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A difícil escolha entre os custos e controles de gestão | Carlos Alberto Barros e Cecília Harumi

Edição 207

A rotina do mercado financeiro por si s√≥ coloca √† prova diariamente a gest√£o e a administra√ß√£o de investimentos. A ado√ß√£o da estrutura financeira mais adequada n√£o escapa desse processo, principalmente, quando se trata da exclusividade de investimentos dos recursos garantidores da entidade no mercado.Recomenda-se a op√ß√£o pelo fundo de investimento exclusivo como estrutura financeira para aplica√ß√£o dos recursos garantidores das entidades fechadas de previd√™ncia complementar, considerando os respaldos da regulamenta√ß√£o, da fiscaliza√ß√£o, al√©m da co- responsabilidade do gestor nos resultados. Ainda que o √īnus financeiro de cada uma tenha diferen√ßas acentuadas, sob a an√°lise da seguran√ßa jur√≠dica, n√£o resta d√ļvida de que o fundo de investimento √© op√ß√£o mais interessante para as entidades de previd√™ncia complementar. Enquanto que a carteira administrada, pela escassez de regulamenta√ß√£o, torna-se uma escolha de maior risco operacional.Em tempos de crise, os debates sobre as diferen√ßas de cada estrutura ganham destaque, principalmente, no quesito custos. Nas entidades fechadas de previd√™ncia complementar, as duas op√ß√Ķes t√™m casos bem sucedidos no mercado, mas, antes de transitar de uma para outra, n√£o se deve atentar somente para os custos. √Č preciso saber encontrar a seguran√ßa jur√≠dica e a transpar√™ncia necess√°rias aos investimentos, al√©m do cumprimento das obriga√ß√Ķes do passivo.Quando se fala nos fundos de investimentos, j√° temos em mente a legisla√ß√£o pr√≥pria, bem representada pela Instru√ß√£o Normativa n¬ļ. 409, da Comiss√£o de Valores Mobili√°rios, que atua como √≥rg√£o fiscalizador.Administradores e gestores de fundos de investimentos devem prestar contas para CVM e podem sofrer penalidades, em caso de descumprimento da legisla√ß√£o. Dentre as obriga√ß√Ķes, eles devem contratar auditoria externa para verificar as opera√ß√Ķes realizadas no exerc√≠cio fiscal. Tais controles proporcionam mais seguran√ßa ao cotista. E, considerando-se que as entidades fechadas de previd√™ncia complementar devem formar sua pol√≠tica de investimentos adequando suas caracter√≠sticas e seus objetivos de investimento de acordo com seu passivo, a constitui√ß√£o de um fundo exclusivo agregaria maior poder de controle.Por outro lado, a carteira administrada pode ser entendida como uma simples conta em institui√ß√£o financeira, aberta em nome do investidor e administrada por um terceiro legalmente capacitado (gestor/administrador), da pr√≥pria empresa, numa rela√ß√£o estritamente privada. A carteira administrada n√£o sofre qualquer restri√ß√£o em termos de limites de aplica√ß√£o, n√£o exercendo a CVM o controle da gest√£o.Assim, em alguns casos de plano de benef√≠cio definido em que se tem um acompanhamento atrav√©s do estudo de ALM, entidades mant√™m a gest√£o passiva com este tipo de ve√≠culo.Ponto em comum entre as duas op√ß√Ķes √© o pagamento de taxa de performance para seus gestores. A legisla√ß√£o permite a refer√™ncia da taxa de performance nos indicadores Selic, DI-Cetip, IMA e sub√≠ndices para renda fixa; Ibovespa, IBrX, IBrX-50, FGV-100, IGC, ITAG e ISE, para renda vari√°vel, al√©m da possibilidade da Secretaria de Previd√™ncia Complementar (SPC) e CVM, conjuntamente, estipularem outros √≠ndices.Enfim, a redu√ß√£o dos custos pode causar um desequil√≠brio no controle de gest√£o ou at√© levar a centraliza√ß√£o na gest√£o pr√≥pria. Vale lembrar que existem outros recursos que podem ser otimizados, o que inclui desde sistemas a profissionais com a renegocia√ß√£o e reavalia√ß√£o como um exerc√≠cio constante para um or√ßamento enxuto na gest√£o do investimento.
Carlos Alberto Barros é advogado associado da JCMB Advogados e Consultores e Cecília Harumi é diretora de Clientes Institucionais da LUZ Engenharia Financeira.

