Dados na nuvem é desafio
Eficiência, mobilidade e comunicação com os participantes são vantagens de disponibilizar informações na nuvem, mas decisão ainda é complexa

Edição 284

 

Em um mundo onde as pessoas consultam e decidem sobre seus recursos com toques no celular – e onde a mobilidade se incorpora à rotina de diversas formas, graças à conexão e aos avanços da tecnologia da informação - será difícil para entidades de previdência complementar fechadas e gestoras de investimentos permanecerem incólumes a essas mudanças. A decisão que está na mesa hoje é sobre quais informações operar em cloud computing, ou nuvem, que é o armazenamento de dados que podem ser acessados de qualquer lugar, de forma remota, pela internet. Quem fornece a tecnologia garante que ela é segura e que falta conhecimento da parte das entidades.
Dados prévios da base da Abrapp (Associação Brasileiras das Entidades Fechadas de Previdência Complementar) mostram que, de fato, a nuvem é um desafio para as entidades. De acordo com uma consulta às associadas, 44,4% disseram operar com dados na nuvem através de equipe e recursos próprios, enquanto 44,4% não adotam a tecnologia. Ou seja, há um empate entre os dois grupos, Outras 11,1% das entidades terceirizam o serviço. Apesar disso, 25,9% analisam a possibilidade de terceirização.
Uma das questões principais hoje é decidir o que colocar na nuvem e quando, porque não há como escapar dela, segundo especialistas. “Quem ainda não está, terá que entrar. Há várias modalidades quando se fala em data center: a hospedagem com arquitetura dedicada, compartilhada e na nuvem, tudo fora da entidade, o que permite escalabilidade para crescer. O Facebook cresceu rapidamente por causa disso. A decisão é complexa porque há aumento de exposição a riscos e tudo deve ser bem medido. É uma quebra de paradigma, mas é preciso ir com cautela”, afirma Ana Paula Nogueira Larini, coordenadora da comissão técnica regional sudeste de TI da Abrapp.
Segundo Ana Paula, há questões fundamentais para as entidades como a custódia de dados, o rastreamento, a auditoria e o compliance, que precisam ser garantidos por contrato com as empresas de tecnologia que atendem o segmento com soluções na nuvem. “Os contratos devem ser robustos para garantir a segurança da informação e esse é um ponto que preocupa as fundações, que precisam seguir a legislação e normas, como o data center com classificação de segurança 3”, afirma.
Hoje a maioria das entidades tem um planejamento de TI que é revisado anualmente, ou seja, é o caso de 90% das mapeadas pela entidade. “A área de Tecnologia da Informação não é mais acessória, mas participativa e de ponta, e ajuda na tomada de decisão do conselho deliberativo e da diretoria”, diz Luiz Paulo Brasizza, diretor da Abrapp responsável pelo tema da Tecnologia de Informação do sistema. Ele lembra que transparência e comunicação são demandas cada vez comuns de participantes de planos e isso deve empurrar as fundações de maneira mais forte para essa tecnologia. Os aposentados anseiam cada vez mais por informações sobre seus benefícios não apenas anuais, mas semanais. Os jovens que começam a contribuir já acham comum não só efetuar consultas diárias, mas também participar das decisões de investimentos que se referem ao próprio dinheiro.
“A maioria dos planos hoje é de contribuição definida, que permite ao participante optar por perfis de investimentos. No benefício definido, o participante contribuía e ia se preocupar com o plano apenas no final. Nesses planos novos há possibilidade de acompanhar diariamente a evolução da poupança. Os planos oferecem a possibilidade de alterar perfis de investimento, de conservador para arrojado”, afirma Fred Siqueira, coordenador da CTN-TI (Comissão Técnica Nacional de Tecnologia da Informação) da Abrapp.
Mas junto com essas necessidades dos participantes, aumenta a preocupação das entidades com o aspecto da segurança. E não só com as informações que estão na nuvem e com o backup, mas com as que podem ser acessadas pelo celular. Os sistemas na nuvem permitem mobilidade, ou seja, o acesso de informações tanto pelos funcionários da entidade, quanto por participantes (se a fundação assim determinar) de qualquer lugar e dispositivo (computador, smartphone ou tablet).
“A preocupação passa por tudo: desde a senha das pessoas até a guarda da informação dentro do sistema. E não só com isso, mas com a guarda de documentos, contingenciamento, compliance e gestão do investimento. Tanto na nuvem como no data center. As fundações utilizam data centers mais robustos com planos de contingência. Elas querem garantir as informações de participantes e o acesso delas”, afirma Brasizza.
David Terra, diretor da área financeira da Totvs, diz que os fundos de pensão ainda são conservadores em relação aos sistemas na nuvem. “A questão não é se eles migrarão para a nuvem. A questão é quando isso irá acontecer”, afirma.
Custo benefício – Enquanto as grandes entidades têm áreas de TI e investimento em data center próprios, com capacidade de internalizar a guarda e o backup, além do contingenciamento e recuperação de desastres, as menores acabam adotando os serviços de terceiros, que acabam sendo mais acessíveis comparativamente em termos de custos. A infraestrutura em tecnologia implica em investimentos constantes com atualizações, os quais as pequenas e médias entidades nem sempre podem acompanhar. Além disso, soluções em nuvem costumam demandar equipes menores na parte de hardware.
“Há também o fato das fundações no Brasil estarem passando por um momento difícil e isso acaba restringindo o orçamento em vários setores. Usar os serviços de terceiros faz com que as menores tenham acesso a uma tecnologia mais nova”, diz Siqueira da Abrapp.
Terra, da Totvs, diz que observa maior procura por soluções na nuvem por pequenas e médias instituições, e que fundos de investimentos já estão sendo rodados totalmente nessa tecnologia. “A redução de custos é expressa da seguinte forma: uma gestora pequena ou média ficaria no ar por mais de oito horas por dia e precisaria de mais de uma pessoa para fazer as atualizações. Na nuvem, nós fazemos isso. Há escalabilidade. Se a gestora crescer, não precisará ter mais uma máquina ou trocar o software. É possível aumentar a capacidade de escala e processamento na própria nuvem”, explica o diretor.
Adriano Carneiro, diretor-adjunto da unidade de negócios Rio de Janeiro da Senior Solution, diz que, além do custo acessível, as entidades e assets demandam por aumento de produtividade na gestão de investimentos. “Eles querem entregar dados melhores e num tempo menor para os beneficiários, que querem ter acesso a tudo pela internet. As empresas que buscam o software na nuvem deixam de se preocupar com a infraestrutura para processar e deixam de ser reféns do hardware”, afirma.
Luciano Batista, diretor da Senior Solution, lembra que a segurança também fica na mão de especialistas que desenvolveram a solução e que, no caso da empresa, há uma equipe de profissionais que tentam invadir o próprio sistema para encontrar vulnerabilidades, com testes que ajudam a aumentar a proteção.
“O mercado financeiro é evoluído em termos de segurança e tecnologia. As entidades e assets menores acabam herdando esse grau de segurança quando adotam soluções que já estão presentes em bancos”, afirma Batista, que lembra que a empresa é uma das principais fornecedoras de software para o segmento, atendendo atualmente 14 fundações, que rodam na tecnologia 120 planos. Assim, o software faz análise com base na resolução 3792 do Banco Central, sobre as políticas de investimentos dos planos de fundos de pensão, compliance e informações legais.
Para ele, ainda há falta de conhecimento sobre a nuvem e alguns conceitos precisam ser desmistificados. “O nível de segurança é até maior, por causa dos testes que realizamos em busca de vulnerabilidades, do que o de uma estrutura física, no qual os profissionais não fazem isso”, diz Batista.
O diretor da Totvs disse que o sistema na nuvem tem a segurança já adotada por grandes instituições financeiras. Ela pode ser moldada de acordo com as necessidades da entidade ou asset, com recursos como frase de segurança, validação, resposta, token, teclado virtual. O mesmo pode ser feito na área de compliance, com a possibilidade de estabelecer duplo controle sobre as decisões, ou seja, uma aplicação só é liberada com o aval de outra pessoa. Outro exemplo é a proibição de compra de uma determinada ação pelo sistema.
Segundo Terra, a segurança na nuvem é criptografada, com políticas de backup, monitoramento e contingência. Para comparar o quanto o sistema pode ser seguro, ele afirma que o próprio FBI coloca informações na nuvem. No caso dos sistemas da Totvs, o cliente tem acesso a política de segurança para validá-la, contratando uma consultoria para encontrar vulnerabilidades.

