Mainnav

Repensando a alocação em tempos de crise
Opinião: Jorge Simino

Obviedade inicial: o mundo e o Brasil enfrentam, desde janeiro deste ano, uma crise sanitária e econômica. O Brasil em adição também apresenta sinais de turbulência política.
Algumas breves palavras sobre esta última. Constatação também óbvia é a existência de muito ruído na condução política. Como os ruídos afetam os preços dos ativos financeiros depende basicamente da sensibilidade auditiva e da lateralidade de cada agente econômico. Independentemente da escolha de cada qual, uma coisa é certa: ruídos não ajudam; ruídos atrapalham.
Um ditado antigo diz “de médico e louco todo mundo tem um pouco”. Pois bem, nos últimos meses o lado médico, agora com especialização em epidemiologia, assolou as áreas de análise econômica. Gráficos, tabelas e modelos estatísticos povoam os relatórios numa tentativa, legitima, diga-se de passagem, de antecipar algum sinal de declínio da pandemia. Mas a verdade é que a ciência apesar de todos os esforços, e neste curto espaço de tempo, ainda não conseguiu desenvolver um fármaco eficiente e muito menos uma vacina. Neste sentido é preciso absorver a ideia que as incertezas provocadas pela pandemia tão cedo não serão dissipadas.
Assim sendo, devemos concentrar nossos esforços para entender a evolução da crise em termos econômicos e financeiros.
Duas especificidades podem ser atribuídas a esta crise. Primeira, pela natureza sanitária, e pela inexistência de um tratamento eficaz a adoção da técnica do isolamento social para restringir a propagação atingiu a oferta e a demanda simultaneamente. Segunda, é a velocidade com que tanto a doença quantos seus efeitos se espalharam.
Tempos excepcionais, medidas excepcionais. Nos países desenvolvidos em geral, e particularmente nos Estados Unidos, a magnitude dos estímulos fiscais e monetários superaram tudo o que já foi visto no passado, inclusive na crise financeira de 2008. Do lado fiscal, o governo americano aprovou no Congresso um pacote de 2 trilhões de dólares para socorrer pessoas físicas e jurídicas. Do lado monetário, o FED (banco central americano) cortou os juros básicos para praticamente zero em duas reuniões extraordinárias em março e usou seu balanço para comprar ativos no mercado (os ativos do seu balanço montavam a 3,8 trilhões de dólares, no final de 2019, voltaram a crescer nos últimos três meses e atingiram a cifra de 7,2 trilhões de dólares). Em resumo, a injeção de liquidez na economia foi gigantesca.
No Brasil tivemos movimentos análogos, com alguma hesitação inicial, dado o conjunto de nossas limitações. Também tivemos redução de juros e pacotes de ajuda fiscal, seja para pessoas físicas seja para empresas.
Lá e cá a dúvida central está na velocidade e na magnitude da recuperação econômica e no típico jargão do mercado as possíveis recuperações recebem apelidos usando letras: V, U W e por aí vai.
Para além das letras, creio que seja mais razoável perguntar como as famílias, as empresas e o próprio governo (nos três níveis – federal, estadual e municipal) se comportarão dado que todos sairão da crise mais endividados, com remuneração menor (leia-se rendimentos, receitas operacionais e tributos, respectivamente)? E dada a capacidade ociosa, que já existia antes da crise, e que certamente se ampliou com seus efeitos, a variável investimento também não deveria despertar muito entusiasmo. Tudo posto fica difícil imaginar uma recuperação mais robusta em 2021.
A questão fiscal é outro ponto que me parece claramente subestimado. As projeções de déficit primário para este ano giram ao redor de 10% do PIB. Mas para 2021 as expectativas giram ao redor de 3% do PIB, um ajuste de sete pontos percentuais do PIB. E sem aumento de tributos!
Enfim, um ajuste de contas públicas em magnitude nunca vista nos últimos vinte anos. Temos aqui um sinal claro de muito otimismo (e não custa lembrar as palavras de Candido – personagem de Voltaire: “o otimismo é a fúria de sustentar que tudo está bem quando se está mal”).
Para os investidores em geral, e para as Entidades Fechadas de Previdência Complementar em particular, os desafios de investimento aumentaram muito. De um lado, o custo de oportunidade nunca foi tão baixo, mas por outro lado as incertezas associadas a alocação em ativos de maior risco são também imensas.
Conclusão: o cenário DP (Depois da Pandemia) é completamente diferente do cenário AP (Antes da Pandemia) e, assim sendo, a gestão do portfólio também há de ser diferente. O processo de alocação em ativos de maior risco continuará sendo necessário, mas precisará ser repensado com cuidado.