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Todos s√£o respons√°veis pelos par√Ęmetros atuariais | Antonio Fernando Gazzoni

Edição 175

Muitos foram os avan√ßos trazidos pela Lei Complementar 109/01, mas destacamos aquele que introduz a obrigatoriedade dos planos de benef√≠cios obedecerem a padr√Ķes m√≠nimos atuariais, al√©m da j√° exigida seguran√ßa econ√īmico-financeira, com fins espec√≠ficos de preservar a liquidez, solv√™ncia e equil√≠brio dos mesmos.
Buscando aprimorar os crit√©rios em vigor, e estabelecer novas normas a serem observadas na estrutura√ß√£o e manuten√ß√£o dos planos de benef√≠cios, o Conselho de Gest√£o de Previd√™ncia Complementar aprovou os novos par√Ęmetros atuariais a serem empregados pelas EFPC, por meio da Resolu√ß√£o MPS/CGPC 18/06, de 28 de mar√ßo de 2006, a qual foi publicada em 05 de abril deste ano.
Muito se tem avan√ßado na governan√ßa das entidades, na administra√ß√£o dos investimentos dos planos de benef√≠cios, na comunica√ß√£o com os participantes e, agora, espera-se um avan√ßo maior na gest√£o do passivo atuarial, em especial no que diz respeito √† adequa√ß√£o das hip√≥teses e premissas usadas nos c√°lculos, que podem ser, genericamente, classificadas em econ√īmico-financeiras, demogr√°ficas e biom√©tricas.
Todas, sem exceção, constituem-se em maior ou menor risco atuarial, dependendo de seu grau de adequação.
De acordo com sua modalidade, os planos podem ser mais ou menos afetados pelos par√Ęmetros atuariais. Neste contexto, os planos de benef√≠cios definidos s√£o os mais impactados pelas hip√≥teses e premissas e, no outro extremo, est√£o os planos de contribui√ß√£o definida.
Com as novas regras vigentes, as partes envolvidas na administra√ß√£o de um plano de benef√≠cios passaram a ter maiores responsabilidades, com amparo nos ditames do artigo 63 e seu par√°grafo √ļnico da LC 109/01, que permite a responsabiliza√ß√£o de todos os envolvidos na administra√ß√£o de um plano de benef√≠cios, a entidade, as patrocinadoras e os prestadores de servi√ßos.
Com isso, temos que as EFPC passam a ser obrigadas a solicitar, das patrocinadoras de cada plano, manifesta√ß√£o formal sobre as hip√≥teses econ√īmicas e financeiras que guardem rela√ß√£o com suas respectivas atividades. Um segundo ponto diz respeito √† determina√ß√£o de se promover uma adequa√ß√£o da t√°bua de mortalidade geral de cada plano para, no m√≠nimo, a mortalidade considerada na t√°bua AT-83, estabelecendo o prazo de at√© 31/12/08 para ajuste desta condi√ß√£o. Ainda, a entidade passa a ser obrigada a promover estudos de ader√™ncia de todas as hip√≥teses adotadas nas avalia√ß√Ķes atuariais dos planos. No que se refere √† taxa de juros t√©cnicos, a entidade dever√° observar que este seja de no m√°ximo 6% ao ano, sendo observada a sua sustentabilidade no m√©dio e longo prazo.
Sem prejuízo das responsabilidades atribuídas às demais partes, segundo define a nova norma, são de competência dos membros estatutários da EFPC a adoção das hipóteses atuariais, sendo que deverá ser nomeado, dentre os membros da Diretoria Executiva, administrador responsável pelo plano de benefícios.
Na atribui√ß√£o de responsabilidades, a norma tamb√©m definiu aquelas a cargo das patrocinadoras, sendo que estas passam a se manifestar formal e obrigatoriamente, e com fundamento t√©cnico, sobre as hip√≥teses econ√īmicas e financeiras. Ainda, as patrocinadoras dever√£o se manifestar sobre as perspectivas de evolu√ß√£o das contribui√ß√Ķes ao plano de benef√≠cios.
Os atu√°rios, at√© ent√£o os principais, e √†s vezes os √ļnicos, respons√°veis pelas defini√ß√Ķes atuariais, passam a ser demandados quanto √† realiza√ß√£o de testes de ader√™ncia, a fim de comprovar a adequa√ß√£o dos par√Ęmetros √† massa de participantes e assistidos do plano.
Apesar de observarmos algumas imperfei√ß√Ķes no novo regramento, e de poss√≠veis conflitos, espera-se que a utiliza√ß√£o dos novos par√Ęmetros, ao longo do tempo, eleve o patamar de confiabilidade dos passivos atuariais dos planos, de forma gen√©rica, uma vez que muitas entidades, seus patrocinadores e prestadores de servi√ßo, j√° vinham praticando padr√Ķes de excel√™ncia tamb√©m no que diz respeito √† gest√£o dos passivos atuariais.
Entretanto, é de se esperar que a adoção das novas regras suscite eventuais desequilíbrios nos planos, uma vez que ao elevarmos a longevidade de uma massa de participantes ou ao não utilizarmos a taxa máxima de juros atuariais permitida, por exemplo, poderão ocorrer insuficiências de cobertura patrimonial, as quais, provavelmente, serão equacionadas com aportes de recursos pelas patrocinadoras, participantes e até mesmo pelos assistidos.

Antonio Fernando Gazzoni é atuário, administrador de empresas e sócio- diretor da GAMA Consultores Associados

Os desafios da previd√™ncia dos servidores p√ļblicos | Augusto Tadeu Ferrari e Edevaldo Fernandes da Silva

