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EFPCs ensaiam o retorno
De forma cautelosa, os fundos pensão planejam a retomada das rotinas presenciais, reservando espaço para a manutenção do trabalho a distância

Passados quatro meses do início da quarentena ditada pela pandemia do novo coronavírus, os fundos de pensão começam, de forma ainda difusa e cautelosa, a se preparar para a retomada gradual de suas rotinas presenciais. A tarefa vem contando com a ajuda de um recém-lançado ebook da Associação Brasileira das Entidades Fechadas de Previdência Complementar (Abrapp) que tomou por base a coleta, entre 23 e 26 de junho, de dados e estratégias de 90 fundações. “Como o levantamento revelou que, à época, mais de um terço das entrevistadas não tinham planos e propostas definidos sobre o reinício dos trabalhos em suas sedes, elaboramos um conjunto de sugestões e indicativos a respeito”, conta Cláudia Trindade, diretora responsável pelo Comitê de Recursos Humanos da Abrapp e presidente da Fusan. “A preocupação com a pandemia ainda é grande, tanto que 40% das entidades ouvidas no fim de junho só pretendiam voltar à normalidade a partir do próximo ano.”
Os cronogramas traçados variam, sobretudo, de acordo com os estragos causados pela pandemia nas cidades e regiões onde estão instalados os fundos de pensão. Com sede no Rio de Janeiro, onde até 23 de julho foram registradas mais de 150 mil contaminações pela Covid-19, a Previ, a maior entidade fechada de previdência complementar (EFPC) do país, mantém toda a sua equipe trabalhando a distância e ainda não se arrisca a cravar uma data para voltar à normalidade. “Temos um plano de retorno que é reavaliado de forma constante pelo grupo de administração de crise e pela diretoria executiva para estar atualizado no momento em que for decidida a retomada do trabalho presencial”, diz o diretor de administração Márcio de Souza. “Os serviços em nossa sede são pontuais e só executados quando estritamente necessários, em especial com relação à manutenção predial e dos equipamentos de informática.”
No Distrito Federal, o comando do Sebrae Previdência também se reúne regularmente desde o fim de março, toda segunda-feira, para analisar os desafios apresentados pelo coronavírus. As deliberações já resultaram na reformulação dos escritórios da entidade, com um maior espaçamento entre as mesas, na aquisição de equipamentos de prevenção, como máscaras e termômetros, e na definição de uma escala para retorno ao trabalho presencial de um terço dos atuais 27 funcionários, a partir da segunda quinzena de agosto. “De início, voltarão apenas nove profissionais. São jovens, em sua maioria, que não convivem com pessoas dos grupos de risco e não utilizam transporte público”, observa o presidente Edjair Alves. Ele não descarta, contudo, um recuo no processo. “A recente reabertura dos bares e restaurantes em Brasília nos deixou preocupados, pois muitos clientes desses estabelecimentos ignoram o uso de máscaras. Estamos acompanhando os desdobramentos da medida.”
Duas das raras entidades que reabriram parcialmente suas portas ao trabalho presencial são a Prevcom e a Previsc. A primeira, que administra planos de complementação de aposentadorias para servidores de dois estados, São Paulo e Rondônia, e oito municípios paulistas, voltou a operar presencialmente em 15 de julho com 35 de seus 80 funcionários, prestando, inclusive, atendimento aos participantes, com hora marcada. “Os guichês voltados ao público foram adaptados, com a instalação de painéis de acrílico para minimizar riscos de contágio”, conta a diretora de relações institucionais, Patrícia Costa. “A média diária tem oscilado ao redor de cinco atendimentos, bem abaixo dos 20 a 30 registrados antes da crise sanitária.”
Antes de definir a equipe reduzida que voltaria a dar expediente em sua sede, a entidade realizou testes sorológicos, entre 22 e 23 de junho, em todos os seus empregados, tendo detectado na ocasião apenas um caso de contaminação pela Covid-19. Os selecionados, todos fora de grupos de risco do coronavírus, ocupam postos de trabalho mais distanciados e cumprem jornadas mais curtas, de seis horas de duração, para evitar os horários de pico dos transportes públicos. “Não temos previsões sobre o retorno do restante da equipe”, assinala Patrícia. “Não é possível, por exemplo, pedir que funcionárias com filhos menores de 12 anos retomem o trabalho presencial enquanto escolas e creches permanecerem fechadas. Da mesma forma, precisamos de informações mais embasadas em relação aos maiores de 60 anos, ainda escassas.”

