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EFPCs começam a recuperar perdas
Depois do tombo sofrido em março, os fundos voltam a operar no positivo, mas muitos consideram improvável o cumprimento das metas do exercício

Três meses após terem sido levadas às cordas pela crise dos mercados causada pela pandemia da Covid-19, as entidades fechadas de previdência complementar (EFPCs) sinalizam que, em sua grande maioria, suportaram o tranco. Os retornos negativos apurados em março começaram a ser compensados a partir de abril e alguns fundos de pensão já projetam, inclusive, a superação das perdas acumuladas no ano ainda no primeiro semestre, embora parcela significativa do segmento considere improvável o cumprimento das metas atuariais traçadas para o exercício. Essa solidez foi refletida em levantamento da Superintendência Nacional de Previdência Complementar (Previc), com base em dados de abril de 260 entidades, segundo o qual 94,23% das integrantes do sistema não prevêem quaisquer problemas de liquidez em seus planos nos próximos 2 meses.
“Houve, de fato, uma recuperação importante a partir do início do segundo trimestre, mas os fundos de pensão devem ficar muito atentos à volatilidade dos mercados em geral, que ainda é elevada, em razão da incerteza do cenário”, comenta o líder da área de Wealth da Mercer, João Morais. “Um dado muito positivo revelado pela pesquisa da Previc é que apenas 18 entidades tiveram de revisar políticas de investimento. Isso demonstra o acerto na definição dessas diretrizes, que conseguiram superar a crise, demandando apenas alguns ajustes finos.”
A Funcesp, o maior fundo de pensão de patrocínio privado do país, com reservas técnicas ao redor de R$ 32 bilhões, reagiu com agilidade aos primeiros sinais da crise. No início de março, dando prioridade à liquidez, a entidade vendeu cerca de R$ 2,7 bilhões em várias classes de ativos, garantindo recursos de sobra para o pagamento de benefícios por um largo período. Depois de amargar uma queda de 4,17% naquele mês, o portfólio apresentou evolução de 3,38% entre abril e maio, reduzindo a perda acumulada no ano para a casa de -0,91%. “Se crescermos mais 1% em junho, praticamente zeramos o resultado do primeiro semestre”, observa o diretor de investimentos Jorge Simino Júnior. “Mas para cumprir as metas atuariais do exercício será necessária uma melhoria significativa do cenário ao longo do segundo semestre, o que não parece provável.”
Conduzida pela equipe da casa, a carteira de renda variável da Funcesp vem puxando a recuperação. Entre abril e maio, apresentou crescimento de 10,74%, em grande parte pelo FIA Pirineus criado praticamente no meio da pandemia. Em pouco mais de dois meses de operação, o fundo apresentava valorização de 21%, com patrimônio de R$ 350 milhões. “Formada por cerca de 14 papéis, a carteira do Pirineus contempla apenas papéis de empresas resilientes, com boa governança, e que tendem a crescer durante e após a crise, inclusive por meio da aquisição de concorrentes de menor fôlego”, assinala Simino. “Trata-se de um fundo baseado em rígidos critérios fundamentalistas, que aposta em retornos consistentes de longo prazo.”
Igualmente expressivo foi o retorno alcançado pelo Postalis, o fundo de pensão dos funcionários dos Correios. Aproveitado a queda das bolsas em março, a fundação aproveitou para fortalecer o Plano de Benefício Definido (PBD) alocando R$ 200 milhões em fundos de ações, que saltou de 1% para 8% em renda variável. Essa estratégia resultou numa valorização de 38% do PBD entre o final de março e final de maio. Considerando o acumulado no ano, até maio, a valorização foi de 5,43%, superando a meta atuarial do período em 3,54 percentuais. “Iniciamos o aporte no momento em que o Ibovespa atingiu o seu menor patamar no ano, na faixa de 63 mil a 67 mil pontos”, observa o diretor interino de investimentos, Alexandre Dias Miguel.

