£o e Comit√™s Executivos, pautados pela necessidade de revisitar a sua atua√ß√£o em uma sociedade e um mundo em mudan√ßa.
Quest√Ķes ESG dizem respeito √† efici√™ncia operacional, redu√ß√£o de riscos, potencial de crescimento e resili√™ncia em situa√ß√Ķes adversas como a que vivemos este ano. N√£o por acaso, os estudos de mercado apontam que boa parte dos √≠ndices de sustentabilidade e fundos ESG apresentam desempenho acima da m√©dia de mercado em 2020, considerando tanto a queda como a retomada do mercado. Segundo dados da BlackRock, no primeiro trimestre de 2020 94% dos √≠ndices de sustentabilidade globais tiveram um desempenho acima dos seus pares que n√£o consideram esses fatores na composi√ß√£o das carteiras te√≥ricas. No Brasil, foram criados dois √≠ndices que consideram a tem√°tica ESG na sua composi√ß√£o: o √ćndice S&P/B3 Brasil ESG, que utiliza as pondera√ß√Ķes ESG da S&P DJI para a forma√ß√£o de um √≠ndice amplo, e o √ćndice CDP de Resili√™ncia Clim√°tica, composto a partir do score de empresas listadas no Brasil no question√°rio de mudan√ßas do clima do CDP, maior banco de dados ambientais de empresas do mundo.
O lan√ßamento de fundos ESG pelos gestores, antes voltados quase exclusivamente para o mercado de a√ß√Ķes, invadiu o terreno dos ativos de cr√©dito privado, previd√™ncia e investimentos alternativos. O aumento da oferta √© importante para acompanhar o interesse do mercado em todos os segmentos, do varejo aos institucionais, mas temos que atentar para alguns pontos chave. A exist√™ncia de crit√©rios claros de diferencia√ß√£o dos produtos mainstream, uma metodologia consistente de an√°lise e composi√ß√£o de portf√≥lio e o monitoramento dos ativos em carteira s√£o imprescind√≠veis para garantir que os produtos n√£o se tratem apenas de uma estrat√©gia de comunica√ß√£o, conhecida no mercado como greenwashing. Resumindo, mais importante do que o produto espec√≠fico √© o grau de profundidade com que as gestoras de investimentos est√£o incluindo em seus processos de decis√£o os fatores ESG.
Para separar o joio do trigo entram em cena as associa√ß√Ķes, grupos de trabalho e, n√£o menos importante, os reguladores. Iniciativas como o Laborat√≥rio de Inova√ß√£o Financeira, coordenado pela ABDE, BID, CVM e GIZ, atuam em um modelo multistakeholder para gerar e disseminar conhecimento para o avan√ßo da agenda ESG no Brasil. O compartilhamento de informa√ß√Ķes promove sinergias entre associa√ß√Ķes do setor financeiro ‚Äď como FEBRABAN, Anbima, Abrapp e Apimec ‚Äď e geram insumos relevantes para as pautas regulat√≥rias do Sistema Financeiro Nacional. Al√©m da coordena√ß√£o da CVM, Banco Central e Susep participam ativamente do LAB, que este ano atuou, por exemplo, na pr√© consulta p√ļblica da Instru√ß√£o CVM 480, pautando a divulga√ß√£o de informa√ß√Ķes ESG pelas companhias abertas. Outros reguladores e supervisores como o Banco Central e a Previc j√° incluem estes aspectos na regula√ß√£o do sistema financeiro e se preparam para aprofundar a agenda, com a inclus√£o de temas como a an√°lise e reporte de riscos clim√°ticos, iniciativa lan√ßada no contexto da agenda BC#.
As quest√Ķes ESG, que come√ßaram como uma agenda volunt√°ria nas mesas de investimento, aproximam-se cada vez mais das √°reas de compliance com o aumento e aprofundamento da regula√ß√£o de companhias e institui√ß√Ķes financeiras. Ainda que no momento atual estejamos em meio a um tsunami ESG, a hist√≥ria nos mostra a consist√™ncia com que o tema se colocou na agenda dos investidores institucionais, saindo de uma tend√™ncia distante para a realidade da gest√£o de ativos no Brasil e no mundo. Seja pela demanda, pela performance ou pela regula√ß√£o, todos os caminhos levam ao ESG.

Marcelo Mello √© Vice-presidente de Investimentos, Vida e Previd√™ncia da SulAm√©rica

Baixo grau de previsibilidade econ√īmica amplia riscos | Luiz Sorge

Edição 332

Política, Economia e Pandemia continuarão se compondo nas pautas diárias para definir a direção dos preços dos ativos.
Em artigo recente no Jornal o Estado de São Paulo (20/12/2020) o prof. Affonso Celso Pastore cita, entre outros aspectos, o índice de incerteza da economia construído pela FGV e traz uma perspectiva da variação desse índice nas crises recentes. Considerando que acima de 100 o grau de incerteza se eleva e abaixo de 100 o grau de incerteza é reduzido, temos em 2002 e 2008 esse índice em torno de 130. Já em 2014 e 2016 chegou a esse mesmo patamar, e depois se estabilizou em torno de 110 no período de 2017 a 2019 quando tivemos crescimento do PIB na faixa de 1%.
No início da crise da Covid-19 no Brasil o índice de incerteza bateu seu recorde histórico, chegando a 210 pontos (!) e depois vem se mantendo em torno de 150 pontos.
O que isso traz de impacto para n√≥s que temos que gerir investimentos de longo prazo? Um grau de previsibilidade muito baixo, que pode nos levar a decis√Ķes que parecem fazer sentido no curto prazo mas que n√£o necessariamente se verificar√£o acertadas no longo prazo.
No Brasil temos um ingrediente adicional, que √© a taxa de juro a 2%, n√≠vel baix√≠ssimo para os padr√Ķes locais e que em termos reais, quando considerada a infla√ß√£o, fica no campo negativo.
Diante desse cenário, a diversificação dos portfólios de investimento, que era uma escolha no passado, é quase que mandatório hoje. Assim deverão continuar a ganhar mais protagonismo em 2021 os seguintes temas:
- Investimentos no Exterior, sob ao menos três perspectivas de diversificação: 1) a regional - selecionar que parte do mundo; 2) a setorial - no caso de Renda Variável temos alguns setores da economia pouco representados nos índices locais; e 3) a de moedas - em momentos de crise, como o atual, o real tende a se desvalorizar perante as moedas fortes, e assim investimentos no exterior (sem hedge cambial) podem servir de proteção para crises locais;
- Aumento da parcela alocada em renda variável: até pouco tempo atrás a média de alocação do investidor brasileiro em bolsa, girava em torno de 10%. Com os movimentos de realocação ocorridos principalmente em 2019 e 2020 esse percentual subiu, mas está longe da média global, que para investidores institucionais gira em torno de 50%;
- Investimentos alternativos: Estes j√° fazem parte da carteira de muitos investidores, principalmente grandes e m√©dios fundos de pens√£o e pessoas f√≠sicas de alta renda (recursos geridos, por exemplo, atrav√©s de Family Offices e Private Bankings). Por√©m Fundos Imobili√°rios, Fundos de Investimento em Participa√ß√Ķes e Fundos de Receb√≠veis dever√£o ganhar mais protagonismo de forma geral na carteira dos investidores;
- ASG: os filtros e crit√©rios de sustentabilidade ambiental (A), de impacto social positivo (S) e de boa governan√ßa (G) continuar√£o permeando de maneira transversal todos os temas acima. Na verdade, o que j√° √© realidade h√° um bom tempo para muitos investidores e gestores globais, somente h√° pouco tempo passou a fazer parte das discuss√Ķes da maioria dos investidores locais. Uma das raz√Ķes √© que a aloca√ß√£o hist√≥rica, majorit√°ria e satisfat√≥ria em t√≠tulos p√ļblicos federais reduzia a necessidade de uma an√°lise mais sofisticada dos ativos investidos, agora e doravante as demandas ser√£o outras ... e que bom, sinal de amadurecimento e desenvolvimento;
- A evolu√ß√£o Digital aplicada √† √°rea de investimentos: sem d√ļvida as atuais Fintechs continuar√£o ganhando protagonismo no setor de investimentos, mas tamb√©m aparecer√£o novas ferramentas digitais para auxiliar os investidores e os profissionais das √°reas de investimento a tomarem decis√Ķes mais sofisticadas.
Em resumo, o grau de incerteza elevado em conjunto com a necessidade de diversificação leva o investidor a tomar mais risco em um momento de previsibilidade reduzida.