A Previsc, fundo de pensão multipatrocinado ligado à Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina (Fiesc), ensaiou um retorno à normalidade em 26 de maio, quando, além de algumas atividades administrativas, reiniciou o atendimento a participantes e assistidos com hora marcada. O projeto, contudo, acabou sendo suspenso em 6 de julho devido ao agravamento das condições sanitárias em Florianópolis, onde a fundação mantém seu quartel-general. “A súbita elevação da ocupação das unidades de terapia intensiva no município para 97% nos motivou a voltar atrás”, diz a gerente administrativa Gitana Jamie da Costa. “Como o índice de ocupação das UTIs caiu depois para 82%, chegamos a pensar em realizar uma nova tentativa no fim de julho, envolvendo 30% dos 43 funcionários, mas decidimos aguardar.”
Prazos e datas podem variar de caso a caso, mas uma coisa é certa: as rotinas de trabalho das EFPCs, assim como também de organizações de diversos outros setores, não serão mais as mesmas de alguns meses atrás. O levantamento efetuado pela Abrapp no fim de junho identificou que apenas 1% das fundações planejam retomar as atividades de forma 100% presencial após a pandemia. “O trabalho a distância, que foi adotado às pressas, em uma situação emergencial, veio para ficar”, destaca Cláudia Trindade, da Abrapp. “A nossa pesquisa revelou que 97% das entidades pretendem implantar esquemas mistos. A ideia é que os funcionários compareçam aos escritórios de dois a três dias e permaneçam o restante da semana em home office.”

Tal disposição tem relação direta com os ganhos de produtividade e qualidade proporcionados pelas atividades remotas aos seus quadros de pessoal. Desde março, por exemplo, a equipe comercial do Sebrae Previdência iniciou, por meio de teleconferências, negociações com oito potenciais patrocinadores e instituidores de planos de benefícios, das quais duas já foram fechadas com êxito e uma terceira está prestes a ser ratificada. “Ficamos agradavelmente surpresos com esses resultados em meio à pandemia. A área comercial, não há dúvida, é forte candidata a permanecer ao menos parcialmente em home office”, diz Alves.
Igualmente satisfeitas com o desempenho a distância de seus profissionais, a Prevcom e a Previsc já traçam projetos e metas para formalizar o novo sistema de trabalho. A primeira planeja adotar, ainda neste ano, contratos que estabeleçam, explicitamente, jornadas laborais dentro e fora de suas dependências. Já a Previsc pretende, nos próximos cinco anos, colocar em regime praticamente integral de home office 60% de seus funcionários. “No momento, 10% da equipe teria condições de trabalhar 100% de forma remota. A ideia, no entanto, é realizar uma transição gradual, estabelecendo, de início, um ou dois dias por semana em home office”, diz Gitana.
A proposta começa a conquistar espaço também entre os regimes próprios de previdência social de servidores públicos (RPPSs). No momento, o Reciprev, da capital pernambucana, que programa retomar as atividades presenciais em setembro, está às voltas com a elaboração da sua política de trabalho a distância. A diretriz promete alterar as rotinas de pelo menos 30% dos 85 funcionários da entidade. “Nas áreas de investimentos, controles internos e jurídica, o home office poderá ser adotado em escala ainda maior, por até 80% dos dez profissionais dessas equipes”, prevê o gerente de investimentos José Marcos Alves de Barros, que já faz planos em relação aos espaços vazios que, tudo indica, surgirão em breve na sede do RPPS, no bairro da Boa Vista. “Vamos debater com o conselho administrativo a possibilidade de alugar esses espaços a terceiros.”