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FoFs ganham impulso
Instrumento dá mais flexibilidade de mandatos, permitindo diferentes estratégias de acordo com os planos e perfis de investimento da fundação

Os alocadores independentes em fundos que aplicam em cotas de fundos de investimento (FICs, ou FoFs na sigla em inglês) têm registrado um crescimento na demanda por esse instrumento por parte dos investidores brasileiros, particularmente neste ano em que ficou mais evidente o aumento do risco e da complexidade da gestão das carteiras. Uma das vantagens dos FoFs é a chance de poder escolher entre diferentes desenhos de mandatos, já que os fundos são flexíveis o suficiente para se adequarem a projetos customizados. E as casas alocadoras têm pressa para conquistar esse terreno, de olho em novas edições desses veículos com foco no exterior.
Estudo feito pela empresa ComDinheiro à pedido da Investidor Institucional levantou 447 fundos em funcionamento na data de 30 de setembro, atendendo ao critério de ter de um a 5 cotistas e alocar em pelo menos 5 gestores externos. Do total, 44 possuiam menos de 9 meses na data de corte e não foram analisados, mas optamos por mantê-los na listagem sem a rentabilidade. Outros 403 tinham 9 meses ou mais na data de corte, desses publicamos a rentabilidade acumulada no ano (9 meses), em 12 meses, 24 meses e 36 meses, seguida de comparativo em relação aos seus benchmarks (em pontos percentuais). Ver tabelas na página 17.

A Vinci Partners faz alocação em FoFs desde 2010, a maior parte deles para fundos de pensão mas um pouco também para investidores pessoas físicas. Há perfis diferenciados distribuídos entre mandatos que somam cerca de R$ 7 bilhões na casa só para Entidades Fechadas de Previdência Complementar. Nessa prateleira, há perfis diferenciados numa estrutura customizada de acordo com as necessidades e o porte das fundações e seus planos. Um deles é o mandato de renda variável que inclui vários tipos de proteções e hedges, produto que agrada às entidades sem estrutura interna de governança para fazer proteção em cenários de crise como aconteceu este ano, por exemplo, conta o CIO da casa, Fernando Lovisotto. Isso ajuda especialmente a proteger os planos CD contra momentos de grande estresse nos mercados.
Um segundo tipo de mandato é aquele em que a Vinci fica com todos os recursos da entidade e implementa o ALM que ela tiver definido, garantindo assim uma maneira de diversificar em todas as classes de ativos. Essa modalidade atende em particular os planos de menor porte. Em geral esse mandato atende até cinco planos por entidade e uma média de patrimônio de R$ 600 milhões.
Numa terceira modalidade estão os mandatos de exterior, num total de oito, que têm um foco diferente, contando com o expertise de uma equipe em Nova York. “Nosso universo em exterior é maior do que o dos feeders locais e inclui fundos sediados em Luxemburgo, o que melhora sensivelmente a relação retorno/risco”, conta o gestor. Um quarto tipo de mandato é voltado exclusivamente para os fundos multimercados e as fundações que preferem terceirizar apenas essa parte. Há também a possibilidade de uma EFPC investir em todas as classes de maior risco, que exigem maior experiência e agilidade, seja no exterior ou em multimercados estruturados, e ficar com a gestão interna apenas nas NTN-Bs. “Os fundos de pensão menores, por exemplo, preferem que nós façamos tudo, então há diversos escopos nesses mandatos e é essa diversidade que está fazendo o mercado de FoFs crescer tanto”, avalia Lovisotto.
Um dos pontos fundamentais da gestão da Vinci para esses produtos é manter conversas constantes com os clientes, seguindo seu ALM e ficar próxima dos consultores que atuam junto às entidades para assegurar que as suas políticas de investimento sejam implementadas da melhor maneira possível, com todas as alocações táticas e usando as proteções mais adequadas. “Essa relação garante a transparência e o administrador selecionado pela entidade recebe os dados completos da carteira”.