E a√≠ se torna importante falar um pouco da ind√ļstria de gest√£o de recursos de terceiros (asset management). Notamos que a partir de mar√ßo de 2020, in√≠cio da crise pand√™mica aqui no Brasil, a demanda dos investidores por informa√ß√Ķes se tornou mais frequente e mais intensa. N√£o √© por menos, pois se somaram v√°rios fatores de diversas frentes:
- A necessidade imperativa de adapta√ß√£o de toda a sociedade de uma nova din√Ęmica em nossas vidas pessoais e corporativa, construindo, por exemplo, de maneira quase que obrigat√≥ria a cultura do home office (trabalhar de casa) para atividades e setores onde isso √© poss√≠vel;
- A implementa√ß√£o de um programa de distribui√ß√£o de renda que alcan√ßou 66 milh√Ķes de pessoas. Sendo que este, apesar de necess√°rio e justific√°vel, piorou nosso d√©ficit fiscal levando a d√≠vida p√ļblica a um patamar pr√≥ximo a 100% do PIB, e como consequ√™ncia tivemos uma redu√ß√£o do fluxo de investimentos globais em nosso pa√≠s ‚Äďtal como em outros emergentes - devido √† percep√ß√£o de risco aumentada;
- Uma maior dificuldade de aprovação de reformas estruturais, como por exemplo a administrativa e a tributária, que, entre outros aspectos, aumentariam a confiança do investidor local e global;
- A mudan√ßa de cen√°rio macroecon√īmico, onde a perspectiva - que se realizou ‚Äď de menor atividade dom√©stica nos fez sair de uma previs√£o de crescimento do PIB de +3% para -7% naquele momento, e que dada a retomada do 3¬ļ trimestre nos leva a prever algo em torno de -4,5%. E essa atividade econ√īmica reduzida trouxe impacto para a taxa de juro, permitindo uma pol√≠tica monet√°ria mais expansionista ‚Äď juro a 2% a.a. - bem como um facilitado controle da infla√ß√£o ‚Äď impactada negativamente nos √ļltimos meses do ano devido √† desvaloriza√ß√£o do real frente ao d√≥lar e a problemas de fornecimento de mat√©ria prima e de oferta de produtos em alguns setores;
- A desvalorização de ativos de diversas classes, onde a mais divulgada e percebida foi no mercado acionário, levando o índice Bovespa de aproximadamente 115 mil pontos para menos de 65 mil pontos;
- A marca√ß√£o a mercado dos t√≠tulos de cr√©dito privado e mais recentemente tamb√©m dos t√≠tulos p√ļblicos, impactando negativamente os fundos de renda fixa. E isso teve como uma das principais consequ√™ncias o resgate por parte do investidor menos qualificado ou menos informado ou ainda com menor toler√Ęncia a risco ‚Äď pois a maioria dos fundos passou a ter ativos com pr√™mios maiores, e, portanto, com perspectiva de recupera√ß√£o da rentabilidade.
Assim a crise n√£o s√≥ levou o investidor a buscar mais informa√ß√Ķes, mas tamb√©m a um melhor entendimento dos aspectos t√©cnicos de mercado, dos ativos e dos produtos, que anteriormente n√£o eram necessariamente foco de aten√ß√£o.
Nesse sentido, os gestores de recursos e a Anbima tiveram, e têm, um importante papel de informação ao mercado e a investidores, da mesma forma que a CVM soube, mais uma vez, ajudar o mercado a navegar da forma mais segura possível, evitando rupturas.

Aproveitando que estamos falando do regulador, vale ressaltar que em 2021 a CVM far√° mais uma evolu√ß√£o nas regras que regem os fundos de investimento. J√° est√° em audi√™ncia p√ļblica a reformula√ß√£o da instru√ß√£o CVM 555. Responsabilidade de Administradores, Custodiantes, Gestores e Investidores ser√° um dos cap√≠tulos ao qual ser√° dada aten√ß√£o, e outro √© uma maior flexibiliza√ß√£o para que os investidores possam acessar estrat√©gias de investimentos globais.
Portanto teremos que continuar fazendo a li√ß√£o de casa, acompanhando de perto os temas acima e outros que possam ser relevantes, para que nossas decis√Ķes sejam tomadas da forma mais profissional e racional poss√≠vel nesse momento √ļnico da hist√≥ria recente da humanidade, onde a economia global foi severamente impactada por uma crise na √°rea de sa√ļde.
E finalmente, sem d√ļvida temos sinais positivos para 2021. A perspectiva de vacina√ß√£o em massa no primeiro semestre do ano, somada √† liquidez global trazida pela resposta √† crise dos principais pa√≠ses atrav√©s de incentivos fiscais e monet√°rios, poder√£o levar √† continuidade do crescimento da atividade econ√īmica global e tamb√©m local.

Luiz Sorge é CEO do BNP Paribas Asset Management Brasil

Objetivo deve ser equilibrar a carteira para ganhar no longo prazo | Daniel Celano

Edição 332

O investimento previdenciário é desafiador, em função de horizontes de investimento mais longos, riscos de reinvestimento e riscos atuariais envolvidos. Não é uma tarefa simples traçar metas de rentabilidade críveis ao longo do tempo para os planos de previdência, no melhor interesse de seus participantes, além de identificar e pesar variáveis, entre riscos e oportunidades, que possam impactar os retornos esperados. Também é preciso compreender o perfil do investidor para atender aos seus objetivos e, ao mesmo tempo, trazer alternativas que possam eventualmente superá-los, por meio da diversificação da carteira, especialmente importante para planos de contribuição definida/ variável.
Ajudar alguém a construir o seu futuro financeiro e reserva de valor de longo prazo sempre é um trabalho complexo, que requer disciplina e expertise. Quando o presente se torna mais volátil e incerto, como agora, em meio à crise da Covid-19, esse trabalho se torna ainda mais desafiador e fundamental para buscar garantir os retornos almejados, especialmente no momento em que o investidor está mais preocupado e apreensivo.
De fato, no Estudo Global de Investidores 2020 da Schroders sobre aposentadoria, uma parcela significativa (41%) dos 23 mil investidores pessoas f√≠sicas ouvidas, em 32 localidades no mundo todo, expressou a preocupa√ß√£o de que a sua renda na aposentadoria poderia n√£o ser satisfat√≥ria. Al√©m disso, 55% acreditam que a previd√™ncia p√ļblica n√£o ser√° suficiente. No Brasil, esses percentuais eram de 33% e 62%, respectivamente. O estudo tamb√©m mostrou que essas apreens√Ķes est√£o refletidas na boa parcela de renda que os entrevistados disseram reservar para a aposentadoria: 15,2% globalmente e 16% no Brasil.
Por outro lado, 38% dos investidores disseram n√£o entender as op√ß√Ķes dispon√≠veis para eles com suas economias para a aposentadoria. No Brasil, 36% disseram se sentir dessa forma. Ou seja, apesar de ser positiva a parcela de renda dedicada para a aposentadoria, ainda falta uma compreens√£o maior do investidor sobre as alternativas para aplica√ß√£o dos recursos de maneira eficiente e diversificada. Porque n√£o basta reservar um bom percentual da renda para a aposentadoria: √© preciso investi-lo de maneira eficaz, com foco no longo prazo e com diversifica√ß√£o no portf√≥lio, combinando renda vari√°vel, renda fixa, multimercados no Brasil e no exterior.

