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Pensar fora da caixinha é cada vez mais necessário
Ricardo Pena

Edição 332

O slogan da maioria das fundações de previdência complementar aponta o futuro como o nosso negócio, mas estamos preparados para o futuro? Esta é a reflexão que devemos fazer ao pensar em inovação, que não precisa ser uma ideia revolucionária mas apenas uma maneira mais eficiente de fazermos uma mesma tarefa alcançando o objetivo mais rapidamente e com menor custo. Inovação e transformação digital entraram no vocabulário das empresas de vários setores e tem uma razão de ser, pois é preciso estar atento aos cenários externos para não ser surpreendido por uma onda de mudanças.
Em 2020, além da pandemia de covid-19, a previdência complementar dos servidores públicos precisou encarar mais um desafio anunciado no final de 2019: a possibilidade de enfrentar concorrência de bancos e seguradoras. Até então, esse espaço era reservado às entidades fechadas de previdência complementar (EFPC). A mudança veio com a Reforma da Previdência (Emenda Constitucional nº 103, de 2019) e ainda aguarda lei complementar específica para discipliná-la. A Funpresp tem se fortalecido, buscando mais eficiência e agilidade para poder disputar com instituições financeiras tradicionais que já possuem estruturas robustas e grande escala.
Ao mesmo tempo, vislumbramos a possibilidade de administrar os planos de benefícios de servidores das esferas municipal, estadual e federal. Em seus quase oito anos de existência, a Funpresp provou sua capacidade, com gestão eficiente e compromisso com a transparência, baixo custo, identidade com o servidor público e certamente preparamos a casa para a disputa de mercado. Passamos por uma reestruturação organizacional para crescermos de forma coerente com o lugar que queremos ocupar e estarmos preparados para os dois cenários.
A Funpresp já nasceu nessa trilha, e mudando paradigmas no setor público ao ofertar previdência complementar e segurança aos servidores federais, tendo também um importante papel para o equilíbrio de longo prazo das finanças públicas. Com sete anos de existência, a Entidade foi erguida do zero (começou na garagem) e, hoje, ultrapassa R$ 3,6 bilhões em patrimônio, arrecadação mensal de R$ 93 milhões, 123% em rentabilidade acumulada e mais de 100 mil adesões, sendo uma referência no setor de previdência complementar fechada, com destaques para projetos como adesão automática, perfis de investimentos, inteligência artificial no atendimento, consignado pelo aplicativo, FCBE e programa de cashback.

Para se adaptar à nova realidade e ficar ainda mais alinhada ao mercado, a Fundação começou 2020 com mudanças na sua estrutura organizacional, para adequar e guiar os novos rumos da Entidade para a nova década. Foi criada uma área específica para pensar novas soluções para os participantes, o Laboratório de Inovação, e uma área comercial, para atuar na prospecção de novos clientes e na venda de produtos. Foi realizado reforço da segurança da gestão, com o fortalecimento das áreas de governança e risco, além da criação de uma área exclusiva para ouvidoria.
Todas essas mudanças agora impulsionam as ações já consolidadas que possibilitaram a Entidade ser o que é hoje. A principal delas foi a adesão automática, implantada em 2015. Ou seja, ao ingressar na administração pública, o recém-empossado servidor é inscrito no plano de maneira automática e, caso queira sair, pode abrir mão da adesão em até 90 dias, com a restituição corrigida de todos os valores contribuídos. Antes de 2015, o servidor que ingressasse no serviço público teria de tomar a atitude de realizar voluntariamente a adesão à Funpresp. Agora, ele só precisa agir se quiser se desligar do plano. Esta foi uma ótima solução para o que a Economia Comportamental chama de “viés do status quo”, que diz que os indivíduos preferem se manter em seu estado atual, mesmo que uma alteração da sua situação seja mais vantajosa.
Ao implantar a adesão automática, medida incentivada pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), a taxa de adesão à Funpresp entre os novos servidores saltou de 11% para 89%. Com a implantação, buscou-se proteger aqueles que, por inércia, estavam deixando de receber a contribuição do órgão patrocinador, de R$ 1 por cada R$ 1 contribuído, ficando desprotegidos inclusive a família, sem as coberturas para morte e invalidez da Fundação. Instituída pela Lei nº 13.183, de 2015, a inscrição automática foi implantada de forma pioneira e inovadora no País, promovendo a educação financeira e previdenciária, estimulando a formação de poupança individual e seguindo modelos de sucesso de países como Inglaterra e Estados Unidos.
Após o ingresso do participante no plano, a missão da Funpresp é protegê-lo no presente e no futuro. A maioria é jovem e tem em média 33 anos. Ou seja, ainda vamos acompanhá-lo por cerca de 35 anos, passando por várias fases da vida, que têm características e necessidades próprias. Por isso, ao implantar a possibilidade de escolha dos perfis de investimentos, optamos por um modelo diferente do “Estilo de Vida”, que tradicionalmente é aplicado pelo mercado financeiro e engloba perfis como “arrojado”, “moderado” e “conservador”.

