Mainnav

Entidades querem dobrar a aposta
Com os bons resultados apresentados pelas carteiras de investimento no exterior no ano passado, entidades reforçam suas apostas nessa estratégia

Edição 333

Responsáveis indiscutíveis por boa parte dos resultados positivos das carteiras de investimentos dos institucionais no ano passado, com retornos que foram assegurados tanto pela valorização dos seus ativos base quanto do dólar frente ao real, os fundos de exterior estão em alta nas políticas de investimento das fundações. Em muitos casos essa aposta só não superou os 10% dos ativos totais da entidade por conta do limite legal, que o mercado espera ver ampliado o mais rápido possível.
Para a Previ, o limite ainda não é problema. Com R$ 205 bilhões em patrimônio, o percentual de 10% é mais do que suficiente para suas estratégias atuais, mas o tema deve continuar no radar da fundação, ressalta o diretor de investimentos da entidade, Marcelo Wagner. “Há muitas entidades co-irmãs, principalmente as menores, que já estão próximas desse teto e a discussão tende a crescer tanto no âmbito da Abrapp quanto da Previc”, lembra o diretor.
Já na Fapes, com um patrimônio de R$ 13,5 bilhões, a realidade é outra. Segundo o seu diretor de investimentos, André Loureiro, em 2020 a entidade usou praticamente até o limite o percentual de 10% no exterior, situação que deve se repetir neste ano. “Não alteramos a nossa percepção do benefício de diversificar, até porque em cenário de alta volatilidade isso continua a fazer todo sentido”.

No início do ano passado, a Fapes efetuou a maior parte de sua alocação global, conforme política de investimentos definida no exercício anterior. A alocação feita naquele momento, apostando numa estratégia que não travou o câmbio, permitiu capturar todo o ganho cambial do ano, assegurando assim retorno superior a 50% no segmento. Em 2021, foram mantidos os mesmos gestores, diz Loureiro, até porque é preciso levar em conta o custo de estruturação para a seleção de gestores/estratégias e qualquer alteração precisaria maturar um pouco mais.
No momento mais agudo da alta cambial o limite legal de 10% foi rompido, mas o desenquadramento passivo tem prazo de 24 meses para ser equacionado e, além disso, foram feitos resgates naquele momento, o que permitiu à fundação realinhar-se com a exigência regulatória. “É preciso manter a disciplina para compreender a série histórica e o que é apontado pelo modelo de gestão. Nesse sentido, se o limite for ampliado em 2021 e tivermos esse input, vamos aumentar a exposição a exterior”, afirma Loureiro.
Loureiro não acredita numa repetição, neste ano, do efeito positivo da variável cambial. Ele avalia que o cenário deve trazer volatilidade um pouco menor e, como houve uma mudança nas relações de troca no mercado de commodities, o real não deve sofrer desvalorização no mesmo nível do que ocorreu em 2020. Pode, até mesmo, valorizar um pouco, diz o diretor.
A Fapes aplica atualmente em três fundos, com gestores distintos: um deles é um fundo de fundos da Schroders, alocando em fundos de várias butiques de investimentos; outro é da Legg Mason, mais voltado à renda fixa, e um terceiro da Aberdeen, que altera gestores de vários países e setores ao longo do tempo, explica Pedro Calmanowitz, gerente executivo de alocação e seleção de gestores da Fapes. Os gestores informam e discutem as movimentações com a área de investimentos da entidade, mas as decisões cabem a eles. “Terceirizamos justamente porque o número de gestores lá fora é muito complexo e, além disso, ainda não tínhamos experiência suficiente para fazer isso sozinhos”, explica Calmanowitz.

A expectativa de juro real mais baixo e a estréia do modelo de planos ciclo de vida contribuíram para que a Valia ampliasse sua exposição ao exterior no ano passado e o cenário deste ano não muda essa convicção, diz o diretor de Investimentos da entidade, Maurício Wanderley. “O cenário base continua sendo de retomada da atividade econômica, ainda que o juro deva subir um pouco, e os nossos planos CD já estão endereçados assim, com diversificação global integrada às carteiras”, afirma Wanderley.
São dois planos no modelo Mix 20 e Mix 40, respectivamente com até 20% e 40% dos ativos aplicados em renda variável, e está em fase de preparação operacional o lançamento do terceiro perfil, o Mix 60%, com esse percentual máximo de bolsa, do qual uma parcela também será alocada em exterior. A rentabilidade nos fundos internacionais foi de 49% no ano passado, parte por conta da recuperação das bolsas internacionais e parte graças ao câmbio. A fatia de alocação global da Valia já está em torno de 9% dos ativos, muito próxima ao teto, com uma estratégia de gestão passiva seguindo o MSCI World e ETFs sem hedge cambial.
Não há motivo para mudar essa direção, diz Wanderley. “Eu não sei se aumentaria a exposição ao exterior mesmo que o limite fosse ampliado, por enquanto essa restrição não tem atrapalhado a nossa gestão”. Já o plano BD, com o conforto de uma elevada solvência, seguirá com baixo nível de risco – o plano atingiu 12% de rentabilidade no ano passado, batendo a meta atuarial de INPC mais 5%.

