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Incerteza e desafios para 2021
Opini√£o: Tatiana Pinheiro

Este ano foi um ano dif√≠cil! H√° quantos anos temos dito esta frase? A verdade √© que cada ano traz consigo seus desafios. Neste sentido, 2020 foi um ano dific√≠limo, atingido por uma crise sem precedentes na hist√≥ria e que levou a rea√ß√Ķes sem precedentes tamb√©m, vide o distanciamento social adotado por grande parte da popula√ß√£o mundial e a amplia√ß√£o dos programas de prote√ß√£o √†s fam√≠lias e empresas via est√≠mulos fiscais e monet√°rios.
Entre final de abril e in√≠cio de maio, Uni√£o Europ√©ia e EUA, que representam cerca de 50% do PIB mundial, impuseram regras de distanciamento r√≠gidas em regi√Ķes que representam cerca de 90% de suas economias. Com rela√ß√£o aos est√≠mulos monet√°rios e fiscais adotados nas economias avan√ßadas e emergentes, estimamos a soma ao redor de US$ 15 trilh√Ķes at√© agora. As respostas de pol√≠tica econ√īmica frente a esta crise foram muito maiores que nas demais crises. Por exemplo, na crise de cr√©dito de 2008 a primeira fase do afrouxamento quantitativo foi de US$1,6 trilh√£o, j√° na crise atual o afrouxamento acumula at√© agora US$ 2,5 trilh√Ķes, segundo o balan√ßo do Federal Reserve. Al√©m da recess√£o mundial, a crise atual tamb√©m resultou em ampla liquidez internacional e taxas de juros, livres de risco, ainda mais baixa no curto, m√©dio e longo prazo.
Ent√£o o que esperar para 2021? Pergunta complicada de responder, mas irei me arriscar em respond√™-la, na esperan√ßa que voc√™s, caros leitores, continuem comigo at√© o final deste breve artigo. Acredito que ser√° um ano dif√≠cil tamb√©m. Muito provavelmente ser√° um ano marcado por alta volatilidade nos pre√ßos dos ativos. A crise em 2020 causou colapso quase que sincronizado dos pre√ßos dos ativos, mas as respostas de pol√≠tica econ√īmica proporcionaram a inflex√£o deste movimento. A quest√£o sempre foi qualificar velocidade/intensidade da volta. 2021 ser√° o ano da continuidade deste processo de recupera√ß√£o iniciado em 2020, mas com todas as incertezas e riscos envolvidos nos ajustes econ√īmicos necess√°rios. As agendas de ajustes de diferentes magnitudes e complexidades das v√°rias economias devem ser o combust√≠vel para alta volatilidade ao longo do ano: as economias emergentes, cada qual com suas agendas de ajustes dom√©sticos, sendo a maioria de ordem fiscal; e as economias avan√ßadas tamb√©m com desafios nada triviais como a conclus√£o do Brexit na Europa, a defini√ß√£o de nova agenda econ√īmica nos EUA e as pr√≥ximas etapas de negocia√ß√Ķes no com√©rcio mundial.
A diversifica√ß√£o objetivando rentabilidade tamb√©m deve ser importante fator em 2021. O ambiente de taxas de juros baixa no mundo pode fazer com que, mesmo em um cen√°rio onde as incertezas econ√īmicas est√£o elevadas, o fluxo de capitais para ativos financeiros nas economias emergentes volte a crescer. Ao longo do ciclo de commodities entre 2004 e 2010, as economias emergentes receberam um fluxo de capital crescente. A entrada de capitais para emergentes passou de US$ 22 bilh√Ķes em 2004 para US$ 179 bilh√Ķes em 2010, segundo o acompanhamento do J.P. Morgan. Desde ent√£o, o fluxo de capitais foi reduzido fortemente. O montante de capital destinado aos emergentes em 2019 foi de US$ 55 bilh√Ķes e o grupo sofre com a sa√≠da de US$ 58 bilh√Ķes at√© setembro. Vale ressaltar que a Am√©rica Latina j√° sofre com sa√≠da de capitais desde 2018, muito devido √† frustra√ß√£o com o crescimento econ√īmico da regi√£o, abaixo de seu potencial nos √ļltimos seis anos, segundo nossas estimativas.
Muito provavelmente n√£o veremos o movimento de procura indiscriminada por rentabilidade do p√≥s-crise financeira de 2008. Os investidores estar√£o seletivos. Assim, as decis√Ķes dom√©sticas ser√£o determinantes na atra√ß√£o do fluxo de capitais. Para o Brasil √© evidente a import√Ęncia do redimensionamento dos gastos p√ļblicos na capacidade de atra√ß√£o de capitais. Por exemplo, alta volatilidade da moeda atrapalha previs√£o de rentabilidade dos investimentos e, consequentemente, reduz o interesse pelos ativos. O aumento da incerteza com rela√ß√£o √† condu√ß√£o da pol√≠tica fiscal e √† capacidade de solv√™ncia explica grande parte da recente eleva√ß√£o da volatilidade da taxa de c√Ęmbio. Se os impasses atuais permanecerem, receberemos muito pouco deste fluxo de capitais. Contudo, a hist√≥ria de 2021 come√ßa agora: grande parte da possibilidade de ajuste fiscal em 2021, como a aprova√ß√£o dos mecanismos autom√°ticos de ajuste dos gastos, principalmente com folha de pagamento dos governos federal, estadual e municipal, pode e deve ser decidida em 2020. Se nos comprometermos com ajuste fiscal de forma cr√≠vel, poderemos nos beneficiar dos ventos da liquidez de fora.

Tatiana Pinheiro é economista-chefe da BNP Paribas Asset Management