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Impacto econômico do coronavírus
Opinião: Adriana Dupita

Quando os primeiros casos de COVID-19 surgiram na China, a grande preocupação – do ponto de vista econômico – era como a forte desaceleração da segunda maior economia do mundo iria afetar os demais países, seja por conta de menor demanda por exportações, seja por conta da ruptura de cadeias de produção. Menos de três meses depois, com uma pandemia declarada, a discussão é se e como a política econômica vai conseguir evitar uma recessão na maior parte do planeta.
Nenhum de nós que estamos hoje no mercado passamos por uma circunstância nem remotamente parecida. A pandemia atual combina um índice de contágio muito elevado com letalidade relativamente baixa, mas relevante o suficiente para justificar medidas draconianas de saúde pública. Dentre elas, as medidas de distanciamento social – que são cruciais para evitar congestionamento no serviço de saúde – são as que mais tendem a afetar a economia. Seus efeitos dependerão crucialmente de sua duração – ainda imprevisível – e da resposta de política econômica adotada por cada país.
Mas que tipo de política econômica pode ser mais eficaz em resposta a uma crise como esta? Sem nenhum episódio recente em que se basear, é difícil afirmar com certeza o que funciona e qual a dose necessária. Porém, as últimas semanas trouxeram um grande debate entre economistas acadêmicos, de mercado e com experiência em política econômica, e alguns consensos parecem começar a emergir:
Com a maioria dos bancos centrais já praticando juros muito baixos, é incerto o quão efetivos novos cortes serão em dar suporte à economia. No entanto, tão ou mais importante que cortar juros, é garantir acesso rápido e barato ao crédito a quem efetivamente precisa – principalmente para as pequenas empresas do setor de serviços, que são as mais impactadas pela menor circulação de pessoas nas cidades em que o distanciamento social foi adotado.
O setor público precisa estar pronto para ajudar e eventualmente resgatar empresas de relevância sistêmica – bancos e empresas de transporte, entre outras – em caso de problemas.
Do lado fiscal, o primeiro foco de ação é garantir recursos para o sistema de saúde. Mas outras medidas são importantes para mitigar o impacto econômico e a própria evolução da pandemia: por exemplo, garantir que os trabalhadores infectados tenham direito a licença; facilitar acesso a mecanismos de suporte à renda para aqueles trabalhadores que precisem ficar em casa, seja para cuidar de familiares, seja para evitar a propagação do vírus; algum mecanismo de ajuda a empresas e trabalhadores informais, para que consigam atravessar a queda de demanda. Postergação na cobrança de impostos em determinadas situações é outra ferramenta que pode fazer a diferença.
Esta lista não esgota todas as medidas em discussão, e a evolução da pandemia e da economia será importante para mostrar onde o apoio da política econômica será mais necessário. Mas como regra geral, o “espírito” das medidas deveria ser fazer o que for necessário para evitar que a pandemia – que, espera-se, será temporária – tenha efeitos de longo prazo, por ter quebrado empresas e famílias.
Apesar destas medidas serem pensadas para países desenvolvidos, as recomendações não diferem muito para a economia brasileira – embora sua adoção comporte alguns riscos. No contexto atual, a autoridade monetária tende a se preocupar mais com os riscos de a inflação ficar abaixo do que acima da meta – por isso, corte de juros e aumento de liquidez são cartas sobre a mesa do BCB. A mudança de patamar do real – causada em grande medida pelo aumento da aversão a risco no mundo – dificilmente pode ser revertida com intervenção no mercado de câmbio; ao BCB talvez a melhor opção seja oferecer ao mercado swaps, provendo proteção cambial a empresas sem erodir as reservas internacionais.
No âmbito da política fiscal, a situação é mais complexa. Continua sendo verdade que, com déficit primário e dívida elevada, o governo não dispõe de espaço fiscal para estimular a economia em condições normais. Mas não estamos em condições normais, e as circunstâncias absolutamente extraordinárias justificam o uso dos mecanismos de créditos extraordinários previstos nas regras fiscais vigentes, como também justificam a ampliação da meta de déficit primário para o ano. O sucesso do estímulo fiscal, porém, depende de dois aspectos cruciais. Primeiro, se os recursos serão usados com sabedoria – em medidas de proteção social, como as sugeridas acima, ao invés de investimentos públicos. Segundo, se a sinalização será de uma piora fiscal temporária ou de uma deterioração fiscal permanente – o que aconteceria, por exemplo, caso o teto de gastos seja revertido.
No meio de tantas incertezas, resta a esperança de que a resposta de política econômica – aqui e fora – seja rápida, bem desenhada e bem implementada, para que uma grande crise econômica não acentue o drama do que já é um enorme problema de saúde pública.