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Blockchain entra nos bancos
Citi, Itaú, Santander e grupo de trabalho da Febraban se dedicam à entender a nova tecnologia para implementá–la em suas operações 

Edição 300

 

Embora investimentos em criptomoedas não estejam encontrando eco nas grandes instituições financeiras, ao menos aparentemente, a utilização do conceito do blockchain está fazendo esses agentes do mercado se movimentarem para entender como funciona a nova tecnologia e como ela poderia ser inserida dentro de suas operações.
Entre os grandes bancos que têm investido em conhecimento e desenvolvimento do blockchain está o Citi, que conta com três laboratórios de inovação, em Dublin, Tel Aviv e Cingapura, todos trabalhando no desenvolvimento de novas tecnologias e em como aplicá-las nas operações do banco. O blockchain e as criptomoedas fazem parte desse escopo desde 2013.
Com base no conhecimento obtido nesses anos de estudos, em maio de 2017 o Citi deu início a um projeto piloto com a Nasdaq, ainda em desenvolvimento, no qual, por meio da uma plataforma que já existia no banco, mas que agora faz uso da tecnologia blockchain, a bolsa americana faz remessas internacionais de câmbio que envolvam ‘moedas exóticas’ aos seus colaboradores. São consideradas ‘moedas exóticas’ todas aquelas que não se enquadram como moedas fortes, como por exemplo o dólar e o euro.
“Começamos a construir infraestruturas tecnológicas que visam alavancar nosso negócio com base no blockchain”, explica Rocio Velarde, head da área de ‘treasury and trade solutions (TTS)’ do Citi. Ela acrescenta que, por falta de escala, já que se trata no momento apenas de um projeto piloto, ainda não é possível mensurar potenciais ganhos de eficiência e redução de custos por meio da utilização do blockchain. “Ainda assim, tudo leva a crer que, se o blockchain vier a ser utilizado em larga escala, esses ganhos devem ser alcançados”, observa Mário Rocha, diretor de canais eletrônicos, serviços corporativos e inovação do Citi Brasil, que estima um prazo de cinco a dez anos até que a nova tecnologia esteja completamente integrada ao dia a dia do banco.
Rocha conta que, dentro do processo de estudos internos sobre o blockchain, a instituição financeira chegou a criar sua própria criptomoeda, a ‘Citi Coin’. A criptomoeda, no entanto, foi criada internamente em laboratório somente para que o banco entendesse seu funcionamento e possíveis aplicações, sem ter sido distribuída para terceiros. “Temos hoje grande conhecimento sobre o blockchain e também sobre as criptomoedas, e com base nesse conhecimento decidimos priorizar a adoção do blockchain em nossas operações”, explica Rocha.
Rocio destaca também que, além do blockchain, os laboratórios de inovação do Citi tem se debruçado sobre outra tecnologia também potencialmente disruptiva, que é a inteligência artificial e suas potenciais aplicabilidades. “A inteligência artificial é inclusive mais fácil de ser implementada dentro de diversas operações do banco, principalmente na interação com os clientes, do que o próprio blockchain”, pondera Rocio, que cita como exemplo de possível aplicação da inteligência artificial os canais de atendimento digitais.

Garantias – O Itaú, por sua vez, lançou no início de 2018 seu primeiro projeto que faz o uso da tecnologia blockchain, de acertos de garantias entre o banco e outras instituições financeiras, atividade também conhecida no mercado como tomada de margem. A atividade de tomada de margem é antiga dentro do banco, e a novidade é que agora ela utiliza o blockchain para permitir maior agilidade e segurança nas transações, explica Igor Freitas, superintendente de tecnologia do Itaú.
O processo de tomada de garantias com o uso do blockchain não será aberto ao grande público; ele estará restrito, em um primeiro momento, à uma parceria do Itaú com outras duas instituições financeiras que ainda não podem ter o nome divulgado. Freitas explica que a adoção do blockchain só traz ganhos relevantes quando há um compartilhamento de seu serviço entre duas ou mais partes. “Se utilizado de maneira isolada por um banco apenas os ganhos obtidos com o blockchain são muito menores”, pondera o especialista, que acrescenta que, sendo bem sucedida, a operação logo estará aberta para que outras instituições financeiras também possam fazer uso da mesma.
O executivo do Itaú destaca que a atividade de tomada de garantias conta hoje com uma série de processos manuais, que deixarão de existir com a adoção do blockchain. Em linha com seus pares do Citi, Freitas ressalta que, por se tratar de um projeto que está no momento em sua fase inicial, ainda não é possível estimar o quanto exatamente será possível obter com ganhos de eficiência após a adoção da tecnologia no processamento. “Nosso maior objetivo agora é criar uma rede de parcerias e começar a experimentar a tecnologia de maneira mais produtiva, mas claro que com o objetivo final de reduzir custos e melhor a qualidade do processo”, pontua o superintendente.

Transferências – Já o Santander, explica Richard Flavio da Silva, superintendente de tecnologia do banco, também tem investido em tecnologia blockchain, tanto no mercado financeiro nacional quanto em outros países em que o banco também tem operação.
No Reino Unido, por exemplo, já está disponível desde 2016 um aplicativo do Santander que realiza transferências internacionais que utilizam a tecnologia blockchain. Os usuários são funcionários do Santander que podem transferir valores para outros países europeus e também aos Estados Unidos (com câmbios entre dólar, libra e euro), com benefício de um tempo muito menor para efetivação do crédito no destino (prazos de um dia contra durações usuais de até cinco dias pelos meios padrão a todos os bancos) e sem restrição de horário para lançarem os pedidos de transferência.
No Brasil, inspirado na experiência do Reino Unido, o banco iniciou em 2017 o desenvolvimento de solução para transferências internacionais com a plataforma Ripple, com previsão de “piloto” neste primeiro semestre de 2018. “Neste projeto brasileiro vamos oferecer a solução aos nossos clientes correntistas, sejam funcionários ou não. Os objetivos incluem entregar experiência de um tempo de liquidação de até um dia e capacidade de solicitar suas transferências a qualquer momento”, afirma Silva.
O superintendente de tecnologia do banco diz também que, para 2018, a principal prioridade, além de viabilizar a nova solução de transferências internacionais, é seguir colaborando no grupo de trabalho de blockchain na Febraban, iniciado em agosto de 2016, do qual também fazem parte Citi e Itaú, em um total de 17 instituições financeiras, incluindo B3 e representantes do Banco Central.
O grupo de trabalho já testou diferentes tecnologias de blockchain e chegou a lançar um projeto experimental denominado “DNA”, com potenciais benefícios como proporcionar melhorias à experiência do cliente, com menos esforço para iniciar relacionamento com uma nova instituição, benefício de informações cadastrais atualizadas em tempo real entre as instituições financeiras participantes da rede e também redução de custos operacionais pelo lado das instituições. “Nos próximos meses deste ano, o grupo de trabalho na Febraban quer fechar uma solução de negócio sobre a tecnologia blockchain, visando até o final do ano a implantação de um ‘piloto’ em ambiente real entre as instituições participantes”, comenta o especialista do Santander.