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Fundações iniciam recuperação
Apesar das perdas sofridas em março pela crise da Covid-19, vários fundos de pensão devem superar índices de referência e metas atuariais no ano

O pessimismo tomou conta do sistema fechado de previdência complementar ao fim do primeiro trimestre do ano, logo após a eclosão da crise causada pela pandemia da Covid-19, que derrubou as cotações dos ativos em geral. Um levantamento realizado ao final de abril pela Superintendência Nacional de Previdência Complementar (Previc) mostrou que 61,53% de um grupo de 260 fundos de pensão, apesar das fortes perdas sofridas em março, descartavam a hipótese de apurar déficits no exercício em curso, mas raros acreditavam que conseguiriam atingir metas atuariais ou índices de referência no período. Passados quatro meses, no entanto, tais objetivos já parecem ao alcance de muitos deles.
“O cenário ainda inspira cautela, mas as perspectivas de cumprimento de objetivos de retorno em 2020 são reais para uma grande parte do sistema”, comenta Guilherme Velloso Leão, diretor-presidente da Mais Previdência, nova denominação da Casfam. “A Mais Previdência serve como exemplo: já em julho, contabilizávamos uma rentabilidade acumulada no ano de 3,42%, superando a meta atuarial em 0,43 ponto percentual. Como estamos ampliando as alocações em renda variável e fundos de investimento no exterior, deveremos ter um resultado ainda mais favorável em 2020.”
As projeções do executivo para o segmento tomam por base a composição da carteira do sistema. Com mais de 70% dos recursos alocados em renda fixa, com grande concentração em títulos públicos de longo prazo que oferecem remunerações ao redor de 6% reais ao ano, os fundos de pensão precisariam apenas de uma pequena contribuição da renda variável, detentora de uma fatia de 15% dos recursos, para liquidar a fatura. “Como a bolsa já recuperou boa parte das perdas sofridas desde o início do ano, tudo indica que essa equação vai vingar”, diz Leão.

A situação da Funpresp-Jud, fundo de pensão dos servidores do Judiciário e Ministério Público, ilustra bem a situação. A entidade, com patrimônio da ordem de R$ 1 bilhão, elevou sua participação em fundos de ações locais de 10% ao final de 2019 para 17,5% na primeira quinzena de janeiro, mas logo em seguida colocou o pé no freio. “Depois que o Ibovespa alcançou 120 mil pontos decidimos proteger parte da carteira com operações no mercado futuro”, comenta o diretor de investimentos Ronnie Gonzaga Tavares.
A proteção não evitou perdas, cujas desvalorizações de 6,53% e 25,93% em fevereiro e março na renda variável local contribuíram para retornos negativos de 1,12% e 5,91%, respectivamente, no consolidado. Em compensação, a entidade começou a colher ganhos expressivos no mercado acionário internacional, por meio de fundos de investimentos no exterior (FIEs), que tiveram a sua participação na carteira geral elevada em cinco pontos percentuais, para 8%, ao longo do último ano. Desde março, as alocações em bolsas internacionais apresentaram valorização de 33,50%, elevando a rentabilidade acumulada no exterior para 37,56% no período de janeiro a julho.
Se até o fim de maio a entidade considerava praticamente impossível atingir o índice de referência (IPCA + 4,15%), isso voltou a ser viável em junho. “Conseguimos virar o jogo, enfim, em julho, com um retorno nominal de 2,61%, que elevou o acumulado de 2020 para 3,32%, 0,47 ponto acima do benchmark para o período”, diz Tavares. “O ano, ao contrário do que imaginávamos, não está mais perdido.”