Edição 174

A dif√≠cil situa√ß√£o fiscal em que se encontra a maioria dos entes federados do nosso pa√≠s, torna dram√°tica a manuten√ß√£o dos atuais sistemas previdenci√°rios dos servidores p√ļblicos.
Diante de um contexto insustent√°vel, no qual as despesas previdenci√°rias se apresentavam como sorvedouro das receitas fiscais, √© que foram gestadas as reformas da previd√™ncia dos servidores p√ļblicos, onde se buscou reduzir o custo previdenci√°rio por meio das altera√ß√Ķes que afetam os valores dos benef√≠cios, combinadas com mudan√ßas nos crit√©rios de elegibilidade para aposentadoria.
O rumo está traçado, mas haverá viabilidade no novo modelo previdenciário dos servidores? A resposta não é simples e enseja uma análise mais detalhada.
O instrumental normativo j√° aprovado, de que √© exemplo o Certificado de Regularidade Previdenci√°ria, o cen√°rio macroecon√īmico e o das finan√ßas p√ļblicas, compelem, certamente, os agentes p√ļblicos a procederem aos ajustes previdenci√°rios. Ent√£o, por esse aspecto, a tend√™ncia √© de que haver√° viabilidade no novo modelo previdenci√°rio dos servidores p√ļblicos.
Mas outros aspectos introduzem incertezas quanto √† sua exeq√ľibilidade.
A definição de limites contributórios para o ente federado é típico exemplo de normativo que poderá inviabilizar o equacionamento atuarial do plano.
Se os limites tiverem que ser superados, que mágica poderá ser utilizada para manter o plano equilibrado e atender a legislação? O 2:1 não poderia levar a uma taxa de contribuição para o segurado confiscatória? Há, sim, previsão legal para aportes especiais, mas é sabido que essas possibilidades são apenas hipotéticas para os municípios e para a grande maioria dos estados.
Outra quest√£o, e, certamente, a mais complexa, suscitada pela transi√ß√£o para a capitaliza√ß√£o, pode ser colocada nos seguintes termos: como ser√° suportado o custo dos benef√≠cios em manuten√ß√£o em concomit√Ęncia com a carga contribut√≥ria relativa aos atuais servidores titulares de cargo efetivo em atividade? Outro desafio a ser superado diz respeito √†s novas formas de se relacionar com a tem√°tica previdenci√°ria, pois a modelagem a ser implementada imp√Ķe o desenvolvimento de uma nova cultura previdenci√°ria.
O centro dessa nova cultura reside no reconhecimento de que novas aptid√Ķes dever√£o ser desenvolvidas e de que novos conhecimentos dever√£o ser assimilados.
Trata-se de novo modo de pensar a previdência. O regime da capitalização, é infinitamente mais complexo, pois obriga o seu gestor a um olhar permanente para o futuro na tentativa de prognosticar o que acontecerá, pois há necessidade de constituição de reservas antecipadas.
Mas como faz√™-la em face da escassez de recursos em que se encontra a administra√ß√£o p√ļblica? Estar√£o dispostos a destinar recursos que poderiam ser aplicados em outros setores para antecipar o pagamento de aposentadorias que ocorrer√£o no futuro e cuja aplica√ß√£o ser√° realizada basicamente em t√≠tulos federais, financiando a Uni√£o? Ou estar√° o administrador dos recursos previdenci√°rios capitalizados preparado para efetuar outras e complexas opera√ß√Ķes financeiras? Trata-se de novo modo de administrar. Os sistemas de informa√ß√Ķes t√™m que estar adequados √†s novas necessidades. Novas prepara√ß√Ķes t√©cnicas, gerenciais e fiscalizat√≥rias s√£o solicitadas. Profissionais capacitados, treinados em regimes capitalizados ser√£o requeridos, inclusive para os √≥rg√£os que t√™m a responsabilidade de fiscaliz√°-los. Maior rigor na gest√£o do recurso previdenci√°rio, preocupando-se, pelo menos, com os aspectos de liquidez, rentabilidade m√≠nima atuarial e prud√™ncia nas aplica√ß√Ķes e avalia√ß√£o de risco s√£o algumas marcas do ineditismo imposto pela nova previd√™ncia dos servidores p√ļblicos.
Mas infelizmente tanto os servidores quanto os governantes, estão, na grande maioria, tecnicamente despreparados em relação aos fundamentos e exigência da gestão de previdência capitalizada.
√Č certo que a viabilidade do novo modelo previdenci√°rio dos servidores p√ļblicos se assenta inquestionavelmente na edifica√ß√£o de uma nova cultura previdenci√°ria que exigir√° de todos os agentes envolvidos um enorme esfor√ßo pedag√≥gico para a forma√ß√£o e qualifica√ß√£o ampla, o mais ampla poss√≠vel, de maneira a atingir desde o entendimento b√°sico da doutrina previdenci√°ria at√© os aspectos complexos da opera√ß√£o financeira e administra√ß√£o previdenci√°ria.

Augusto Tadeu Ferrari - Consultor da GlobalPrev. Edevaldo Fernandes da Silva - Consultor da GlobalPrev.

Impactos da longevidade na gest√£o dos fundos de pens√£o | Geraldo Magela

Edição 173

O envelhecimento da força de trabalho é um processolento e silencioso e já está atingindo o Brasil, provocando mudanças no perfil dos trabalhadores e impactando diretamente nos programas de benefícios e, em especial, nos fundos de pensão.
Segundo dados do IBGE, a expectativa de vida cresceu no pa√≠s. Em 1980 era de 62 anos; em 2020 ser√° de 76 anos e, em 2050, de 81 anos. O Brasil j√° ocupa o oitavo lugar entre os pa√≠ses com o maior n√ļmero de idosos. A principal conseq√ľ√™ncia econ√īmica do envelhecimento da popula√ß√£o para o Brasil √© o desequil√≠brio das contas da previd√™ncia oficial, que drenar√° recursos que poderiam ser investidos em sa√ļde, educa√ß√£o e infra-estrutura. Entre as alternativas para se atenuar esse d√©ficit est√° a implementa√ß√£o de uma idade m√≠nima para a aposentadoria. Antes a popula√ß√£o se aposentava mais cedo. Atualmente observamos pessoas com mais de 70 anos em plena capacidade produtiva.
A Mercer observou este mesmo processo de envelhecimento na for√ßa de trabalho de algumas empresas no Brasil. Foi realizada uma pesquisa este ano, com nove empresas de grande porte, 57 mil empregados, que no per√≠odo 1991-2005 n√£o tiveram mudan√ßas significativas na quantidade de empregados. Os dados mostraram que houve, neste per√≠odo, uma redu√ß√£o de 41% no quadro de profissionais com at√© 19 anos de idade; 8% de 20 a 24 anos; 9% de 25 a 29 anos; 14% de 35 a 39 e 2% 40 a 44 anos; e um crescimento de 37% no n√ļmero de empregados dos 45 aos 49 anos; 90% dos 50 aos 54 anos; 50% de 55 a 59 anos e 22% junto √†queles com mais de 60 anos.
Ou seja, nestas empresas houve uma evolu√ß√£o na quantidade de empregados de mais de 40 anos na ativa. Nesse per√≠odo de quase 15 anos, a m√£o-de-obra acima de 40 anos cresceu de 29% para 40% do total de empregados. E o n√ļmero de pessoas com mais de 20 anos de tempo de servi√ßo cresceu de forma significativa.
Entre os fatores que contribu√≠ram para este quadro est√° o envelhecimento populacional, a senioridade requerida pelas empresas para enfrentar a concorr√™ncia, a redu√ß√£o das aposentadorias precoces na Previd√™ncia Social, a depend√™ncia dos planos de assist√™ncia m√©dica corporativos, o aumento do n√≠vel m√©dio de escolaridade dos profissionais e o crescimento da import√Ęncia dos planos de previd√™ncia complementares Mas se a longevidade aumenta, inclusive nas empresas, ent√£o que impactos podemos esperar nos fundos de pens√£o e que pap√©is eles podem exercer neste processo? O impacto mais direto poder√° ser percebido por aqueles Fundos que pagam rendas vital√≠cias. De uma forma geral, o aumento de 1 ano na expectativa de vida implica em uma eleva√ß√£o de aproximadamente 3% nos valores das reservas do Fundo de Pens√£o. Nos Fundos onde n√£o se pagam rendas vital√≠cias os impactos dever√£o recair sobre os participantes que ter√£o que adequar os benef√≠cios pagos √†s suas necessidades de consumo ao longo da vida, que promete ser ainda mais longa.
Os Fundos tamb√©m dever√£o se adaptar a uma nova realidade de cliente, o seu pr√≥prio participante. Nos √ļltimos 15 anos, empresas e os pr√≥prios empregados procuraram investir fortemente na capacita√ß√£o profissional.
Pessoas com maior nível de escolaridade têm maior possibilidade de estar empregadas e de alcançar os melhores postos de trabalho. Diante deste cenário, os Fundos têm que estar preparados para enfrentar um participante mais esclarecido, questionador, sabedor dos seus direitos e mais preparado para discutir aspectos de investimentos, legais e até mesmo atuariais.
Com esse perfil, abre-se um espa√ßo para que Fundos de Pens√£o e empresas patrocinadoras invistam em programas que preparem esses profissionais para a aposentadoria ‚Äď volunt√°ria e sem traumas ‚Äď e que os direcionem a empreender algo nesta fase. Uma segunda carreira ou um trabalho que o estimule n√£o pelo dinheiro, mas pelo prazer de fazer alguma coisa que goste e seja importante, pode ser uma alternativa.

