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Inflação: a herança econômica da Covid-19
Elisa Machado

Edição 341

Sofremos uma crise sanitária de caráter global sem precedentes na história recente, que impôs medidas drásticas de isolamento social ao redor do mundo. Rapidamente, ela se tornou também uma crise econômica, com restrições de atividade que mudaram o padrão de consumo dos agentes e ocasionou a perda de negócios e empregos, o que restringiu a capacidade de oferta da economia.
Enquanto em 2008 o choque financeiro endógeno teve seu efeito primário na demanda agregada, o atual choque sanitário teve caráter exógeno, afetando incialmente o setor real e a cadeia produtiva, e depois o lado da demanda. Em resposta, bancos centrais e governos foram ágeis e mais agressivos ao aplicar remédios semelhantes para a crise proveniente da pandemia de Covid-19. Houve uma vasta injeção de liquidez no mundo, tanto na forma de política monetária quanto via gastos fiscais, fundamentais para propiciar condições financeiras estimulativas e a recomposição de renda de muitas famílias que sofreram com a crise.
Entretanto, tamanha injeção de liquidez em um ambiente restrito em termos de capacidade de produção acabou gerando um descasamento entre oferta e demanda, resultando em um processo inflacionário global.
A primeira consequência do descasamento entre oferta e demanda veio no mercado de commodities, que subiram consideravelmente, com destaque para as energéticas, pressionadas por uma demanda mais forte de bens eletrointensivos, além de problemas climáticos que afetaram a geração elétrica por meio de fontes renováveis. Simultaneamente, componentes importantes nos processos produtivos, como é o caso dos semicondutores, se tornaram escassos, interrompendo as cadeias de suprimentos globais e, por conseguinte, aumentando o custo de produção de bens industriais. Mais recentemente, com o retorno gradual da mobilidade, as atividades de serviços começaram a se recompor e repasses de preços ao consumidor começaram a ser observados também nesses itens.
Esse aumento generalizado de preços pode ser observado na maioria dos países. No Brasil, a inflação acumulada em 12 meses alcançou 10,67% em outubro, fruto do descompasso entre oferta e demanda e intensificada por particularidades do caso brasileiro. Primeiro, se destaca a crise hídrica vivida no país ao longo de 2021. Segundo, o Brasil está passando por uma crise de credibilidade do seu regime fiscal, pautado pelo teto de gastos. À medida que nos aproximamos do ano eleitoral, a pressão política por gastos se avoluma e encontra obstáculos no limite imposto às despesas primárias do governo. Ao invés de se discutir a eficiência do gasto público para encontrar espaço para os gastos sociais sob a regra fiscal vigente, se escolheu alterar as regras que regem o teto de gastos.
A provável piora na trajetória do resultado primário, além do sentimento de que as regras fiscais poderão ser alteradas sempre que o governo estiver disposto a gastar mais, descredibilizam a âncora fiscal e aumentam o risco de deterioração na dívida pública. Esse movimento provoca desancoragem das expectativas de inflação, tornando o combate às pressões inflacionárias bem mais custoso. De fato, as expectativas de inflação no Brasil, medidas pelo Banco Central no relatório Focus, estão se distanciando da meta tanto em horizontes curtos quanto em horizontes mais longos. Na última edição, publicada em 8 de novembro, a mediana das expectativas para a inflação de 2022 estava em 4,63%, mais de 1 p.p. acima do centro da meta de 3,50%. Para 2024, nas últimas semanas houve uma elevação recente de expectativas, alcançando 3,10% contra uma meta de 3,00%.
Adicionalmente, a maior percepção de risco no país, combinada com a expectativa de normalização de política monetária nas economias avançadas, tem sido crucial para a manutenção das taxas de câmbio em patamares elevados. Assim, commodities e produtos industriais importados já encarecidos no comércio internacional, ficam ainda mais custosos na economia doméstica, potencializando o efeito inflacionário.
Em conclusão, no que diz respeito a fatores econômicos, a pandemia de Covid-19 deixou como herança um processo inflacionário global e disseminado entre as categorias de bens e serviços. É um processo que ainda está em curso e vem determinando uma mudança de postura nos principais bancos centrais, que começam a atuar para reverter as políticas expansionistas pós-covid. No caso brasileiro, a preocupação com o descontrole inflacionário se traduz em elevação das expectativas de inflação, que já ameaçam o teto da meta de 2022. O ciclo de aperto monetário implementado pelo Comitê de Política Monetária (Copom) já implicou em elevação de 5,75 p.p. da taxa Selic desde fevereiro de 2021 e deve exigir uma postura ainda mais dura da autoridade, que deve levar a Selic de volta aos dois dígitos no início de 2022.

Elisa Machado é economista-chefe da ARX Investimentos