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Os critérios ESGI são o novo normal
Opinião: Marcelo Wagner

Uma frase atribuída erroneamente a Charles Darwin diz que “não são as espécies mais fortes que sobrevivem nem as mais inteligentes, mas as que melhor se adaptam às mudanças”. O sucesso da citação faz sentido, mesmo com autor desconhecido: resiliência e inteligência são sempre muito bem-vindos, mas saber se adaptar num mundo que muda o tempo todo, cada vez mais rapidamente, é fundamental.
Questões que pareciam um pouco mais distantes quando ingressei no mercado de trabalho atualmente são temas de constante interesse. Aquecimento global, desmatamento e corrupção são alguns dos assuntos discutidos em escolas, casas e até mesas de bar. A humanidade está mais atenta aos critérios ambientais, sociais, de governança e integridade — ou simplesmente ASGI, como são conhecidos. E os mercados também refletem essa mudança de comportamento.
Investir levando em consideração esses critérios vai muito além de simplesmente atender expectativas. Se pensarmos no longo prazo, é uma questão de sobrevivência. O investimento responsável é sustentável, na plenitude do termo: algo que consegue ser preservado. Estudos mostram que, quando se investe em questões ambientais, sociais, de governança ou de integridade, existem menos riscos no longo prazo. Estamos falando de futuro, precisamente o foco das entidades de previdência complementar. Mas como fazer isso?
Os princípios ASGI devem ser observados em todas as classes de ativos, desde a participação em empresas até a compra de títulos de empresas privadas, passando pela seleção de gestores de fundos. Deve ser avaliada a qualidade do ativo em termos como transparência, governança, controle, integridade e responsabilidade socioambiental.
Dessa forma, ASGI passa a fazer parte do valuation dos investimentos, ou seja, da própria avaliação sobre o preço justo do ativo.
No Brasil ainda existem poucos investimentos desse tipo, mas um potencial enorme para criá-los, notadamente em ativos ambientais de renda fixa. Mas para isso o pipeline — ou, simplesmente, a linha de produção — desse tipo de ativo precisa ser mais consolidado e conectar oferta, estrutura e demanda.
Uma maneira interessante de operacionalizar ativos ASGI é usar a estratégia de offshore como uma alavanca, para aprender com mercados em que esse segmento já é muito desenvolvido. Ao fazer esse tipo de alocação, existem dois benefícios. O primeiro é que, ao realizar esses investimentos, é aberto um canal de comunicação importante, em que é possível aprender as metodologias e tecnologias de um caminho que o Brasil precisa trilhar. Aprender com quem já possui experiência sobre um conhecimento ainda inexistente no país, tanto no mercado quanto na academia. O segundo benefício é a diversificação, já que muitas vezes esses ativos possuem uma baixa correlação com a carteira local, o que pode melhorar a fronteira eficiente do portfólio.
Se o primeiro benefício pode não parecer muito tentador para alguns, o segundo não tem como não ser. No atual cenário econômico de juro baixo, diversificar é imprescindível. Se antes era possível atingir a meta atuarial com uma alocação majoritariamente em renda fixa, agora a diversificação é o fator-chave para rebalancear e rentabilizar a carteira de investimentos.
Essa conjuntura pode ser um fenômeno recente no Brasil, mas não nos mercados internacionais. Vivemos um novo normal, um cenário em que o desempenho financeiro deixou de ser o único critério para avaliação do valor de um ativo. A sociedade está cada vez mais atenta à forma como as companhias lidam com as questões ASGI. Por isso, os investidores institucionais possuem, mais do nunca, uma obrigação com o longo prazo.
Quando as entidades de previdência complementar se comprometem a auxiliar os participantes a formar suas poupanças previdenciárias, também estão se comprometendo em investir numa sociedade melhor para o futuro, quando os associados estarão usufruindo de seus benefícios. Este é o maior sentido dos critérios ASGI: associar rentabilidade com perenidade.