Adeptos de estratégias fundamentalistas, os gestores a serviço da fundação deram prioridade, entre outras empresas, a companhias de energia, com receitas dolarizadas, e bancos.
Desde então, o Postalis não mais realizou aportes em fundos de ações. No momento, a sua diretoria aguarda a conclusão de um novo ALM (casamento de ativos e passivos) para definir novos rumos em meio a cenários econômicos e sanitários ainda bem nebulosos. “Não pensamos em realizar lucros em renda variável”, observa Miguel. “Estamos, sim, estudando mecanismos de hedge para travar os ganhos obtidos no mercado acionário.”

A Valia só executou ajustes pontuais em suas estratégias. Patrocinada pelo grupo Vale, a fundação contava, em fevereiro, com 8,44% dos seus recursos aplicado em ações, o que lhe poupou maiores perdas com a forte queda da B3 no mês seguinte. No pior momento da crise, em 23 de março, a carteira consolidada da fundação caia 3,11% enquanto o seu Plano de Benefício Definido (PBD), o maior da casa com R$ 10,81 bilhões, caia 0,56% no acumulado do ano. Em 15 de junho, ambos tinham superado as perdas e acumulavam ganhos de, respectivamente, 0,79% e 1,32% no ano. “Nossa posição em renda variável chegou a registrar -44% em março, hoje estamos em -18%, com um desempenho superior ao do Ibovespa”, diz o diretor de investimentos Maurício Wanderley.
As principais medidas adotadas foram uma ligeira redução no estoque de ações, na primeira quinzena de março, e apostas em títulos públicos. Em vários momentos entre março e abril, a fundação adquiriu Notas do Tesouro Nacional da série B (NTNs-B) com taxas de remuneração na faixa de 4,5% a 5% ao ano além da variação da inflação, alinhadas com as metas atuariais do PBD, que já dispõe de mais de 80% de seus recursos alocados em papéis do gênero. Desde então, a composição do portfólio não sofreu mais alterações. Outras opções de ativos e produtos seguem em análise. “Estamos avaliando fundos imobiliários e acompanhando as tendências do mercado de crédito privado. Como, no entanto, só investimos em títulos de empresas de primeira linha, os spreads ainda terão que subir consideravelmente para despertar o nosso interesse”, assinala Wanderley.
Já a Fusan, com um maior participação da renda variável da ordem de 13,19% do portfólio em dezembro passado, iniciou este ano realizando algumas compras na bolsa. Mas interrompeu a estratégia a partir de segunda quinzena de janeiro, em razão das cotações elevadas dos papéis negociados em pregão e, sobretudo, de um plano de aposentadoria incentivada anunciado pela patrocinadora, a Sanepar, que apontava para uma elevação do volume de benefícios a serem pagos pela entidade. Com a eclosão da pandemia, em março, a fundação sofreu uma perda de 4,70%. “Muitas entidades que estavam mais alavancadas em renda variável devolveram, em março, boa parte dos ganhos obtidos em 2019”, diz a diretora-presidente Cláudia Trindade. “Mas não havia o que fazer. Mantivemos todos os ativos e aguardamos a superação do pior momento da crise.”
Depois de obter um crescimento acumulado de 2,47% entre abril e maio, como resultado quase que exclusivo da recuperação dos mercados, a entidade aguarda a conclusão de um novo ALM, encomendado no fim de março, para definir suas novas estratégias. A priori, a executiva pensa em elevar as aplicações no exterior, hoje concentradas em um único fundo de investimento que responde por 1,7% do portfólio da fundação. “Outra opção em estudo é o crédito privado, mas para que as taxas desses títulos se tornem vantajosas seria necessária uma retomada do crescimento econômico”, observa Cláudia. “O fato é que não será fácil cumprirmos a meta atuarial do plano Fusanprev, a menos que surjam boas surpresas no segundo semestre.”