Segundo a pesquisa, em tr√™s anos, aumentou de 5% para 21% a parcela dos aposentados em todo o mundo que est√£o investindo a sua renda dispon√≠vel de volta em suas poupan√ßas para a aposentadoria, dada a maior longevidade e o maior custo de vida que o vislumbrado anteriormente nessa fase da vida. Hoje, apenas 26% dos aposentados colocariam dinheiro em outro tipo de investimento, como a√ß√Ķes, t√≠tulos de d√≠vida ou commodities. Ap√≥s um ano de incertezas significativas, talvez isso n√£o seja surpreendente, mas certamente n√£o √© o ideal.
O estudo da Schroders também mostrou maior aceitação dos critérios ambientais, sociais e de governança (ESG) para investir com foco na aposentadoria. No geral, 42% dos investidores globais e no Brasil afirmaram que o investimento sustentável é atrativo devido à probabilidade de retornos mais altos. E apenas 8% das pessoas não investem em fundos que consideram os aspectos de sustentabilidade por acharem que eles não oferecem retornos mais altos. Ainda assim, os aposentados têm quase duas vezes mais probabilidade do que os não aposentados de ter essa percepção, indicando que eles podem estar perdendo as oportunidades oferecidas por esse tipo de investimento.
O ESG ganhou ainda mais relev√Ęncia ap√≥s a Covid-19 e, na perspectiva das finan√ßas, diz respeito √† probabilidade de o ativo continuar gerando retornos acima do mercado no longo prazo, o que √© o foco do investimento previdenci√°rio para uma renda satisfat√≥ria na aposentadoria. Empresas que t√™m uma abordagem ESG na condu√ß√£o de seus neg√≥cios tendem a ser mais resilientes e mais bem preparadas para os desafios futuros. Ou seja, incluir esses ativos no portf√≥lio contribui para mitigar riscos de cauda (eventos com baixa probabilidade de ocorrer, mas que, se ocorrerem, t√™m efeitos muito agudos).
Como vimos com o caso da Covid-19, as crises podem ser totalmente inesperadas e impor perdas mais fortes a um portf√≥lio de investimentos pouco preparado para eventualidades do tipo. Ainda assim, a situa√ß√£o exige ajustes eficazes e agilidade por parte do gestor para proteger o patrim√īnio e buscar manter as rentabilidades almejadas no longo prazo. No Brasil, o estudo da Schroders mostrou que, entre fevereiro e mar√ßo de 2020, quando os mercados de a√ß√Ķes passaram por um per√≠odo de volatilidade mais intenso, 79% das pessoas fizeram altera√ß√Ķes em sua carteira, com 70% delas modificando o n√≠vel de risco. Entre os entrevistados no pa√≠s, 27% disseram ter transferido por√ß√Ķes consider√°veis da carteira para investimentos de risco mais baixo; e 16% fizeram o mesmo movimento, mas para investimentos de risco mais alto.

A crise da Covid-19 tamb√©m provocou um foco maior do investidor nas suas aplica√ß√Ķes, com quase metade (49%) das pessoas entrevistadas afirmando que agora pensam em seus investimentos pelo menos uma vez por semana, em compara√ß√£o com 35% antes da pandemia. No Brasil, essa porcentagem √© ainda maior: 65% dos investidores pensam nas suas aplica√ß√Ķes frequentemente (ao menos uma vez na semana) desde o come√ßo da crise. Antes da crise, a parcela era de 52%.
Mas, apesar de toda a movimenta√ß√£o dos mercados e dos ajustes necess√°rios aos investimentos, √© preciso se ater aos princ√≠pios e objetivos previdenci√°rios, equilibrando a carteira para ganhar no longo prazo, e n√£o apenas para n√£o perder no curto prazo. Separar o barulho e ansiedade do curto prazo da trajet√≥ria e objetivos de longo prazo √© muito importante. O papel do strategic asset allocation como b√ļssola nessa trajet√≥ria √© ponto central para os investidores e gestores de fundos de pens√£o, ainda mais relevante quando as taxas de juros est√£o nas m√≠nimas hist√≥ricas, e o c√Ęmbio, desvalorizado. √Č natural que um momento de incerteza gere apreens√£o e avers√£o a risco no primeiro momento, mas pode-se observar uma busca por mais conhecimento financeiro dos clientes, bem como uma mudan√ßa relevante na composi√ß√£o dos portf√≥lios.
Torna-se cada vez mais cr√≠tico persistir com os objetivos de acumula√ß√£o para aposentadoria no longo prazo, com foco na diversifica√ß√£o, nas contribui√ß√Ķes mensais, em rentabilidades baseadas em juros reais e ap√≥s impostos, apesar das oscila√ß√Ķes moment√Ęneas do mercado, considerando a √≥tica ESG. Esse desafio foi intensificado pela crise em 2020 e persistir√° em 2021. Para super√°-lo com mais seguran√ßa, o investidor pode contar com a orienta√ß√£o de um profissional, capacitado a olhar para o cen√°rio mais amplo e com recursos para avaliar as m√ļltiplas vari√°veis em jogo nesse panorama cada vez mais complexo. A mudan√ßa de mentalidade do investidor, concentrado no desempenho das suas aplica√ß√Ķes e olhando para o futuro, j√° est√° em curso. Trata-se de transform√°-la efetivamente em realidade, para perseguir bons resultados e, assim, atingir as metas para a aposentadoria.

Daniel Celano é Diretor responsável pela gestão de recursos de terceiros da Schroders Brasil

Como fazer a gest√£o das carteiras com juros reais negativos | Marcelo Pacheco

Edição 332

Finalmente 2020 est√° acabando! Que ano foi esse! Desafios vieram de todos os lados, principalmente pelo advento da pandemia. Mas vamos manter nossa an√°lise restrita ao mundo dos investimentos. No in√≠cio de 2020, a proje√ß√£o do mercado para a taxa Selic em dezembro, divulgada pelo relat√≥rio FOCUS, era entre 4,25% aa e 4,50% aa. Mas a pandemia mudou tudo. Um dos fatos mais marcantes e relevantes do ano de 2020 foi o elevado est√≠mulo monet√°rio adotado pelo Banco Central como uma das medidas para enfrentar os impactos da pandemia na atividade econ√īmica, levando a taxa SELIC ao n√≠vel mais baixo da hist√≥ria, o que, associado a um pequeno repique inflacion√°rio no segundo semestre, provocou juros reais negativos no Brasil pela primeira vez desde o Plano Real. Este fato gerou um enorme desafio aos gestores de portf√≥lio para cumprir seus respectivos benchmarks ou passivos atuariais.
Um passivo atuarial de IPCA + 5% a.a. vai representar ao fim de 2020 algo pr√≥ximo a 10% de retorno a ser batido. Muito desafiador! Portanto, comprar um t√≠tulo p√ļblico federal longo e carregar at√© o vencimento n√£o √© mais suficiente. E o desafio continua, pois esperamos juros reais negativos tamb√©m para o ano de 2021, apesar de projetarmos um in√≠cio da normaliza√ß√£o da pol√≠tica monet√°ria, com redu√ß√£o gradativa dos est√≠mulos no segundo semestre do ano.
Ent√£o, o que fazer? Vejamos algumas alternativas. No segmento de juros, tanto reais quanto nominais, apesar da exist√™ncia de pr√™mio na curva, tamb√©m existe um risco elevado, tendo em vista o aumento recente dos √≠ndices inflacion√°rios, e da grande diferen√ßa entre as infla√ß√Ķes no atacado e no varejo. Essa infla√ß√£o represada pode representar uma recomposi√ß√£o de margem futura no varejo, quando a atividade econ√īmica for retomada plenamente. Tamb√©m representa uma elevada fonte de incerteza √† situa√ß√£o fiscal do pa√≠s, que adiciona pr√™mio na curva de juros. Em nosso entendimento, com as informa√ß√Ķes dispon√≠veis, o segmento est√° bem precificado e n√£o vemos grandes oportunidades vindas da√≠.
Ainda dentro da renda fixa, temos o segmento de crédito privado. Aí temos uma oportunidade! Em 2020 houve um significativo aumento dos prêmios pagos, sem que tenha havido aumento relevante do risco de crédito dos emissores. A propósito, a atuação do Banco Central foi decisiva para impedir uma onda de inadimplência no país. Apesar de ter havido alguma recuperação de preços no segundo semestre, hoje ainda é possível encontrar papéis do segmento high grade pagando remuneração de um papel high yield. Esse é um mercado que ainda não retornou aos níveis anteriores à pandemia.

