O big data bate à porta
Tecnologia de processamento de grandes bases de dados entram de vez nas agendas de gestoras e de analistas do mercado de capitais

A queda dos juros oferecidos pelos títulos públicos federais, campeões da preferência dos aplicadores no cenário doméstico por décadas a fio, vem despertando de forma crescente o interesse de profissionais da área de investimentos pelos chamados indicadores alternativos e proprietários para a definição de estratégias de diversificação de alocação em ativos. O leque de opções é vasto. Inclui de informações com toques de serviços secretos e de inteligência – como fotos aéreas de estacionamentos de shopping centers e de florestas voltadas ao abastecimento de linhas de produção de celulose – a índices formatados a partir de diferentes fontes de dados que permitem, ao menos em tese, a identificação de tendências macroeconômicas e setoriais com maior grau de precisão e/ou antecedência do que as ferramentas convencionais.
“É uma tendência de caráter internacional que agora começa a se manifestar no Brasil. O processamento de grandes bancos de dados, mais conhecido como big data, veio para ficar no universo dos investimentos”, comenta Lucy Sousa, presidente da seccional paulista da Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais (Apimec-SP).
Atenta ao movimento, a Apimec-SP planeja para o primeiro semestre do próximo ano, em data ainda a ser definida, a abertura das inscrições de um novo curso, “Inteligência artificial – Data science and business analytics para o mercado de capitais”. Com 16 horas de duração, a iniciativa, que abordará temas complexos, como estruturas de bancos de dados para a estimação de modelos preditivos e regressão logística binária e multinomial, foi aprovada em seu primeiro “test drive”, realizado em setembro sob encomenda de uma empresa. “Boa parte do programa curricular aborda softwares para tratamento de dados disponíveis na praça”, diz Lucy.
Além da entidade, outros nomes do mercado já estão de olho no filão. Um dos mais renomados é a norte-americana Bloomberg, que garantiu o acesso de seus assinantes, em fevereiro, a uma plataforma eletrônica abastecida por mais de 20 fornecedores de dados alternativos. Outro, ainda não tão famoso, é a Montvero Consultoria e Treinamento, responsável pela concepção e os conteúdos do curso da Apimec. Criada em 2007 por um grupo de acadêmicos ligados, em sua maioria, à Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP), a empresa paulista ostenta a privilegiada condição de prestadora de serviços diferenciados para gigantes das finanças e de seguros, casos de Itaú, Bradesco e Sul América.
“Os mercados financeiro e segurador, que sempre dedicaram muita atenção às tecnologias de processamento de dados, respondem por cerca de 50% das nossas atividades”, revela o sócio-fundador Luiz Paulo Fávero, que é professor titular de data science e business analytics da FEA-USP. “A demanda desses setores vem crescendo de forma perene e intensa. É um claro indício de que os centavos já fazem diferença com o fim do berço esplêndido de juros estratosféricos.”
Referência na área, como atesta o lançamento, há pouco mais de um ano, de sua plataforma de inteligência artificial de relacionamento com clientes, o Bradesco também vem lançando mão de expedientes digitais na área de investimentos. Um exemplo é a linha de fundos Allocation, apresentada em agosto do último ano, que incorpora estratégias de gestão quantitativas. “Esses produtos, que captaram um total de cerca de R$ 16 bilhões, são dotados de tecnologias desenvolvidas por nossos técnicos que permitem processamentos de dados em larga escala”, diz Marcelo Nantes, CIO de renda variável da Bradesco Asset Management. “A ideia é seguir investindo em veículos do gênero, pois o potencial dessa faixa de mercado é muito grande.”
Com forte tradição no desenvolvimento de indicadores proprietários, a Bram vem trabalhando para expandir essa expertise internamente. Hoje, todas as equipes da gestora contam com profissionais capazes de captar e modelar bases de dados. O padrão se estende até mesmo a áreas que, tradicionalmente, não tinham tanto contato com esses processos, como a comercial. “Nos últimos anos, os treinamentos para capacitar e atualizar o pessoal no uso de softwares de programação vêm se tornando mais e mais frequentes”, diz o CIO de renda fixa Marcelo Toledo.