Agilidade na gestão – Outro indutor da necessidade de sistemas para suportar as operações das fundações, de acordo com Batista, é seu próprio crescimento. “Se o volume de investimentos aumenta, a complexidade também é maior. Os sistemas especialistas eficientes se tornam necessários. Outro fator é o próprio mercado, com as fundações enfrentando déficits e precisando de eficiência na gestão do investimento. É preciso diversificar o portfólio para alcançar a meta atuarial e isso exige a adoção de sistemas que ajudam na tomada de decisões ágeis”, diz Batista.
Ele afirma que as informações consolidadas podem ser publicadas no site da entidade para o participante ter acesso, mas o foco das entidades, na prática, acaba sendo a gestão do investimento.
Quem observa o mesmo é Terra, da Totvs. Apesar da gama de informações que o sistema da empresa permite que o participante de um plano ou investidor de um fundo acesse, como extratos, relatórios, aplicações e resgates, poucas ficam disponíveis para esse usuário final. Os sistemas geralmente permitem, mas as fundações e assets é que decidem o que liberar na internet. “A principal vantagem do sistema na nuvem é para o gestor, que pode ter o acesso remoto. Ele pode baixar uma instrução da CVM, comprar e vender ativos na bolsa e enviar informação para o Banco Central de onde estiver”, afirma Terra.
Mesmo na gestão dos passivos, as soluções estão migrando para a nuvem, como é o caso do sistema da ATTPS, que está no mercado desde 1998, e passa a disponibilizar essa versão na internet em abril. Carlos Roberto Oliveira da Silva, gerente de mercado da ATTPS, diz que seis dos maiores fundos de pensão adotam o software, que ainda não roda na internet, e é específico para a administração da arrecadação dos fundos de pensão, que vem da patrocinadora e dos participantes.
“Todo o controle é feito pelo sistema, com o acompanhamento pela patrocinadora das contribuições feitas no fundo de reserva, desde a entrada, histórico e por tipos de planos e benefícios. O sistema permite o controle da mudança de planos e de valores de contribuição”, afirma.
Segundo Silva, a decisão de lançar a versão na nuvem também está associada à oferta de uma interface melhor para o usuário, com telas mais modernas, que podem ser acessadas onde o profissional estiver. “As funcionalidades também permitem que os participantes possam acessar do celular, para consultar o saldo ou fazer solicitação de empréstimos à fundação. Mas o que é disponibilizado depende do regulamento do plano e da fundação, que escolhe o que o participante pode fazer. Isso é ditado pela fundação, até mesmo para evitar fraude e roubo de informações”, explica.
Apesar de contar com a mesma segurança criptografada e por senhas, o gerente da ATTPS diz que não sabe até que ponto as fundações optarão por liberar o sistema na internet, já que ele pode rodar na intranet. Ele avalia que as entidades sempre tiveram resistência com a informação na web, e o temor é ficar sujeito a invasões.