Outro destino para os investimentos para o qual h√° aparente consenso √© o aumento da aloca√ß√£o em a√ß√Ķes. O ano de 2020 ofereceu uma enorme oportunidade de aumento da aloca√ß√£o em bolsa para quem teve cabe√ßa fria. A velocidade de recupera√ß√£o do mercado foi t√£o surpreendente quanto a velocidade da queda, e no momento que escrevo este artigo, 17 de dezembro, o Ibovespa n√£o s√≥ est√° positivo no ano, como j√° empatou com o CDI acumulado. Mas apesar de toda recupera√ß√£o, ainda vemos espa√ßo para altas adicionais. Por√©m, daqui em diante, o componente micro passa a ficar mais relevante do que o componente macro, e uma boa sele√ß√£o de pap√©is, ou stock picking, torna-se muito mais importante. Temos boas expectativas para os setores ligados ao mercado interno, mas embora ainda existam oportunidades, nem tudo est√° barato. Empresas boas pagadoras de dividendos, se bem selecionadas, tamb√©m ser√£o uma √≥tima alternativa com diversas delas pagando um dividend yield bem superior ao CDI esperado.
No exterior, com o avan√ßo das vacinas, a ser√≠ssima quest√£o da pandemia come√ßa a ficar para tr√°s. Outra ‚Äúp√°gina virada‚ÄĚ foi a elei√ß√£o americana. A partir de 2021, com a mudan√ßa pol√≠tica nos Estados Unidos, acreditamos que as tens√Ķes ligadas ao trade war diminuam bastante e que a agenda de integra√ß√£o internacional seja retomada lentamente, o que pode ser muito bom para pa√≠ses emergentes. Pode ser que estejamos apenas no in√≠cio de um novo ciclo de alta de commodities.
A internacionaliza√ß√£o dos investimentos est√° presente em praticamente todas as recomenda√ß√Ķes para 2021, com as quais concordamos totalmente. O investimento offshore √© um caminho sem volta em nossa opini√£o, embora ocorra em um ritmo relativamente lento, mas gradativo. O home country bias ainda √© muito elevado no Brasil, mas est√° caindo.
A quantidade de alternativas dispon√≠veis no exterior permite a ado√ß√£o de uma s√©rie de teses de investimento que n√£o seriam poss√≠veis de serem implementadas em nosso mercado interno, embora a estreia de uma s√©rie de BDR‚Äôs na Bovespa em 2020 tenha melhorado bastante nossas alternativas locais na busca por alfa. O investimento no exterior tamb√©m pode ser muito √ļtil para reduzir o risco do portf√≥lio na medida em que adicionamos ativos descorrelacionados com os temas dom√©sticos.

Um outro tema de relev√Ęncia crescente e que vai passar a exercer um peso cada vez maior nos portf√≥lios s√£o os investimentos sustent√°veis, ou ESG, sigla que engloba Environmental, Social and Governance. A ideia de que as empresas deveriam ter como objetivo apenas o lucro e n√£o se envolver em quest√Ķes socioambientais foi totalmente superada. Hoje o envolvimento do board das empresas nessas quest√Ķes √© crescente, por press√£o tanto de membros do pr√≥prio board quanto dos acionistas, clientes e fornecedores.
As empresas já estão começando a ser ranqueadas de acordo com o seu grau de adesão às práticas ESG e aquelas melhor colocadas certamente serão mais demandadas pelos investidores, tendendo a apresentar performance melhor no longo prazo. E tudo isso ocorre por iniciativa exclusiva das empresas e investidores, sem envolvimento de governos. Seria natural acreditar que o novo governo nos Estados Unidos implemente uma agenda que impulsione ainda mais essa temática, que já é bem mais madura na Europa Ocidental e Canadá, mas ainda incipiente nos demais países.
Portanto, apesar de ainda estarmos lutando contra a pandemia, mas com a expectativa em relação às vacinas, o ano 2021 inicia-se com expectativas bastante positivas, tanto no Brasil quanto no exterior, depois de um ano tão difícil. E, embora os preços dos ativos tenham apresentado recuperação surpreendente, ainda existem oportunidades, desde que saibamos endereçar nossos desafios internos, como a questão fiscal, por exemplo.

