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PDVs batem à porta
Pressionados pela crise da Covid-19, patrocinadores lançam mão de programas de demissões voluntárias que pressionam as entidades

Perdas expressivas de receitas, devido à crise causada pela Covid-19, vêm motivando várias patrocinadoras de fundos de pensão a planejar e executar programas de demissões voluntárias (PDVs), colocando em estado de alerta suas entidades. Segundo Guilherme Benites, sócio da consultoria Aditus, a tendência é de crescimentos desses programas. “Diversas entidades têm nos relatado projetos de PDVs em gestação por seus patrocinadores”, revela ele. “Uma das principais recomendações que lhes apresentamos são elevações da liquidez em doses bem medidas. Com os juros no menor patamar da história, manter recursos em caixa além do necessário representa um custo nada desprezível para as fundações.”
Fusan e o Postalis, fundos de pensão dos funcionários da Sanepar e dos Correios, são detentores de larga experiência com PDVs. A primeira lida, em média, com um Programa de Aposentadoria Incentivada (PAI) do patrocinador a cada dois anos desde 2012. o mais recente foi anunciado em fevereiro e teve o prazo de adesão estendido em 60 dias, para 17 de agosto. “Assim, ganhamos mais tempo para compensar as perdas do plano FusanPrev em março, devido à crise provocada pelo novo coronavírus”, conta a diretora-presidente Cláudia Trindade.
Voltado aos empregados da Sanepar já aposentados pelo INSS, a recente edição do PAI tinha como público-alvo cerca de mil participantes ativos da Fusan. As vantagens oferecidas pela patrocinadora neste ano (indenizações de até 75% dos salários recebidos durante toda a trajetória laboral, além de R$ 14,21 mil per capita, referentes a 12 meses de auxílio-alimentação), surtiram efeito. “Foram mais de 500 adesões, bem acima da média histórica, na faixa de 230”, diz Cláudia. “Só na data de encerramento do programa, cerca de 200 participantes abraçaram a proposta.”
A condução de processos do gênero sem sobressaltos, destaca a executiva, demanda uma boa interação entre as partes envolvidas. Cabe aos patrocinadores comunicar às entidades, com a máxima antecedência, planos de programas de incentivo a demissões e aposentadorias e, além disso, fornecer listagens dos funcionários elegíveis. De posse das coordenadas, as fundações tratam de fazer cálculos e de providenciar ajustes em suas estratégias de investimento. “A experiência mostra que cerca de 30% dos participantes que aderem aos PAIs efetuam resgates. São estes os casos que merecem mais atenção, pois impactam a liquidez da entidade”, diz Cláudia. “A receita básica é o reforço do caixa, com aplicações em maior volume em fundos DI.”

Com 137,1 mil participantes ativos, 20 vezes mais do que a Fusan, o Postalis tem know how de sobra para lidar com PDVs em grande escala. Foram três nos últimos seis anos, sendo que o mais recente, de 2019, recebeu 4.171 adesões, equivalente a 57% da meta do patrocinador. Não por acaso a entidade segue em alerta, à espera de novidades a respeito. “A área de atendimento merece cuidado especial e reforços nessas ocasiões, já que os contatos de participantes, para o esclarecimento de dúvidas, crescem de forma exponencial assim que são anunciados PDVs”, assinala o gerente de gestão previdencial Raul Rocha.
Com um patrimônio por volta de R$ 5,3 bilhões, equivalente a 62% dos total de recursos, o plano CV Postalprev merece atenção especial da fundação sempre que os Correios anunciam programa de incentivo a demissões. Como atende a uma população maior e bem mais jovem do que a do Plano BD, os resgates dos pés-de-meia previdenciários são consideravelmente maiores. No PDV do último ano, por exemplo, as retiradas do PostalPrev somaram R$ 167 milhões, superando em 9,17 vezes o total de resgates do BD.
“O regulamento do CV também estimula os resgates, já que participantes vinculados há mais de 20 anos aos Correios podem sacar até 70% das contribuições do patrocinador. Já o Plano BD só permite que os participantes levem as suas contribuições”, diz Rocha. “Em razão disso e, também, de sua faixa etária mais elevada, somente 33% dos participantes do BD que aderiram ao PDV de 2019 realizaram resgates, ante um índice de 80% dos aderentes ligados ao Postalprev.”
Saldado e fechado para adesões há 12 anos, o BD conta, há tempos, com liquidez mais do que suficiente para fazer frente a ondas sazonais de retiradas. Já o plano CV, que se encontra em fase de acumulação, demanda mais cuidados. A partir do momento em que o Postalis recebe pedidos para análises relativas a eventuais PDVs, a equipe de investimentos dá início a estudos e projeções para determinar níveis adequados de liquidez e passa a direcionar as entradas de caixa, como contribuições e recebimentos de cupons de títulos públicos, a ativos mais líquidos. “As aplicações se concentram, nesses casos, em fundos DI e Letras Financeiras do Tesouro, as LFTs, basicamente”, diz o gerente de governança de investimentos Alexandre Dias Miguel.