Geraldo Magela Xavier Lopes é atuário, Consultor e Diretor da Mercer.

Setor imobiliário recebe investimentos de longo prazo | Régis Dall’Agnese

Edição 171

O Mercado Imobili√°rio brasileiro tem sido alvo no √ļltimo ano de fortes investidas de grandes investidores, sobretudo internacionais, provedores de ‚Äúfunding‚ÄĚ para um setor at√© ent√£o bastante carente de alternativas de financiamento e cr√©dito. O cen√°rio mundial que tem conjugado excesso de liquidez com riscos maiores de ‚Äúestouro‚ÄĚ da bolha imobili√°ria em mercados fortes e tradicionais como o norte-americano, al√©m da escassez de produtos ‚Äúhigh yeld‚ÄĚ para as carteiras dos ‚Äúhedge funds‚ÄĚ tem provocado maior interesse por investimentos em pa√≠ses emergentes como o Brasil, sendo o setor imobili√°rio um dos mais visados.
O capital investido nesse segmento, seja dom√©stico ou internacional, necessariamente comp√Ķe-se de recursos de longo prazo e n√£o meramente capital especulativo. Isso faz com que as perspectivas para o setor nos pr√≥ximos anos sejam mais otimistas, projetando-se crescimento superior √†s m√©dias verificadas nos √ļltimos anos. Somente em IPOs de companhias imobili√°rias foram mais de R$3 bilh√Ķes em um curto espa√ßo de tempo. Com essa maior disponibilidade de ‚Äúfunding‚ÄĚ para o mercado imobili√°rio, que mesmo com movimentos err√°ticos adversos deve se manter a m√©dio/longo prazo, a tend√™ncia √© que as atividades no setor se intensifiquem significativamente.
Hoje, investimentos no setor imobiliário ainda concorrem com alternativas de investimento mais líquidas e mais rentáveis proporcionadas pelos papéis de emissão do Governo, o que faz com que aqueles acabem sendo preteridos. De uma forma geral, apenas as atividades de desenvolvimento imobiliário, pelo seu nível de risco mais elevado, acabam se destacando por proporcionar altas rentabilidades.
A dificuldade para o empres√°rio do setor que quer fazer ‚Äúa m√°quina girar‚ÄĚ, surge ao tentar buscar um ‚Äúway out‚ÄĚ para suas imobiliza√ß√Ķes, quando ent√£o fica mais clara a dificuldade de se desfazer de seus ativos face aos retornos concorrentes proporcionados por pap√©is p√ļblicos. O mercado de incorpora√ß√£o de im√≥veis residenciais apresenta o componente de elevada rentabilidade com o benef√≠cio de possibilitar uma ‚Äúporta de sa√≠da‚ÄĚ via venda das unidades habitacionais. Nele, a tend√™ncia que j√° est√° sendo verificada com a recente capitaliza√ß√£o das grandes incorporadoras via entrada de novos s√≥cios, √© de atua√ß√£o em todo o territ√≥rio nacional, reduzindo, pelo aumento da concorr√™ncia, a alta regionaliza√ß√£o caracter√≠stica do setor.
Ainda nessa linha, dada a escassez de demanda decorrente da baixa renda da popula√ß√£o, os grandes incorporadores dever√£o partir para a busca de outros nichos de mercado onde n√£o vinham tendo forte atua√ß√£o, como os loteamentos residenciais e os empreendimentos voltados a compradores de baixa renda. Simultaneamente a esse movimento, a tend√™ncia √© que o mercado de empreendimentos comerciais tamb√©m seja alvo de movimentos no mesmo sentido. Nos √ļltimos 2 a 3 anos tem sido claro, sobretudo no eixo Rio-S√£o Paulo, o aumento das taxas de ocupa√ß√£o de im√≥veis comerciais.
Outro segmento que tamb√©m tende a se desenvolver expressivamente nos pr√≥ximos anos √© o de infra-estrutura e log√≠stica em fun√ß√£o das claras car√™ncias que o pa√≠s apresenta. Aqui, uma melhor regulamenta√ß√£o que incentive a participa√ß√£o de investidores privados ainda √© um dos grandes entraves √† ‚Äúexplos√£o dos investimentos‚ÄĚ. Nesse cen√°rio o que se espera √© que, na medida em que as taxas de juros praticadas pelo mercado reduzam, o retorno dos investimentos imobili√°rios tornem-se relativamente mais atrativos, fazendo com que se crie um mercado mais ativo para bens imobili√°rios, ao mesmo tempo em que estes passem por processo de valoriza√ß√£o.
Com a maior entrada de investidores profissionais no mercado, um prov√°vel efeito imediato ser√° a ampla dissemina√ß√£o das opera√ß√Ķes estruturadas de cr√©dito atrav√©s de instrumentos provedores de alavancagem como os Certificados de Receb√≠veis Imobili√°rios (CRI) e os Fundos de Investimento em Direitos Credit√≥rios (FIDC). Como efeito um pouco mais retardado, dependente da exist√™ncia de maior volume de bons ativos e do maior interesse de pequenos investidores, ter-se-√° a populariza√ß√£o dos Fundos de Investimentos Imobili√°rios, que dever√£o reaparecer com grande destaque no mercado, nessa fase j√° como produtos maduros, com um n√≠vel razo√°vel de liquidez e focados em v√°rios projetos, diversificando portanto o risco dos investidores.
H√° que se lembrar por fim ainda os m√©ritos do Governo brasileiro pela retomada da capitaliza√ß√£o do setor imobili√°rio. Sem d√ļvida os recentes esfor√ßos no sentido de atualizar a legisla√ß√£o vigente, a introdu√ß√£o do instituto da aliena√ß√£o fiduci√°ria e os incentivos fiscais a investidores pessoas f√≠sicas muito t√™m contribu√≠do e muito ainda ir√£o contribuir para o desenvolvimento do mercado.