Marcelo Pacheco é Diretor executivo de gestão de ativos da BB DTVM

O ano em que o improv√°vel aconteceu | Opini√£o: Vinicius Vieira

Sempre que um ano termina nos pegamos imaginando como ser√° o pr√≥ximo, e assim fazemos planos, tra√ßamos metas e definimos objetivos. Sabemos que nem tudo vai ser como gostar√≠amos, afinal a vida √© uma caixinha de surpresas. Certamente, a maioria de n√≥s se viu nessa situa√ß√£o no fim do ano passado, pensando no que estaria por vir em 2020. √Č pouco prov√°vel, no entanto, que algu√©m imaginasse tudo o que aconteceu neste ano.
Uma das principais li√ß√Ķes que esse ano nos proporcionou √© que sempre pode existir o imponder√°vel. Sempre haver√° o risco de surgir alguma not√≠cia ou acontecer algo nos mercados que ningu√©m previu e que provocar√° movimentos abruptos de pre√ßos. Estes dificilmente ser√£o capturados na sua integralidade ou protegidos na sua totalidade. E isso ir√° afetar tanto as nossas carteiras de investimento pessoal, como as estrat√©gias e carteiras dos fundos de investimento.
Ao fim de 2019, projet√°vamos que 2020 seria o ano dos investimentos de risco. Est√°vamos com os juros nos menores patamares de sua hist√≥ria, ocorria a migra√ß√£o de recursos de renda fixa para renda vari√°vel, as empresas vinham apresentando crescimento de lucros, os fundos de investimento multimercados e de a√ß√Ķes, no Brasil e no mundo, apresentavam fortes capta√ß√Ķes e elevando suas exposi√ß√Ķes a riscos, ou seja, tudo para ser per√≠odo muito positivo. E essa avalia√ß√£o n√£o parecia errada, vimos ao longo do m√™s de janeiro os mercados em alta, apesar de not√≠cias envolvendo um poss√≠vel conflito Estados Unidos x Ir√£ e at√© mesmo da decreta√ß√£o de uma quarentena na prov√≠ncia de Hubei, na China.
Entre o fim de fevereiro e início de março, a narrativa mudou. Os mercados globais se viram diante da dura realidade de que o improvável pode acontecer. O coronavirus virou uma pandemia que parou a economia mundial. Nesse momento se inicia o período de queda mais rápida e intensa da história das bolsas, acompanhada de uma das maiores volatilidades já vistas.
A partir do fim de mar√ßo, houve mais uma mudan√ßa de narrativa. Governos passaram a usar de todo o arcabou√ßo que lhes √© dispon√≠vel para dar suporte √†s economias, como: programas de transfer√™ncia de renda, redu√ß√£o de taxas de juros, inje√ß√£o de liquidez nos mercados financeiros, entre diversas outras medidas que levam a recupera√ß√£o mais r√°pida da hist√≥ria das bolsas. Contudo, a din√Ęmica dessa alta foi diferente da que presenciamos em janeiro e at√© mesmo ao longo de 2019.
Nesse momento valorizam-se empresas de setores que tendem a apresentar crescimento de lucros superiores √† m√©dia do mercado, com destaque para empresas ligadas √† tecnologia, j√° que passamos a viver no ‚Äúmundo virtual da fam√≠lia Jetson‚ÄĚ, e as de biotecnologia, as quais passaram a investir pesadamente, buscando uma solu√ß√£o para Covid-19.
Chegando ao final de 2020, em novembro, esses investimentos em biotecnologia mostraram resultados e passamos a ter a real perspectiva da aprova√ß√£o de vacinas contra a Covid-19. Esse fato √© importante por reduzir a probabilidade de novos ‚Äúlockdowns‚ÄĚ em 2021, permitindo o in√≠cio de um ciclo mais forte de crescimento econ√īmico global e a volta ao nosso ‚Äúantigo normal‚ÄĚ. Esse fator tem impactado positivamente os mercados acion√°rios globais, por√©m com din√Ęmica diferente em rela√ß√£o √†s empresas em valoriza√ß√£o, em um claro movimento de rota√ß√£o entre pa√≠ses e setores, que tem potencial de perdurar, tudo mais constante, at√© o final do primeiro trimestre de 2021.
Esse movimento de rota√ß√£o permite que setores e pa√≠ses mais ligados ao estilo de investimento valor, que s√£o aqueles que se encontram descontados em rela√ß√£o a sua pr√≥pria hist√≥ria e a m√©dia do mercado, apresentem forte alta, superando aqueles ligados ao estilo crescimento. Dentro desse contexto, percebemos alguns pa√≠ses emergentes tendo desempenho superiores aos desenvolvidos e setores mais vinculados √† ‚Äúeconomia real‚ÄĚ, como aqueles ligados a petr√≥leo, turismo e financeiro superando os de tecnologia e biotecnologia.
Ao analisar as li√ß√Ķes que 2020 tem nos ensinado, como investidores, fica claro a crescente import√Ęncia da diversifica√ß√£o dos investimentos, n√£o s√≥ em termos de setores e a√ß√Ķes, como tamb√©m a exposi√ß√£o geogr√°fica. Nesses momentos de maior volatilidade e mudan√ßas de tend√™ncia, percebemos o valor de ter √† disposi√ß√£o um conjunto maior de op√ß√Ķes de investimento no exterior, permitindo alocar em diversos pa√≠ses, pois estes possuem diferen√ßas entre momentos econ√īmicos e de mercado.
E essa globaliza√ß√£o dos investimentos √© algo que cresceu e tende a continuar crescendo nos pr√≥ximos anos. Deixamos de investir somente em a√ß√Ķes brasileiras, mas passamos a procurar a√ß√Ķes ligadas a bolsa americana, de pa√≠ses emergentes, europeus, asi√°ticos, entre outros.
Outra tend√™ncia, que n√£o √© nova, mas ganha relev√Ęncia, √© a busca por investimentos que integrem quest√Ķes ambientais, sociais e de governan√ßa ‚Äď ASG. Do ponto de vista das empresas, esse ano mostrou que, aquelas que destacam no cuidado com o bem-estar de seus colaboradores e que procuram adotar os mais robustos n√≠veis de governan√ßa corporativa conseguem navegar por momentos de crise com maior tranquilidade, o que tende a se traduzir em desempenhos melhores.
E do ponto de visto dos investidores, estes passam a se preocupar cada vez mais com o propósito dos seus investimentos e de que forma seus recursos são aplicados. E essa, talvez, tenha sido a mudança de narrativa mais importante que 2020 trouxe: não se trata de buscar o retorno pelo retorno, mas sim de investir de maneira responsável e sustentável.

Vinicius Vieira √© head de gest√£o de fundos de a√ß√Ķes ativos da BB DTVM

Selic deve se manter baixa | Opini√£o: Paulo Gala

A √Ęncora da infla√ß√£o no Brasil est√° no mercado de trabalho depauperado e nas reservas cambiais. O d√©ficit p√ļblico prim√°rio indo a quase R$ 1 trilh√£o neste ano n√£o √© novidade. Gastamos em um ano praticamente o equivalente √† economia de uma reforma da Previd√™ncia de uma d√©cada. Isso n√£o fez a infla√ß√£o disparar e o IPCA deve fechar 2020 na casa dos 3,5%.
A acelera√ß√£o recente dos √≠ndices de pre√ßos por atacado, com destaques para IGPs e INCC, se deve a uma combina√ß√£o de desvaloriza√ß√£o cambial no Brasil e no mundo emergente com a alta de pre√ßos no mercado mundial de commodities. Parte da desvaloriza√ß√£o cambial se deve ao movimento de avers√£o ao risco global, parte a temores fiscais no Brasil. A arroba do boi, a soja, o min√©rio de ferro e tantas outras commodities est√£o perto de m√°ximas, gra√ßas, principalmente, √† demanda firme da China. A correta coordena√ß√£o econ√īmica do governo chin√™s, usando regula√ß√£o e instrumentos de mercado, tornou o pa√≠s o destaque mundial na resposta √† Covid-19. A China caminha a passos largos para se tornar a maior e mais relevante economia do mundo e as commodities brasileiras se beneficiam novamente de outra onda de crescimento do pa√≠s.
A China produzia 50% das m√°scaras cir√ļrgicas mundiais at√© o in√≠cio da pandemia. Com o surgimento do coronav√≠rus, suas f√°bricas aumentaram a produ√ß√£o em 12 vezes. Estima-se que 10 mil empresas de bebidas, carros, fraldas e at√© sat√©lites passaram a produzir produtos m√©dicos. Tudo com apoio do Governo, que flexibilizou licen√ßas, concedeu subs√≠dios e garantiu que comprar√° os estoques remanescentes A China n√£o est√° sozinha: Taiwan, por exemplo, tamb√©m implementou uma pol√≠tica industrial de emerg√™ncia para m√°scaras cir√ļrgicas. O estado chin√™s est√° estimulando a reconvers√£o industrial. Agora, com a epidemia sob controle na China, pa√≠ses que n√£o produzem o suficiente destes produtos viraram grandes compradores.
No Brasil, a infla√ß√£o n√£o deve voltar com for√ßa, pois a crise no mercado de trabalho dificulta os repasses de pre√ßos do atacado para o varejo. Apesar do salto dos IGPs, devemos ver nos pr√≥ximos meses um arrefecimento. A forte alta de pre√ßos j√° disparou gatilhos de produ√ß√£o que estavam enferrujados. A oferta responder√° √† alta de demanda e os pre√ßos de commodities e insumos da constru√ß√£o civil devem parar de subir j√° nos pr√≥ximos meses. Esse mecanismo est√° em opera√ß√£o tanto no mercado mundial quanto no dom√©stico. No front cambial, o BC tem muita muni√ß√£o que n√£o est√° utilizando. O grande boom de pre√ßos de commodities trar√° mais d√≥lares ao pa√≠s, tanto neste ano quanto no pr√≥ximo ano. A moeda brasileira tem uma das piores performances do mundo, tornando todos os pre√ßos brasileiros baratos: ativos financeiros, bens e servi√ßos. A trajet√≥ria mais prov√°vel para 2021 √© de arrefecimento da press√£o inflacion√°ria apesar dos temores fiscais. Os sal√°rios reais seguem deprimidos, o n√≠vel da produ√ß√£o industrial em m√≠nimas hist√≥ricas em termos de volumes, pr√≥xima ao patamar de 2007, o consumo e investimento agregados seguem ainda muito deprimidos. A infla√ß√£o ir√° convergir para a meta de 3,5% uma vez que hoje existe brutal capacidade ociosa na ind√ļstria, no setor imobili√°rio, no varejo em geral e no mercado de trabalho. Nesse cen√°rio, o Comit√™ de Pol√≠tica Monet√°ria deve seguir com taxa Selic na casa dos 2%, podendo ir a 3% para zerar os juros reais. Estamos no momento com juros reais negativos que podem incomodar a autoridade monet√°ria.
O atual contexto √© bastante distinto de 2012, quando o BC trouxe a Selic para suas m√≠nimas hist√≥ricas e acabou contribuindo para pressionar a infla√ß√£o em um contexto de demanda forte e escassez de oferta no Brasil e no mundo. Naquele momento, o Brasil estava em pleno emprego no mercado de trabalho, em franca expans√£o do cr√©dito privado e p√ļblico com taxas de varia√ß√£o da ordem de 20% ao ano. A infla√ß√£o de servi√ßos rodava a 8% ao ano.
No momento, a economia brasileira est√° parada e segue com dificuldades para recuperar o patamar de PIB de 2014. Os juros extremamente baixos deram algum f√īlego de retomada ao setor de constru√ß√£o civil via cr√©dito, mas sem aumento consistente de emprego e renda, o movimento n√£o ser√° sustentado. O c√Ęmbio mais desvalorizado est√° ajudando a ind√ļstria, mas, sem um vigoroso impulso de demanda, esta tamb√©m n√£o ir√° longe. O investimento privado segue deprimido, em m√≠nimas de quase uma d√©cada.
Diante deste contexto apesar da forte alta dos juros longos, teremos ainda um bom tempo de SELIC muito baixa no Brasil.