Quando o centro da crise estava próximo, no segundo trimestre de 2020, a Previ chegou a suspender seus movimentos de diversificação, inclusive a alocação internacional que havia sido iniciada em 2019. No último trimestre do ano passado, entretanto, as opções de diversificação foram revisitadas e a fundação decidiu retoma-las neste ano, tanto que o orçamento de alocação deste ano para três classes de ativos – exterior, multimercados e fundos de investimento imobiliário – foi ampliado de R$ 5 bilhões para até R$ 7 bilhões, informa Marcelo Wagner.
A alocação em equities no exterior, sempre sem hedge cambial, está sendo retomada passo a passo pela fundação. Em janeiro foram aplicados R$ 250 milhões como parte de uma primeira tranche que já está autorizada, no valor total de R$ 1 bilhão, e que será investida nas próximas semanas ou meses, a depender dos movimentos do mercado e do comportamento do câmbio, explica Wagner. “Em 2020 monitoramos uma carteira teórica de um processo de seleção de 300 fundos.
O processo de seleção teve quatro etapas, iniciando com o screening e a due diligence, com informações sobre controles de risco, compliance, fatores ESG e outros, até chegarmos à fase final de montagem do portfólio”, detalha. Segundo Wagner, foram selecionadas as 13 estratégias com maior aderência ao portfólio da Previ e que contam com gestores e fundos capazes de entregar valor na carteira global.
A tranche integral de R$ 1 bilhão segue essa mesma lógica e irá incrementar o volume já investido até agora pela entidade no exterior, em torno de R$ 500 milhões a R$ 600 milhões. Entre janeiro e novembro de 2020, o segmento de investimentos no exterior havia garantido rentabilidade acumulada de 41,6% ao plano I da Previ. No plano Previ Futuro, esse retorno foi de 35,64%.
Como parte do processo de investimento, a fundação também faz uma movimentação própria para escolher regiões do mundo e setores de atividades com potencial para diversificar frente às empresas existentes no mercado brasileiro. “Essa decisão regional é nossa porque a alocação estratégica cabe sempre à própria Previ. Embora haja troca de informações constante com os gestores, a decisão final acontece dentro da nossa estrutura de governança”, diz Wagner.
Em 2021, a prioridade da carteira global da Previ está na Ásia e, em segundo lugar, na América do Norte, ambas classificadas como regiões de interesse “superior à média”. As opções de alocação na Europa estão classificadas como interesse “abaixo da média”. Segundo o diretor, “a Ásia sofreu menos com a crise provocada pela pandemia de Covid e o nosso principal objetivo é reduzir o risco estrutural do portfólio, assim como ganhar com o efeito da diversificação”, observa o diretor. Ele lembra a baixa presença no Brasil de empresas de tecnologia e nanotecnologia, assim como de empresas fornecedoras de serviços para as gerações Y e Z e negócios de e-commerce, como o grupo Alibaba, setores que crescem no mundo todo mas que não têm companhias listadas aqui. A exposição cambial cria um hedge natural para a posição em bolsa local, observa Wagner, e ajuda a amortecer a volatilidade do portfólio.

