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Abrapp terá relatório ESG
Com lançamento previsto para maio, iniciativa da Abrapp permitirá avaliar o comprometimento dos fundos de pensão com o critério ESG

O grau de engajamento dos fundos de pensão nacionais com os critérios ESG (de ambiental, social e governança) poderá começar a ser avaliado de forma precisa nos próximos meses com a execução de um projeto inédito no país. A iniciativa é do Comitê de Sustentabilidade da Associação Brasileira das Entidades Fechadas de Previdência Complementar (Abrapp), que prepara para maio do próximo ano o lançamento do Relatório de Sustentabilidade das EFPCs. O relatório adotará critérios do Global Report Initiative (GRI), referência internacional na área, e será baseado nas respostas das 219 associadas da Abrapp e da própria entidade. O questionário está em fase final de elaboração e será enviado em fevereiro do próximo ano.
“A intenção original era disparar os questionários em setembro e divulgar o relatório no fim deste ano, com dados de 2019. Mas decidimos adiar o processo para coletar informações mais frescas, referentes a 2020”, diz Raquel Castelpoggi, coordenadora do comitê de sustentabilidade da Abrapp e coordenadora de responsabilidade socioambiental e sustentabilidade da Fundação Real Grandeza, o fundo de pensão dos funcionários de Furnas e Eletrobras Termonuclear.
Estruturado com o apoio do GRI e da consultoria Sitawi, especializada em temas socioambientais, o trabalho pretende avaliar o peso do conceito ESG nas diretrizes institucionais do sistema fechado de previdência complementar e nas rotinas das entidades. “Todas as associadas receberão diagnósticos sobre seus posicionamentos em relação ao critério ESG. Além disso, poderão se comparar com as demais entidades, que serão divididas em três grupos, com base nos seus patrimônios líquidos”, diz Raquel.
O relatório, que será divulgado em um evento programado para maio, é o sétimo projeto de fôlego desenvolvido desde 2018 pelo comitê de sustentabilidade, criado há 12 anos. A lista inclui, entre outras ações, os lançamentos da Política de Sustentabilidade da Abrapp, os guias Prático para Integração ESG na Avaliação de Gestores e de Melhores Práticas de Equidade de Gênero e Raça das EFPCs, e a atualização do Guia para Elaboração de Relatório Anual e de Sustentabilidade.
“O interesse dos fundos de pensão por investimentos ESG vem crescendo nos últimos anos em virtude da acentuada queda da taxa Selic. Esse apetite saltou aos nossos olhos em 2019, em um seminário da Abrapp sobre ética, governança e sustentabilidade, voltado a diretores e conselheiros de entidades, que teve plateia lotada”, diz Raquel. Ela afirma que identifica essa mesma tendência, de crescente interesse, no comitê sob a sua coordenação. “O total de integrantes saltou de oito para 12 membros em pouco tempo.”

Parceira da Abrapp no guia para a avaliação de gestores externos e no Relatório de Sustentabilidades das EFPCS, a Sitawi também identifica uma valorização dos princípios socioambientais e de governança no cenário dos investimentos. Segundo o diretor da consultoria, Gustavo Pimentel, as opções de alocação alinhadas com essa temática tiveram uma evolução bastante significativa neste ano, diz. Ele observa, no entanto, que a adesão das fundações locais à investimentos comprometidos com os princípios ESG ainda é muito tímida comparada à dos países desenvolvidos.
“Os investidores institucionais da Europa e dos Estados Unidos lideraram a introdução do critério ESG no mercado de capitais e cumpriram papel decisivo na criação, em 2006, do Principles for Responsible Investments (PRI). Já no Brasil esse processo teve como principais indutoras as family offices e wealth managements, cobradas por seus clientes”, diz ele. “As questões socioambientais, é fato, vêm ganhando espaço nas políticas de investimento dos fundos de pensão, mas ainda são poucos aqueles com trabalhos mais consistentes a respeito.”
Signatária do PRI há 11 anos, a Vivest, nova denominação da Fundação Cesp, é uma das fundações com destacada atuação. Em renda variável doméstica e internacional, por exemplo, a entidade só opera com gestores externos vinculados ao PRI ou comprometidos com os preceitos da organização. Além disso, o seu portfólio de ações adota, desde 2018, um rating, desenvolvido a quatro mãos com a consultoria Resultante, que avalia a observância e o respeito ao conceito ESG pelos emissores. “Dependendo da nota, o papel pode ganhar mais peso, perder espaço ou ser suprimido da carteira”, comenta Paulo de Sá Pereira, gerente de investimentos em renda variável e imobiliário da fundação. “Em paralelo a essa avaliação, buscamos estimular as empresas investidas a adotarem boas práticas sociais, ambientais e de governança.”
Os ganhos propiciados por essa estratégia “verde” vêm sendo mais do que satisfatórios, garante Pereira. Segundo ele, desde a adoção do rating ESG os retornos obtidos pelo portfólio de ações conduzido pela equipe da Vivest superam com folga a variação do Ibovespa. A metodologia, no entanto, sofrerá ajustes no curto prazo. “Vamos agregar à análise dos papéis a questão climática, que vem ganhando relevância no exterior. Em alguns países da Europa, por exemplo, os investidores institucionais têm de reportar os impactos ambientais de seus ativos às autoridades”, diz Pereira. “Estamos nos preparando para encarar o desafio de incorporar esse conceito na precificação de ativos.”