Régis Dall’Agnese é diretor da Rio Bravo Crédito Cia de Securitização.

O que est√° por tr√°s dos mercados turbulentos | Solange Srour Chachamovitz

Edi√ß√£o 170 

Nas √ļltimas semanas, os mercados financeiros globais foram fortemente afetados pelo aumento da avers√£o ao risco dos investidores e pela desalavancagem de parte de suas grandes posi√ß√Ķes. Um dos motivos apontados para tal movimento √© o receio de que os altos n√ļmeros de infla√ß√£o da economia americana e a conseq√ľente piora das expectativas pudessem levar ao Fed a ser mais restritivo do que o necess√°rio para desaquecer a pujante atividade econ√īmica. Ao mesmo tempo, tanto a Europa quanto o Jap√£o d√£o sinais de forte retomada de suas economias, j√° pr√≥ximas dos seus potenciais. Depois de um longo per√≠odo de elevado crescimento sem press√Ķes inflacion√°rias, o mundo se v√™ finalmente frente ao fim de pol√≠ticas monet√°rias extremamente acomodat√≠cias. √Č neste cen√°rio que o desaquecimento da atividade nos EUA passou a ser encarado como o principal ant√≠doto para a piora das perspectivas de infla√ß√£o, tornando-se o grande desafio atual.
N√£o √© a primeira vez que o receio de maior infla√ß√£o com forte desaquecimento da atividade americana torna-se quest√£o principal da discuss√£o macroecon√īmica internacional. Entretanto, encontramos hoje um mercado de trabalho com muito menos folga, as empresas com menores margens de lucros e os pre√ßos das commodities, principalmente da energia, nos mais altos n√≠veis hist√≥ricos. Al√©m disso, o grande desequil√≠brio americano, o d√©ficit em conta corrente s√≥ vem aumentando ao longo do tempo, servindo de pano de fundo para a desvaloriza√ß√£o do d√≥lar em rela√ß√£o aos seus principais parceiros comerciais.
Os efeitos de um menor crescimento nos EUA n√£o podem ser desprezados. Apesar de corresponder a cerca de ¬ľ do PIB1 mundial, os EUA exercem uma for√ßa bastante relevante para o crescimento dos demais ¬ĺ. Isto ocorre porque grande parte do crescimento mundial fora dos EUA √© baseado no aumento da produ√ß√£o sobre a demanda dom√©stica, refletido nos grande super√°vits em conta corrente dos pa√≠ses asi√°ticos, de grande parte dos pa√≠ses emergentes, principalmente dos produtores de petr√≥leo, e em algum grau dos pa√≠ses europeus.
A Europa corresponde a segunda maior participa√ß√£o do PIB2 mundial, depois dos EUA e possui uma elevada taxa de poupan√ßa. Nos √ļltimos dois anos, a regi√£o tem passado por um aumento significante da produtividade, entretanto os desafios s√£o grandes. Os europeus n√£o possuem grande seguran√ßa em rela√ß√£o as suas aposentadorias, dado o lento progresso na gera√ß√£o de empregos. H√° ainda o grande problema fiscal da regi√£o, que est√° sendo corrigido, em parte, atrav√©s de aumentos de impostos. Sem condi√ß√Ķes de diminuir a poupan√ßa dom√©stica significantemente e diante de uma combina√ß√£o de moeda mais valorizada com juros mais elevados, n√£o √© razo√°vel supor que a regi√£o possa contribuir expressivamente para contrabalan√ßar o menor crescimento dos EUA.
Na √Āsia, as perspectivas s√£o mais favor√°veis, mas o ritmo de diminui√ß√£o da poupan√ßa dom√©stica pode n√£o ser suficiente tamb√©m. No Jap√£o, a taxa de poupan√ßa das fam√≠lias vem declinando desde o in√≠cio da d√©cada de 80. Entretanto, o ajuste fiscal necess√°rio nos pr√≥ximos anos pode frear o aumento do consumo japon√™s. Na China, que corresponde a cerca de 12% do PIB3 mundial, as poupan√ßas das fam√≠lias s√£o extraordinariamente elevadas, reflexo da grande inseguran√ßa das fam√≠lias em rela√ß√£o a suas rendas futuras. A aus√™ncia de sistemas adequados de seguridade social, sa√ļde e educa√ß√£o impedem uma maior participa√ß√£o do consumo no crescimento do PIB. Nos principais pa√≠ses emergentes, incluindo os produtores de petr√≥leo, h√° enormes demandas por investimentos e reformas estruturais, sendo tamb√©m bastante dif√≠cil vislumbrar uma redu√ß√£o significativa de suas poupan√ßas no curto ou m√©dio-prazo.
Neste quadro, o grande dilema da economia americana √© desacelerar de forma a manter as expectativas inflacion√°rias sobre controle e diminuir o desequil√≠brio da sua conta corrente. Infelizmente, esta tarefa n√£o poder√° contar com grande ajuda das demais regi√Ķes e tem contra si o tempo.
Certamente, o efeito de uma redu√ß√£o do ritmo do crescimento da economia americana afetar√° a economia mundial. A dura tarefa imposta ao novo presidente do Fed √© justamente tornar o ajuste o mais gradual poss√≠vel, evitando o risco tanto de uma infla√ß√£o acima do desej√°vel quanto de um crescimento muito abaixo do potencial ou mesmo de uma queda de produto. √Č justamente com esses riscos que os mercados financeiros est√£o extremamente preocupados.
1 Medido pela paridade do poder de compra. 2 Idem. 3 Idem

Solange Srour Chachamovitz é economista-Chefe da Mellon Global Investments Brasil

