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Conselhos das empresas precisam ter mais mulheres e mais diversidade
Fábio Coelho

Edição 332

A pandemia de covid-19 acelerou grandes tendências que já estavam se desenhando no mercado de capitais brasileiro, mas poucas ganharam tanto destaque quanto a emergência dos aspectos socioambientais na realização de investimentos. Em 2021, o desafio de nossa indústria seguirá esse caminho, incorporando também aspectos de governança negligenciados ao longo do ano que passou. Nesse sentido, chamo atenção para a diversidade de gênero, que deverá figurar no topo da lista de prioridades.
Para entender os motivos pelos quais esse é um dos maiores desafios atuais em termos de governança, é preciso dar um passo atrás e analisar o atual contexto do mercado. Antes da pandemia, a bolsa brasileira rumava para seu quinto ano consecutivo de bull market, enquanto o número de investidores pessoa física quintuplicou em 5 anos.
O movimento, criado na esteira da redução dos juros, ganhou mais impulso quando a Selic atingiu a mínima histórica de 2% ao ano. O baixo custo de capital, aliado à distorção histórica no valor dos ativos causada por aqueles seis circuit breakers consecutivos, abriu uma oportunidade de compra, tanto para investidores de varejo quanto institucionais. Com a demanda aquecida e o fluxo de capital constante, a despeito de uma longa ausência dos investidores estrangeiros, as empresas passaram a ver a bolsa como uma alternativa mais viável para se financiar.
Seja para reforçar o caixa, investir em tecnologia, financiar aquisições ou dar saída a investidores, 26 IPOs foram celebrados até o início de dezembro - incluindo o terceiro maior da história - um volume que seria inacreditável no início da pandemia.
A chegada desta nova geração de investidores e empresas coincidiu com a digitalização da economia real, forçada pelas medidas de isolamento, e com o boom dos princípios de investimento responsáveis, baseados no tripé Ambiente, Sociedade e Governança (ESG) no Brasil. Apesar de 2019 já ter sido um ano positivo para esta agenda, as desigualdades acentuadas pela emergência sanitária exigem uma resposta para o pós-pandemia.

Ao longo do ano, influenciado pelo movimento de investidores estrangeiros que veem a busca de cadeias produtivas mais sustentáveis como parte de seu dever fiduciário, o mercado de capitais - e, em especial, o setor financeiro brasileiro - deu seus primeiros passos rumo à economia de baixo carbono.
Nesse sentido, um dos marcos do ano, a carta do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) assinada por 38 CEOs pedindo medidas para conter o desmatamento na Amazônia já rende frutos - como o anúncio de que bancos como Itaú, Santander e Bradesco estão se mobilizando para financiar projetos sustentáveis no Brasil. Tendências como esta devem ganhar ainda mais força, à medida que o Banco Central se prepara para implantar sua agenda de sustentabilidade em 2022 com medidas como a publicação obrigatória dos impactos financeiros das mudanças climáticas nos negócios dos bancos, nos moldes da Task Force on Climate-related Financial Disclosures (TCFD).
Com isso, diversas assets e corretoras já estão se movimentando para lançar produtos focados em ESG e integrar estes princípios em suas operações, seja por meio de áreas específicas ou de forma vertical.

Mas, enquanto o E parece bem encaminhado, ainda é preciso olhar com mais atenção para os aspectos envolvendo o S e o G. Em especial, uma intersecção entre ambos que têm potencial para promover diversas mudanças: a diversidade de gênero nos conselhos de administração.
Apesar de a discussão ainda estar em seus primórdios no Brasil, mercados estrangeiros estão tomando medidas ambiciosas para garantir o equilíbrio de gênero em altas instâncias de governança. A mais recente delas veio da Nasdaq, que pediu permissão à Securities and Exchange Commission (SEC) para adotar como norma a inclusão obrigatória de dois membros diversos no board, sendo ao menos uma pessoa que se identifique como mulher e outra que seja LGBT+ ou membro de minorias étnicas. As empresas listadas na bolsa teriam dois anos para se adequar e, caso não o façam, devem prestar explicações.
Essa política já vem sendo adotada há alguns anos por investidores globais como a gestora BlackRock - que redobrou seu compromisso com o tema da diversidade em conselhos para o ano que vem - mas pode ter um impacto ainda maior oriundo da Nasdaq. Isso porque apenas 22,5% dos assentos em conselhos de empresas da lista Fortune 500 eram ocupados por mulheres, segundo dados do estudo Missing Pieces Report, produzido pela consultoria Deloitte.
Mais do que uma simples medida de compliance, o pedido de mais diversidade nos boards encontra apoio em dados de performance. Como mostrou pesquisa da consultoria McKinsey, empresas com mais diversidade de gênero têm uma chance 21% maior de serem mais lucrativas. Além disso, empresas com maior representatividade feminina nos conselhos melhoram a performance do engajamento, diversidade e inclusão dos funcionários, indicaram dados da organização Diversity Inc compilados pela consultoria ESG Truvalue Labs.
O capítulo brasileiro do 30% Club, organização que se dedica a promover a inclusão feminina nos boards e tem lançado luz sobre o tema em nosso país, recentemente chamou atenção para o fato de que mulheres são apenas 10% dos conselheiros em empresas do IBrX-100, sendo que 34 destas companhias têm conselhos exclusivamente masculinos.
Mais preocupante ainda é o fato de que, entre as 17 empresas que estrearam na bolsa até setembro, 47% tinham seus conselhos integralmente compostos por homens. A tendência é visivelmente contrária ao observado no exterior, onde o banco americano Goldman Sachs já anunciou que não coordenará IPOs de empresas com menos de dois membros diversos no conselho.
Seria possível argumentar que a própria estrutura das empresas listadas no Brasil, com muitos grupos familiares com controlador definido ou estatais, é resistente à mudança e que, portanto, seria necessário adotar um padrão similar ao pleito da Nasdaq. Não obstante, vale ressaltar que mudanças regulatórias dependem, também, do compromisso dos regulados em torná-las práticas correntes.

Um exemplo conhecido dos brasileiros é a Lei das Eleições. Desde 1997, os partidos devem guardar a proporção de 70/30 por cento entre os gêneros em suas candidaturas. Vinte e três anos depois, as eleitas somam apenas 15% das vagas da Câmara dos Deputados. E nas eleições municipais deste ano, quando foi alcançado o maior índice de participação feminina, com pouco mais de um terço dos candidatos, as vereadoras eleitas ocuparam somente 16% dos cargos disponíveis.
No caso do mercado de capitais local, não precisamos reinventar nenhuma roda para garantir essa representatividade. Recentemente, a pesquisa Pratique ou Explique 2020 do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa mostrou que entre 360 empresas, somente 16,1% adotam a recomendação do “Código Brasileiro de Governança Corporativa – Companhias Abertas” de que o conselho de administração tenha maioria de membros externos e, no mínimo, um terço de membros independentes.
Indicar mais mulheres a estas vagas seria um dos caminhos pelos quais investidores institucionais poderiam endereçar esses dois desafios de uma só vez. E a próxima oportunidade de promover essa mudança significativa ocorrerá com as assembleias gerais de acionistas de 2021, embora o debate deva se fortalecer ao longo de todo o ano.

Fábio Coelho é Presidente da Amec e ex-superintendente da Previc