Impactos da desindexa√ß√£o da economia nas funda√ß√Ķes | Jorge Jo√£o Sobrinho

Edição 206

A queda da taxa real de juros no Brasil traz para o nosso contexto o desafio de viver sem os altos ganhos financeiros, com baixo risco, vividos na economia at√© recentemente, e leva o Pa√≠s a uma situa√ß√£o similar √† realidade das economias mais consolidadas.A queda dos juros era esperada h√° muito tempo, entretanto, alguns aspectos da economia brasileira ainda precisam de respostas. Um desses aspectos, que exploraremos aqui e que impactam diretamente os fundos de pens√£o, √© sobre a elimina√ß√£o da indexa√ß√£o na economia.Neste cen√°rio, os gestores de fundos de pens√£o, com a futura redu√ß√£o em sua carteira de t√≠tulos indexados a infla√ß√£o, dever√£o repensar a sua forma de gest√£o dos investimentos ‚ÄĒ para buscar a meta atuarial do plano e dos passivos ‚ÄĒ para manuten√ß√£o real do poder de compra dos benef√≠cios.Na gest√£o dos investimentos, teremos uma tend√™ncia de maior exposi√ß√£o aos ativos de alto risco (por exemplo, as a√ß√Ķes e o mercado de cr√©dito), uma vez que as aplica√ß√Ķes futuras de renda fixa devem proporcionar retornos inferiores √† meta atuarial atual no m√©dio e longo prazos, aumentando a demanda por uma gest√£o mais ativa. Vale ressaltar a necessidade de se repensar os atuais limites de investimentos em renda vari√°vel impostos pela legisla√ß√£o vigente.Os fundos est√£o rediscutindo as suas estrat√©gias de investimento para os pr√≥ximos anos. Embora os t√≠tulos indexados √† infla√ß√£o tenham ajudado a garantir a meta atuarial e ainda existam boas oportunidades, todos j√° est√£o avaliando novas perspectivas, como por exemplo, os investimentos imobili√°rios, IPOs, copyright, etc. Obviamente a estrat√©gia deve ser atrelada a uma revis√£o das metas atuariais.Al√©m da revis√£o da gest√£o dos investimentos e das premissas, pode-se dizer que a elimina√ß√£o da indexa√ß√£o autom√°tica para reajuste dos benef√≠cios do plano ser√° uma tend√™ncia para a manuten√ß√£o do equil√≠brio atuarial.Atualmente, os benef√≠cios definidos s√£o corrigidos, em sua grande maioria, por algum √≠ndice geral de pre√ßos (INPC, IGP, IPCA, etc.). Em pa√≠ses com baixa infla√ß√£o n√£o √© comum a utiliza√ß√£o de tal artif√≠cio, ou seja, pode haver uma redu√ß√£o do poder de compra dos benef√≠cios em patamares √≠nfimos, uma vez que a infla√ß√£o tamb√©m n√£o √© expressiva, se o retorno dos investimentos n√£o recuperar infla√ß√Ķes passadas.A elimina√ß√£o da indexa√ß√£o autom√°tica dos benef√≠cios n√£o √© um assunto que possa ser decidido por decreto, requer uma discuss√£o ampla com o mercado, para avaliarmos os impactos dessas medidas, sua aplicabilidade e quais as formas alternativas de corre√ß√£o dos benef√≠cios para o futuro.Para a substitui√ß√£o √† indexa√ß√£o autom√°tica, a nova metodologia consideraria a reposi√ß√£o da infla√ß√£o alcan√ßada pelo desempenho dos investimentos, reduzindo-se esta reposi√ß√£o caso n√£o se atinja a meta atuarial, ou, caso contr√°rio, utilizando-se parte da rentabilidade acima da meta atuarial para corrigir o benef√≠cio.Poder-se-ia adotar uma transi√ß√£o para esta metodologia utilizando-se √≠ndices compostos parcialmente pela infla√ß√£o passada e parcialmente pelo desempenho dos investimentos, at√© alcan√ßar o objetivo de 100% de desindexa√ß√£o ou de uma indexa√ß√£o apenas parcial.Esta metodologia poderia inclusive reduzir a problem√°tica atual de distribui√ß√£o do super√°vit e suas contesta√ß√Ķes, pois a mesma contribui para o equil√≠brio atuarial e evita o excedente financeiro do plano no per√≠odo atual.De outra forma, ou seja, se n√£o houver a desindexa√ß√£o do plano, um potencial retorno dos investimentos insuficiente para cobrir o reajuste dos benef√≠cios e a taxa de juros atuarial, implicar√° na necessidade de revis√£o do plano de custeio. O novo plano de custeio poder√° ser extremamente oneroso para as partes, participante e patrocinador, dependendo do tipo do plano.Com essas altera√ß√Ķes, as metas dos gestores devem estar vinculadas a uma manuten√ß√£o do poder de compra dos benef√≠cios do plano, dentro do limite de risco aceit√°vel, e devem ser estabelecidas para um per√≠odo maior que o per√≠odo de gest√£o de cada administrador, em linha com a governan√ßa da entidade.Preparar os planos para o desafio da desindexa√ß√£o da economia √© uma necessidade de todo o sistema e que, se n√£o for devidamente planejada agora, poder√° causar impactos severos dentro de alguns anos.Tal situa√ß√£o pode, em menores propor√ß√Ķes, ser comparada ao in√≠cio do plano de estabiliza√ß√£o econ√īmica, que provocou a ru√≠na dos bancos que n√£o se prepararam para viver sem os recursos f√°ceis da ciranda financeira.As quest√Ķes de ordem para o sistema de previd√™ncia complementar s√£o prud√™ncia, planejamento e monitoramento.
Jorge João Sobrinho é Consultor Sênior de Previdência Privada da Mercer

A queda da taxa de juros e a meta atuarial das funda√ß√Ķes | Ana Cristina Gon√ßalves da Costa Boicenco

Edição 205

Pela primeira vez em d√©cadas os juros nominais est√£o abaixo de dois d√≠gitos. A queda da Selic foi r√°pida e induzida por circunst√Ęncias que em grande parte est√£o relacionadas com acontecimentos externos, criando incongru√™ncias. O perfil das carteiras dos poupadores refletia uma realidade diferente, ditada pelos requisitos do processo de estabiliza√ß√£o.
Tendo que se impor ao ajuste lento dos desequil√≠brios das contas p√ļblicas, a ancoragem dos pre√ßos pressup√īs a atua√ß√£o incisiva da pol√≠tica monet√°ria, motivo pelo qual o pa√≠s sempre figurou nas primeiras posi√ß√Ķes do ranking de juros. N√£o √© por acaso que o brasileiro tem a maior parte de seus recursos em t√≠tulos p√ļblicos. Nas funda√ß√Ķes de seguridade, 72% das carteiras est√£o alocadas na chamada renda fixa, o que era compat√≠vel com a meta atuarial da maioria. O problema √© que em 2009 os juros reais tomando por base o IPCA devem ser da ordem de 4,5% ao ano. Em 2010, o quadro n√£o ser√° muito diferente. O que fazer? Recomendamos cautela. Tanto ao adotar mudan√ßas abruptas nas metas atuariais, quanto no que se refere ao perfil das carteiras. O Brasil absorveu os impactos negativos da crise sem que os indicadores de solv√™ncia externa se deteriorassem, o que coloca o pa√≠s em posi√ß√£o de ser percebido como um risco melhor. Assim, h√° que se considerar a hip√≥tese dos juros (reais) de equil√≠brio terem se reduzido. Trata-se, no entanto, de uma queda marginal. O processo de estabiliza√ß√£o avan√ßou lentamente nestes √ļltimos anos e o bom desempenho no teste imposto pela crise √© apenas mais um cap√≠tulo de uma hist√≥ria que est√° distante do seu ep√≠logo. Os desafios a ser enfrentados determinar√£o uma converg√™ncia lenta aos padr√Ķes dos que j√° realizaram a li√ß√£o de casa. O patamar de juros que estar√° em vigor neste e no pr√≥ximo ano ser√° exce√ß√£o imposta pela fase do ciclo, que ser√° longo e desembocar√° em um cen√°rio diferente daquele dos anos 2002 a 2007.