O tremor da previdência chilena depois de 25 anos | Paulo Mente

Edição 169

A posi√ß√£o corajosa da nova presidente do Chile, a socialista Michelle Bachelet, de determinar um novo patamar de pens√Ķes m√≠nimas para os idosos e desamparados, trouxe consigo a revela√ß√£o sobre a fragilidade de uma previd√™ncia supostamente privatizada. Admitido como um modelo de modernidade de seguro social h√° pouco mais de tr√™s d√©cadas, o sistema chileno, escorado nos ent√£o chamativos Administradores de Fundos de Pens√Ķes (AFP), sempre esteve propenso a largar o caro√ßo nas m√£os do Estado que, por seu lado, sempre soube que um dia teria que responder √† popula√ß√£o de baixa renda. O conceito do seguro social totalmente privado √© elitista, partindo de uma equa√ß√£o simplesmente matem√°tica, na qual s√≥ recebe quem paga.
O sistema de fundos de pens√Ķes recebe aportes regulares de pouco mais de 3,5 milh√Ķes de contribuintes para uma popula√ß√£o economicamente ativa de mais de 10 milh√Ķes. Tem cerca de US$ 12 bilh√Ķes, em reservas capitalizadas, o que representa cerca de 8% do Produto Interno Bruto (PIB). H√° cerca de 7,5 milh√Ķes de filiados, contando a√≠ aqueles que possuem contas ativas. Ou seja, h√° uma parcela ainda representativa, de mais de 3 milh√Ķes de pessoas em idade de trabalho e fora do sistema privado.
Se esse quadro j√° n√£o √© t√£o animador, pior a situa√ß√£o dos idosos. Se somarmos todas as esp√©cies de benef√≠cios, encontraremos 330 mil pessoas amparadas pelas AFPs, com uma renda m√©dia de 107.000 pesos (cerca de US$ 200). Nas presta√ß√Ķes vital√≠cias, por idade ou invalidez, essa m√©dia sobe um pouco, indo a cerca de 170.000 pesos (US$ 320). Ou seja, a renda m√©dia paga pelo sistema privado n√£o chega a dois sal√°rios m√≠nimos brasileiros. Apenas a metade da popula√ß√£o idosa √© potencialmente atendida pela previd√™ncia privada. A outra depende da Pasis, a pens√£o assistencial p√ļblica.
Foi exatamente na dire√ß√£o desses exclu√≠dos que a Presidente voltou suas primeiras a√ß√Ķes, prometendo consolidar um novo sistema at√© 2010, com o objetivo de abarcar a todos os chilenos. Cerca de 411 mil pens√Ķes foram reajustadas em 10%, ao patamar m√≠nimo de 110 mil pesos, a√≠ incluindo tamb√©m aquelas pagas pelas AFP. Um ato justo, mas que imp√īs fatores ex√≥genos √† estrutura privada de pens√Ķes. O alcance da medida √© amplo, beneficiando mais de 1.200 mil pessoas. O ato tamb√©m quebrou barreiras para o acesso √†s pens√Ķes de outros 30 mil chilenos, que hoje est√£o sem qualquer benef√≠cio.
Ainda √© cedo para avaliar todos os impactos, que poder√£o refletir nos c√°lculos atuariais das reservas por capitaliza√ß√£o e exigir um incremento nos aportes. Quanto aos gastos p√ļblicos pela amplia√ß√£o da Pasis, ser√£o suportados, neste primeiro ano, pelo super√°vit do or√ßamento, j√° assegurado. Nos seguintes ser√£o sustentados pela estrutura tribut√°ria, sem necessidade de novos incrementos.
Esse tremor do sistema de seguridade chileno deixa alguns ensinamentos. O primeiro √© que n√£o se pode extrair do Estado a obriga√ß√£o prim√°ria de prote√ß√£o social aos de baixa ou nenhuma renda, sustentada pela estrutura tribut√°ria. Ou seja, uma previd√™ncia social totalmente privatizada √© impratic√°vel. O segundo √© que o sistema privado, mesmo com a caracter√≠stica de suplementar, n√£o pode funcionar sem a vigil√Ęncia normativa do Estado.
Visto √† dist√Ęncia, o sistema de previd√™ncia complementar brasileiro √© imponente. S√£o quase 300 fundos de pens√£o fechados com reservas de US$ 150 bilh√Ķes e outra dezena de abertos com reservas pr√≥ximas de US$ 5 bilh√Ķes, juntando 8 milh√Ķes de contribuintes (menos de 7% da popula√ß√£o economicamente ativa). Numa estrutura econ√īmica em que a distribui√ß√£o de renda √© perversa, esse sistema foi criado e regulamentado para desonerar o Estado, voltado aos brasileiros de melhor renda, inclusive no funcionalismo p√ļblico, onde at√© agora n√£o penetrou.
A previd√™ncia brasileira paga, atualmente, benef√≠cios que chegam a sete ou oito vezes o sal√°rio m√≠nimo, ou seja, quase US$ 8.000 por ano, um PIB per capita, enquanto no Chile a cobertura m√°xima pelo Estado √© de apenas US$ 2.400 por ano, ainda que o PIB per capita do chileno seja maior que o do brasileiro. √Č de se esperar que aqui outras reformas venham reduzir mais o benef√≠cio do Estado, incentivando novas ades√Ķes ao regime privado, n√£o de fundamento substitutivo, mas complementar, como o que hoje existe.
Mas exatamente a√≠ √© que entra a vigil√Ęncia estatal. O sistema de previd√™ncia privado, idealizado inicialmente para atender eventos de aposentadorias e pens√Ķes, transformou-se em poderoso instrumento de neg√≥cios, centrado na ind√ļstria da administra√ß√£o financeira e alimentado pelo furor das capta√ß√Ķes. O que se v√™ prosperar s√£o planos de investimentos programados sob o r√≥tulo de previd√™ncia privada, prometendo rendas tempor√°rias, depois das car√™ncias regulamentares.
Um modelo de raízes antigas, justificadas, e que chegou quase às escondidas à previdência fechada, sendo hoje praticado sem óbices regulamentares. São planos que, quando esgotadas as rendas, devolverão os idosos ao colo do Estado.

