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Volatilidade de sobra: até quando?
_ Guilherme Benites

Edição 347

Ao longo do último trimestre de 2021, enquanto as EFPCs elaboravam suas políticas de investimentos para 2022, a cautela prevalecia. Afinal, estávamos defronte a um ano eleitoral com juros provavelmente muito altos, o que sugeria alocações mais conservadoras – tanto pela expectativa de volatilidade em si quanto pela possibilidade de maiores retornos em investimentos de Renda Fixa ou similares.
Adicionamos a esse contexto as enormes instabilidades de 2020 e 2021 e vemos que a elaboração dessas PIs não foi simples. E, apesar de elas terem se mostrado corretas até o momento, a avaliação de 2022 mostra que a volatilidade eleitoral foi, até agora, o menor dos problemas do mercado.
Iniciamos o ano com expectativa de forte alta nos juros americanos (o que contamina países desenvolvidos em geral), uma guerra inesperada (e que deveria ser rápida, segundo muitos analistas) e, mais recentemente, a possibilidade de que a alta de juros, em conjunto com a retirada de estímulos, seja o impulso para recessão nos EUA.
Os motivos são conhecidos e explicáveis mas, apesar disso, os últimos anos têm sido um desafio enorme para os investidores em geral, e em especial para as EFPCs, que em sua maioria buscam ganhos reais em seus investimentos. Além da instabilidade que não dá trégua, a inflação segue o mesmo ritmo – não fosse a alteração recente de ICMS, estaríamos indo para o segundo ano consecutivo de inflação na casa de 10%.
E não podemos deixar de lembrar que a principal razão do conservadorismo do início do ano, a eleição presidencial no Brasil, até agora não gerou stress relevante no mercado. É difícil dizer a razão de isso ainda não ter acontecido, mas acreditamos que é apenas uma questão de tempo: ao longo dos meses de julho a outubro, entendemos que esse debate virá à tona com mais força e ditará alguns movimentos mais intensos no mercado local.
Em resumo, temos uma combinação de fatores que não víamos há anos – talvez décadas: turbulência externa e interna, instabilidades geopolíticas, possibilidade de recessão e inflação galopante em todo o mundo.
Nesse sentido, de nada nos espanta ver que o conservadorismo entre os gestores – não somente os gestores de EFPCs, mas os gestores de fundos, alocadores e afins – permanece mais forte do que nunca. No entanto, e para tentar deixar esse texto um pouco menos pessimista do que ele parece até aqui, nas últimas semanas o mercado passa a dar pistas de que entende que todas essas mazelas já foram, de alguma maneira, incorporadas ao preço.
Isso não significa que esperamos uma virada de humor no curtíssimo prazo. Destacamos, inclusive, que muitos dos gestores parecem ter mais visibilidade para prazos médios (algo como 2 anos) do que para prazos curtos. Mas aquela sensação de que não havia nada a ser feito, presente nos últimos meses de 2021 e nos primeiros de 2022, começa a dar lugar a um início de otimismo com a possibilidade de uma reação do mercado.
Esse possível otimismo está calcado em vários fatores, dos quais destacaremos alguns. Em primeiro lugar, os preços dos ativos de risco estão incrivelmente deprimidos – a bolsa local, em especial em sua parcela menos relacionada a commodities, apresenta índices que a aproximam das piores crises recentes.
Da mesma forma, quando olhamos para as curvas futuras de juros, já começamos a ver que o mercado espera um ciclo de cortes em algum momento, até porque país nenhum do mundo sobrevive a uma taxa de juros da ordem de 13% ao longo de 10 anos, que é o que a curva apresenta hoje.
E, lá fora, a possibilidade cada vez maior de recessão pode levar ao FED a fazer algum ajuste em sua política de aperto monetário, como fez nos últimos anos toda vez que a economia ameaçou esfriar. A situação atual não se parece com as situações anteriores, mas o FED seguramente não quer mergulhar os EUA em uma recessão e tende a agir para que isso não aconteça.
Ou seja, há fundamentos para aqueles que queiram ver “o copo meio cheio”. E tais fundamentos não apareceram agora – na realidade, há alguns meses o mercado flerta com eles. Então, o que mudou? Em nossa visão, dois temas principais:
O primeiro é a perspectiva de um resultado melhor nos investimentos no segundo semestre de 2022, o que devolve uma certa tranquilidade aos gestores. Com a taxa de juros atual e a perspectiva de inflação, o carrego dos investimentos deve gerar, com certa tranquilidade, algo como 5% de ganho real nesse período – o que tende a aproximar grande parte das EFPCs de suas metas em 2022 e, ainda que tais metas não sejam atingidas, não se espera repetir o resultado observado em 2021.
O segundo é justamente um maior apetite, inicialmente pelos gestores de mercado e, talvez, ao longo do semestre, pelas próprias EFPCs, a avaliar ativos de risco. Até então, mesmo deprimidos, tais ativos não eram demandados – com pouca entrada de recursos, nada os fazia sair do lugar.
Se, em algum momento, vários gestores convergem para o entendimento de que os ativos estão atrativos, há demanda e, finalmente, razão técnica (porque a razão fundamentalista não é nova) para que os ativos se movam.
A resposta à pergunta inicial desse texto não é simples e, possivelmente, é desconhecida. Mas a sensação de que a fase mais difícil vai ficando pra trás parece cada vez mais concreta, e talvez voltemos a discutir, antes do que imaginávamos, um cenário mais favorável para os investimentos.

Guilherme Benites é sócio e diretor da Aditus Consultoria Financeira