2009 e 2010 ‚Äď A desacelera√ß√£o mundial afetou o ritmo da economia brasileira. Tr√™s s√£o os canais de transmiss√£o: a retra√ß√£o do cr√©dito privado, o enfraquecimento do com√©rcio mundial e a piora na confian√ßa.
Houve um significativo ajuste de estoques com consequente elevação da ociosidade. O fechamento do hiato do produto foi responsável por trazer a inflação de volta à meta. Mesmo diante dos sinais de que a atividade esboça reação, e provavelmente voltará a crescer, será um longo caminho até que voltemos ao potencial. Sendo assim, é provável que a Selic chegue a 8,5% a.a, permanecendo em tal patamar por um período que pode se estender até o fim do terceiro trimestre no próximo ano. O cenário externo conspirará para que a retomada aqui seja tímida e nos brindará com uma pressão deflacionária decisiva para que o viés expansionista da política monetária seja mantido por um período longo.
Nos países avançados, a monetização se mostra aquém da redução do multiplicador bancário, principalmente na Zona do Euro e no Japão, onde os bancos centrais foram mais tímidos do que o FED, e onde a dependência das empresas ao financiamento bancário é maior do que a norte-americana. Os esforços empreendidos pelas autoridades conseguiram evitar o colapso, mas a normalização da operação bancária não se vislumbrará em um horizonte de pelo menos um ano. O crédito seguirá se contraindo.
Em √Ęmbito dom√©stico, s√£o poucos e limitados os fatores capazes de fazer a economia engatar uma marcha mais forte. Em que pese a queda dos juros, o cr√©dito concedido pelo setor privado tende a registrar expans√£o t√≠mida, encilhado pela liquidez internacional mais seletiva e pela alta da inadimpl√™ncia. A ind√ļstria, carente da demanda pelas exporta√ß√Ķes, ter√° que ajustar sua folha, sob pena de vir a operar de forma perigosamente ineficiente. A ociosidade, seja em territ√≥rio nacional, seja a no mundo, restringir√° o investimento. Os gastos do governo precisariam crescer algo como 15% (real) s√≥ para compensar a retra√ß√£o do disp√™ndio das empresas.
Portanto, o cenário é de juros baixos porque o crescimento será tímido.
Para os administradores de recursos sobram poucas alternativas: a renda fixa perde competitividade, mas a migra√ß√£o para os ativos de maior risco ter√° que ser feita com parcim√īnia. Sem cr√©dito, fica limitado o espa√ßo para a valoriza√ß√£o dos ativos de risco. A op√ß√£o pela renda vari√°vel ter√° que ser seletiva: a carteira ter√° que ser composta por pap√©is de empresas que tenham solidez financeira e sejam capazes de ganhar mercado. A sele√ß√£o eficiente vale tamb√©m para as carteiras de cr√©dito. A recess√£o prolongada reduziu o tamanho do mercado de capitais e faz crescer o risco do tomador.
Para al√©m de 2010, os juros praticados l√° fora ser√£o maiores. Al√©m de ter que competir pelos recursos neste cen√°rio, o Brasil enfrentar√° uma din√Ęmica dom√©stica de forma√ß√£o de pre√ßos menos benigna. A recupera√ß√£o ocupar√° a ociosidade. O PIB potencial ser√° menor, ressentido pela retra√ß√£o do investimento do bi√™nio anterior. Preocupa a deteriora√ß√£o das contas p√ļblicas j√° contratada. Nesse cen√°rio, os juros reais dever√£o subir para acima do patamar de equil√≠brio.

Ana Cristina Gonçalves da Costa Boicenco é economista chefe da Bram

Em defesa da governança praticada pela Previ | Renato Chaves

Edição 204

Em tempos de crise observamos o surgimento de alguns questionamentos relacionados com a atua√ß√£o dos fundos de pens√£o no Brasil, colocando em d√ļvida sua capacidade de fiscalizar a gest√£o das empresas de capital aberto e at√© seu real compromisso com a dissemina√ß√£o das boas pr√°ticas de governan√ßa corporativa.
O presente artigo busca provar que, em muitos casos, tais questionamentos s√£o feitos sem a devida pesquisa documental ou, pior ainda, s√£o formulados com completo desconhecimento do ‚Äúmundo dos neg√≥cios‚ÄĚ. Afirma√ß√Ķes do g√™nero ‚Äúinvestidores n√£o est√£o t√£o pr√≥ximos quanto deveriam de suas empresas, o que abre espa√ßo para uma atua√ß√£o passiva dos conselhos de administra√ß√£o‚ÄĚ, induzem a opini√£o p√ļblica a concluir que os fundos de pens√£o s√£o os culpados indiretos, por neglig√™ncia ou omiss√£o, por recentes esc√Ęndalos corporativos como os da Sadia e Aracruz, por exemplo.
Reconhecemos que fundos de pens√£o menores, que atuam sem uma estrutura de acompanhamento de mercado, tendem a adotar uma postura passiva no que diz respeito ao chamado ativismo societ√°rio. Isso se deve, em grande parte, ao processo de terceiriza√ß√£o da gest√£o, onde o gestor passa a perseguir uma rentabilidade pr√≥xima a de indicadores como o IBX e Ibovespa. Mas n√£o devemos deixar de reconhecer a import√Ęncia do movimento liderado pela Previ, incentivando √† migra√ß√£o das empresas participadas para os segmentos de listagem diferenciados (principalmente o n√≠vel 2 e o Novo Mercado), e os exemplos de gest√£o vencedora que suas empresas participadas, como Perdig√£o, Embraer e CPFL Energia, oferecem.
Sem d√ļvida, a defesa de direitos em quest√Ķes pontuais, na condi√ß√£o de acionistas minorit√°rios, √© a postura que ganha mais destaque na m√≠dia.
Além do dever fiduciário dos gestores, os valores envolvidos, como nos casos Arcelor Mitttal, AMBEV e Brasil Telecom, justificam a dedicação de tempo e recursos, ao invés da opção pela saída imediata via mercado.
Mas o constante monitoramento da gest√£o das empresas participadas, feito atrav√©s de conselheiros eleitos e com apoio das funda√ß√Ķes, muitas vezes √© avaliado como uma postura de defesa de interesses de um determinado grupo de acionistas. Ou seja, o alinhamento com o pensamento institucional dos fundos de pens√£o, muitas vezes, √© confundido com uma esp√©cie de ‚Äúc√≥digo oculto de conduta/obedi√™ncia‚ÄĚ do conselheiro para com esses investidores.
Cr√≠ticas desse tipo v√™m normalmente acompanhada de um discurso de defesa da ado√ß√£o dos conselheiros ‚Äúindependentes‚ÄĚ. Por√©m, n√£o seria demais lembrar que a suposta independ√™ncia n√£o representa um selo de qualidade, at√© porque in√ļmeros desses profissionais/consultores, ditos independentes, carregam conflitos ocultos ‚Äď s√£o consultores, ex-agentes do mercado, ou ainda  ‚Äúfigur√Ķes‚ÄĚ que ‚Äúemprestam‚ÄĚ o nome a in√ļmeros conselhos sem uma dedica√ß√£o razo√°vel de tempo.
Na Previ, que adota uma Pol√≠tica de Negocia√ß√£o de A√ß√Ķes (pela Instru√ß√£o CVM n¬ļ 358 tal mecanismo √© facultativo) que poucas empesas adotam, nunca tivemos casos de insiders dentro dos conselhos.
Claro que, por conta da relevante representatividade no mercado de capitais, muitas vezes os fundos de pens√£o encontram-se em dois lados de uma mesma opera√ß√£o, como no caso da reestrutura√ß√£o da Telemar/2006. A Comiss√£o de Valores Mobili√°rios (CVM) foi consultada sobre o voto dos acionistas detentores de a√ß√Ķes ON e PN, que autorizou a votar. Havia um grupo de preferencialistas contr√°rio √† opera√ß√£o e outros que avaliavam que seria melhor com a reestrutura√ß√£o do que a estrutura em vigor. Prevaleceu a vontade do mercado, com suas idiossincrasias, algo que foge dos modelos cartesianos de avalia√ß√£o do mundo acad√™mico.
Por√©m, duvidar da real disposi√ß√£o da Previ em apoiar sempre as melhores pr√°ticas de governan√ßa corporativa, √© desconhecer completamente suas iniciativas, que enumero a seguir: ‚ÄĘ lan√ßamento de um C√≥digo de Melhores Pr√°ticas de Governan√ßa Corporativa; ‚ÄĘ campanha pela dissemina√ß√£o de conselhos fiscais de car√°ter permanente ‚Äď mais de 40 empresas j√° tem expressa essa condi√ß√£o em seus estatutos sociais; ‚ÄĘ luta pelo direito dos minorit√°rios ordinaristas elegerem um conselheiro fiscal nas empresas com free float acima de 10%, independente do comparecimento desse grupo na assembl√©ia; ‚ÄĘ luta pela queda da restri√ß√£o √† participa√ß√£o na assembl√©ia pelo descumprimento do prazo para dep√≥sito pr√©vio de procura√ß√Ķes, conforme decis√£o da CVM; ‚ÄĘ defesa, perante a Bovespa e CVM, da transforma√ß√£o da Pol√≠tica de Negocia√ß√£o de A√ß√Ķes em documento obrigat√≥rio, como forma de combater o chamado ‚Äúinsider‚ÄĚ; ‚ÄĘ campanha pela dissemina√ß√£o de comit√™s estatut√°rios de assessoramento dos Conselhos de Administra√ß√£o e ado√ß√£o de regimentos internos; ‚ÄĘ dissemina√ß√£o de boas pr√°ticas de governan√ßa corporativa para o setor imobili√°rio;  ‚ÄĘ o recente lan√ßamento do Manual para participa√ß√£o em assembl√©ias, na busca de maior transpar√™ncia e incentivo √† participa√ß√£o nesses encontros.