Paulo Mente √© economista, com especializa√ß√£o em mercado de capitais, atualmente diretor da Assistants Ltda, especializada em avalia√ß√Ķes atuariais. Mente tamb√©m √© ex-presidente da Abrapp

As janelas de oportunidade est√£o abertas ao Brasil | Renato Ejnisman

Edição 168

No mundo agitado de investment banking, cada um dos vários mercados e produtos costuma viver períodos em que há atividade mais intensa ou menos intensa. No Brasil, devido à grande volatilidade histórica, os períodos de intensa atividade, as chamadas janelas de oportunidade (ou, simplesmente, janelas), usualmente são breves, razoavelmente bem delineadas e abertas a poucos produtos. Desde o início de 2004, no entanto, vivemos uma gradativa volta às atividades de investment banking, com uma janela aberta a diversos produtos. Trata-se de um período ímpar e interessante.
Se lembrarmos do passado recente, na virada do mil√™nio, o Brasil experimentou uma movimenta√ß√£o de investment banking tamb√©m muito forte na esteira das privatiza√ß√Ķes. O Brasil era ent√£o um p√≥lo de atra√ß√£o de empresas estrangeiras, que viam uma oportunidade de ganho no mercado dom√©stico. Bancos de investimento mostravam na √©poca o consumo per capita de um determinado produto, comparavam-no com o consumo em pa√≠ses desenvolvidos e, voil√°, demonstravam o imenso upside dispon√≠vel.
Principalmente a partir da desvalorização do real, em 1999, iniciou-se um movimento de retração das atividades de investment banking.
Impulsionada em 2001 por uma tempestade quase perfeita (atentados em Nova Iorque, crises de confian√ßa p√≥s-Enron, racionamento de energia, elei√ß√Ķes presidenciais na fornalha), esta crise se intensificou em 2002/2003.
Em 2004/2005, o Brasil voltou a um patamar mais interessante de atividade em investment banking. Uma economia global robusta, altos pre√ßos de commodities e ganhos de produtividade de empresas brasileiras ajudaram a formar um cen√°rio onde o Brasil se tornou um participante mais ativo do com√©rcio global. Investidores estrangeiros passaram a enxergar o Brasil n√£o apenas como um atrativo mercado interno, mas tamb√©m como uma potencial plataforma exportadora. O jarg√£o da moda tamb√©m se alterou a nosso favor. Ao inv√©s dos pa√≠ses emergentes, a bola da vez passou a ser os BRICs (Brasil, R√ļssia, √ćndia e China) ‚Äď mercados com alto potencial de crescimento e escala. Recentemente, a valoriza√ß√£o do real provocou ajustes neste cen√°rio, mas muitos destes fundamentos permanecem inalterados.
O que este novo momento significa para cada um dos produtos de investment banking? No setor de fus√Ķes e aquisi√ß√Ķes, por exemplo, h√° um claro movimento de internacionaliza√ß√£o de empresas brasileiras de porte. Com o real valorizado, ativos estrangeiros tornam-se mais acess√≠veis. Al√©m disso, a alta liquidez global facilita o acesso ao capital, possibilitando passos mais audaciosos em dire√ß√£o ao exterior. Empresas nos setores de siderurgia, minera√ß√£o, petr√≥leo e cimento, por exemplo, fizeram aquisi√ß√Ķes nas Am√©ricas e na Europa.
O mercado de a√ß√Ķes, por sua vez, ressurgiu em 2004 como uma alternativa de capta√ß√£o de recursos por empresas. Aqui √© ilustrativo o grau de apetite dos investidores estrangeiros pelo Brasil: 70% da demanda por novos pap√©is v√™m deles. Em alguns casos, o mercado de a√ß√Ķes compete com o de fus√Ķes e aquisi√ß√Ķes, proporcionando ao acionista controlador uma alternativa vi√°vel de se desfazer do neg√≥cio ‚Äď impulsionando tamb√©m o mercado de private equity.
No mercado de d√≠vidas tamb√©m se notam algumas movimenta√ß√Ķes peculiares. O mais curioso deles √© o inovador lan√ßamento de b√īnus perp√©tuos por empresas brasileiras. Al√©m disso, empr√©stimos sindicalizados em reais e fundos atrelados a receb√≠veis (FIDCs) ajudaram a impulsionar o mercado de d√≠vidas em reais.
O que se espera desta janela atual? Ela continua, fecha ou abre ainda mais? Dif√≠cil dizer com certeza. O ano de 2006 parece at√≠pico (elei√ß√Ķes, copa do mundo). Por outro lado, h√° v√°rias opera√ß√Ķes sendo arquitetadas: aquisi√ß√Ķes de grande porte, novos investimentos em setores como papel e celulose e petroqu√≠mica, e v√°rias emiss√Ķes de a√ß√Ķes e outros t√≠tulos sendo analisadas pelos √≥rg√£os reguladores.
Apesar do cen√°rio interessante, a realidade √© que √© cada vez mais relevante uma perspectiva clara de crescimento da economia que seja, ao mesmo tempo, consider√°vel e de longo prazo. O Brasil vem sistematicamente crescendo a taxas menores do que as observadas nos demais integrantes do BRIC. Para demonstrar que √© poss√≠vel juntar-se a este bloco n√£o apenas para formar uma palavrinha simp√°tica e, quem sabe, at√© entrar no n√≠vel de investment grade, √© fundamental que os agentes econ√īmicos brasileiros tenham um foco muito grande em competitividade. Com isso, a janela permanecer√° aberta por mais tempo.
E os banqueiros de investimento viverão felizes, senão para sempre, pelo menos também por mais tempo.

Renato Ejnisman √© superintendente executivo, respons√°vel pela √°rea de fus√Ķes e aquisi√ß√Ķes do BankBoston no Brasil

Derivativos na gest√£o de renda fixa dos institucionais | Luiz Mario de Farias e Marcelo Nazareth

