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Construindo uma nova indústria de asset management
Álvaro Gonçalves

Edição 332

Para entender a essência da indústria de asset management presente no país e no mundo, é preciso voltar quarenta anos para recordar os desafios de 1981, no auge da crise do petróleo que desestabilizou preços em cadeia e criou uma base de inflação rampante e crescimento baixo.
Uma atitude severa dos Bancos Centrais, a partir do Federal Reserve de Paul Volcker, elevou os juros no mundo, segurando a inflação e o crescimento de forma violenta – os juros americanos foram parar na casa espetacular dos 20%aa (quem diria?!) e abriram a temporada de recessão global.
A partir daí, veio o esforço doloroso de 15 anos para preparar e fomentar o crescimento. E quando o caminho de baixa das taxas de juros na segunda metade dos anos 1990 impulsionou o empreendedorismo, represado da década anterior, tivemos uma combinação de ganhos de produtividade com alguma irracionalidade.
Viemos de duas décadas -80 e 90- em que a alocação de ativos dependia de uma análise predominantemente definida pelos movimentos macro e pelas políticas públicas – o que foi determinante para a corrente de pensamento que dominou o ferramental analítico até hoje. Um tempo em que só o “macro” importava e empreendedorismo ainda não estava no dicionário.
O que importava era o movimento macroeconômico e o posicionamento estratégico dos setores da economia vis-a-vis esse movimento. Os líderes dessas “asset macro” eram (ou são) tipicamente críticos de políticas públicas, mas não se arriscam muito sobre a estratégia das empresas em que investem e sequer comentam seus planos de marketing ou sua capacidade de gerar caixa operacional, pois isso está distante do “olhar macro”. Isso tem mudado, felizmente...

Com o nascer do novo século veio a bolha da internet para atrapalhar um pouco aquela direção virtuosa na direção do empreendedorismo. Ou talvez tenha vindo corrigir os excessos, para depois voltar com maior vigor.
Esse período foi então uma escorregada de volta ao macro-puro, repaginado por produtos processados. Foi o auge da tentativa de rotular (ao invés de compreender) a atividade micro, pasteurizando a análise com base na codificação de rating e referências cruzadas em geral. E os produtos da moda visavam empacotar, securitizar e multiplicar – criando produtos e entidades empresariais altamente tóxicas.
E veio a crise financeira em 2008-2009, que levou vários gurus do período macro embora, junto com alguns bancos históricos. Mas os empreendedores não tinham desaparecido. Desafiadores persistentes (Mercado Livre, Amazon, Microsoft, Apple e seus milhares de discípulos) e novos atrevidos (Google, Tesla, Facebook) pareciam música fora da partitura – mas não eram.
E os juros iniciaram o longo caminho de baixa, para chegar ao patamar minimalista atual.

Os ganhos de produtividade passaram a falar mais alto do que qualquer teoria monetarista. A capacidade computacional dobrou a cada dois anos nos últimos 40, com custos estáveis – como nos demonstrou a Lei de Moore, até recentemente. Isso, sim, foi transformador e capaz de conter soluços inflacionários mesmo com juros baixos.
O empreendedorismo voltou à linha de frente. Agora não mais rotulados pelos macro-pensadores como “irracionais exuberantes”, os persistentes pós-bolha da internet assumiram o protagonismo global.
É interessante notar a migração de valor no ecossistema econômico a partir daí – em conceito e ordem de grandeza. No conceito, o valor migrou de setores oligopolistas estratégicos para os “disruptores digitais”. Os portfólios de produtos e serviços (General Electric e Berkshire Hathaway) desceram a escada, para a elevação das plataformas digitais (Apple, Amazon e Alphabet).
E na ordem de grandeza a migração foi ainda mais notável. No ano 2000, as ações das cinco maiores empresas abertas do mundo, somadas, valiam US$ 1.6 trilhões. Em 2020, 4 das 5 maiores são de tecnologia (ou tem uma base operacional digital-tecnológica) e o valor combinado chega a US$ 8.5 trilhões. No grupo mais antigo, as empresas tinham perfil industrial e de petróleo. No grupo mais recente, tecnologia digital. E esse grupo vale mais de cinco vezes o anterior.
É muito simplista pensar que juros baixos causem apenas (!) uma redistribuição de renda fixa para variável. O valor está migrando e exige um novo conceito de gestão ativa. Uma nova ordem na fronteira de análise, de produtos e de ALM. Uma nova realidade para a indústria de asset management, depois de 40 anos.

Os mercados privados (private capital markets) são a nova fronteira do asset management global, saindo da condição de nicho e tomando o centro do fluxo principal.
Segundo entrevista que a Líder Global de Research do JPMorgan, Joyce Chang, concedeu à rede CNBC, existe US$ 1 trilhão em compasso de espera para entrar no mercado de ações.
Resta uma certeza: faltam ativos! A plataforma de asset management dos anos 2021-2025 terá que combinar a busca e análise profunda de novos ativos, com preparação de uma base nova de empresas com aderência aos novos critérios de seleção baseados em ESG.
Ora, com pelo menos 1 trilhão de dólares a caminho, o mercado começa a produzir formas de capturar ativos além da fronteira das bolsas. Produtos como SPACs (do inglês ‘special purpose acquisition companies’) se juntam aos fundos de private equity listados em bolsa, para fazer a ponte e garimpar novos ativos.
O número de gestores de Private Equity abrindo capital e ampliando suas estruturas bateu o recorde histórico em 2019-2020. E as plataformas de “equity stake” ou “staking funds”, que capitalizam e agilizam a evolução das estruturas de gestão de ativos privados, também bateram marcas históricas com centenas de bilhões de dólares para aportar.
A agilidade –sem perder de vista a cadeia de custódia- vira peça chave. Os fundos secundários também ganham escala e vêm fazer o sincronismo de liquidez entre as carteiras e os passivos dos investidores. Trata-se de um movimento global, virtuoso e rápido, de resposta a uma demanda crucial dos investidores: a busca por ativos, além da fronteira dos mercados líquidos.

Precificar ativos de renda variável sempre trouxe algum desconforto a investidores e também a reguladores. O problema é maior ainda quando se fala de precificação de equity privado, ou seja, sem a referência de um universo de compradores independentes formando e estabilizando um patamar de preço.
E para piorar o desafio, o preço do ‘equity’ privado tipicamente inclui parcela pelos direitos acessórios e instrumentos de controle, tornando inviável a comparabilidade - seja com outros ativos ou com o mesmo ativo em outro momento ou com direitos diferentes. A padronização não se resolve por laudos de avaliação e sim por aplicação do ferramental técnico apropriado.
Os produtos (fundos e valores mobiliários) precisarão incorporar esse perfil de transação, como já ocorre nos principais mercados do mundo. E nossos reguladores, que mal tiveram tempo de acompanhar a transição para renda variável tradicional, já precisam incorporar conceitos de transação de ativos ilíquidos. Um bom intercâmbio com reguladores internacionais e com a academia é urgente.
Em 2025, os asset-managers com perfil macro tendem a ocupar um espaço histórico, também já superado pelas evoluções mais recentes. A competência chave agregou o conhecimento das plataformas empresariais e a capacidade de compreensão de suas habilidades e riscos. As redes de empreendedores retornaram ao fluxo de informações e capacitações privilegiadas.
Essa transição é extremamente virtuosa, já começou e deve acelerar rapidamente. Que venha 2021 para coroar o avanço mais concreto desse novo período, e finalmente alinhar o investidor institucional, o asset-manager moderno e o empreendedor brasileiro!

Álvaro Gonçalves é Sócio do Grupo Stratus