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Aposta certeira na liquidez
Com o caixa alto, a fundação aproveitou para fazer boas aquisições no mercado de ações durante a crise criada pela pandemia

O corte de 0,75 pontos na taxa Selic, de 3% para 2,25% ao ano, decidido pelo Comitê de Política Monetária (Copom) na data de 17 de junho, vai ampliar os desafios para os gestores de fundos de pensão, que terão que conviver com metas atuariais assumidas em tempos de juros altos com rentabilidades impostas por uma realidade de juros baixos e economia fragilizada pela pandemia. “Será um desafio grande. Pela primeira vez o Brasil vai enfrentar um cenário de juros negativos”, afirma o diretor de investimentos da Funcef, Paulo Werneck.
Com um patrimônio de R$ 73,6 bilhões e 136,7 mil participantes (85 mil ativos e 51,7 mil assistidos) ao final do ano passado, o fundo de pensão dos funcionários da Caixa tem uma meta atuarial elevada para os cenários econômicos atuais, de INPC + 4,5% na média. “Com certeza vamos ter que assumir mais riscos em nossas carteiras para conseguir entregar essa meta”, diz Werneck.
De acordo com ele, o desafio será maior no plano de Benefício Definido (BD), não só por causa da meta elevada de 4,5% mas também pelo volume dos ativos do plano REGReplan, que somava R$ 51,9 bilhões ao final do ano passado. O adicional de risco que será necessário assumir para esse plano alcançar a meta “exigirá uma especialização maior, uma agilidade maior e também mais controle de risco, como prevê a 4.661”, explica e executivo. No caso do plano de Contribuição Definida (CV) Novo Plano, com R$ 18,8 bilhões em ativos na mesma época, não há uma meta a ser batida mas um objetivo a ser alcançado.

Werneck conta que a Funcef estava numa situação favorável, do ponto de vista da liquidez, quando a pandemia do Covid-19 tornou-se evidente. A fundação já vinha aumentando a sua liquidez desde setembro/outubro de 2019 por conta de uma avaliação interna, feita pela sua área de investimentos, de que os mercados estavam distorcidos e a qualquer momento poderia haver uma correção. “Títulos da dívida pública de 2055 estavam sendo negociados a IPCA + 3,3% e papéis com rating duplo A apareciam com spreds muito comprimidos, então a gente pensou que uma das pontas estava errada, ou o prêmio era pouco ou a precificação do passivo estava errada”, diz Werneck.
Por conta disso, e apostando num ajuste que o mercado seria obrigado a fazer em algum momento, a fundação tomou a decisão de elevar sua liquidez, principalmente através dos novos aportes que passariam a ser aplicados em fundos de caixa. Naquele momento, o fantasma da pandemia ainda não existia. Quando a questão da pandemia começou a tomar contornos mais nítidos, entre janeiro e fevereiro deste ano, mas ainda sem as dimensões que ganhou nos meses seguintes, a Funcef já estava com a liquidez elevada e decidiu reforçar ainda mais essa posição. Em março, com a pandemia confirmada e os mercados atravessando o seu pior momento, com a bolsa caindo 50%, a fundação viu surgirem as oportunidades. Conseguiu comprar NTNBs de 2055 a IPCA + 5% e ações de algumas empresas cujas cotações em bolsa, feitas as contas, equivaliam aos valores que elas tinham em caixa. “Aproveitamos para aumentar um pouco nossa carteira de renda variável, comprando alguns papéis e rotacionando outros para reforçar setores que já começavam a dar sinais de que iriam se sair melhor na crise, como o de tecnologia por exemplo”, explica Werneck. “Mas não compramos muito, fomos devagar, não podemos fugir muito do nosso ALM”.
A liquidez elevada permitiu, ainda, que a fundação conseguisse honrar seus compromissos de pagamento de pensões sem ter que vender ativos na baixa.

Na carteira da fundação, o setor de imóveis deve ser bastante afetado e terá que ser reprecificado para baixo. A Funcef possui hoje entre 11% e 12% de alocação em imóveis, e com a redução das ocupações em lajes corporativas e lojas de shoppings, duas tendências que já são claras, a rentabilidade desse segmento será comprometida. É uma participação elevada para fundos de pensão. A entidade já tinha um termo de ajuste assinado anteriormente com a Previc para reduzir essa participação para 8% da carteira quando foi assinada a Resolução 4.661, há dois anos, estabelecendo um novo procedimento a ser adotado para essa carteira, de zerar o estoque até 2030. “Com essa reprecificação que o segmento deve ter esse prazo é bom para nós, pois não precisaremos fazer venda forçada, pressionados pelo mercado”, explica Werneck.
Segundo ele, outro tema que tem estado bastante em evidência na fundação, cujas digitais foram apontadas em várias operações analisadas pela Lava Jato, é o da ética nos investimentos. Para Werneck, a Funcef dedica uma atenção muito grande a essa questão, assim como às outras questões ESG (Ambiental, Social e Governança, na sigla em inglês). “Incorporamos na prática a questão de não fazer negócios com quem não atua de forma ética, isso deixou de ser apenas uma frase bonita para ser uma prática aplicada no nosso dia a dia”, diz. “E aplicamos isso não só do ponto de vista do tomador de recursos como também do doador de recursos”.
O tema ESG, além da questão da ética nos negócios, ganhou relevância na fundação também pelo seu aspecto ambiental, que ficou mais evidente desde o rompimento da barragem de Brumadinho, pertencente à Vale, no início de 2019. “A crise só veio reforçar os nossos movimentos na direção das questões ESG, antes da crise tivemos o evento de Brumadinho e, anterior a isso, passamos por todo aquele escrutínio da questão da Lava Jato, apontando padrões de negócios que não são mais toleráveis”, explica. “A preocupação com as questões ESG estão presentes em todas as nossas ações”.

Embora o balanço do ano de 2019 ainda não esteja concluído, o diretor de investimento da Funcef espera que a fundação tenha um superávit, que ajudará a reduzir o déficit acumulado de equacionamentos anteriores. “A correlação dos nossos planos com a economia brasileira é muito forte, e como a economia andou no ano passado, a taxa de juros caiu, a bolsa andou, o setor de imóveis também andou, então nós esperamos fechar o ano de 2019 com algum superávit”, afirma. “Mas é apenas uma expectativa, os números finais ainda não estão fechados”
Para 2020, segundo ele, seria prematuro fazer projeções devido às muitas incertezas do cenário econômico. “Existem muitas questões ainda sem resposta no horizonte, não sabemos o tamanho da queda do PIB no Brasil, se será de 5%, 6% ou 9%, não sabemos se a recuperação será em V, em L ou em W, não sabemos quais serão os efeitos do gasto fiscal, não sabemos se os Estados Unidos saem antes da crise e se conseguem puxar a economia global”, diz. ‘São muitas dúvidas, falar sobre expectativas de superávit ou déficit nesse momento seria meio arrojado, mas acho que pelo menos a meta nós vamos bater”.