Renato Chaves √© ex-diretor de participa√ß√Ķes da Previ

Despesas administrativas: uma contribuição ao debate | Newton Carneiro da Cunha

Edição 203

A Lei Complementar n¬ļ 109/2001, que disp√Ķe sobre o Regime de Previd√™ncia Complementar, em seu artigo 3¬ļ determina que a a√ß√£o do Estado, seja na normatiza√ß√£o, seja na fiscaliza√ß√£o, al√©m de buscar a preserva√ß√£o da liquidez, solv√™ncia e equil√≠brio de cada plano de benef√≠cios, dever√° tamb√©m faz√™-lo para as atividades administrativas das Entidades, inclusive no que toca a limites, controles e transpar√™ncia de informa√ß√Ķes sobre os gastos com sua gest√£o.
Assim, entendemos que a elabora√ß√£o de normativo para regular o tratamento e controle das despesas administrativas das Entidades Fechadas de Previd√™ncia Complementar aparece num momento bastante adequado na agenda da Secretaria de Previd√™ncia Complementar (SPC), logo ap√≥s a Resolu√ß√£o CGPC 28/2009 ter institu√≠do o Plano de Gest√£o Administrativa (Anexo C, Artigo 27), que dever√° ter regulamento pr√≥prio aprovado pelo Conselho Deliberativo da Entidade. Expressamos nossa concord√Ęncia, pois √© fundamental constituir e consolidar par√Ęmetros de racionalidade e probidade administrativa na condu√ß√£o das atividades dessas Entidades, de forma a garantir a perenidade da estrutura administrativa t√£o necess√°ria numa institui√ß√£o cuja clientela sempre necessitar√° contar com seus servi√ßos no longo prazo.
Entendemos que o ponto de partida j√° foi dado, e, registre-se, muito bem feito: o elenco de contas cont√°beis para registro das despesas administrativas das Entidades tal qual apresentado na Resolu√ß√£o CGPC 28/2009 √© suficientemente amplo e desagregado, ampliando sobremaneira o grau de transpar√™ncia neste quesito. Contudo, acrescentar√≠amos que seria importante caminharmos tamb√©m para um tratamento mais detalhado das despesas de terceiros com a gest√£o dos ativos de investimento, considerando que estas t√™m impacto significativo sobre os recursos dos planos de benef√≠cios, al√©m do fato de que sua ampla divulga√ß√£o permitiria a realiza√ß√£o de avalia√ß√Ķes comparativas e a cria√ß√£o de par√Ęmetros e padr√Ķes para a tomada de decis√£o dos administradores das Entidades no momento da defini√ß√£o dos gestores de seus recursos.
Neste sentido, e na linha do que a SPC vem fazendo nos √ļltimos anos, √© importante ouvir os atores envolvidos, de forma a garantir a constru√ß√£o de um normativo que seja representativo da heterogeneidade das situa√ß√Ķes das Entidades ‚Äď quanto √†s formas de organiza√ß√£o (multipatrocinada ou n√£o; multiplano ou n√£o, etc.); quanto √† maturidade dos planos (rela√ß√£o entre participantes assistidos /ativos); quanto √†s formas e fontes de custeio administrativo, etc ‚Äď, dado que, dificilmente, encontrar-se-ia um ‚Äún√ļmero m√°gico‚ÄĚ ou uma ‚Äúforma m√°gica‚ÄĚ que garanta a cobertura das despesas administrativas de conjunto t√£o d√≠spar de institui√ß√Ķes.
Por sua vez, os administradores das Entidades ‚Äď dada sua responsabilidade de definir o modus operandi do Plano de Gest√£o Administrativa ‚Äď ter√£o a oportunidade de estabelecer, nos normativos de suas institui√ß√Ķes, procedimentos e indicadores de desempenho que controlem e avaliem a destina√ß√£o, a evolu√ß√£o e a qualidade dos gastos administrativos das EFPCs, permitindo, portanto, seu monitoramento e, sempre que necess√°rio, a adequa√ß√£o da estrutura administrativa ao custeio administrativo (fontes de recursos), deixando claro que a primazia deve ser a otimiza√ß√£o do patrim√īnio dos participantes.
Finalizando, registramos nosso entendimento de que debater e regular este tema é um passo firme que resultará em mais avanço na governança corporativa de nossas Entidades, e que também trará, no médio prazo, melhoria na qualidade dos gastos e maior racionalidade administrativa, o que certamente atende aos anseios de todos os atores do sistema.

Newton Carneiro da Cunha é diretor Administrativo da Petros

Investimentos de Funda√ß√Ķes com Base em Risco/Retorno1 | Alexandre Lowenkron e C√©sar Arag√£o