Na Funpresp, após 4 anos de estudos e benchmarking, constatamos que o mais apropriado seria ofertar perfis no modelo “Ciclo de Vida”. Como o nome diz, consideramos a fase da vida de cada cliente ao investir seu patrimônio em um dos quatro perfis de investimentos, com alocações em duas carteiras, “Performance” e “Preservação”, que possuem graus distintos de exposição a risco. A primeira é composta por papéis de renda fixa, fundos imobiliários e empréstimos aos próprios participantes. Já a carteira “Performance” tem na cesta todos os produtos da “Preservação”, aliados a papéis da renda variável, títulos privados e de investimentos no exterior.
A ideia do “Ciclo de Vida” é a seguinte: quem tem mais tempo até a aposentadoria pode correr mais risco, pois tem mais possibilidade de recuperar eventuais perdas. Para quem tem menos tempo até lá, o ideal é apostar em investimentos com menor exposição ao risco de mercado. É claro que o participante que quiser um perfil diferente ao correspondente à sua faixa etária tem toda a liberdade para escolhê-lo após realizar um teste de adequação (suitability).
O modelo é inovador, mas tivemos o desafio de comunicá-lo aos participantes em 2020, já acostumados com o modelo “Estilo de Vida” dos bancos e das corretoras. Para isso, construímos uma plataforma tecnológica de relacionamento amigável, em que o participante é auxiliado pela Vic, nossa atendente virtual. O público da Funpresp é bastante diverso: precisamos sensibilizar e entender as dificuldades de todos os servidores públicos federais. Isso significa conversar com professores, policiais, médicos, diplomatas, auditores, analistas de finanças, procuradores, entre outras mais de 120 carreiras. Mesmo assim, apenas dois meses após o lançamento da plataforma, em janeiro de 2020, mais de um quarto dos nossos clientes se engajaram com o novo produto, interagiram com a Vic e fizeram simulações com diversos cenários para escolher um dos quatro perfis de maneira consciente.
Continuamos preparando uma série de novidades para os próximos meses. Nossas equipes estão reformulando nossa área do cliente e nosso aplicativo para fornecer uma experiência ainda mais completa e individualizada, com simuladores, autoatendimento e gráficos interativos. Outra novidade é a oferta de cashback para previdência, que será lançada em breve. Ou seja, ao realizar compras nas mais de 400 lojas online parceiras, ele recebe um percentual do valor da compra de volta para sua conta previdenciária na Funpresp. É uma forma de fazer as compras necessárias no presente mantendo o engajamento com o futuro.
Para 2021, o desafio é aprofundar ainda mais o relacionamento tecnológico com o cliente, mas sem perder a humanização. É avançar do ponto de vista técnico, mas olhar para trás e entender que é a conversa, a confiança e o cuidado com o próximo que nos faz humanos. A pandemia nos mostrou que, mais do que nunca, o que é importa é estarmos vivos, com saúde e em contato uns com os outros. E, olhando por esse aspecto, o relacionamento com o participante é o grande diferencial de uma entidade fechada de previdência complementar. Aqui, o “dono” é o participante. Nós estamos perto dele nos momentos bons e difíceis, somos um porto seguro. Celebramos com ele a tão sonhada posse num cargo público, damos suporte se alguma adversidade ocorre, como invalidez ou morte, e cuidamos do seu futuro para que possa viver da maneira que quiser após tanto serviço em prol da sociedade.

Ricardo Pena é Diretor-presidente da Funpresp-Exe