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Introdução ESG na Prática
Opinião: Francisca Brasileiro

O ano de 2020 certamente deixará legados, muitos deles não positivos. Mas também será conhecido como o ano em que as questões ligadas à ESG, ou ASG (Ambiental, Social e Governança) viraram o tema central nas discussões de investimentos, aqui e no mundo!
Podemos atribuir o gatilho à carta que o presidente da BlackRock enviou aos CEOs das companhias investidas, ou então ao foco dado ao tema no Fórum Econômico Mundial, mas a verdade é que o interesse nesse assunto vem crescendo a cada ano.
Mas, não podemos negar, que a Pandemia acelerou esse processo ao nos mostrar como somos frágeis perante certos acontecimentos aleatórios. Ou melhor, como nossos portfolios são frágeis à eventos que ainda não podemos prever ou evitar.
Mas será que não podemos mesmo? Sim, ainda estou falando sobre ESG. Ou melhor, da habilidade de prever como os nossos investimentos podem ser impactados por questões intangíveis, no caso, relacionadas ao tema sustentabilidade e suas derivadas.
Integrar os aspectos de ESG significa justamente isso: Identificar e estimar os riscos inerentes aos eventos ligados às esferas Ambiental, Social e de Governança. Falar parece fácil, mas considerar os aspectos de ESG na carteira é uma arte que reside justamente em encontrar caminhos para objetivamente mensurar tais riscos. Mas, como fazer isso? Como sair do “blá blá blá” e colocar em prática esse tema?
Infelizmente, ou felizmente, não existe um roteiro a ser seguido, mas podemos resumidamente agrupar em 4 abordagens a maneira como os investidores implementaram essas práticas globalmente:
Exclusão: Essa é a forma mais antiga, e também a mais comum. Identificando países, setores ou companhias considerados como um risco elevado, cria-se uma lista de ativos “proibidos”. É comum encontrar nas Políticas de Investimentos globais vedações à empresas de setores como arma, tabaco, ou que tenham se envolvido em escândalos recentes, por exemplo.
Impacto: São investimentos que buscam agregar mudanças positivas em seus meios. Com um efeito mais indireto no resultado dos investimentos, são menos comuns no portfólio, mas ainda assim são vistos como uma forma de adicionar (ao invés de excluir) medidas positivas e consequentemente melhorar o “rating de ESG” do portfólio total.
Engajamento: Sob a ótica das companhias a participação dos investidores através do voto, ou a pressão nos conselhos por medidas “pró-ESG”, como aquelas alinhadas com as diretrizes de SDG (Sustainable Development Growth) da ONU, têm crescido significativamente.
Integração: Por último e talvez mais importante vem a abordagem que considera os riscos ligados a ESG como parte do processo de avaliação de um determinado investimento, agregando esses aspectos à avaliação tradicional. Desta maneira, ao invés de excluir uma determinada companhia, busca-se estimar quão exposta ela está a riscos como falta de água no mundo, inundações, escândalos de corrupção, risco de imagem por pressões sociais nas mídias etc.
O grande desafio reside em quantificar esses riscos. Por exemplo, é possível estimar qual o impacto do aumento da temperatura do globo no preço de uma carteira dos imóveis, endereçando corretamente a questão do aquecimento global? Segundo um estudo da Euroif, como consequência de eventos ligados a mudanças climáticas entre 2016 e 2018 foram gastos $378 bilhões de dólares, só nos EUA. Uma análise mais profunda desses dados leva a modelos de projeção capazes de estimar esses riscos, assim como fazemos com a inflação.
Para ajudar nessa missão, muita coisa tem sido desenvolvida: As companhias divulgam relatórios padrão de atendimento a esses critérios, e já temos uma atribuição de ratings ESG, que buscam consolidar as informações ligadas ao tema, criando assim um “scorecard card” complementar a avaliação das companhias.
Buscar integrar os aspectos de ESG nos investimentos é, então, uma busca pela melhora da qualidade dos ativos e do retorno, redução de riscos, e práticas que contribuam para um desenvolvimento mais sustentável do globo.
Sob a ótica das fundações, o passo mais importante é justamente criar um roteiro para verificar como os gestores estão integrando esses aspectos na montagem da carteira e escolha dos investimentos. Para aquelas fundações maiores, as políticas de engajamento e voto são a forma mais rápida para colocar em prática a teoria. E para todos os agentes de mercado, construir internamente um conjunto de diretrizes para melhorar as próprias práticas ligadas à ESG é o melhor caminho. Sempre!

Francisca Brasileiro é diretora da Tag Investimentos