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Fator_01.12.21

O ano de 2022 trar√° grandes desafios
Andressa Castro

Edição 340

Fechamos o terceiro trimestre do ano com mais d√ļvidas do que quando entramos e daqui para frente a visibilidade n√£o deve melhorar. A dispers√£o das proje√ß√Ķes macroecon√īmicas para 2022 √© enorme e refletem cen√°rios completamente antag√īnicos: de crescimento do PIB √† recess√£o, de controle fiscal ao furo do teto de gastos, de desancoragem das expectativas de infla√ß√£o ao cumprimento da meta, de chuvas ao racionamento h√≠drico. Cabe a n√≥s surfar sobre o que acreditamos ser o valor esperado de todos esses eventos, mas o que podemos dizer hoje √© que a volatilidade dos ativos financeiros continuar√° alta at√© a resolu√ß√£o de algumas dessas incertezas.
Do lado da atividade, j√° est√° contratada uma desacelera√ß√£o do crescimento do PIB no ano que vem, n√£o somente por efeitos de base, como tamb√©m pelo aperto das pol√≠ticas monet√°ria e fiscal e um menor √≠mpeto vindo da reabertura. Ainda assim, acreditamos em um cen√°rio positivo de crescimento pr√≥ximo a 2%, impulsionado pela cria√ß√£o de emprego e concess√£o de cr√©dito em n√≠veis benignos. Ap√≥s 2 anos de pandemia, 2022 ser√° o primeiro ano livre de lockdowns ‚Äď se tudo correr bem ‚Äď e essa normaliza√ß√£o sustentar√° a atividade. Reconhecemos, no entanto, os in√ļmeros riscos negativos associados ao aperto das condi√ß√Ķes financeiras e √† poss√≠vel deteriora√ß√£o de confian√ßa, seja dos empres√°rios diante do cen√°rio eleitoral incerto, seja dos consumidores, que sentir√£o no bolso a perda do poder de compra por causa do avan√ßo da infla√ß√£o.
A infla√ß√£o ser√° novamente a principal vil√£. Entraremos em 2022 com uma infla√ß√£o entre 8% e 9% e veremos um arrefecimento derivado da dissipa√ß√£o de alguns dos diversos choques que sofremos ao longo desse ano, mas n√£o ser√° suficiente para a converg√™ncia da infla√ß√£o para meta, fechando pr√≥xima a 4,5% segundo as nossas proje√ß√Ķes. A difus√£o elevada, indicando um processo inflacion√°rio amplo, e a desancoragem persistente das expectativas de infla√ß√£o v√™m contribuindo para o aumento da in√©rcia, que se arrastar√° por um per√≠odo prolongado, possivelmente adentrando 2023.
Uma das grandes incertezas para a infla√ß√£o de 2022 est√° relacionada √† crise energ√©tica, tanto dom√©stica quanto global. Ap√≥s enfrentarmos a maior seca dos √ļltimos 91 anos, dependeremos de um cen√°rio de chuvas mais favor√°vel para sentirmos algum al√≠vio na conta de luz. Outra preocupa√ß√£o s√£o os pre√ßos dos combust√≠veis, pois estaremos sujeitos √† varia√ß√£o das commodities de energia no mercado internacional. Nesse √Ęmbito, a migra√ß√£o da matriz energ√©tica para fontes mais limpas deve continuar pressionando os pre√ßos, com a China restringindo o uso de carv√£o, os EUA adotando um ritmo menor de perfura√ß√Ķes de po√ßos de petr√≥leo e a Europa demandando mais g√°s natural.
Sabemos, no entanto, que a vari√°vel de menor previsibilidade para definirmos a infla√ß√£o ser√° o c√Ęmbio. Parte do comportamento do d√≥lar depender√° da evolu√ß√£o do cen√°rio econ√īmico externo, que acreditamos que ser√° menos benigno que o que vivemos ao longo desse ano. Isso, porque enfrentaremos um mundo de menor liquidez, no qual os EUA cessar√£o as compras de ativos e caminhar√£o em dire√ß√£o ao aumento de juros, enquanto a China permanecer√° com uma pol√≠tica de cr√©dito prudente. A outra parte do movimento do c√Ęmbio ser√° afetada por fatores dom√©sticos, como o n√≠vel de incerteza gerado pelas elei√ß√Ķes e por decis√Ķes fiscais, do lado negativo, e a atratividade de uma taxa de juros mais elevada, do lado positivo.
Em meio ao trade-off entre frear a infla√ß√£o e sustentar o crescimento econ√īmico, o Banco Central ter√° que elevar a taxa de juros a um n√≠vel significativamente contracionista, que acreditamos ser de pelo menos 9%. A maior tarefa do Banco Central ser√° manter as expectativas de infla√ß√£o de 2023 sob controle, que j√° t√™m dado sinais de desancoragem, com a m√©dia da pesquisa Focus subindo e com a mediana do Top 5 indicando uma infla√ß√£o acima da meta. Ap√≥s entregar uma infla√ß√£o pr√≥xima a dois d√≠gitos esse ano e possivelmente acima da meta no ano que vem, o Banco Central n√£o ter√° margem para cometer erros se quiser preservar sua credibilidade. Diante disso, al√©m de elevar a taxa a um patamar bem mais restritivo que o atual, o Banco Central ter√° que sustentar essa taxa elevada por um per√≠odo mais prolongado que a m√©dia dos √ļltimos ciclos monet√°rios ‚Äď higher for longer .
Mesmo que o Banco Central faça seu papel no controle da inflação, o respeito às regras fiscais é o que vai garantir a organização da nossa economia. O cumprimento da Lei de Responsabilidade Fiscal e a manutenção do teto de gastos devem ser as maiores prioridades de qualquer governo que venha pela frente. Caso contrário, entraremos facilmente em uma espiral de estagflação, cujo custo de saída será muito maior do que o pragmatismo fiscal necessário para evita-la.
Andressa Castro é economista-chefe da BNP Paribas Asset Management