Edição 167

O papel dos derivativos na gest√£o de recursos √© muitas vezes mal compreendido. Casos c√©lebres como a queda do multicenten√°rio banco Barings, da Metallgesellshaft, do Long Term Capital, dentre outros, projetam no p√ļblico imagem de especula√ß√£o desenfreada e de enormes riscos inerentes a essa classe de instrumentos. Somam-se a isso resultados negativos em opera√ß√Ķes com derivativos apresentados por grandes fundos de pens√£o analisados pela CPI dos Correios.
Entretanto, o uso de derivativos √© n√£o s√≥ corriqueiro como extremamente √ļtil na gest√£o de carteiras de investimentos. Nossa id√©ia √© esclarecer a fun√ß√£o dos derivativos na gest√£o da renda fixa dos investidores institucionais. Quaisquer informa√ß√Ķes sobre perdas em opera√ß√Ķes na Bolsa de Mercadoria e Futuros (BM&F) s√£o per se, insuficientes para embasar conclus√Ķes sobre o desempenho dos investimentos como um todo.
A aplicação de derivativos de renda fixa no Brasil está mais relacionado ao estilo de gestão do que ao nível de risco das carteiras de investimento.
Limitar excessivamente o uso de derivativos induz a estilos de gest√£o passivos. O gerenciamento de renda fixa no mercado dom√©stico envolve tr√™s grandes subclasses de ativos: t√≠tulos p√≥s-fixados, prefixados e indexados √† infla√ß√£o. Cada qual responde de forma peculiar a fatores macroecon√īmicos. Isso significa que, caso a vis√£o sobre a economia se altere, ser√° necess√°rio que o gestor mude sua estrutura de aloca√ß√Ķes nessas subclasses.
Periodicamente, o governo brasileiro emite títulos em todas essas subclasses. Não há, até o momento, grandes dificuldades na colocação dos referidos papéis no mercado primário, que goza de grande liquidez.
Ocorre que, logo após a emissão, a liquidez é perdida de forma vertiginosa. Nesse contexto, uma gestão ativa de recursos precisa recorrer à BM&F para uma troca virtual de subclasses.
Em vista disso, o uso de derivativos lineares como ‚Äúswaps‚ÄĚ e futuros √© extremamente comum no Brasil. Na maior parte dos casos, esse uso n√£o gera alavancagem, pois esses instrumentos reagem de forma proporcional √†s mudan√ßas nos pre√ßos dos t√≠tulos do governo. Um exemplo de uma opera√ß√£o corriqueira √© a compra de t√≠tulos prefixados e a entrada em um ‚Äúswap PRE-DI‚ÄĚ (ou venda de um futuro DI). Alguns fundos de investimento possuem at√© 100% de seus ativos nesse tipo de opera√ß√£o.
Apesar da exposição desses fundos aos derivativos ser de 100%, o risco da operação é extremamente baixo, pois equivale à compra de um título pós-fixado, tal como uma LFT.
Uma opera√ß√£o como essa pode ser apelidada de compra virtual de um t√≠tulo p√≥s-fixado. Compare o resultado dessa opera√ß√£o √† compra direta de uma LFT. Em qualquer hip√≥tese, essas opera√ß√Ķes obter√£o a mesma rentabilidade. Entretanto, em um ambiente de diminui√ß√£o de taxas de juros, a compra virtual apresentar√° uma perda importante junto √† BM&F , compensada, √© claro, pela valoriza√ß√£o dos t√≠tulos prefixados. Se os juros aumentarem, o resultado ser√° o inverso. √Č importante ressaltar que o objetivo da opera√ß√£o √© se proteger contra mudan√ßas na taxa de juros. A meta ser√° atingida seja com perdas junto √† BM&F, seja com ganhos.
A experiência mostra que na avaliação de riscos e desempenho de fundos de pensão, a visão parcial de uma carteira de ativos pouco diz sobre seu desempenho global. Na avaliação dos gestores mais importantes no mercado brasileiro, encontramos práticas diversas no uso de derivativos.
Alguns se mant√™m afastados de opera√ß√Ķes na BM&F, enquanto outros chegam a ter posi√ß√Ķes compradas e vendidas de at√© 80% de suas carteiras.
Muitas vezes, o nível de risco de carteiras que fazem pouco uso de derivativos é consideravelmente maior do que o risco daquelas que os usam fortemente. Não encontramos, tampouco, qualquer relação entre desempenho global das carteiras e utilização de derivativos. Vista de forma isolada, a carteira de derivativos poderá apresentar grandes perdas.
Est√° claro, contudo, o que isso significa: rigorosamente nada.
O m√©todo eficiente de limitar os riscos em carteiras de renda fixa consiste em observar limites nas aloca√ß√Ķes l√≠quidas em cada subclasse de ativos.
Comprar títulos prefixados e vendê-los virtualmente com o uso de derivativos, não resulta em qualquer exposição líquida nessa subclasse de ativos. O fato de haver posição na BM&F é fruto das contingências de liquidez do mercado doméstico.

Luiz Mario de Farias é consultor financeiro da Towers Perrin e Marcelo Nazareth é presidente da NetQuant.

Atuação para proteger direitos dos participantes do mercado | José Alexandre Cavalcanti Vasco

Edição 165

Nos √ļltimos anos o Pa√≠s vem assistindo a um renascimento do interesse do p√ļblico investidor pelo mercado de capitais. Atestam esse movimento tanto a vigorosa retomada das ofertas p√ļblicas registradas na CVM, que j√° prenunciam um volume recorde em 2005, quanto um consistente aumento na participa√ß√£o de investidores pessoas f√≠sicas nos neg√≥cios com valores mobili√°rios, notadamente na Bolsa de Valores de S√£o Paulo. O aprimoramento das pr√°ticas de governan√ßa corporativa, o desenvolvimento de novos ambientes e ferramentas de negocia√ß√£o, bem como instrumentos financeiros, e a introdu√ß√£o de algumas reformas micro- econ√īmicas s√£o, todos, fatores que apontam para a consolida√ß√£o das condi√ß√Ķes necess√°rias a uma maior relev√Ęncia econ√īmica desse segmento no conjunto da economia brasileira, especialmente a se confirmar o cen√°rio de taxas juros declinantes para os pr√≥ximos anos.
Nesse sentido, esse recente crescimento do mercado vem renovar, com novas roupagens, um antigo desafio dos √≥rg√£os reguladores, mas tamb√©m dos emissores e intermedi√°rios, que √© o de prover graus adequados de prote√ß√£o aos investidores. Isto porque a manuten√ß√£o da confian√ßa no mercado e em suas institui√ß√Ķes, fundamental ao seu desenvolvimento, n√£o pode prescindir de um tratamento eq√ľitativo a todos que dele participem, coibindo, assim, eventuais condutas fraudulentas e pr√°ticas abusivas de alguns agentes. Decerto por esse motivo, a CVM, desde sua origem, elegeu a defesa dos investidores como um dos fundamentos de sua pol√≠tica de regula√ß√£o, estruturando v√°rias iniciativas que visavam ao atendimento e √† orienta√ß√£o do p√ļblico.
Em 1998, essas diversas iniciativas ganharam nova organiza√ß√£o, com o lan√ßamento do Programa de Orienta√ß√£o e Defesa do Investidor (PRODIN) e a cria√ß√£o de uma √°rea espec√≠fica para conduzi-lo, a Superintend√™ncia de Prote√ß√£o e Orienta√ß√£o aos Investidores (SOI). Sem descuidar das a√ß√Ķes educacionais, com a distribui√ß√£o gratuita de material informativo e a realiza√ß√£o de palestras e encontros com estudantes e aplicadores, aperfei√ßoou-se o servi√ßo de atendimento ao p√ļblico, respondendo consultas e processando reclama√ß√Ķes formais sobre a atua√ß√£o de emissores, intermedi√°rios e profissionais do mercado.
Os desenvolvimentos subseq√ľentes conduziram a uma acelerada expans√£o desse programa, na medida do crescente interesse do p√ļblico, sendo que, at√© novembro de 2005, atendemos cerca de 230 mil consultas e reclama√ß√Ķes, contra 87 mil em todo ano passado. Esses atendimentos envolvem variados graus de urg√™ncia e de complexidade, podendo abranger de simples consultas a reclama√ß√Ķes formais. Em quest√Ķes mais intrincadas, muitas vezes apresentadas por investidores institucionais, em que n√£o raro se noticiam atos supostamente praticados com abuso de poder do controlador ou situa√ß√Ķes de conflito com participantes do mercado, a SOI conduz seus exames em conjunto com as demais superintend√™ncias da CVM, visando a uma atua√ß√£o que contrapese todos os aspectos t√©cnicos do lit√≠gio.
Assim √© que esse desenho institucional possibilita a obten√ß√£o de informa√ß√Ķes valiosas √† atua√ß√£o desta Comiss√£o. Muitas vezes, notadamente em opera√ß√Ķes de varejo, um simples pedido de informa√ß√Ķes, acerca de determinada oferta de valores mobili√°rios, d√° not√≠cia de elementos suficientes para iniciar uma investiga√ß√£o, a qual pode desvelar uma irregularidade, ou mesmo fraude, em curso. Nesses casos, a exist√™ncia de um canal √°gil de comunica√ß√£o com o mercado possibilita uma a√ß√£o mais imediata, evitando o alastramento de esquemas irregulares de capta√ß√£o da poupan√ßa popular (nesse sentido est√£o algumas iniciativas recentes da CVM). Al√©m disso, a concentra√ß√£o, em uma √ļnica Superintend√™ncia, de todo o fluxo de reclama√ß√Ķes e consultas, possibilita a identifica√ß√£o dos principais problemas havidos no mercado, bem como dos participantes mais reclamados, constituindo importante subs√≠dio √† a√ß√£o reguladora e de fiscaliza√ß√£o. Por nos permitir uma atua√ß√£o mais efetiva na prote√ß√£o dos direitos dos investidores, emissores e intermedi√°rios, objetivo que √© de interesse p√ļblico, √© que a CVM vem refor√ßando seus servi√ßos de atendimento ao p√ļblico, modernizando e adequando os mesmos √†s crescentes demandas da sociedade, nesse momento t√£o alvissareiro para o mercado de capitais. Mas o sucesso dessa iniciativa, sem d√ļvida, depende muito da participa√ß√£o de todos os investidores, em especial os institucionais, que podem ser importantes parceiros nesse esfor√ßo por um mercado mais eficiente e, principalmente, eq√ľitativo.