Governança – Quem não deve lançar sistema de gestão de investimentos na nuvem, por considerar ser mais vulnerável, é a Luz Soluções Financeiras, consultoria que tem apenas um software voltado para entidades. “Por mais que se aumente a segurança, ela acaba quebrada. Por isso, nos concentramos mais na funcionalidade e oferecemos um sistema único, que pode ser adaptado para o que o cliente deseja. Não somos uma casa só de software”, afirma Edivar Queiroz, presidente da Luz, que disponibiliza o sistema a 120 clientes, entre assets e fundos de pensão.
Ele diz que o sistema de gestão de investimento roda nas máquinas dos clientes, mas a empresa tem dois produtos na web, um de ALM e outro de referência de preços de ativos para as carteiras dos fundos de pensão que não são marcadas a mercado. “No sistema é possível saber se o preço de um ativo que o gestor está comprando está por um preço justo. O outro faz o fluxo atuarial, com simulações”, explica.
Os sistemas, segundo Queiroz, foram desenvolvidos com base nas necessidades das entidades e assets, principalmente relacionadas a due diligence e compliance, identificadas nas consultorias. Ele conta que foi um processo de desenvolvimento que durou 16 anos e que a ferramenta atende as instruções 558 e 555 da CVM, além da 3792 do Banco Central, esta específica para fundos de pensão.
Por isso, o software tem funcionalidades voltadas para a governança e compliance, com trava para a compra de ações de armas e bebidas para uma carteira, por exemplo. Ou mesmo formas de identificar se um funcionário está agindo de maneira ilícita. “A legislação e os regulamentos dos fundos de pensão e das assets trazem isso e os conselhos estão querendo uma estrutura de controle cada vez melhor”, afirma.
Na visão de Queiroz, muitas vezes a ameaça à segurança da gestão não está na nuvem, mas dentro da estrutura e dos processos internos da asset ou do fundo de pensão. O sistema, dessa forma, tem a atribuição de vigiar a conduta de quem opera. “Hoje, 80% dos problemas de gestão são de compliance e 20% são erros operacionais”, afirma.
O software também atende a instrução 558, relativa à custódia de ativos. “O que acontece hoje é que alguns gestores têm sistemas que respondem por diferentes partes da custódia, que depois são interligadas manualmente. Se alguém acerta uma operação no terceiro sistema, sem fazer isso no primeiro, na origem, cria uma inconsistência enorme, principalmente em fundo de pensão”, conclui.