Paulo Gala √© diretor-geral da FAR ‚Äď Fator Administra√ß√£o de Recursos e economista

Responsabilidade fiscal √© a √Ęncora | Opini√£o: Alexandre Mathias

O cen√°rio econ√īmico a partir de 2021 depende fundamentalmente da percep√ß√£o sobre o risco fiscal da economia brasileira. A confirma√ß√£o da recupera√ß√£o em ‚ÄúV‚ÄĚ deveria afastar a tenta√ß√£o de flexibilizar o teto, mas a falta de uma defini√ß√£o elevou a incerteza e o custo do Tesouro, o que prejudica o pre√ßo dos ativos brasileiros e a pr√≥pria recupera√ß√£o.
A Covid-19 gerou uma emerg√™ncia econ√īmica e social, cuja mitiga√ß√£o levar√° a rela√ß√£o d√≠vida/PIB de 75,3%, em 2019, para 95%, em 2020. A situa√ß√£o s√≥ n√£o √© explosiva porque o Banco Central p√īde deixar a taxa de juros em n√≠veis muito baixos, enquanto o crescimento mais forte em 2021 ajudar√° a din√Ęmica da d√≠vida nos pr√≥ximos anos ‚Äď desde que o teto de gastos mantenha a integridade.
√Č natural que os investidores fiquem atentos aos sinais do or√ßamento. O teto do gasto tem sido uma √Ęncora fiscal cr√≠vel, capaz de impactar positivamente a percep√ß√£o de risco, mesmo numa conjuntura adversa. Atrasar a busca do equil√≠brio prim√°rio implica continuar se endividando para pagar juros, o que resulta em juros mais altos, enfraquecimento da moeda, press√£o sobre a infla√ß√£o e, consequentemente, menor crescimento.
Em um país desigual, as demandas sociais são muitas e justas, mas é evidente que a ampliação contínua dos gastos não é uma solução viável. O debate sobre como financiar um programa mais amplo de renda básica é uma oportunidade para melhorar o foco dos programas sociais brasileiros e inseri-los, de forma fiscalmente responsável, no orçamento.
A indexação é um fator de risco fiscal e inflacionário. Por isso, a desindexação, não só do salário-mínimo, mas de toda a economia, deveria ser uma prioridade, pois reduziria a propagação dos choques sobre os preços, ajudando a manter juros mais baixos.
No entanto, o debate recente sobre os programas sociais estimulou a percep√ß√£o de que houve um flerte com a ideia de aumentar os gastos √† revelia do teto. O foco dos investidores sobre a din√Ęmica da d√≠vida √© salutar, pois ajuda a defender a poupan√ßa das fam√≠lias brasileiras ‚Äď hoje, os principais detentores da d√≠vida p√ļblica, seja via fundos de investimentos ou via fundos de pens√£o.
Diante dos riscos gerados pela pandemia, a decis√£o de superdimensionar o est√≠mulo foi correta. Gra√ßas √† expans√£o fiscal, a recupera√ß√£o em ‚ÄúV‚ÄĚ, que muitos consideravam uma fantasia, hoje, √© uma realidade e a perda de renda e produto em 2020 foi, efetivamente, mitigada pelo tamanho e celeridade da a√ß√£o de governo.
Mas, agora, está claro que as medidas compensatórias ultrapassaram a maioria dos países, tendo ficado atrás apenas de EUA, Canadá e Japão, em proporção ao PIB, ocasionando um salto na dívida que precisa ser endereçado.
Em abril, quando incorporamos o impulso fiscal nos nossos modelos, conclu√≠mos que a economia teria uma recupera√ß√£o surpreendente. O consenso era de uma queda em torno de 8% do PIB, mas projet√°vamos uma contra√ß√£o de 4,5% em 2020, seguido de uma expans√£o de 5,3% em 2021. Nosso n√ļmero para 2020 √© consenso hoje.
Diante da recupera√ß√£o mais forte da atividade, n√£o haveria raz√£o para uma estrat√©gia fiscal de alto risco e baixo retorno. Insistir em estender um programa de est√≠mulo que, diante do crescimento n√£o se faz mais necess√°rio, s√≥ trar√° impactos negativos para as condi√ß√Ķes de financiamento do Tesouro Nacional.
O ruído em torno do orçamento de 2021 provocou uma deterioração na percepção de risco. O que se teme é a repetição de um ciclo vicioso, como no passado recente, quando a elevação do gasto piorou o fiscal, reduziu o crescimento e gerou crise política. A necessidade de encurtar a rolagem da dívida atesta que este perigo é real e imediato.
Nosso cen√°rio base, no entanto, mant√©m a cren√ßa em um ciclo virtuoso, no qual a responsabilidade fiscal assegura juros baixos, fomentando uma retomada forte e gerando um b√īnus pol√≠tico que permite avan√ßar na agenda de reformas.
A confirma√ß√£o das escolhas fiscalmente sustent√°veis ser√° o gatilho para a valoriza√ß√£o dos ativos no quarto trimestre de 2020. Na outra ponta, uma decep√ß√£o traria de volta uma din√Ęmica de crise.