Edição 202

Investimentos de Funda√ß√Ķes com Base em Risco/Retorno1 Como adequar a gest√£o de investimentos √†s peculiaridades dos fundos de pens√£o? Neste artigo apresentamos um modelo que otimiza a rela√ß√£o risco/retorno apropriada aos fundos de pens√£o e ao mesmo tempo incorpora a opini√£o subjetiva do gestor.As primeiras dificuldades que surgem na utiliza√ß√£o pr√°tica dos modelos, mesmo os tradicionais, s√£o que (i) um importante input, o retorno esperado dos ativos, √© de dif√≠cil estima√ß√£o e (ii) a aloca√ß√£o √≥tima √© muito sens√≠vel a pequenas mudan√ßas nos retornos esperados. Um modelo Bayesiano, que combine as expectativas do investidor sobre o comportamento dos ativos com os retornos de equil√≠brio inferidos do mercado resolve isso e ainda permite incorporar de forma cient√≠fica as opini√Ķes subjetivas do investidor, condi√ß√£o necess√°ria para o sucesso de qualquer gest√£o.√Č tamb√©m fundamental escolher o portf√≥lio considerando a rela√ß√£o risco/retorno adequada. Ao inv√©s do tradicional Retorno Esperado / Volatilidade dos Ativos, propomos otimizar a rela√ß√£o Super√°vit Esperado / Probabilidade de D√©ficit, pois este √© o objeto do mandato e o verdadeiro risco enfrentado pelas funda√ß√Ķes.Para cada n√≠vel de super√°vit esperado, a fronteira indica a menor probabilidade poss√≠vel de d√©ficit e o portf√≥lio √≥timo correspondente. Um maior super√°vit esperado ter√° necessariamente um risco de d√©ficit maior.Cabe ao gestor, em fun√ß√£o do seu mandato, escolher um dos pontos desta fronteira.Apresentamos na tabela abaixo um exemplo hipot√©tico para um fundo com super√°vit de 20%, passivo com duration de 10 anos indexado ao IPCA e incerteza na proje√ß√£o dos fluxos atuariais de 9%.O portf√≥lio (a) √© proveniente da tradicional fronteira retorno esperado/ volatilidade dos ativos. J√° os portf√≥lios baseados na fronteira para fundos de pens√£o proposta deste artigo, encontram-se nas linhas (b), (c) e (d) da tabela. Todos estes s√£o diretamente compar√°veis com (a): (b) tem o mesmo retorno esperado, (c) a mesma volatilidade dos ativos e (d) a mesma probabilidade de d√©ficit. Note que (b) domina (a) estritamente j√° que tem uma menor probabilidade de d√©ficit e um super√°vit esperado maior. Comparando as aloca√ß√Ķes, percebe-se um aumento da posi√ß√£o em bolsa em fun√ß√£o da duration mais longa do passivo e do efeito diversifica√ß√£o gerado pela incerteza existente sobre os fluxos atuariais projetados. Al√©m disso, a carteira (b) se concentra em NTN-Bs, resultado da indexa√ß√£o do passivo ao IPCA.Este √ļltimo efeito est√° presente em todos os demais portf√≥lios da nova fronteira. Uma conseq√ľ√™ncia √© que a volatilidade da carteira de ativos necessariamente fica maior, o que n√£o significa que o portf√≥lio fica mais arriscado, pelo contr√°rio. O exemplo (c) ilustra isso: tem a mesma volatilidade de (a), mas uma probabilidade de d√©ficit muito menor. J√° o portf√≥lio (d) tem o mesmo risco (probabilidade de d√©ficit) que o portf√≥lio original (a), mas uma expectativa de retorno bem maior.Portanto √© poss√≠vel criar um modelo de gest√£o que inclua as peculiaridades do passivo/super√°vit atuarial e que utilize um modelo Bayesiano para a distribui√ß√£o esperada dos retornos. Como demonstrado neste artigo, os resultados ser√£o superiores aos obtidos da forma tradicional para os fundos de pens√£o.1
1 Agradecemos Carlos Salami, Argus Oliveira e Jos√© Coriolano pelas sugest√Ķes no desenvolvimento do modelo proposto neste artigo.
Alexandre Lowenkron é gerente de pesquisa de modelos quantitativos do BBM e Cesar Aragão é gerente de controle de risco, compliance e análise e gestão de investimentos do BBM.

Os Avan√ßos das Funda√ß√Ķes e as Pr√≥ximas Provid√™ncias | Jos√© Edson Cunha J√ļnior

Edição 201

O grau de amadurecimento dos fundos de pens√£o pode ser mensurado pela significativa evolu√ß√£o de sua legisla√ß√£o, seja no que se refere √†s quest√Ķes de governan√ßa, √†s regras de aplica√ß√£o de seus recursos garantidores e √†s regras de precifica√ß√£o dos ativos de investimentos, bem como √†s regras de tributa√ß√£o no imposto sobre a renda.√Č oportuna a preocupa√ß√£o do segmento de previd√™ncia complementar com a necessidade de se investir na educa√ß√£o previdenci√°ria tendo em vista a pequena parcela de trabalhadores cobertos pelo sistema de previd√™ncia complementar.√Č concreta, tamb√©m, a justa forma de tratamento dispensada pelo Conselho de Gest√£o da Previd√™ncia Complementar - CGPC ao tema equacionamento de d√©ficit t√©cnico e destina√ß√£o de super√°vit em planos de previd√™ncia complementar fechada, ocasi√£o em que os formadores do resultado, participantes e patrocinadores, atuar√£o de forma proporcional aos seus aportes.Apesar dos fundos de pens√£o j√° virem se utilizando de plano de contas com relevante grau de transpar√™ncia, existia a necessidade de sua atualiza√ß√£o, bem como de suas respectivas regras, objetivando o encontro com a evolu√ß√£o de nosso sistema, al√©m da harmoniza√ß√£o com as regras cont√°beis da Ag√™ncia Nacional de Sa√ļde ‚Äď ANS e com as regras internacionais de contabilidade.O CGPC e a Secretaria de Previd√™ncia Complementar ‚Äď SPC enfrentaram este desafio de maneira democr√°tica uma vez que, em todos os est√°gios do processo de elabora√ß√£o das normas cont√°beis, todas as organiza√ß√Ķes que militam em previd√™ncia complementar puderam debater e opinar.Apesar de manter a filosofia de centro de custos, em que a gest√£o previdencial, administrativa e assistencial mant√©m sua segrega√ß√£o ‚Äď decis√£o acertada a nosso ver ‚Äď, a nova planifica√ß√£o traz avan√ßos, como: ‚ÄĘ Converg√™ncia das normas cont√°beis do CGPC com as normas da ANS; ‚ÄĘ Maior ader√™ncia √† Resolu√ß√£o CMN 3.456; ‚ÄĘ Abertura da provis√£o matem√°tica de benef√≠cios concedidos, segregando- a em benef√≠cio definido e contribui√ß√£o definida; ‚ÄĘ Regime de caixa para contribui√ß√Ķes de participantes de planos constitu√≠dos por instituidor; ‚ÄĘ Demonstra√ß√Ķes Cont√°beis mais alinhadas com as regras internacionais de contabilidade; e ‚ÄĘ Manuten√ß√£o dos Livros Cont√°beis em meio eletr√īnico, o que propiciar√° uma desonera√ß√£o para as Entidades.Contudo, podemos inferir que o mais relevante avan√ßo das novas normas se deu nas quest√Ķes administrativas, uma vez que trouxe uma maior abertura em suas despesas e instituiu o Plano de Gest√£o Administrativa - PGA, que ter√° sua utiliza√ß√£o obrigat√≥ria. O objetivo dessa obrigatoriedade √© padronizar esse procedimento nos fundos de pens√£o conferindo maior transpar√™ncia √† sua gest√£o administrativa. Os recursos que se destinar√£o ao custeio administrativo dos planos de benef√≠cios dever√£o ser repassados para o PGA, que possuir√° um balancete pr√≥prio e ser√° respons√°vel pela gest√£o administrativa cotidiana. Tal medida culminar√° com a segrega√ß√£o dos recursos administrativos dos recursos previdenciais. O PGA dever√° ter um regulamento pr√≥prio, o qual dever√° ser aprovado pelo Conselho Deliberativo da entidade.Podemos concluir que se trata de uma oportuna atualiza√ß√£o das normas cont√°beis, que traz os citados avan√ßos. Some-se a isso o fato do CGPC ter dado √†s entidades prazo suficiente para as adapta√ß√Ķes necess√°rias ‚Äď 31/12/2009.Apesar de identificarmos enormes avan√ßos na legisla√ß√£o, cabe o entendimento de que faltam provid√™ncias, no sentido da aplica√ß√£o da boa t√©cnica na gest√£o dos planos de benef√≠cios: Provid√™ncias do Governo: Rever o limitador de 15% das despesas administrativas constante da Resolu√ß√£o CPC n¬ļ 01/78, que trata os diferentes tipos de planos de forma igual e n√£o traz qualquer efic√°cia na gest√£o das EFPCs. Importante lembrar que n√£o existe ‚Äún√ļmero m√°gico‚ÄĚ que seja aplic√°vel a todos os planos de benef√≠cios previdenciais. √Č necess√°rio, tamb√©m, ajustar o foco desta legisla√ß√£o para o plano de benef√≠cios e n√£o a EFPC no consolidado de suas atividades.Provid√™ncias das EFPCs: Estabelecer crit√©rios de rateio de despesas administrativas mensur√°veis entre os planos administrados, implementar uma contabilidade gerencial, a qual propicie relat√≥rios gerenciais √ļteis a tomada de decis√Ķes, e precificar todos os componentes patrimoniais de forma t√©cnica, inclusive suas exigibilidades contingenciais as quais ainda trazem alto grau de subjetividade.
Jos√© Edson da Cunha J√ļnior √© ex-Diretor da SPC e S√≥cio da JCMB Consultores