Ataques mais sofisticados – Liberar o acesso de informações em celulares, tablets e computadores pela internet requer o investimento em segurança em todas as pontas, já que as fraudes estão cada vez mais sofisticadas. “O nosso monitoramento já catalogou 3,5 milhões de ataques a usuários, que geraram um arsenal de prevenção”, diz Ricardo Varone, diretor da GAS, empresa de prevenção e combate a fraudes da Diebold. A empresa acompanha a dinâmica dos invasores para fazer a prevenção aos ataques aos usuários finais, com análise de dados transacionais, geoposicionamento e cruzamento de informações.
O executivo diz que o foco é a proteção ao usuário dos sistemas, que é a ponta frágil e alvo de fraudadores, que buscam roubar credenciais com páginas falsas, e-mails e mensagens. “No ano passado, identificamos que alguns aplicativos tentavam simular o Banco do Brasil no celular, para que usuários baixassem e colocassem informações. Notificamos o Google para a retirada do ar”, conta Carlos Augusto Galhiego, gerente de Prevenção à Fraude da GAS.
Varone diz que a tendência é de migração de ataques a informações de contas correntes de empresas em bancos, e de dados de clientes de gestoras de investimento e fundos de pensão.

Negociação eletrônica segue ganhando força

Das ordens de compra e venda no grito para a silenciosa velocidade dos algoritmos. Nem parece que há pouco tempo ainda existia o pregão viva-voz, que desapareceu por completo em 2009 na então Bolsa de Mercadorias & Futuros. Hoje, a velocidade na transmissão, liquidez, transparência e redução de custos já estão incorporados à rotina de corretoras e investidores, em um modelo que ainda tem espaço para crescer nos próximos anos, segundo Francisco Gurgel, sócio-diretor do Grupo ATG (Americas Trading Group).
A empresa, com sede no Rio de Janeiro e filiais nos Estados Unidos, México, Argentina e Chile, responde pela plataforma multimercado de negociação eletrônica de ativos listados em mercados emergentes. Recentemente, a empresa adquiriu o controle da consultoria Risk Office (ver nota na pág. 10)
O crescimento da negociação eletrônica deve ser conduzido não só pelas corretoras e investidores que adotam o DMA (Direct Market Access), modelo que possibilita ao cliente final acesso ao ambiente eletrônico de negociação em bolsa, após autorização da corretora, com um fluxo de informações em tempo real, mas também pelas novas necessidades dos gestores. Apesar do potencial, persistem barreiras de mercado e culturais. Mas a que o grupo ATG enfrenta atualmente ocorre não necessariamente na disseminação da negociação eletrônica no país, mas em outro projeto, o de lançamento de uma bolsa eletrônica que seria concorrente à BM&FBovespa.
As empresas do grupo Americas Trading System Brasil (ATS) e Americas Clearing System (ACS) entraram com representação junto ao Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) para que a autarquia se posicione em relação a práticas anticompetitivas da BM&FBovespa, incluindo a decisão de não prestar serviço de sua Central Depositária após 10 meses de negociação. A denúncia acabou anexada ao processo de fusão da BM&FBovespa com a Cetip e a ATG foi declarada como parte interessada.
Essa definição ainda não teve um desfecho. Enquanto isso, a empresa continua tentando avançar com o projeto da nova bolsa. Na entrevista a seguir, Gurgel comenta sobre os desafios para o mercado de negociação eletrônica no Brasil.

Qual o potencial de crescimento da negociação eletrônica no Brasil?
Em 2008, a bolsa brasileira tornou-se 100% eletrônica. Desde então, vem crescendo a adoção da plataforma DMA, no qual o investidor final pode operar de forma eletrônica na bolsa por intermédio de corretora. Isso vem crescendo ao longo do tempo. Em ações, a participação das negociações eletrônicas é de 50%, tudo via modalidade DMA. Acreditamos que no Brasil a taxa pode alcançar 70%. Para se ter uma ideia, nos Estados Unidos está em torno de 60% a 80%.

Quais são os desafios para atingir esse patamar?
Há questões de mercado e questões culturais que certamente são barreiras e que têm sido quebradas ao longo do tempo. A evolução da tecnologia e dos provedores otimiza o fluxo de entrada de clientes no mercado de negociação eletrônica. Somos uma empresa jovem e prestamos serviços para mais de 50 gestoras, o que contribui para o aumento desse número. As corretoras devem incentivar a utilização do sistema, mas isso também é um processo.

O que ainda pode evoluir na negociação eletrônica?
O nosso foco hoje está nos algoritmos de execução, que registram uma demanda grande no mercado. Antes, as operações estavam concentradas em pessoas. Agora estão na plataforma e, assim, nada mais natural do que automatizar a forma de execução dele. Os algoritmos de execução têm esse objetivo, o de seguir estratégias. Hoje existem 15 tipos de algoritmos específicos que ajudam clientes a executar ordens. Um exemplo nessa linha é a criação de algoritmo que atende à necessidade de um gestor que tem um tipo específico de estratégia em renda variável.