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O futuro não será como era
Opinião: Mauricio da Rocha Wanderley

A ideia aqui é realizar uma reflexão dos desafios da alocação dos fundos de pensão diante do cenário econômico pós-pandemia. Convido o leitor a se afastar da percepção de risco que ela nos trouxe. Neste cenário mais adverso temos a propensão a um apetite a risco menor, o que vai de encontro à necessidade de diversificação dos planos para o longo prazo.
É uma reflexão difícil, reconheço. Se você é um cético, que acredita que estamos em mais um ciclo insustentável de queda de juros reais e que será capaz de comprar aquela NTN-B maravilhosa depois de algumas curvas da estrada, a reflexão torna-se ainda mais difícil. Mas se você acredita que o ALM do seu plano BD não ficará de pé tecnicamente nos próximos 10 anos sem uma maior diversificação e quer evitar o risco de começar a semear um déficit hoje, esta reflexão pode ter alguma utilidade.
Como vamos falar de futuro, para ilustrar este cenário tomei emprestados alguns versos da música “Índios”, de Renato Russo, e a sua dialética para dar a dimensão da complexidade do momento que vivemos. Diz Russo, na música: o que aconteceu ainda está por vir, e o futuro não é mais como era antigamente.
Em primeiro lugar, a parte fácil da estória: “o que aconteceu ainda está por vir”. Isto é, o que aconteceu no resto do mundo acontecerá por aqui. O Brasil começa a trilhar, aparentemente de forma mais sustentável, os caminhos que outros países viveram quando as suas taxas de juros caíram e os investidores começaram a diversificar de forma mais intensa. O desafio será a realocação significativa que terá que ser feita devido ao excesso de renda fixa e a baixa tolerância a perdas em classes de ativos de maior risco. Mudanças têm ocorrido e pode ser vista na explosão da abertura de contas de pessoas físicas nas corretoras de bolsa de valores. Houve claro benefício de décadas de juros reais elevados, mas parece que o paradigma da renda fixa como a resposta quase única para o alcance das metas dos planos de previdência está virando história, salvo melhor juízo dos céticos.
E o que está por vir, em minha opinião, é o aumento contínuo do risco assumido, processo esse que já começou no passado, descobrindo-se o novo normal do risco necessário para que os planos de previdência não onerem demasiadamente os patrocinadores e participantes através de contribuições mais elevadas. A renda variável passará a assumir o papel de protagonista na busca do retorno. Caminharemos na direção do 60/40 de alocação entre renda variável e renda fixa. Além disso, aumento do crédito privado, fundos multimercados, fundos imobiliários e diversificação internacional.
Esta diversificação deveria ser global. Até agora o limite do segmento de investimentos no exterior foi adequado. Porém, ficará pequeno diante da necessidade da construção de uma política de investimentos mais eficiente na busca de retorno e na gestão de risco. Precisaremos aprimorar a legislação de investimentos para inserir o Brasil no mundo e não o mundo no Brasil.
Porém, contraditoriamente, “o futuro não é mais como era antigamente”. Apesar de conhecermos o caminho percorrido por outros investidores, em diversas economias, em seus processos de diversificação, o nosso momento histórico é único. Estamos diante de mudanças significativas, de grande complexidade, e que ocorrem com uma velocidade nunca vista, entre elas: sociais, econômicas, ambientais e tecnológicas. O mundo vive em um ambiente de baixo crescimento, com taxas de juros negativas, mudanças demográficas, aquecimento global, mudanças nos padrões de consumo das novas gerações, transformação digital e a disrupção tecnológica, com os seus desdobramentos diretos sobre o mercado de trabalho e sobre negócios tradicionais que são afetados ou até ameaçados em sua continuidade. Isto tudo acelerado pela pandemia. Estas variáveis impactam diretamente o nosso produto, o plano de previdência, que depende da capacidade de empresas e indivíduos pensarem o longo prazo. As políticas de investimentos terão que endereçar esse ambiente em constante mudança através de cenários mais complexos e por uma maior diversificação em si.
Os stakeholders terão que se adaptar aos novos tempos e lidar com diversas classes de ativos, em diferentes geografias com as quais possuem pouca familiaridade. Isso levará alguns fundos a necessitarem de apoio de consultorias especializadas. Não é mais o risco que cada um gostaria de correr tendo como paradigma a segurança da renda fixa, mas sim o risco necessário e a diversificação necessária associada que temos que correr para cumprir o novo dever fiduciário. A Valia e os planos da Vale no Canadá passaram a oferecer o Ciclo de Vida como solução mais eficiente para endereçar a necessidade de assunção de risco de forma mais inteligente e eficiente para os participantes dos planos de contribuição definida.

Mauricio da Rocha Wanderley é diretor de investimentos da Valia e membro do Comitê de Investimentos dos planos da Vale Canadá