Alexandre Mathias é diretor de investimentos da Petros

Ambiental não é modismo | Opinião: Adacir Reis

H√° quase vinte anos, por ocasi√£o de esc√Ęndalos corporativos nos Estados Unidos e dos debates que culminaram na cria√ß√£o da legisla√ß√£o Sarbanes-Oxley, ainda era poss√≠vel se ouvir em algumas rodas de conversa que o tema da governan√ßa corporativa n√£o passava de um modismo. Hoje ningu√©m mais duvida de que uma boa governan√ßa √© vital para o sucesso de qualquer empreendimento empresarial.
Com o passar do tempo também ficou claro que sem o respeito aos diversos stakeholders, sem um firme compromisso social, a começar pelos empregados e pelos consumidores, não há como uma empresa prosperar no longo prazo.
Já o tema do respeito ao meio ambiente, embora discutido há algum tempo, era o mais complexo para se tornar um item obrigatório na agenda dos investidores.
Portanto, pensando bem, o conceito de ESG -Environmental, Social and Governance não tem novidade, a não ser pela síntese que a sigla consegue fazer sobre esses três aspectos que devem estar presentes na análise de riscos de qualquer investimento.
Não se trata de modismo, nem tampouco de um tributo que se paga para figurar na galeria dos politicamente corretos. Também não é mera demonstração de preocupação social. Na verdade, a preocupação ambiental está se tornando algo intrínseco a um bom negócio, ao menos a um bom negócio duradouro.
Ainda que os planos de contribuição definida pressionem os gestores de entidades fechadas de previdência complementar (EFPC) para o curtoprazismo, será preciso cada dia mais mostrar que os resultados financeiros sólidos, e acima da média, exigem paciência, diversificação e visão de dia seguinte.
Na ess√™ncia, cabe aqui uma das m√°ximas de Warren Buffett: ‚Äúquando algu√©m me oferece um investimento prometendo retorno r√°pido, eu rapidamente digo n√£o‚ÄĚ.
Analisar riscos ambientais, de governança e sociais é agir com propósito, um propósito pragmático.
Com as reiteradas agress√Ķes ao meio ambiente, o que temos visto √© a desestabiliza√ß√£o de ecossistemas, o aquecimento global, enchentes e secas, e a possibilidade de rebeli√Ķes de v√≠rus, germes e bact√©rias, com danos incalcul√°veis para os neg√≥cios.
N√£o √© por acaso que Larry Fink, CEO e Chairman da BlackRock, a maior gestora de recursos do mundo, com mais de U$ 7 trilh√Ķes em ativos, alertou em sua famosa carta anual de 2020, antes mesmo da pandemia, que nos pr√≥ximos anos teremos ‚Äúuma mudan√ßa estrutural nas finan√ßas‚ÄĚ, destacando que ‚Äúo risco clim√°tico √© risco de investimento‚ÄĚ.
Tal afirmação não foi feita por um ativista ecológico, mas por alguém que tem o dever fiduciário de investir recursos de terceiros e buscar o lucro com zelo e responsabilidade.
Vale lembrar que a pr√≥pria Resolu√ß√£o CMN 4.661, de 2018, j√° prev√™ que ‚Äúa EFPC deve considerar na an√°lise de riscos, sempre que poss√≠vel, os aspectos relacionados √† sustentabilidade econ√īmica, ambiental, social e de governan√ßa dos investimentos‚ÄĚ (art. 10, par. 4¬ļ). Ap√≥s o Covid19, o ‚Äúsempre que poss√≠vel‚ÄĚ da Resolu√ß√£o CMN 4.661 dever√° ser lido como ‚Äúsempre poss√≠vel‚ÄĚ.
Nessa nova realidade, um dos desafios √© desenvolver uma m√©trica, um √≠ndice que possa razoavelmente parametrizar quesitos e resultados, orientando os analistas de risco sob o guarda-chuva do ESG (Harvard Business Review ‚Äď September/2020 ‚Äď The board‚Äôs role in sustainability - A new framework for getting directors behind ESG efforts).
A defesa do meio ambiente deixou de ser ‚Äúcoisa de ONG‚ÄĚ ou de ‚Äúecochato‚ÄĚ, r√≥tulos preconceituosos do passado, e entrou na agenda do capitalismo. Embora ainda haja algumas incompreens√Ķes, fruto de conflito intergeracional e de posi√ß√Ķes ideologizadas, as evid√™ncias v√£o se impor.
Empresas que atuam em mercados mais competitivos dificilmente sobreviver√£o se provocarem trag√©dias como as de Mariana e Brumadinho. Uma empresa do agroneg√≥cio que despreze a import√Ęncia da √°gua ser√° vista como um risco insuport√°vel.
Afirmar que a Terra √© redonda n√£o √© quest√£o de opini√£o. √Č um fato j√° provado pela ci√™ncia, a qual, apesar de surtos negacionistas, sair√° mais forte da atual crise do coronav√≠rus. Na mesma linha, avaliar um investimento pela √≥tica de poss√≠veis danos ambientais n√£o √© mais uma quest√£o de prefer√™ncia pessoal de ‚Äúinvestidores conscientes‚ÄĚ. Passou a ser um item obrigat√≥rio em qualquer an√°lise de risco de investimento, sobretudo de um investidor institucional.
Alexandre von Humboldt, o c√©lebre ge√≥grafo e viajante alem√£o que foi em vida mais famoso que Napole√£o, foi o primeiro a observar que a Terra √© um todo org√Ęnico e interdependente, advertindo-nos que as agress√Ķes √† Natureza trariam s√©rios dist√ļrbios para todos os seres vivos.
Depois de mais duzentos anos de tal advertência, depois de muitos encontros e desencontros, depois de uma grande crise pandêmica, parece que o capitalismo, ao menos o capitalismo que lidera o mundo, finalmente vai se casar com a natureza.

Adacir Reis é advogado, presidente do Instituto San Tiago Dantas de Direito e Economia e ex-titular da Superintendência da Previdência Complementar (SPC)

O futuro n√£o ser√° como era | Opini√£o: Mauricio da Rocha Wanderley

A ideia aqui √© realizar uma reflex√£o dos desafios da aloca√ß√£o dos fundos de pens√£o diante do cen√°rio econ√īmico p√≥s-pandemia. Convido o leitor a se afastar da percep√ß√£o de risco que ela nos trouxe. Neste cen√°rio mais adverso temos a propens√£o a um apetite a risco menor, o que vai de encontro √† necessidade de diversifica√ß√£o dos planos para o longo prazo.
√Č uma reflex√£o dif√≠cil, reconhe√ßo. Se voc√™ √© um c√©tico, que acredita que estamos em mais um ciclo insustent√°vel de queda de juros reais e que ser√° capaz de comprar aquela NTN-B maravilhosa depois de algumas curvas da estrada, a reflex√£o torna-se ainda mais dif√≠cil. Mas se voc√™ acredita que o ALM do seu plano BD n√£o ficar√° de p√© tecnicamente nos pr√≥ximos 10 anos sem uma maior diversifica√ß√£o e quer evitar o risco de come√ßar a semear um d√©ficit hoje, esta reflex√£o pode ter alguma utilidade.
Como vamos falar de futuro, para ilustrar este cen√°rio tomei emprestados alguns versos da m√ļsica ‚Äú√ćndios‚ÄĚ, de Renato Russo, e a sua dial√©tica para dar a dimens√£o da complexidade do momento que vivemos. Diz Russo, na m√ļsica: o que aconteceu ainda est√° por vir, e o futuro n√£o √© mais como era antigamente.
Em primeiro lugar, a parte f√°cil da est√≥ria: ‚Äúo que aconteceu ainda est√° por vir‚ÄĚ. Isto √©, o que aconteceu no resto do mundo acontecer√° por aqui. O Brasil come√ßa a trilhar, aparentemente de forma mais sustent√°vel, os caminhos que outros pa√≠ses viveram quando as suas taxas de juros ca√≠ram e os investidores come√ßaram a diversificar de forma mais intensa. O desafio ser√° a realoca√ß√£o significativa que ter√° que ser feita devido ao excesso de renda fixa e a baixa toler√Ęncia a perdas em classes de ativos de maior risco. Mudan√ßas t√™m ocorrido e pode ser vista na explos√£o da abertura de contas de pessoas f√≠sicas nas corretoras de bolsa de valores. Houve claro benef√≠cio de d√©cadas de juros reais elevados, mas parece que o paradigma da renda fixa como a resposta quase √ļnica para o alcance das metas dos planos de previd√™ncia est√° virando hist√≥ria, salvo melhor ju√≠zo dos c√©ticos.
E o que est√° por vir, em minha opini√£o, √© o aumento cont√≠nuo do risco assumido, processo esse que j√° come√ßou no passado, descobrindo-se o novo normal do risco necess√°rio para que os planos de previd√™ncia n√£o onerem demasiadamente os patrocinadores e participantes atrav√©s de contribui√ß√Ķes mais elevadas. A renda vari√°vel passar√° a assumir o papel de protagonista na busca do retorno. Caminharemos na dire√ß√£o do 60/40 de aloca√ß√£o entre renda vari√°vel e renda fixa. Al√©m disso, aumento do cr√©dito privado, fundos multimercados, fundos imobili√°rios e diversifica√ß√£o internacional.
Esta diversificação deveria ser global. Até agora o limite do segmento de investimentos no exterior foi adequado. Porém, ficará pequeno diante da necessidade da construção de uma política de investimentos mais eficiente na busca de retorno e na gestão de risco. Precisaremos aprimorar a legislação de investimentos para inserir o Brasil no mundo e não o mundo no Brasil.
Por√©m, contraditoriamente, ‚Äúo futuro n√£o √© mais como era antigamente‚ÄĚ. Apesar de conhecermos o caminho percorrido por outros investidores, em diversas economias, em seus processos de diversifica√ß√£o, o nosso momento hist√≥rico √© √ļnico. Estamos diante de mudan√ßas significativas, de grande complexidade, e que ocorrem com uma velocidade nunca vista, entre elas: sociais, econ√īmicas, ambientais e tecnol√≥gicas. O mundo vive em um ambiente de baixo crescimento, com taxas de juros negativas, mudan√ßas demogr√°ficas, aquecimento global, mudan√ßas nos padr√Ķes de consumo das novas gera√ß√Ķes, transforma√ß√£o digital e a disrup√ß√£o tecnol√≥gica, com os seus desdobramentos diretos sobre o mercado de trabalho e sobre neg√≥cios tradicionais que s√£o afetados ou at√© amea√ßados em sua continuidade. Isto tudo acelerado pela pandemia. Estas vari√°veis impactam diretamente o nosso produto, o plano de previd√™ncia, que depende da capacidade de empresas e indiv√≠duos pensarem o longo prazo. As pol√≠ticas de investimentos ter√£o que endere√ßar esse ambiente em constante mudan√ßa atrav√©s de cen√°rios mais complexos e por uma maior diversifica√ß√£o em si.
Os stakeholders terão que se adaptar aos novos tempos e lidar com diversas classes de ativos, em diferentes geografias com as quais possuem pouca familiaridade. Isso levará alguns fundos a necessitarem de apoio de consultorias especializadas. Não é mais o risco que cada um gostaria de correr tendo como paradigma a segurança da renda fixa, mas sim o risco necessário e a diversificação necessária associada que temos que correr para cumprir o novo dever fiduciário. A Valia e os planos da Vale no Canadá passaram a oferecer o Ciclo de Vida como solução mais eficiente para endereçar a necessidade de assunção de risco de forma mais inteligente e eficiente para os participantes dos planos de contribuição definida.

