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Planejando o asset allocation de 2022
Fernando Lovisotto

Edição 339

Mais uma vez nos aproximamos do fim do ano, dessa vez vivendo o processo de normalização das taxas de juros que trouxe a taxa Selic de 2% para 8,5% (projeção do Focus) e, diante disso, temos a seguinte pergunta para responder: qual deveria ser o asset allocation para o ano de 2022?
Esta pergunta nunca é fácil e para respondê-la sempre partimos da premissa de que os investidores institucionais são investidores de longo prazo, ou seja, têm por objetivo gerar retornos reais, superiores às suas metas, num horizonte claramente superior a um ano.
Dados os atuais níveis de preços, prêmios e incertezas, algumas classes devem ser observadas:
- Renda fixa ligada √† taxa de infla√ß√£o: tanto olhando t√≠tulos de cr√©ditos privados, especialmente os t√≠tulos ligados ao IPCA, quanto os t√≠tulos p√ļblicos (as NTN-Bs), nesse patamar de taxas de juros, ambos passam a ser interessantes. Num ambiente global de taxas de juros reais negativas, eles apresentam taxas positivas e relativamente altas. Talvez, dependendo do caso, n√£o sejam suficientes para superar as metas atuariais, mas com certeza devem compor as carteiras. Um ponto que deve ser considerado na decis√£o de compra √© a quest√£o da IN PREVIC 33, pois os t√≠tulos apresentam volatilidade quando carregados a mercado.
- Fundos Imobili√°rios (FII): sem entrar no caso espec√≠fico de cada segmento de im√≥veis, a classe como um todo tamb√©m parece apresentar retornos interessantes. Como a parcela mais relevante dos investidores de FII √© constitu√≠da por pessoas f√≠sicas e, desde a Covid-2019, passamos por um per√≠odo de vac√Ęncia elevada (devido ao home office e distanciamento social), juros em eleva√ß√£o e incertezas tribut√°rias, houve redu√ß√£o da liquidez e queda de pre√ßos. Quando olhamos os valores negociados e comparamos com os valores patrimoniais dos ativos, tamb√©m enxergamos oportunidades. Importante notar que os fundos de infraestrutura listados passam por situa√ß√£o semelhante.
- Renda variável local: as companhias se recuperaram bem desde a crise provocada pelas commodities em 2015/2016 e pós-covid-2019: custo de capital caiu, nível de alavancagem se reduziu, operacionalmente melhoraram e os lucros cresceram. Assim, olhando pelo lado de valuation, os preços parecem interessantes olhando as métricas de preço/lucro e equity risk premium (prêmio sobre a renda fixa). Num horizonte curto, porém, devem continuar a apresentar volatilidade, mas olhando no longo prazo parece ótimo ponto de compra.
- Estruturados: o mercado se desenvolveu bem do lado dos fundos estruturados, em especial os fundos de private equity. Vemos v√°rios fundos especializados em mercados secund√°rios e a liquidez das cotas aumentou. O desenvolvimento tamb√©m se deu do lado dos investidores: podemos ver algumas EFPCs com programas de investimentos longos e bem-sucedidos e retornos acima de 2 d√≠gitos em termos reais. Vimos tamb√©m as pessoas f√≠sicas entrando no segmento, tanto atrav√©s de plataformas, quanto de private banks. O volume de IPOs (empresas que listaram suas a√ß√Ķes na bolsa) neste ciclo j√° supera o ciclo de 2003-2010. Do ponto de vista de valuation, valem os coment√°rios anteriores acrescidos do pr√™mio de liquidez, ou seja, por se tratar de um investimento de longo prazo, os retornos tendem a ser maiores que o retorno da renda vari√°vel tradicional.
- Alocação no exterior: continua fazendo sentido devido à grande diversificação gerada pelo investimento nesta classe. As vantagens principais são acessar setores que não são presentes no mercado local e exposição à moeda forte. Porém, do outro lado, temos que ser cuidadosos com as classes que estamos investindo no exterior, pois várias classes de ativos têm prêmio baixo.
Depois de um per√≠odo de juros reais negativos (taxa Selic rendendo menos que infla√ß√£o), entraremos num ano (2022) em que a taxa Selic provavelmente embutir√° um juro real de 3,5%. Se somarmos os pr√™mios de riscos de cada classe, como falamos acima, podemos ver que h√° retorno suficiente para os investidores superarem suas metas no longo prazo. Desse lado, temos uma situa√ß√£o bem melhor do que nos √ļltimos 2 anos, mas, como n√£o existe almo√ßo gr√°tis, h√° riscos no horizonte (crise h√≠drica, elei√ß√Ķes. problemas fiscais, entre outros).
Assim, dado o exposto acima, cabe a cada investidor dimensionar sua alocação nas estratégias de investimento de acordo com o tipo de plano, benefício definido e contribuição definida, e seu apetite de risco sabendo que há prêmio na mesa.
Fernando Lovisotto é diretor da Vinci Investimentos