Gestão Eficiente ou Controle de Despesas? | André Maxnuk

Edição 200

Nos tempos do ‚ÄúApag√£o‚ÄĚ em 2001 e 2002, uma crise el√©tri-ca sem precedentes no Brasil, um dos aprendizados mais importantes de cada fam√≠lia brasileira foi a administra√ß√£o mais eficiente do seu consumo energ√©tico. Sem tocar o tema pol√≠tico, o fato √© que na grande maioria dos casos passamos a utilizar a energia de forma mais equilibrada, evitando desperd√≠cios, consumindo de forma mais racional e eficiente, e, principalmente, criando uma maior consci√™ncia sobre o assunto.
A atual crise econ√īmica traz para as empresas uma oportunidade √≠mpar de reflex√£o, seja no aspecto da sua viabilidade econ√īmica dentro desse processo de mudan√ßa de mercado, como tamb√©m no aspecto de efici√™ncia operacional e consequente redu√ß√£o de despesas. Os planos de pens√£o n√£o atravessar√£o inc√≥lumes esse per√≠odo e a verdade √© que veremos tanto uma reflex√£o do ponto de vista das pol√≠ticas de RH e rela√ß√£o custo x benef√≠cio, como tamb√©m uma an√°lise de efici√™ncia da gest√£o e administra√ß√£o desse benef√≠cio.
Esse ponto deve ser constantemente avaliado com o intuito de não prejudicar o principal fim de todo o processo: conceder o nível de benefício prometido ou esperado a um custo adequado. A gestão eficiente do fundo de pensão busca um equilíbrio entre a definição do processo ideal de gestão do plano e o controle do custo administrativo. Uma gestão ineficiente do benefício gera não apenas despesas mais altas (a serem pagas por patrocinadores, empregados e, em alguns casos, pelo cidadão), como pode reduzir o benefício do plano.
Quando mencionamos gestão do benefício ou do fundo, nos referimos à forma desejada ou que reflita melhores práticas relacionadas à definição dos objetivos do benefício, análise do desenho mais adequado, análise de competitividade do benefício, valorização pelos empregados, definição de benchmarks de desempenho, entre muitos outros, incluindo o processo mais adequado de administração do plano. Obviamente a gestão tem que estar acompanhada de análises de custos associados.
Acompanhando essa linha de raciocínio, entendemos que a análise dos custos administrativos dos fundos de pensão vai variar não apenas no montante final de despesas apresentado nos diversos relatórios oficiais, mas sim desde a origem, com a proposta de gestão definida pela patrocinadora e o fundo de pensão.
Dessa forma, vários fundos de pensão e patrocinadoras acertam ao definir formalmente seus modelos de gestão dos planos de aposentadoria, ao acompanhar índices de eficiência e ao definir uma agenda de prioridades.
Os órgãos governamentais de previdência complementar acertam ao definir regras para transparência e governança do sistema. O Brasil possui uma legislação forte sobre o tema e, ainda que existam pontos a serem trabalhados e evoluídos, possui um nível bem mais avançado que os seus vizinhos na América Latina.
No entanto, valem alguns pontos para reflex√£o.
N√£o se discute que a legisla√ß√£o tenha que ser forte no que diz respeito √† defini√ß√£o de normas para transpar√™ncia, consist√™ncia, monitoramento e acompanhamento dos fundos, mas o excesso de regras, o detalhamento demasiado de informa√ß√Ķes e a falta de √≠ndices de monitoramento de efici√™ncia podem significar um tiro no p√©, incluindo um aumento significativo das despesas administrativas sem gera√ß√£o de maior efici√™ncia administrativa.
Um exemplo cl√°ssico: antes do caso Enron e da ‚Äúbolha‚ÄĚ, era dif√≠cil encontrar, no mundo, uma legisla√ß√£o que exigisse mais informa√ß√£o, relat√≥rios e regras que a dos Estados Unidos. Isso n√£o impediu a fal√™ncia do fundo de pens√£o dos ex-funcion√°rios daquela empresa e s√©rios problemas de muitos outros. Mesmo com a Sarbanes-Oxley e com o aumento inescrupuloso do n√≠vel de exig√™ncia das auditorias, vimos recentemente in√ļmeros casos de falcatruas, como o dos fundos do Madoff.
A legisla√ß√£o deve seguir forte e protegendo os benef√≠cios dos participantes dos fundos de pens√£o, mas os √≥rg√£os governamentais deveriam focar mais a defini√ß√£o de par√Ęmetros de efici√™ncia e solv√™ncia do que a exig√™ncia de excessivos mecanismos para funcionamento e gerenciamento dos fundos.
Com relação às despesas administrativas, o foco excessivo no custo e em relatórios detalhados de despesas pode desviar a atenção de uma gestão mais eficiente dos planos, ou inclusive restringir o orçamento das entidades para atividades como educação financeira aos participantes e preparação para aposentadoria.
Os fundos e patrocinadoras por sua vez devem aproveitar o momento para reavaliar a efici√™ncia do processo de gest√£o atual, apertar os cintos e demonstrar maturidade administrativa. Da mesma forma que as fam√≠lias brasileiras durante o ‚ÄúApag√£o‚ÄĚ, √© primordial o uso eficiente de recursos e a elimina√ß√£o do desperd√≠cio, encontrando o melhor ponto de equil√≠brio entre a gest√£o eficiente do programa de previd√™ncia e o controle de custos.

