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Forluz terceiriza R$ 10,5 bilhões
BNP Paribas vence licitação que começou no final de 2019 e recebe carteira bilionária de renda fixa marcada na curva, dividida em dois fundos

Um dos maiores negócios brasileiros da área de gestão de recursos de terceiros, senão o maior, foi assinado no mês de julho entre a Forluz, fundo de pensão dos funcionários da Cemig, e a BNP Paribas Asset do Brasil. A fundação terceirizou para a gestora de origem francesa uma carteira de renda fixa no valor de R$ 10,5 bilhões, incluindo títulos públicos e de crédito privado marcados na curva. Com isso, a BNP Paribas Asset deu um salto no total de recursos sob gestão, passando de R$ 59,5 bilhões no final de junho, incluindo nesse total suas carteiras administradas e fundos off-shore, para R$ 70 bilhões em julho.
O processo de terceirização da carteira de renda fixa da Forluz começou a ser definido em novembro do ano passado, antes que as primeiras notícias sobre a gravidade da pandemia do coronavirus na China ganhassem as manchetes dos jornais e os países começassem a declarar quarentena de negócios e de pessoas. A Forluz deu naquela data o pontapé inicial da licitação da sua carteira de renda fixa ALM, para a qual convidou todos os gestores com os quais já trabalhava nessa classe de ativos e também outras assets com as quais ainda não trabalhava mas que cumpriam os requisitos mínimos definidos pela sua área de investimentos. Entre esses requisitos, o principal era ter pelo menos US$ 10 bilhões sob gestão em renda fixa, mas além desse eram requeridos também um conjunto de qualificações como uma área de compliance robusta, com clara separação das áreas de risco e de gestão, além de modelos de relatórios gerenciais eficientes, governança interna e transparência.
Um total de 10 assets foram habilitadas para participar do processo, sendo que todas enviaram seus modelos de relatórios gerenciais para avaliação da fundação. De acordo com o diretor de investimentos da Forluz, Emílio Cáfaro, de posse da documentação enviada pelas assets a equipe da Forluz começou o processo de análise, avaliando tanto aspectos quantitativos quanto qualitativos, além de realizar entrevistas por videoconferência com todas elas para tirar dúvidas e discutir os modelos. “Chegamos a marcar uma viagem a São Paulo para falar diretamente com as assets, inclusive já estávamos com as passagens do voo compradas e as reservas de hotel feitas quando a Covid-19 começou a crescer além da China e o número de casos começou a tomar vulto em São Paulo”, diz o diretor da Forluz. “Tivemos que cancelar a viagem e fazer as entrevistas por videoconferência”.
A partir das avaliações iniciais começou um processo de afunilamento, com o número de concorrentes diminuindo a cada etapa. “Não foi só a taxa de gestão que definiu o vencedor do processo licitatório, nosso foco se voltou bastante para o aspecto qualitativo e para a avaliação de vários itens de governança”, explica Cáfaro. “Por exemplo, buscamos verificar em cada gestora como a sua área de risco era remunerada, se tinha vínculo com o sucesso da gestão ou era independente de fato, porque esse vínculo criava um conflito de interesses. Sem especificar a situação de cada casa, podemos dizer que no caso da asset do BNP essa área era independente de fato e a sua remuneração não estava vinculada ao sucesso da gestão, sequer estava subordinada à asset”.
Segundo Cáfaro, o valor total da carteira terceirizada foi dividido em dois fundos, o primeiro reunindo os ativos de renda fixa na curva do plano saldado (Planos A), com patrimônio total de R$ 7,08 bilhões, e o segundo com os ativos de renda fixa na curva do plano de contribuição variável (Plano B), com patrimônio total de R$ 10,44 bilhões. Os dois fundos, somando R$ 10,5 bilhões, foram repassados à gestão do BNP Paribas no final de julho. “São fundos fechados, os ativos não se misturam”, explica Cáfaro. “São fundos que não podem comprar ou vender ativos, seguem o ALM”.

