Mainnav

A reeducação do mercado
Opinião: Carolina da Costa e Luiz Fernando Figueiredo

Na Teoria Econômica, há uma máxima que dita que o comportamento dos agentes econômicos é função dos incentivos oferecidos. São, portanto, reações. No âmbito do mercado financeiro, seleção e alocação de ativos são perfeitas expressões da lógica reativa. Mercado é consequência. Causa “mercado” a política econômica, que propõe incentivos (nem sempre produzindo o que intencionou), novos fatores de produção, assim como mudanças profundas em hábitos e valores morais dos agentes econômicos. Se pretendemos inovar estruturalmente naquilo que fazemos, questionar a lógica de causalidade pela qual explicamos efeitos é um bom ponto de partida. Na ciência, essa rotina tem sido responsável pelo surgimento de diversas teorias que ora conflitam, ora se complementam, mas sempre expandem conhecimento. Por exemplo, na biologia para explicar adaptação das espécies, no desenvolvimento humano para explicar fenótipos, na física para explicar movimentos planetários e por aí vai. E no âmbito do mercado financeiro, há espaço para mais protagonismo que cause transformação?
A crise que vivemos trará enormes consequências sociais. Estima-se que até o final desse ano, haverá cerca de 15 milhões de desempregados, 4,4 milhões de crianças abaixo da linha da pobreza, dívida pública brasileira acima de 90%, 6% de queda no PIB nacional. Todas as esferas da sociedade perderão renda, exceto a máquina pública cujo peso do gasto com funcionalismo se amplificará desproporcionalmente aos demais setores. Uma adequada política fiscal será fundamental para direcionar corretamente o comportamento dos agentes e gerar mais proporcionalidade e equilíbrio no balanço de perdas. O mercado financeiro também deverá contribuir com a sua cota de sacrifício. Não simplesmente por arcar com a diminuição dos ativos sob gestão (R$74bi saíram de fundos desde o início desse ano), mas também pela necessidade de repensar sua forma de atuar para co-liderar mais ativamente um processo de transformação já em curso.
A consciência dos impactos da crise intensificou entre os gestores de ativos e alocadores o discurso sobre longo prazo e impactos sociais e ambientais dos investimentos. Boa notícia vermos a sigla ASG (Ambiental, Social e Governança ou, em inglês, ESG) cada vez mais presente nas pautas. Estudos mostram que o volume de ativos sob gestão no mundo em finanças sustentáveis ultrapassa U$ 31 trilhões (dados GSIA). O S&P 500 ESG index mostrou retornos 3% acima quando comparado ao benchmark S&P 500 (2019/2020) e 6 em 10 fundos ASG tiveram retornos superiores aos convencionais na última década (FT, 13/6/20). A somatória de ativos em fundos de impacto relacionados com algum dos 17 ODSs (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável) ultrapassa U$ 500 bilhões (segundo GIIN). Tudo isso impulsionado por mudanças regulatórias recentes que contribuem para reprecificar riscos, incentivar novos projetos ambientais (ex. na linha de redução de emissões de carbono) e crédito “verde”. Novas abordagens de rating passam também a incluir aspectos sociais e ambientais (exemplo da MorningStar que comprou a Sustainalytics). É bastante motivador notar a qualidade de porta-vozes de diferentes indústrias defendendo mudanças estruturais para um novo capitalismo. Destaque para grupos de estudo atuando nesse momento na ANBIMA, ABVCAP, além de importante advocacy puxado pela Converge Capital e CEBDS. O recém lançado Capital Reset é agora leitura essencial sobre o tema.
Mas ainda há um longo caminho para verificarmos até que ponto discursos se tornarão prática efetiva. Acreditamos que estamos diante de uma grande oportunidade de reeducar o mercado financeiro para uma atuação mais protagonista, para além da seleção e alocação de ativos. Não é mais suficiente investir em um ativo pela “barganha” de hoje, pois um pouco mais à frente, quando os preços se equilibrarem, o real valor se dará com base em novo paradigma de valuation que abarque amplo impacto para sociedade. Podemos criar novos negócios baseados em ecossistemas que promovam relações mais simbióticas entre investidores e investidos (muitos ainda aguardando oportunidades decentes de acesso ao capital). Podemos abrir espaço para profissionais advindos de outros setores com formatos inovadores de interação em rede para a construção conjunta de soluções. Podemos promover novos mindsets sobre o que significa “ganhar, perder e servir”.
Estamos diante de uma oportunidade histórica de reinvenção que se dará para aqueles que aceitarem o desafio da reeducação para maior protagonismo social. Esse movimento não é apenas para o benefício de nossos negócios, mas para o legado que intencionamos deixar para as futuras gerações e para o planeta.