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Private equity e economia real
Opinião: Alberto Camões

Mesmo antes da pandemia, investidores institucionais e family offices no Brasil já estavam com o desafio de investir em um ambiente de juros baixos. No início de 2020, os investidores brasileiros, depois de muitos anos com retornos de renda fixa altos quando comparáveis aos níveis internacionais, estavam começando um movimento de migração de renda fixa para outras categorias. A partir de março, se viram altamente impactados pelos efeitos da pandemia em ativos líquidos: queda de bolsa, incremento da percepção de risco de ativos de dívida privada, desvalorização cambial, redução dos juros etc.
Passados os primeiros meses após este impacto, nos quais havia grande incerteza sobre a extensão mundial da pandemia, começa a haver maior consenso sobre o futuro, apesar de ainda haver certo grau de incerteza. A pandemia e a recessão dela decorrente trouxeram uma perspectiva de manutenção de um cenário de juros baixos no Brasil, por um longo período. A migração de ativos de renda fixa para outros ativos, incluindo renda variável, continua e não se reverterá tão cedo, tendo em vista a grande concentração existente hoje em renda fixa na maior parte dos investidores institucionais brasileiros. Uma substancial recuperação do Ibovespa já ocorreu, como natural consequência dessa migração. E agora, nesse ambiente, abstraindo-se de alocações táticas de curto prazo, volta-se à pergunta do início do ano: como fazer uma alocação de longo prazo nesse novo ambiente, sem uma perspectiva de aumento significativo de juros reais nos próximos anos?
Se fizermos um paralelo com o que ocorreu no exterior nos últimos 12 anos, com o ambiente de juros baixos após a crise de 2008-2009, a resposta dos investidores institucionais estrangeiros foi investir cada vez mais em ativos alternativos, aqui no Brasil representados por fundos estruturados, onde se inclui os FIPs entidade de investimento (fundos de “private equity”). Pesquisa da Willis Towers Watson com fundos de pensão de 7 países que compõem 91% do total de ativos de fundos de pensão do mundo mostra que a alocação em ativos alternativos cresceu de 7% do total destes maiores mercados em 1998 para 19% em 2008 e continuou crescendo até 23% no último estudo da série em 2019. Desses 23%, 7% são representados por fundos de “private equity”.
O prêmio que se obtém em investimentos em “private equity” quando comparado ao retorno de índices de ações listadas em bolsa explica o aumento da alocação nesta classe de ativos. Segundo o benchmark da consultoria Cambridge Associates, fundos de “private equity” que investem em teses de crescimento (“growth capital”) têm um retorno da ordem de 14% a.a. ao longo de 15 a 20 anos, ou seja, um prêmio da ordem de 5% a.a. em relação ao retorno do índice de ações S&P 500. Com o histórico de muitos anos de juros muito baixos no exterior – quando não negativos – é compreensível entender por que as alocações em ativos alternativos de maneira geral, e em “private equity” em particular, têm crescido tanto nos últimos 20 anos.
Contrastando esse cenário, no Brasil um levantamento com dados do “Consolidado Estatístico” da ABRAPP mostra em 2013 que 3,0% dos ativos dos fundos de pensão (EFPCs) estavam alocados em FIPs entidade de investimento (boa parte disso não sendo uma carteira e sim investimento em ativo único), percentual que caiu ainda mais em 2019, para 1,1%, ou cerca de 6 vezes mais baixa que os 7% dos maiores mercados internacionais.
Impactos do Private Equity
Os fundos de “private equity” têm outros atrativos, pois são propagadores:
(1º) De eficiência via reorganização de empresas e setores,
(2º) De planos de crescimento e expansão – com geração de emprego e renda, e, ainda mais importante que esses dois pontos no momento atual,
(3º) Das melhores práticas em ESG (Environmental, Social and Governance), pois sua posição de investidores com participação direta nos conselhos permite promover tais práticas objetivamente, com mais influência do que outros fundos de ações.
Como investimentos em “private equity” comandam prêmios de retorno atrativos numa perspectiva de juros mais baixos no longo prazo, no Brasil os investidores institucionais e family offices tendem a aumentar sua alocação nesses fundos, como ocorreu nos últimos 20 anos no exterior. E vale lembrar que esses investimentos em anos de crise tendem a ter retornos mais altos que a média, pois se beneficiam de investimentos com valorizações de entrada mais atrativa e mais oportunidades de crescimento por aquisições em processos de consolidação – o que reforça as razões para se considerar esse tipo de ativo atualmente.

Alberto Camões é sócio-diretor do Grupo Stratus