Na Tag Investimentos, a alocação para os institucionais via FoFs acontece de modo mais estruturado há cerca de quatro anos, embora já existisse há oito anos, informa a diretora da casa, Francisca Brasileiro. A pressão da redução acentuada do juro este ano, que leva ao aumento da complexidade das estratégias de investimento, também significou mais trabalho de acompanhamento na renda variável e nos multimercados. Mesmo num fundo single strategy há diversas sub-estratégias embutidas, cujo número tem crescido. “Isso aumenta muito a quantidade de fundos e de sub-estratégias investidos nas carteiras, exige maior agilidade e dá uma nova dimensão à capacity da equipe dos alocadores, como nós, que também compartilham tudo com os investidores”, explica Francisca.
Ponto central nesse compartilhamento é a troca de capital intelectual entre a equipe alocadora e a dos investidores, diz ela. “ Nós abrimos todo o lado racional da decisão de entrar num determinado gestor, então o investidor delega mas não perde o controle do que está sendo feito, ele têm todas as informações de forma compartilhada”.
O FoF de renda variável da Tag passou por uma migração para fundos de qualidade durante a crise deste ano, o que só foi possível com muita agilidade e graças à estrutura flexível desse modelo. “Foi um período em que alguns fundos existentes fecharam rápido e outros, que estavam fechados, abriram de repente. Isso mostrou a importância do dinamismo para implementar estratégias que aproveitam os diferentes momentos do mercado, enfatiza a diretora.
Outro aspecto vantajoso dos fundos de fundos é a capacidade de fazer asset alocation com maior profundidade nas estratégias escolhidas. Olhar o filme inteiro e não apenas a foto do momento e fazer isso sem perda de tempo. “Essa vantagem também ajuda a aumentar eficiência e diminuir o risco, conforme estudo de retorno ajustado ao risco que fizemos. Ficou claro que, por melhor que seja o indicador utilizado, três meses depois os resultados serão diferentes já que dependem do ciclo econômico”, conta Francisca. O modelo dos FoFs permite manter a visão mais focada em estratégia de modo contínuo, sem entrar ou sair da alocação com muito peso mas, ao contrário, fazendo movimentos mais fluidos que amortizam a volatilidade. A Tag tem atualmente 17 FoFs exclusivos e está estudando criar mais dois fundos que serão, porém, abertos para multicotistas, com alocação em renda variável e exterior.

A i9 Capital, braço de investimentos do Grupo i9, tem em sua carteira clientes de fundos exclusivos (cotista único) e de fundos restritos (mais de um cotista, mas todos pertencentes ao mesmo grupo econômico). A maior fatia dos recursos da i9 Capital, com R$ 4 bilhões em novembro, é de investidores institucionais. “Eles vêm utilizando mais por suas vantagens de custo e expertise”, avalia o diretor da casa, Silvio Santos.
Segundo ele, os family offices usam essa abordagem há mais tempo para consolidar as carteiras de seus clientes ou para consolidar estratégias de renda fixa, renda variável e multimercado, explica o diretor. O segmento corporate tem uma dinâmica diferente pois seus investimentos no mercado financeiro em grande maioria são de baixo risco e alta liquidez. O modelo nesse caso é viável para a diversificação de risco de concentração dos fundos investidos e casas gestoras.
No caso dos institucionais, ele lembra que a migração para os FoFs já acontece há alguns anos por conta do menor custo e da facilidade para consolidar os fundos investidos num único veículo, além da expertise na gestão. “O que temos notado é que este movimento se intensifica pelo próprio cenário que estamos vivendo, de baixas taxas de juros, o que exigirá maior expertise de gestão, mais controle de risco e melhor governança”, diz Santos.
Além disso, como o rebate das taxas de administração dos fundos investidos são incorporados à rentabilidade dos FoFs, isso representa um importante diferencial financeiro do instrumento. Segundo Santos, a apropriação dos rebates de taxas pelos FoFs é feita diretamente.
A i9 Capital tem atualmente nove FoFs sob gestão e deve fechar o ano com 11 desses fundos, com diferentes estratégias e orçamentos de risco. A maior participação tem sido em estratégias de renda variável e multimercados que contemplam exterior. “É nessas estratégias que há maior interesse dos clientes por conta do maior risco e da demanda por expertise. O crescimento da casa tem sido consistente tanto no número de veículos como no patrimônio sob gestão”, afirma Santos.
Segundo ele, a diversificação permitiu um desempenho acima da média de mercado nas diferentes classes de investimentos este ano. A renda variável apresenta até o momento um retorno superior aos seus benchmarks, já na renda fixa a gestão ativa entre as diferentes estratégias IMA, CDI, IMA-b, IRF-m e crédito garantiram ganhos reais para as carteiras. “Já no caso dos fundos multimercados, que possuem como benchmark o CDI mas contempla diferentes classes de risco como renda variável, moedas, juros, temos superado o índices específicos para esta categoria”, afirma Santos.