Mauricio da Rocha Wanderley é diretor de investimentos da Valia e membro do Comitê de Investimentos dos planos da Vale Canadá

Incerteza e desafios para 2021 | Opini√£o: Tatiana Pinheiro

Este ano foi um ano dif√≠cil! H√° quantos anos temos dito esta frase? A verdade √© que cada ano traz consigo seus desafios. Neste sentido, 2020 foi um ano dific√≠limo, atingido por uma crise sem precedentes na hist√≥ria e que levou a rea√ß√Ķes sem precedentes tamb√©m, vide o distanciamento social adotado por grande parte da popula√ß√£o mundial e a amplia√ß√£o dos programas de prote√ß√£o √†s fam√≠lias e empresas via est√≠mulos fiscais e monet√°rios.
Entre final de abril e in√≠cio de maio, Uni√£o Europ√©ia e EUA, que representam cerca de 50% do PIB mundial, impuseram regras de distanciamento r√≠gidas em regi√Ķes que representam cerca de 90% de suas economias. Com rela√ß√£o aos est√≠mulos monet√°rios e fiscais adotados nas economias avan√ßadas e emergentes, estimamos a soma ao redor de US$ 15 trilh√Ķes at√© agora. As respostas de pol√≠tica econ√īmica frente a esta crise foram muito maiores que nas demais crises. Por exemplo, na crise de cr√©dito de 2008 a primeira fase do afrouxamento quantitativo foi de US$1,6 trilh√£o, j√° na crise atual o afrouxamento acumula at√© agora US$ 2,5 trilh√Ķes, segundo o balan√ßo do Federal Reserve. Al√©m da recess√£o mundial, a crise atual tamb√©m resultou em ampla liquidez internacional e taxas de juros, livres de risco, ainda mais baixa no curto, m√©dio e longo prazo.
Ent√£o o que esperar para 2021? Pergunta complicada de responder, mas irei me arriscar em respond√™-la, na esperan√ßa que voc√™s, caros leitores, continuem comigo at√© o final deste breve artigo. Acredito que ser√° um ano dif√≠cil tamb√©m. Muito provavelmente ser√° um ano marcado por alta volatilidade nos pre√ßos dos ativos. A crise em 2020 causou colapso quase que sincronizado dos pre√ßos dos ativos, mas as respostas de pol√≠tica econ√īmica proporcionaram a inflex√£o deste movimento. A quest√£o sempre foi qualificar velocidade/intensidade da volta. 2021 ser√° o ano da continuidade deste processo de recupera√ß√£o iniciado em 2020, mas com todas as incertezas e riscos envolvidos nos ajustes econ√īmicos necess√°rios. As agendas de ajustes de diferentes magnitudes e complexidades das v√°rias economias devem ser o combust√≠vel para alta volatilidade ao longo do ano: as economias emergentes, cada qual com suas agendas de ajustes dom√©sticos, sendo a maioria de ordem fiscal; e as economias avan√ßadas tamb√©m com desafios nada triviais como a conclus√£o do Brexit na Europa, a defini√ß√£o de nova agenda econ√īmica nos EUA e as pr√≥ximas etapas de negocia√ß√Ķes no com√©rcio mundial.
A diversifica√ß√£o objetivando rentabilidade tamb√©m deve ser importante fator em 2021. O ambiente de taxas de juros baixa no mundo pode fazer com que, mesmo em um cen√°rio onde as incertezas econ√īmicas est√£o elevadas, o fluxo de capitais para ativos financeiros nas economias emergentes volte a crescer. Ao longo do ciclo de commodities entre 2004 e 2010, as economias emergentes receberam um fluxo de capital crescente. A entrada de capitais para emergentes passou de US$ 22 bilh√Ķes em 2004 para US$ 179 bilh√Ķes em 2010, segundo o acompanhamento do J.P. Morgan. Desde ent√£o, o fluxo de capitais foi reduzido fortemente. O montante de capital destinado aos emergentes em 2019 foi de US$ 55 bilh√Ķes e o grupo sofre com a sa√≠da de US$ 58 bilh√Ķes at√© setembro. Vale ressaltar que a Am√©rica Latina j√° sofre com sa√≠da de capitais desde 2018, muito devido √† frustra√ß√£o com o crescimento econ√īmico da regi√£o, abaixo de seu potencial nos √ļltimos seis anos, segundo nossas estimativas.
Muito provavelmente n√£o veremos o movimento de procura indiscriminada por rentabilidade do p√≥s-crise financeira de 2008. Os investidores estar√£o seletivos. Assim, as decis√Ķes dom√©sticas ser√£o determinantes na atra√ß√£o do fluxo de capitais. Para o Brasil √© evidente a import√Ęncia do redimensionamento dos gastos p√ļblicos na capacidade de atra√ß√£o de capitais. Por exemplo, alta volatilidade da moeda atrapalha previs√£o de rentabilidade dos investimentos e, consequentemente, reduz o interesse pelos ativos. O aumento da incerteza com rela√ß√£o √† condu√ß√£o da pol√≠tica fiscal e √† capacidade de solv√™ncia explica grande parte da recente eleva√ß√£o da volatilidade da taxa de c√Ęmbio. Se os impasses atuais permanecerem, receberemos muito pouco deste fluxo de capitais. Contudo, a hist√≥ria de 2021 come√ßa agora: grande parte da possibilidade de ajuste fiscal em 2021, como a aprova√ß√£o dos mecanismos autom√°ticos de ajuste dos gastos, principalmente com folha de pagamento dos governos federal, estadual e municipal, pode e deve ser decidida em 2020. Se nos comprometermos com ajuste fiscal de forma cr√≠vel, poderemos nos beneficiar dos ventos da liquidez de fora.

Tatiana Pinheiro é economista-chefe da BNP Paribas Asset Management