Mainnav

Produtividade é o nome do jogo
Opinião: Solange Srour

Após o relaxamento das medidas de isolamento social e o religamento de várias economias, assistimos a uma onda de otimismo em relação ao ritmo de recuperação da atividade no mundo. Dados recentes mostram que com a volta da mobilidade nos mais diversos países, o consumo foi retomado com força, assim como a confiança dos empresários.
O argumento de que o colapso econômico é em grande parte devido ao vírus ganhou força. Sendo assim, na ausência de uma segunda onda muito grave, o consenso é de que as economias voltarão a operar no mesmo ritmo e padrão que antes do Covid19. Esta visão, no entanto, deixa de lado mudanças estruturais decorrentes da crise. Pesquisas disponíveis sugerem que as pessoas devem, de alguma forma, ter novos hábitos de consumo, poupança, lazer e que os modelos de produção serão outros. Os impactos dessas transformações no mercado de trabalho serão enormes e podem impedir a volta rápida dos empregos, da renda e do PIB.
Do lado da oferta, o trabalho remoto, por exemplo, tem se mostrado uma forma menos custosa e mais produtiva de organização, estimulando um enorme aumento de investimentos em equipamentos e plataformas digitais. A legislação que inibia alguns serviços de avançar, como o caso da telemedicina, teve que ser modernizada. Do lado da demanda, a pandemia forçou consumidores a testar novas formas de consumir, como a atividade de compras online, a qual agora é valorizada por sua conveniência e segurança. Alguns serviços, como viagens ou eventos de negócios, serão drasticamente reduzidos depois que reuniões virtuais se tornaram uma alternativa mais fácil e barata.
Como reflexo, empresas como Amazon, Microsoft, Apple, Tesla, Facebook, PayPal, Netflix, Shopify, Zoom passaram por uma valorização expressiva. De outro lado, várias companhias aéreas, hotéis e lojas de departamentos estão entrando em recuperação judicial, reestruturando e reduzindo suas operações de forma permanente.
Historicamente, as respostas do mercado de trabalho a choques são lentas. Fatores idiossincráticos, como as habilidades específicas do trabalhador, impedem sua transferência rápida entre setores e regiões. Por essa razão, um país que carece de mão-de-obra qualificada, como o nosso, não terá uma recuperação econômica rápida, mesmo que a pandemia seja controlada dentro de alguns meses.
Políticas públicas são fundamentais para a velocidade da recuperação. A magnitude e a rapidez da paralisação da economia foram sem precedentes e justificaram, em vários países, programas de sustentação da renda, subsídios à retenção de funcionários e a expansão do crédito bancada pelos governos às empresas mais afetadas.
Nos pós-Covid, deveremos assistir a uma substituição de políticas excepcionais por políticas sustentáveis nos médio e longo prazos. Países como o Brasil, que não dispõem de espaço fiscal, terão que ajustar o crescimento do gasto público e ao mesmo tempo lidar com um enorme contingente de desempregados. A agenda para uma recuperação menos traumática passa por uma série de reformas estruturais que possam gerar um aumento da produtividade do trabalho e facilitar a realocação da mão-de-obra.
Em primeiro lugar, para incentivar o investimento privado e aumentar o investimento público, teremos que fazer uma ampla revisão do gasto público. Sua composição é altamente prejudicial ao crescimento, com 80% das despesas sendo destinado à Previdência e ao funcionalismo. Não teremos como deixar de fazer a reforma da Previdência nos Estados e municípios e o avançar com a reforma administrativa.
Precisamos urgentemente de uma ampla revisão nas regras e procedimentos para aprovação de projetos, uma legislação que incorpore as contrapartidas de impactos ao meio ambiente e um arcabouço institucional que diminua a enorme insegurança jurídica presente.
Para facilitar a realocação da mão-de-obra, teremos que aprofundar a reforma trabalhista, iniciada no governo Temer. A tão debatida reforma tributária, ao simplificar o dia-a-dia das empresas e diminuir seu enorme contencioso tributário, deveria sair do campo das ideias e ser posta em votação no Congresso.
A discussão atual infelizmente está focada na expansão dos programas sociais bancada por um aumento da carga tributária. Sem dúvidas, reduzir a desigualdade social é um desejo louvável. No entanto, precisamos ir além. Esta crise nos traz novos desafios e o principal deles é como tornar nossos trabalhadores mais produtivos e aumentar o potencial de crescimento da economia, sem os quais não há recuperação cíclica rápida nem sustentável.