O crescimento da demanda dos institucionais por FoFs é visível na BNP Paribas Asset Management há pelo menos doze meses, diz o diretor responsável pela área de FICs na casa, Tiago Cesar. Esse tipo de veículo, já utilizado na asset há vinte anos, era mais comum entre os investidores pessoas físicas mas a indústria tem avançado nesse formato e despertado o interesse das fundações pela maior profissionalização da gestão. “O cenário de Selic baixa e as ferramentas tecnológicas levaram as EFPC a acessar o mercado inteiro e o maior valor dessa estrutura está em poder delegar a gestão para um alocador que faz todo o trabalho, inclusive o acompanhamento detalhado de todos os gestores e das estratégias dos fundos investidos”, enfatiza Cesar. O investidor compra um pacote completo e a estrutura combinada de custos ajuda a reduzir gastos.
Nas fundações que têm perfis de investimento - agressivo, moderado ou conservador -, fica mais simples também usar o FoF para gerenciar as migrações dos participantes entre os perfis. “Em 2020 isso ficou claro”, diz o gestor. A asset trabalha com o cliente e é comum que os consultores das entidades também participem desse trabalho, ajudando a definir a estrutura do fundo, se é para o plano inteiro ou só para uma parte dele, por exemplo a mais agressiva, e assim por diante. “Nós fazemos a gestão a partir dessa definição e montamos as carteiras, que podem ser mais ou menos restritas, para bater os benchmarks. Participamos da discussão sobre benchmarks mas o trabalho vai seguir aquilo que o cliente decidir”, comenta Cesar.
Entre as estratégias de renda fixa, renda variável, multimercados ou exterior há uma gama ampla de combinações de soluções que representam uma possibilidade de customização muito grande. “Os portfólios são bastante distintos entre si porque é o cliente quem define os detalhes”, conta. O formato tem sido tão bem assimilado que muitos fundos, tanto de renda fixa quanto multimercados, “viraram a chave” para esse modelo. À medida que o mercado fica mais sofisticado e heterogêneo, a BNP Paribas Asset Management ganhou novos mandatos e também converteu fundos ao modelo dos FoFs. Atualmente a casa tem R$ 5,6 bilhões sob gestão em fundos de fundos “mas ainda há bastante coisa na rua para acontecer”, diz o gestor.
Os FoFs de exterior, que a asset já oferece desde o ano passado, devem crescer. “Usamos a nossa plataforma para auxiliar os clientes a escolherem gestores lá fora, é uma carteira orgânica que sofreu no primeiro trimestre mas depois começou a ter um comportamento previsível pelo efeito da descorrelação com o Brasil. Em 2021 queremos introduzir mais investimentos sem relação com os fatores brasileiros”, afirma Cesar.

Os três FoFs multimercados da Somma Investimentos foram criados especificamente para atender às necessidades de alocação dos perfis de uma fundação cliente, cada um para um perfil. “ A facilidade na gestão dos perfis é uma das marcas desses fundos, para buscar maior eficiência na gestão de riscos e maior retorno”, conta o sócio e diretor da casa, Wilson Souza. Os outros dois fundos de fundos da alocadora, de renda variável, são uma carteira FoF exclusiva de uma EFPC e o outro é um fundo aberto.
O modelo FoF, diz o gestor, dá acesso a gestores qualificados e estratégias diferenciadas, além da sinergia de custos. “Trazemos o rebate de taxas dos fundos investidos para os investidores e com isso conseguimos reduzir o custo que vem dos fundos abertos; a redução pode ser de até 50% nas taxas de administração”, diz Souza. “Já há, inclusive, casos de taxa neutra, com os rebates cobrindo totalmente o custo”.
Segundo ele, o gestor de FoFs precisa, antes de mais nada, compreender a EFPC como um todo, ter clareza de como funciona a gestão da entidade, sua governança, o envolvimento dos comitês, etc. “Além de oferecer um plus em rentabilidade e cumprir os mandatos de risco, precisamos funcionar como uma extensão da entidade, ter um relacionamento muito próximo”, avalia Souza. Com R$ 7,8 bilhões sob gestão, a casa acaba de reforçar sua equipe total de 52 pessoas e prepara parcerias com o objetivo, entre outros alvos, de olhar para estratégias no exterior.

Quantos FoFs superaram o benchmark em 9, 12, 24 e 36 meses (em pdf)

Ranking FoFs (em pdf)