Para a Value Prev, fundo de pensão dos funcionários da Hewlett-Packard Brasil, a curva de aprendizado na alocação de exterior tem evoluído bastante desde que decidiu fazer os primeiros aportes no mercado internacional, há sete anos, e hoje conselheiros e diretores da entidade já possuem um bom entendimento sobre os objetivo estratégicos da área. “No momento temos 7% dos ativos totais alocados em exterior, mas se a legislação permitisse já estaríamos com mais de 10%”, diz o seu diretor Financeiro e AETQ, João Carlos Ferreira. Em 2020, esse foi o segmento que apresentou melhor performance entre os investimentos da Value Prev, com rentabilidade superior a 26% no ano.
Com esse nível de retorno, se a estratégia tivesse maior participação na carteira total, teria agregado mais aos resultados consolidados, lembra Ferreira. “Essa é uma alocação estrutural para o longo prazo e quem compreende a sua importância para melhorar a relação risco/retorno do portfólio já está procurando ampliar o percentual até o máximo permitido por lei. O ideal, contudo, seria podermos trabalhar com um limite maior, mas dependemos do Conselho Monetário Nacional para isso”, diz ele referindo-se à revisão da Resolução CMN 4661.
A carteira global da Value Prev está 50% hedgeada nas posições em dólar. São cinco fundos incluindo estratégias de renda variável, renda fixa e multimercados e, se houver aumento do limite, a intenção é buscar novos produtos no mercado. A oferta é ampla, lembra Ferreira. “Quando começamos, em 2014, só havia quatro fundos desse tipo disponíveis no mercado, mas hoje há muitas alternativas disponíveis”.
Na renda variável, a Value Prev aposta em fundos de ações globais, fundos de ações mais defensivas e fundos de empresas ligadas ao setor de infraestrutura nos EUA, Canadá e Europa, alguns hedgeados e outros não. Esses FIAs também usam de maneira relevante os conceitos de sustentabilidade, baseados nos princípios ESG, sem excluir empresas ou setores mas fazendo uma análise e os princípios são incorporados aos negócios. Vem daí o peso dos papéis ligados a energias renováveis, com destaque para a eólica, na carteira da fundação. “Não é uma estratégia ESG “puro-sangue”, mas considera também esses fatores”, destaca Ferreira.
Ele ressalta a importância de conhecer o fundo lá fora e compreender sua estratégia, além de saber quem é o gestor aqui. “É um trabalho longo e difícil de seleção, mas os resultados compensam e dezenas de estudos já demonstraram que adicionar diversificação global reduz a volatilidade das carteiras graças às correlações negativas dos mercados”, diz o diretor.

A diversificação no exterior, aprovada na Fundação Copel desde 2017, começou a ser preparada no início de 2020 mas acabou sendo definida apenas em novembro, com a finalização do processo de seleção de gestores, e entra agora na reta final ao fechar regulamentos e formalizar os veículos de investimentos. Foram destinados ao exterior 10% dos R$ 2,6 bilhões que compõem a parte de capitalização do plano III, um plano de Contribuição Variável. O plano família da entidade, com patrimônio de R$ 60 milhões, também destinou 10% dos recursos e há estudos para aplicar pelo menos 5% dos ativos do plano BD, que ao todo tem patrimônio de R$ 6,2 bilhões, no mercado internacional, assim como a parte BD do plano III, conta o diretor financeiro da fundação, José Carlos Lakoski. “Estamos saindo com cerca de R$ 270 milhões em exterior e o restante, que somaria mais R$ 450 milhões, será definido ao longo deste ano. Foi um processo trabalhoso de seleção de gestores, baseado em premissas técnicas tanto para o plano III quanto para o plano família, e concluímos apenas em novembro do ano passado”, diz Lakoski.
Foram aprovados três gestores externos para fazer isso, com estratégias complementares: “A Schroders, com uma estratégia core que mistura renda fixa e renda variável e busca outros fundos; Wellington, com um veículo mais voltado ao mercado de equities incluindo um pouco de long and short, e o Man Group, que é uma estratégia mais quantitativa e vai ajustando as posições em função do risco pré-definido, ou seja, o nível de risco da carteira é a principal variável”, detalha o diretor.
Na parte CD, os investimentos são descorrelacionados e sem hedge cambial, com o objetivo de maximizar as reservas. “Gostamos da descorrelação de moedas, então não vamos contratar hedge mas os gestores têm instrumentos para fazer isso e que poderão ser disparados, caso necessário, como parte da própria gestão”, lembra Lakoski. Já nos planos BD, que têm passivos em reais, o olhar será outro e a ideia é buscar gestores que tenham objetivos diferentes, consistentes com o perfil desses passivos. A fundação estuda se a alocação global de fato faz sentido para os recursos BD e, em caso afirmativo, quais serão as melhores estratégias.
A questão do limite de 10% já começa a ser percebida como uma trava às possibilidades de expansão. “O modelo que utilizamos nos recursos CD aceitou um percentual de 15% para exterior com certa facilidade, então se não fosse pelo limite legal, provavelmente teríamos ido para 15%”, pondera Lakoski.