A Forluz já vinha trabalhando desde o início de 2019 num modelo de gestão mais moderno para as carteiras de investimento, de forma a reduzir o custo de gestão e criar uma padronização para a alocação dos ativos, inclusive de ativos de planos vindos de outras fundações menores que pretendia atrair para o seu multipatrocinado. Redução do custo de gestão, padronização e transparência das aplicações e de seus resultados para os patrocinadores e participantes passou a ser uma questão central para a fundação.
A idéia era dividir os ativos em grandes classes consolidadoras, cada uma contando com um fundo de cotas (FIC) para abrigar em seu interior diferentes estratégias através de fundos exclusivos ou abertos. Ao final do ano passado, quando a terceirização da carteira de renda fixa na curva começou a ser desenhada, o modelo já tinha sido implantado na carteira de renda variável, com um FIC de cerca de R$ 1,85 bilhão abrigando dois fundos exclusivos e vários fundos abertos com estratégias vão desde valor e crescimento até small caps. O mesmo modelo estava sendo replicado para a classe dos multimercados, com um FIC de cerca de R$ 500 milhões comportando fundos de várias estratégias. “Criamos um modelo mais moderno, mais barato e mais transparente para o participante”, explica Cáfaro.
O modelo poderia ser utilizado para atrair planos de fundações menores que a Forluz tem na sua mira. “O nosso modelo é o que chamamos de plug&play”, diz Cáfaro. “Através da compra de cotas você incorpora facilmente novos planos nas nossas grandes classes consolidadoras, compartilhando todas as suas estratégias e vantagens”, explica. “Um plano pequeno só difere dos planos maiores pelas ponderações, mas desde o início usufruem dos benefícios que trazem os nossos altos volumes”.
É o caso do caçula da Forluz, um plano de contribuição variável de apenas R$ 55 milhões de patrimônio. Ele foi criado em 2012 para atender exclusivamente os empregados da Transmissora Aliança de Energia Elétrica S.A. (Taesa), empresa pertencente ao grupo Cemig. “Ele está plugado na estratégia plug&play e usufrui, proporcionalmente, das mesmas estratégias de investimento que seu irmão maior, o CV de R$ 10 bilhões”, diz Cáfaro. “Os participantes dele recebem as mesmas rentabilidades”.
O modelo seria utilizado, com algumas adaptações, para a terceirização da carteira de renda fixa, segregando os títulos públicos e de crédito privado marcados na curva dos dois principais planos em dois fundos que seriam entregues a um gestor externo. A atividade de administração e custódia continuaria a ser feita pelo mesmo prestador de serviços da fundação, a Intrag, que administra o patrimônio total da Forluz, de R$ 17,76 bilhões.
A transferência para um gestor externo dessa carteira de R$ 10,5 bilhões resultaria em redução de custos para a fundação, além de ganhos de eficiência e de gerenciamento, explica Cáfaro. Segundo ele, a economia na gestão dessa carteira será da ordem de 80%, com o custo sendo reduzido a 20% do anterior. “Além disso, ganhamos em termos de análise e visão macro do mercado, já que o BNP Paribas envia regularmente seus relatórios e sempre que alguma coisa no cenário econômico chame a atenção da sua equipe eles entram em contato conosco e se necessário pedem um call”, diz.

Segundo o CEO da BNP Paribas, Luiz Carlos Sorge, os dois fundos são discricionários e todas as decisões são tomadas pela asset, “mas é claro que sempre comunicamos a eles quando uma decisão importante deve ser tomada”. Segundo Sorge, a asset não tem uma equipe dedicada a esses dois fundos, mas sempre que for necessário um grupo será composto para atender a problemas específicos da fundação e depois desfeito, quando perder essa função específica.
Além disso, no pacote de serviços oferecidos à Forluz pela BNP Paribas Asset consta o treinamento dos seus participantes, com cursos de educação previdenciária e financeira, inclusive sobre ativos no exterior. “É um valor agregado bastante importante”, avalia Sorge.
A asset do BNP Paribas tem um relacionamento de mais de quinze anos com a Forluz, explica Sorge. “Para nós, além de ser uma grande vitória termos conquistado essas duas carteiras de renda fixa, pelo volume que representam, é também uma grande alegria por ser a consolidação de uma parceria de longa data com a fundação”.

Patrimônio Forluz
(julho 2020)
Ativos R$ milhões em %
Caixa 512,81 0,03
Renda Fixa 11.413,56 0,64
Renda Variável 1.850,57 0,10
Estruturados 954,63 0,05
Exterior 280,29 0,02
Imobiliário 966,56 0,05
Empréstimos 688,92 0,04
Dív. C. + Equac. 1.100,25 0,06
Total 17.767,61 1,00