André Maxnuk é o principal executivo da Mercer no Rio de Janeiro.

A Crise e as Políticas de Investimentos 2009-2013 | Ricardo Malavasi

Edi√ß√£o 198 

Os impactos negativos da maior crise financeira internacional desde 1929 sobre o valor dos investimentos dos Fundos de Pens√£o brasileiros ‚Äď que devem apresentar performance bem abaixo das necessidades atuariais neste ano - refor√ßam a preocupa√ß√£o com a agenda de capacita√ß√£o e certifica√ß√£o dos dirigentes do sistema de previd√™ncia complementar nacional. Neste momento de forte instabilidade dos mercados internacionais, ser√£o exigidos dos dirigentes de investimento frieza profissional e capacidade t√©cnica para tomar decis√Ķes nos pr√≥ximos meses que n√£o reflitam apenas o ‚Äú√≥bvio e repetitivo‚ÄĚ alerta de cautela dos jornais di√°rios frente a atual crise.

Muitos analistas e jornalistas estão passando uma visão equivocada sobre os prováveis impactos dessa crise sobre os ativos nacionais vis-a-vis os internacionais. O quadro é grave, mas são realidades totalmente distintas.

Enquanto no Brasil estamos preocupados com os poss√≠veis efeitos da prov√°vel recess√£o dos Estados Unidos nos resultados das empresas nacionais ‚Äď no ebitda, lucro, etc ‚Äď nos pa√≠ses do hemisf√©rio Norte os investidores est√£o em verdadeiro p√Ęnico, sob uma crise banc√°ria de propor√ß√Ķes in√©ditas, com ineg√°vel movimento de perda de valor definitivo de suas carteiras, com o risco de fechamento de v√°rias grandes empresas (em especial bancos). Assim, a vis√£o mais pr√≥xima da realidade econ√īmica atual √© a de que esta crise representa para o Brasil, sob todos os aspectos, e, em especial, para os investidores institucionais, enormes oportunidades de ganhos no m√©dio prazo.

Felizmente, o pa√≠s nunca esteve t√£o bem preparado para enfrentar uma crise econ√īmica externa como hoje. Nossa estrutura macroecon√īmica est√° demonstrando que o cont√°gio da desacelera√ß√£o mundial, puxada pelos Estados Unidos, tende a apresentar consequ√™ncias muito mais brandas no Brasil do que na grande maioria dos pa√≠ses emergentes. N√£o se trata da id√©ia ing√™nua de ‚Äúdescolamento‚ÄĚ, mas de uma avalia√ß√£o pragm√°tica das diferentes realidades econ√īmicas. Basicamente, cinco fatores podem explicar o prov√°vel menor impacto na economia nacional: o sistema banc√°rio brasileiro n√£o aplicava nos tipos de ativos globalizados dos bancos norte-americanos e europeus, portanto n√£o administraremos uma crise banc√°ria; as empresas e fam√≠lias s√£o menos endividadas no Brasil, resultando em menor impacto do cr√©dito menos abundante sobre a taxa de crescimento; o crescimento interno tem coeficiente de abertura muito menor do que a maioria dos pa√≠ses emergentes fortemente impactados pela atual crise; a consistente competitividade das empresas exportadoras, que reflete nas contas externas saud√°veis; e o bom quadro das finan√ßas p√ļblicas.

O amadurecimento institucional tanto do Banco Central quanto da CVM refor√ßa o s√≥lido quadro institucional brasileiro. Tamb√©m n√£o podemos esquecer que √© a primeira crise que o Brasil enfrenta sendo considerado pelos investidores internacionais como grau de investimento. Com isso, um dos fen√īmenos distintos desta crise para os gestores de investimentos nacionais ‚Äď quando comparada √†s crises dos anos 80 e 90 ‚Äď √© o comportamento de relativa baixa volatilidade dos juros dos t√≠tulos p√ļblicos federais frente √†s gigantescas ondas financeiras negativas vindas das rupturas de v√°rios centros financeiros globais. Mesmo assim, os jornais preferem destacar a suposta ‚Äúdisparada‚ÄĚ dos juros internos que, de fato, ainda n√£o superaram patamares de 2005, quando ocorreu a √ļltima alta significativa do mercado de juros internos de longo prazo.

Diante do quadro de incertezas internacionais enfatizado pela imprensa, certamente seria mais c√īmodo para os dirigentes de Investimentos das Funda√ß√Ķes alegarem que os t√≠tulos federais de curto prazo voltaram a oferecer juros reais acima das metas atuariais (ou o rendimento m√≠nimo esperado) de 6%aa, defendendo junto aos seus Conselhos Deliberativos uma postura defensiva frente √† crise internacional. No entanto, empregando t√©cnicas corretas, esse pode ser um √≥timo momento para aprofundar a diversifica√ß√£o das carteiras de investimentos e o alongamento dos prazos dos t√≠tulos p√ļblicos. Refor√ßando a utiliza√ß√£o dos modernos instrumentos de Gest√£o dos Investimentos, como o gereciamento simult√Ęneo dos fluxos dos passivos (ALM), securitiza√ß√£o de receb√≠veis, seguro performance e outras t√©cnicas de mitiga√ß√£o de riscos, os dirigentes deveriam aprovar (ou confirmar) nesse final de ano Pol√≠ticas de Investimento que favore√ßam os ganhos de longo prazo para os recursos dos participantes. Ser seletivo n√£o deve ser confundido com n√£o buscar boas oportunidades.

Todos os que decidem investimentos neste momento n√£o podem perder a vis√£o de longo prazo para o Brasil. Ap√≥s essa crise, que efetivamente pode perdurar mais de 2 anos nos pa√≠ses do hemisf√©rio norte, as taxas de juros reais do Brasil tendem a ficar ainda mais baixas do que nos melhores momentos de 2008. Esse movimento tende a ocorrer rapidamente, como j√° observamos nos √ļltimos anos, sem dar oportunidade para dirigentes ‚Äúatrasados‚ÄĚ se posicionarem, pois a atratividade do Brasil tende a ficar ainda mais s√≥lida frente aos demais pa√≠ses emergentes ap√≥s o final do olho do furac√£o da crise. Talvez esta seja a √ļltima oportunidade de realizar investimentos a taxas atrativas antes do Brasil consolidar sua posi√ß√£o de pa√≠s com efetivo grau de investimento com taxas reais de juros abaixo de 4%aa (como M√©xico e Chile, que est√£o em posi√ß√£o fr√°gil na atual crise).