José Alexandre Cavalcanti Vasco é superintendente de Proteção e Orientação aos Investidores da Comissão de Valores Mobiliários (CVM)

Brazil Day 2005 reafirma evolução das companhias | Marco Geovanne Tobias da Silva

Edição 164

A forte demanda das companhias abertas brasileiras pela participação no Brazil Day 2005 reflete de maneira indiscutível a evolução de um mercado que tem, cada vez mais, saído do discurso para a prática no que diz respeito a estratégias de sustentabilidade e governança corporativa. Com muito para mostrar aos investidores internacionais, empresários e profissionais do mercado global, as empresas brasileiras já compreenderam que é irreversível e crescente o movimento de modernização e adesão às práticas internacionais de respeito ao investidor e às regras de boa governança.
Assim como os fundamentos econ√īmicos do Pa√≠s, as companhias abertas brasileiras que marcam presen√ßa em Nova York este ano vivem um momento particularmente favor√°vel, o que amplia as perspectivas de manuten√ß√£o de um fluxo expressivo de investimentos estrangeiros destinados √†s a√ß√Ķes dessas empresas. Ao mesmo tempo, esse movimento contribui tamb√©m para consolidar a evolu√ß√£o do mercado interno como um todo, que ganha a influ√™ncia positiva de fatores como a harmoniza√ß√£o cont√°bil e a adequa√ß√£o √†s exig√™ncias da Lei Sarbanes- Oxley, entre outros aspectos respons√°veis pelo aumento da transpar√™ncia e da √©tica.
Esse ciclo virtuoso est√° baseado em grande parte tamb√©m na mudan√ßa estrat√©gica vital que ocorreu no relacionamento das empresas com seus investidores. O esfor√ßo conjunto de diversos segmentos, em particular o dos profissionais de Rela√ß√Ķes com Investidores, permitiu acelerar a velocidade de evolu√ß√£o. Gra√ßas aos avan√ßos registrados tanto no n√≠vel corporativo como regulat√≥rio, e pela iniciativa de todas as entidades que t√™m trabalhado para integrar o mercado de capitais brasileiro aos padr√Ķes internacionais de excel√™ncia, a expectativa do IBRI (Instituto Brasileiro de Rela√ß√Ķes com Investidores) √© de que essa vitrine brasileira na Bolsa de Valores de Nova York seja fortalecida a cada evento, multiplicando o n√ļmero de empresas participantes, patrocinadores e apoiadores.
O p√ļblico reunido em Nova York j√° sinalizou que est√° disposto a avaliar com muita aten√ß√£o o desempenho das companhias e do Pa√≠s. Entre os melhores ‚Äúprodutos‚ÄĚ expostos nesse Brazil Day, vale destacar os resultados expressivos j√° obtidos pela Bolsa de Valores de S√£o Paulo com seus programas de populariza√ß√£o e democratiza√ß√£o do acesso ao mercado e de valoriza√ß√£o dos n√≠veis de governan√ßa corporativa.
√Č inquestion√°vel, nesta terceira edi√ß√£o do Brazil Day em Nova York, que a comunica√ß√£o adequada de informa√ß√Ķes aos agentes do mercado global j√° √© um dos instrumentos mais importantes para alavancar o crescimento de neg√≥cios. Profissionais de RI, empres√°rios e analistas, assim como as autoridades reguladoras do mercado t√™m consci√™ncia de que a capta√ß√£o de recursos externos √© hoje muito mais do que uma estrat√©gia financeira. Adequadamente preparadas e bem articuladas pelos departamentos de RI, as opera√ß√Ķes das companhias brasileiras no exterior assumem o papel de posto avan√ßado do Pa√≠s no cen√°rio internacional, contribuindo tamb√©m para fortalecer a confian√ßa dos investidores na economia nacional.
Ao levar suas informa√ß√Ķes diretamente aos investidores internacionais, analistas e empres√°rios reunidos em Nova York, as empresas, autoridades e entidades organizadoras mostram os principais requisitos para atender √† demanda de um grupo cada vez mais diversificado de investidores que busca conhecimento sobre o desempenho, evolu√ß√£o e perspectivas concretas de sustentabilidade das companhias brasileiras.
O Brazil Day 2005 √© organizado pela Abrasca (Associa√ß√£o Brasileira das Companhias Abertas), Apimec (Associa√ß√£o dos Analistas e Profissionais de Investimentos do Mercado de Capitais), Bovespa (Bolsa de Valores de S√£o Paulo) e IBRI (Instituto Brasileiro de Rela√ß√Ķes com Investidores).

Marco Geovanne Tobias da Silva √© presidente do Comit√™ Organizador do Brazil Day 2005 e vice-presidente do Ibri (Instituto Brasileiro de Rela√ß√Ķes com Investidores).