Incerteza nos mercados
Coronavírus, petróleo, queda das Bolsas e disputa entre governo e Congresso darão o tom dos próximos movimentos dos gestores

O surto do novo coronavírus, que provoca a doença batizada de Covid-19, já contaminou mais de 180 mil pessoas em mais de 70 países desde dezembro último, além da queda de todas as Bolsas – no Brasil, até o dia 17/3, o tombo foi de quase 40%, enquanto dólar e euro subiam mais de 25% - e previsões castróficas de recessão mundo afora. Mesmo após a China anunciar uma redução de novos casos e de medidas anticíclicas para estimular sua economia – no que foi seguida por outros países -, a epidemia ainda avançava no Ocidente.
No Brasil, gestores de investimentos e consultores evitam cravar previsões. Além dos efeitos da pandemia do Covid-19 e da queda dos preços do petróleo sobre os negócios das empresas, ainda há o embate entre o governo federal e o Congresso – os deputados derrubaram no último dia 11 o veto do presidente Jair Bolsonaro ao projeto de lei que eleva o limite de renda para idosos e deficientes receberem o Benefício de Prestação Continuada (BPC). Esse veto economizaria mais de R$ 200 bilhões de gastos federais em 10 anos, que agora terão que ser custeados pelo governo, ameaçando o equilíbrio fiscal das contas públicas.

Para Marcelo Rabbat, sócio da Vinci Partners, asset com R$ 37 bilhões sob gestão, esta questão é mais importante do que os efeitos do novo vírus sobre uma eventual realocação de recursos nos portfolios de previdência.
Rabbat lembra que o sobe e desce das ações pode ser temporário e com efeitos limitados sobre investimentos de longo prazo – mas se o governo precisar aumentar os juros para captar mais recursos e bancar o aumento de gastos, os fundos de pensão podem bater em revoada - principalmente, em direção aos papéis de prazos mais longos, como as Notas do Tesouro Nacional - série B (NTN-B).
“A questão fiscal, ao meu ver, é mais determinante para a alocação de recursos neste momento do que a queda das ações”, afirma. Rabbat também lembra que, hoje, a presença de investidores institucionais na Bolsa é, proporcionalmente, muito menor do que já foi. Portanto, não acredita que apenas os efeitos do coronavírus nos resultados das empresas motivem um forte movimento de troca de papéis por outros ativos nas carteiras dos fundos de pensão. Segundo dados da B3, no final de 2018 a quantidade de pessoas físicas que investia na Bolsa era pouco mais de 800 mil - no final de fevereiro deste ano, estava em quase 2 milhões. Já a de institucionais subiu muito menos, passando de 3,3 mil para 4 mil no mesmo período.

Everaldo França, instrutor da UniAbrapp e sócio da consultoria PPS Portfolio Perfomance, concorda com a análise de Rabbat em relação aos investidores institucionais. Para ele, não deve haver forte realocação de carteiras dos fundos de pensão. E acrescenta: “Em momentos de pânico, os investidores com mais sangue frio e mais experiência são os que se saem melhor. Para ter sangue frio, é preciso ter um horizonte de longo prazo. E quem tem horizonte de longo prazo? Os investidores institucionais”, afirma.
O especialista lembra um famoso conselho frequentemente atribuído ao banqueiro britânico Nathan Rotschild: “Para ficar rico, compre ao som de canhões (na guerra) e venda ao som de violinos (na paz).” Segundo França, gestores experientes sabem que não devem se apegar à ilusão de comprar ao preço mais baixo e vender ao mais alto: “Basta comprar barato e vender caro”.
França recorda que os mercados já viram esse filme (de pânico) antes, e acredita que os investidores aprenderam desde 2008 – quando estourou a bolha das hipotecas nos Estados Unidos, afetando muitos bancos e seguradoras e espalhando a crise financeira pelo mundo. “Naquela época, os gestores de fundos de previdência já sabiam que era melhor não realizar prejuízos vendendo ações, mas poucos se arriscaram a comprar; desta vez, muitos estão aproveitando os preços irracionalmente aviltados para comprar”, diz.
A Capco, uma consultoria em investimentos com sede em Bruxelas, na Bélgica, publicou recentemente um relatório no qual observa uma tendência que corrobora a impressão de França: “robôs” de investimento – algoritmos criados na crise de 2008, como o Wealthfront e o Betterment – estariam indicando mais investimentos do que desinvestimentos em ações neste momento.
O consultor da PPS reconhece que a nova pandemia teve forte impacto sobre a produção industrial chinesa, que abastece boa parte do mundo ocidental, e que a atividade da economia será certamente afetada no primeiro trimestre – mas acredita que o segundo será beneficiado pelas medidas anticíclicas adotadas. “Claro que, de modo geral, o mundo vai crescer menos em 2020 do que era previsto há dois anos. Mesmo assim, não justifica a queda deste tamanho nas Bolsas, é um exagero”.
A previsão oficial do governo brasileiro é de que os efeitos do Covid-19 provoquem uma queda de em média 0,3% do PIB em 2020.

Fundações cancelam eventos e restringem atendimento ao vivo
Em meio à pandemia, muitas fundações vem fazendo a sua parte para esclarecer e tentar proteger seus participantes – a maioria dentro do grupo de risco, com mais de 60 anos.
A Fapes, do BNDES, anunciou no dia 14 de março que suspendeu o atendimento presencial na Central de Atendimento por tempo indeterminado, e que o ambulatório na sede do banco no Rio de Janeiro passou a funcionar de segunda a sexta, de 8 às 18h; em compensação, o atendimento telefônico passou a funcionar 24 horas, 7 dias na semana. Além disso, recomendou que questões administrativas sejam encaminhadas via Fale Fapes.
O cancelamento de eventos destinados ao público externo foi outra medida preventiva adotada pela Fapes – dias antes, a Previ, fundo de previdência dos funcionários e aposentados do Banco do Brasil, já havia cancelado as reuniões para apresentação dos resultados trimestrais em Brasília e no Rio.
“As orientações do Ministério da Saúde especificam que aglomerações devem ser evitadas. O cancelamento reflete o cuidado da Previ com seus associados”, dizia comunicado no site da Previ, referindo-se à pandemia de Covid-19. “Oportunamente, será definida nova data para a prestação de contas e a disponibilização da equipe do Previ Itinerante para atendimento aos associados”.
A Funcesp, plano que reúne participantes de empresas elétricas do Estado de São Paulo, recomendava que os beneficiários utilizem os canais de atendimento virtuais em vez de recorrer ao atendimento presencial. “Lembramos que o Informe de Rendimentos pode ser acessado facilmente em nosso portal, apenas com o fornecimento do seu CPF e data de nascimento”.
A Petros, de funcionários e aposentados da Petrobras, suspendeu o atendimento presencial temporariamente, desde 16/3, para evitar mais contaminação pelo novo coronavírus. Todos os agendamentos para os meses de março e abril no Rio de Janeiro e em Salvador foram cancelados, e a agenda também está fechada para novas marcações.
Já a Real Grandeza optou pela gravação e divulgação de um vídeo com esclarecimentos da sua equipe médica a respeito do novo coronavírus – que foi transmitida ao vivo no dia 12 pelo Facebook.
A apresentação foi conduzida pela Dra. Mária Pires, que tirou dúvidas encaminhadas por participantes durante a transmissão e orientou sobre medidas preventivas que devem ser tomadas para evitar o contágio e a transmissão. “Temos muitos idosos na nossa base de beneficiários e a ideia é protegê-los o quanto antes”, disse a diretora de Seguridade da Real Grandeza, Patricia Melo.