Outra que já tem o que comemorar em 2020 é a Prevcom, fundo de pensão dos servidores públicos do Estado de São Paulo. A rentabilidade de 1,62% apurada em julho elevou o acumulado do ano para 3,38%, 0,28% ponto percentual acima do índice de referência (IPCA + 4%) para o período. Com patrimônio de R$ 1,55 bilhão, a entidade que tinha 61% dos recursos aplicados em NTNs-B longas e somente 9% em renda variável no início do ano, perdeu apenas 3,01% em março, um resultado considerado bom considerando as perdas gigantescas de alguns pares.
A partir de abril começou o processo de recuperação, capitaneados pelos fundos de investimentos no exterior. Os dois FIEs da casa, com gestão da M Square e da Allianz e referenciados nos índices MSCI World e MSCI Europe, renderam 33,51% e 34,34% de janeiro a julho, alavancando a participação do segmento em 1,4 ponto percentual, para 7%. “Realizamos os primeiros aportes nos FIEs no fim do primeiro semestre de 2019. Desde então, a rentabilidade desses fundos já superam a marca de 50%”, conta o presidente Carlos Henrique Flory.
No segundo trimestre a fundação paulista retomou a pauta da diversificação, usando boa parte dos cerca de R$ 18 milhões em contribuições que recebe mensalmente para comprar um lote de R$ 16 milhões em NTNs-B e cotas de dois fundos, um de crédito privado que recebeu R$ 10 milhões e outro de small caps que recebeu R$ 16 milhões. O primeiro, lastreado em papéis corporativos com ratings elevados desovados por bancos durante o momento mais agudo da crise, traz remuneração de IPCA + 4% ao ano. Já o fundo de small caps rendeu 23,57% entre junho e julho.
A Funpresp-Exe, dos servidores públicos do Executivo e Legislativo federal, pretende bater neste mês o seu índice de referência, de IPCA + 4% ao ano. A tarefa, tudo indica, deve ser cumprida sem maiores dificuldades, já que a rentabilidade de 2,70% alcançada em julho elevou o ganho acumulado nos sete primeiros meses do ano para 2,62%, somente 0,31 ponto percentual abaixo da meta para o período. A entidade, que acaba de ultrapassar a marca de R$ 3 bilhões em patrimônio, acusou perda de 4,28% em março mas conseguiu se recuperar rapidamente em razão, entre outros fatores, de sua elevada liquidez à época.
“Como os nossos perfis de investimento se encontravam em fase de implantação e, além disso, acreditávamos que os mercados, especialmente a bolsa, estavam por demais aquecidos, decidimos reforçar a liquidez, logo no início do ano, e elevamos para cerca de R$ 270 milhões o volume alocado em fundos DI”, diz o diretor de investimentos Tiago Dahdah. “Esses recursos e mais as contribuições mensais que recebemos de patrocinadores e participantes, ao redor de R$ 85 milhões, permitiram o aproveitamento de boas oportunidades de aplicações durante a crise.”
As oportunidades ocorreram em várias classes de ativos. A mais expressiva foi a aquisição de R$ 240 milhões em NTNs-B com vencimentos entre 2050 e 2055 e remuneração média de 5,2% ao ano. De quebra, entre fevereiro e março a fundação realizou os aportes em dois FIEs com gestão do Bradesco e BNP Paribas, que somaram R$ 65 milhões e renderam em torno de 26% no acumulado até julho, além de destinar R$ 60 milhões ao mercado acionário doméstico. “A fatia da renda variável saltou de 5,85% em janeiro para 7,3% em julho, quando apresentou ganho de 8%, e tende a seguir crescendo até 10% ou um pouco mais”, observa Dahdah.

A Previsc, fundo de pensão multipatrocinado ligado à Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina (Fiesc), também apostou na elevação de liquidez nos primeiros meses do ano. A medida foi adotada a partir de março devido ao crescimento expressivo das demissões em vários dos 36 patrocinadores, dos quais cinco anunciaram, em maio, a suspensão temporária das contribuições à entidade. “Reforçamos os fundos-caixa em mais de 100%, de R$ 8 milhões para R$ 20 milhões, para garantir o pagamento de benefícios e resgates, além da concessão de empréstimos. O volume vem caindo, mas seguimos bem atentos às demandas de participantes e assistidos”, conta o diretor de investimentos Ricardo Esch.
Depois de fechar março com um recuo de 8,36% em seu patrimônio, hoje ao redor de R$ 1,52 bilhão, a fundação engatou uma série de quatro meses de resultados positivos, na faixa de 2,37% a 2,86% até julho. Conseguiu, dessa forma, apurar um ganho acumulado nos sete primeiros meses do ano da ordem de 1,39%. “O problema é que meta atuarial média dos nossos planos é de INPC + 5,5% ao ano e o INPC vem apresentando variação bem superior ao IPCA, que é o índice adotado por diversas outras entidades”, observa Esch. “Acreditamos, contudo, que até o fim do ano conseguiremos superar a diferença entre a meta e a rentabilidade da carteira, que correspondia a 2,34 pontos percentuais em julho.”
A diversificação vem cumprindo papel de destaque nesse esforço. Duas iniciativas importantes foram executadas em maio, com o terceiro aporte em FIEs que elevou para 4% a participação dos investimentos externos no portfólio, e a constituição de um segundo fundo exclusivo de crédito privado que expandiu de R$ 35 milhões para cerca de R$ 200 milhões as aplicações da fundação nessa classe de ativos. “Aproveitamos o forte crescimento da oferta de títulos corporativos, entre março e maio, para montar uma carteira com papéis de primeira linha”, diz Esch. “Em pouco mais de dois meses, a aplicação rendeu 4,75%, 350% acima do benchmark.”