A Prevcom, dos funcionários públicos do Estado de São Paulo, também alinha o retorno do investimento internacional como sendo de longe o melhor entre suas aplicações no ano passado. Ao contrário da maioria, entretanto, que usa apenas benchmarks de índices globais de bolsas e empresas, a entidade preferiu incluir também um índice específico do mercado europeu. Num dos dois fundos de exterior no qual aplica, com benchmark MSCI Europe e gestão da Votorantim Asset ­­– junto com a gestora alemã Allianz, teve rentabilidade de 56,12% frente a uma meta atuarial de IPCA mais 4% (9,05% no ano). “Permitiu atingir 600% da meta nessa carteira”, ressalta o diretor presidente da Prevcom, Carlos Henrique Flory.
Ele lembra que o MSCI Europe chegou a ficar negativo em 3,3% no ano passado, mas o fundo em que a entidade aplica rendeu 15,1% positivos no mesmo período, resultado da estratégia de gestão, e o restante do retorno foi produzido por ganho cambial. No segundo fundo, de estratégia global sob gestão da MSquare, o rendimento ficou em 52,98%, igualmente muito superior à meta atuarial. “A variação cambial, aliada à rentabilidade dos fundos, permitiu que chegássemos a esse retorno fantástico”, pondera Flory.
Em 2021, a grande incógnita está no comportamento do câmbio, que muito dificilmente repetirá a performance do ano passado e, ao contrário, na conversão dos investimentos em reais poderá acabar com a rentabilidade desses fundos. Flory acredita, porém que não virá o caos, e o dólar tenderá a se manter estável ou talvez valorizar um pouco mais frente ao real. “Vamos seguir alocando lá fora. Não vejo motivo para fazer hedge cambial, até porque ele tem um custo e na verdade quem tem medo do câmbio não deve ir ao exterior”, afirma.
A Prevcom tem atualmente R$ 123 milhões nesses dois fundos internacionais, ou 7% de seus ativos totais de R$ 1,76 bilhão. A discussão do mercado sobre o limite legal é oportuna, avalia Flory, porque estão ficando cada vez mais caras as alternativas para investir aqui em cenário de juro baixo. “Além da taxa pouco atraente, as NTN-B deixam de valer tanto a pena porque agora é preciso marcar esses ativos a mercado, o que acrescenta volatilidade à carteira”.

A jovem Curitiba Prev, com pouco mais de dois anos de vida, estréia neste ano sua estratégia de investimento no exterior, com duas tranches já programadas. Na primeira, em fevereiro, serão alocados recursos equivalentes a 5% do patrimônio líquido da entidade, destinados ao mercado de renda variável e tendo como benchmark o índice MSCI World BRL, informa o diretor financeiro da entidade, Marcos Aurélio Litz. Na segunda parte, ainda no primeiro semestre deste ano, entrarão mais 5% dos recursos, totalizando 10%, no limite da exigência legal. “Avaliamos a utilização ou não de hedge frente ao cenário. A longo prazo não vemos necessidade de fazer hedge cambial, até porque faz parte da estrutura do investimento no exterior contar com a exposição ao câmbio”, sublinha Litz.
Na RioPrevidência, entidade do RPPS, a fatia de investimento no exterior estava em janeiro próxima a 9,5% dos ativos, mas tem flutuado sempre em torno do limite de 10%, conta o seu diretor de investimentos, Aloisio Villeth Lemos. “Temos mantido perto de 10% dos recursos do nosso Fundo Previdenciário em fundos representados por ativos no exterior, com flutuações naturais ao longo do tempo. Mas há vários meses que não se afasta muito desse percentual, que é o nosso limite legal para esse tipo de ativo”, conta Lemos. A variação cambial, entretanto, acabou fazendo com que em novembro passado o teto fosse rompido e o percentual chegou a 11%, em desenquadramento passivo, exigindo uma readequação para calibrar de acordo com a exigência legal.
A alocação internacional começou a ser feita em 2020, como parte da estratégia de diversificação de uma carteira de investimentos que, até o ano anterior, era concentrada apenas em títulos públicos. “Era um caminho natural, diante da alta remuneração desses títulos, que houvesse essa concentração, mas do ano passado para cá, a nossa nova gestão começou a ser implementada já com o objetivo de diversificar e fomos nos adequando à realidade do mercado”, diz Lemos. Atualmente, a aplicação é feita por meio de três fundos de exterior, incluindo uma estratégia global voltada para mercados emergentes, outra para aplicar em ouro e a terceira para equities.
A rentabilidade acumulada pelas três ficou em 24% no ano, retorno que teve peso de 10% na carteira total. Com isso, a rentabilidade do portfólio total da Rio Previdência, que ficou em 7,5% no ano, contou com a contribuição de cerca de 2,4% dos investimentos externos. “As perspectivas para 2021 são positivas para exterior; vamos continuar investindo e eventualmente aumentar o percentual, respeitado o limite. O objetivo é garantir a diversificação dentro de uma linha de gestão equilibrada e com baixa volatilidade”, assegura Lemos.