A Fipecq, fundo de pensão dos funcionários da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e de três institutos federais de pesquisa (Inpe, Ipea e Inpa) viu seu principal produto, o Plano de Previdência Complementar (PPC), um BD com patrimônio líquido de R$ 1,45 bilhão encolher 5,21% em março. Isso porque o plano tinha, no início do ano, aproximadamente 15% dos seus recursos aplicados em renda variável. “Em abril e maio a situação começou a mudar, acumulamos ganhos de 2,63% nesses meses e a perda do PPC no ano retrocedeu para 1,87%. Dependendo do que ocorrer em junho, poderemos zerar a conta ainda no primeiro semestre”, prevê o diretor de investimentos Claudinei Rolim Perez.

Patrocinada por seis empresas aeroportuárias, a Infraprev registrou a maior queda entre as EFPCs ouvidas pela Investidor Institucional, tendo fechado o primeiro trimestre com um recuo de 7,1%. O resultado foi consequência de uma alocação acima da média do sistema em renda variável, carteira que em 2019 havia rendido 35,59% e permitido uma rentabilidade consolidada de 15,66% à entidade. “Considerando a carteira própria, os fundos de ações e multimercados, a renda variável detinha uma participação em torno de 25% do patrimônio. Hoje, a sua fatia corresponde a 19%”, informa a diretora-superintendente Interina e diretora de administração e finanças Juliana Koehler.
A redução foi decorrência, além da desvalorização das ações, de ajustes efetuados na carteira antes da crise. A Infraprev trocou alguns papéis em seu portfólio, desfez-se de outros sem realizar reposições, aumentando a liquidez, e abandonou sua estratégia passiva no mercado acionário, resgatando cotas de um fundo de índices. “Iniciado em fevereiro, quando a bolsa já apresentava sinais de instabilidade, esse trabalho buscou reduzir riscos no curto prazo”, diz a executiva, que também teve de lidar, em março, com a desvalorização do estoque de títulos públicos. “Marcados a mercado, os papéis apresentaram rentabilidade negativa no mês, devido à volatilidade do mercado causada pela forte abertura da curva de juros.”
A elevação das taxas dos papéis de renda fixa no mercado secundário cumpriu, no entanto, papel central na retomada. Já em março, a entidade deu início a compras de NTNs-B, reforçando as suas reservas nesses títulos, que respondem por cerca de 55% da carteira do Plano CV. Isso permitiu uma diminuição das perdas em 2,43 pontos percentuais entre abril e maio.

Além disso, nos meses seguintes, a diversificação ganhou escala com a seleção de um novo fundo de investimento externo, segmento no qual as aplicações somam 0,5% dos ativos. “A ideia é injetar entre R$ 20 milhões e R$ 40 milhões adicionais em renda variável no exterior até o fim do ano. Pretendemos reiniciar o processo de aumento da exposição ao risco após a crise”, diz Juliana, que contudo se mostra algo apreensiva em relação às perspectivas local e global. “Uma segunda onda de queda já começa a ocorrer em bolsas de valores nos Estados Unidos e na Europa, projetando as apreensões dos investidores em relação aos resultados das empresas.”
Leituras semelhantes são feitas por Jorge Simino e Maurício Wanderley. O primeiro não descarta um novo e forte ajuste das bolsas após a divulgação, em maior escala, de informações sobre o desempenho das companhias abertas de março em diante, ao passo que o diretor da Valia pondera que, apesar dos consistentes pacotes de estímulos fiscais anunciados por diversos governos, muitas empresas e setores enfrentarão dificuldades para se recuperar.
Na avaliação de João Morais, qualquer que seja o cenário no curto e no médio prazo, os investidores institucionais locais não terão opção a não ser dar continuidade aos processos de diversificação. “Isso inclui maiores exposições em renda variável e em investimentos no exterior”. Um levantamento recente da Mercer mostrou que, apesar da queda dos juros, a renda fixa ainda concentra 73% dos recursos dos fundos de pensão locais.