Finalizando, nos pr√≥ximos meses estaremos atravessando um complexo ambiente para decis√Ķes de investimentos dos dirigentes de Fundos de Pens√£o no Brasil. √Č prov√°vel que os mercados ainda apresentem forte volatilidade e novas empresas informem resultados piores do que os esperados pelos analistas, com poss√≠veis novas perdas nos valores dos ativos. No entanto, o bom posicionamento macroecon√īmico do Brasil indica que uma simples posi√ß√£o defensiva diante das atuais oportunidades tende a ser prejudicial aos interesses dos participantes no longo prazo. Assim, √© recomend√°vel aprofundar as estrat√©gias de diversifica√ß√£o dos investimentos nas Pol√≠ticas de Investimentos 2009- 2013, assumindo posi√ß√Ķes de longo prazo tanto em t√≠tulos p√ļblicos federais quanto em empresas privadas com bom hist√≥rico de resultados (via a√ß√Ķes, deb√™ntures, FIDCs, CCBs, CRIs, Fundos de Participa√ß√£o, etc).

Neste caminho, torna-se cada vez mais relevante os Fundos de Pensão brasileiros contarem com gestores competentes para implementar tais estratégias de investimentos, que requerem intenso controle dos riscos dos ativos e da necessidade de liquidez dos passivos. Não menos importante é que tais equipes estejam preparadas para relatos transparentes e periódicos aos Conselhos Deliberativos e Fiscais sobre os resultados alcançados, em especial para os representantes dos participantes. Tal estratégia e o ambiente de crise requerem paciência dos investidores/participantes, mas os retornos esperados tendem a superar largamente as atuais taxas de juros de curto prazo, sendo a melhor estratégia para recuperação no médio prazo das inevitáveis perdas de rentabiliade do ano de 2008.

Ricardo Malavasi é ex-Diretor de investimentos da Petros

O gestor da tempestade é o mesmo da bonança | Maurício Gentil

Edição 197

Recentemente, estive em uma reuni√£o onde o tema reinante era a crise econ√īmica. Tratava-se de mais uma ocasi√£o para debater o tema do momento. Estavam presentes pessoas bem informadas e com recursos aplicados em fundos de investimentos de todas as classes (a√ß√Ķes, multimercado, long short, etc).
Ao longo de nossa conversa, observei que se iniciou uma corrente de repulsa aos servi√ßos prestados pela ind√ļstria de gest√£o de recursos. Sem qualquer segrega√ß√£o ou ju√≠zo de valor, a atitude reinante era de que os gestores eram incapazes de oferecer servi√ßos de qualidade em situa√ß√Ķes de crise. A frase recorrente era: ‚ÄĚPara perder dinheiro, eu perco sozinho‚ÄĚ!!! Ocorreu-me, ent√£o, uma figura de imagem: um v√īo internacional com os passageiros desfrutando da champagne da primeira classe. Todos confiam no piloto. Sequer imaginam se foi colocado combust√≠vel suficiente ou se foram tomadas medidas de seguran√ßa. N√£o sabem ao certo que riscos correm e desfrutam dos prazeres da viagem.
Enquanto tudo ia bem, o piloto √© congratulado. Diante de uma grande turbul√™ncia, o avi√£o treme e come√ßa a descer. Algu√©m a bordo recomendaria trocar o piloto por um dos passageiros? Este √© o atual cen√°rio na ind√ļstria de gest√£o de recursos: questiona-se a compet√™ncia dos gestores que ofereceram retornos com sucesso por quase cinco anos. N√£o se trata de uma simples troca de produto (Fundo x CDB, ou Fundo x Poupan√ßa), mas √© necess√°rio o entendimento do investidor que estar√°, em plena turbul√™ncia, trocando de lugar com o piloto.
N√£o defendo unilateralmente a ind√ļstria e, nem de longe, quero depreciar a capacidade de decis√£o dos investidores individualmente. Entendo que, ao longo destes anos, o investidor n√£o sabia que poderia ter algum risco impl√≠cito. A euforia do crescimento da ind√ļstria (64% em cinco anos*), como toda bolha, provocou uma flexibiliza√ß√£o dos processos comerciais dos gestores, e a gan√Ęncia tomou o lugar da prud√™ncia.
Acredito que todos devem rever as formas de abordagem e a qualidade t√©cnica de suas equipes comerciais. A ind√ļstria passa por um processo de ‚Äúfiltragem‚ÄĚ involunt√°rio (sa√≠da de R$ 30 bilh√Ķes no ano*). Ficou claro que ocorreram aloca√ß√Ķes indevidas em produtos que n√£o eram compat√≠veis com a disposi√ß√£o do cliente em assumir riscos. Al√©m disso, muitos produtos, particularmente, nos segmentos multimercado e long short, tiveram desempenhos incompat√≠veis com os discursos de venda.
Ser√° que o processo de remunera√ß√£o induz o vendedor a ‚Äúempurrar‚ÄĚ o produto? Apesar disso, n√£o me parece razo√°vel tomar o lugar do piloto. Vale lembrar que estamos falando de uma ind√ļstria de servi√ßos, onde os fundos s√£o os ve√≠culos que tangibilizam os benef√≠cios gerados. A rigor, os ativos adquiridos, ao se investir em fundos, s√£o intelig√™ncia e tempo.
Ao tomar esta decis√£o, o investidor deixar√° de ter acesso ao tempo de pessoas que est√£o exclusivamente dedicadas a esta atividade e que possuem forma√ß√£o suficiente para ‚Äúpilotar‚ÄĚ em per√≠odos de crise. Al√©m do mais, pasmem: trata-se dos mesmos gestores que estavam no comando durante a bonan√ßa! A pergunta √©: ser√° que uma pessoa que exerce atividades n√£o relacionadas diretamente com o mercado financeiro, como os participantes da minha reuni√£o, teriam ‚Äúpousado o avi√£o‚ÄĚ de forma mais segura que o piloto? Vale a pena abrir m√£o do conhecimento em situa√ß√Ķes de risco? Existem gestores imunes √†s crises, por mais preparados que sejam? N√£o.
N√£o h√° na hist√≥ria econ√īmica nem um s√≥ gestor que ganhe todo o tempo.
Neste momento, Warren Buffet deve estar feliz com a compra de a√ß√Ķes da Goldman Sachs. O papel vale agora U$110,00. Entretanto, desde que a opera√ß√£o foi realizada (por US$ 105,00), a a√ß√£o chegou a valer U$ 78,00!!! Existem gestores bons e gestores ruins, como em qualquer atividade. O que deve definir a escolha, por utilizar os servi√ßos de gest√£o ou atuar sozinho, √© o custo do erro. Decis√Ķes financeiras erradas costumam custar bem mais que o custo de contrata√ß√£o de um gestor (algo em torno de 2,5% ao ano, em m√©dia). Pessoas qualificadas que dediquem todo o seu tempo, exclusivamente, a uma atividade tendem a desempenh√°-la melhor que o praticante eventual. N√£o se tem not√≠cia de um paciente que pe√ßa para ficar acordado durante uma cirurgia para, no caso de risco, assumir o lugar do m√©dico.

(*) Fonte Anbid

Maurício Gentil é Superintendente Comercial da Meta Asset Management