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Sistema fecha ano no positivo
Apesar da crise da Covid-19, fundos de pensão fecharam 2020 com rentabilidade de dois dígitos e seguem em busca da diversificação de carteiras

Edição 336

Depois de contabilizar um déficit líquido de R$ 50 bilhões em março do ano passado – que levou o Conselho Nacional de Previdência Complementar (CNPC) a cogitar mudanças nas regras de equacionamento de desequilíbrios –, os fundos de pensão encerraram o ano com um resultado positivo líquido de R$ 8,1 bilhões, 20 vezes superior ao superávit registrado em 2019, segundo levantamento feito pela Superintendência Nacional de Previdência Complementar (Previc). O retorno médio de 11,13% nas carteiras ficou 3,37 pontos abaixo do índice alcançado em 2019, mas surpreendeu de forma positiva, considerando a elevada volatilidade apresentada pelos ativos ao longo do exercício passado.
“A forte recuperação da rentabilidade das entidades entre abril e maio sinalizou uma reversão de desempenho”, comenta Lúcio Rodrigues Capelletto, superintendente da Previc. “Até o início do segundo semestre, acreditávamos em uma redução progressiva do déficit, mas foi só no último trimestre de 2020 que vislumbramos a possibilidade de um superávit líquido, o que acabou se concretizando.”
O desempenho continua melhorando neste ano. Depois de ter involuído em 2020, o Índice de Solvência (IS) retomou sua curva ascendente e já supera o patamar de 2019, com mais de 80% dos cerca de 1.100 planos apresentando ISs iguais ou superiores a 0,95. A rigor, um dos raros indicadores do sistema que merecerão atenções especiais da Previc em 2021 serão as metas atuariais dos planos de Benefício Definido (BD). Isto porque o total de produtos com taxas acima do teto definido pela autarquia saltou de nove, em 2020, para 70, na contramão da redução do limite da taxa de juros parâmetro, que declinou de 5,33% para 5,06% para planos com duração média de dez anos.
“É provável que algumas dessas entidades já tenham reduzido suas taxas atuariais ou estejam providenciando essa adequação”, observa Capelletto. “Já as demais terão de apresentar estudos atuariais que justifiquem os níveis acima da banda. Se houver ativos que garantam o cumprimento das metas elevadas, tudo bem; caso contrário elas terão que fazer ajustes.”

Detentores de uma fatia de 61,3% dos ativos totais do setor, o equivalente a R$ 609 bilhões, os BDs sofreram menos com a crise causada pela pandemia. Segundo levantamento da consultoria Inside Pensions, que colhe dados diretamente dos sites das fundações por meio de um robô, esses planos alcançaram uma rentabilidade média de 11,81% em 2020, 2,91 pontos percentuais abaixo do índice alcançado em 2019. Já os planos de Contribuição Variável (CV) e Contribuição Definida (CD) registram desempenhos de 6,31% e 4,46% no ano passado, respectivamente 5,5 e 7,35 pontos percentuais abaixo de 2019.
“Como não contam com perfis de investimento, os BDs não têm de fazer concessões às preferências dos participantes. As escolhas dos ativos ficam 100% a critério dos gestores, o que explica os retornos mais consistentes”, assinala Sérgio Brinckmann, sócio da Inside Pensions.
No plano geral, as entidades colheram seus melhores resultados em 2020 com títulos privados, operações com participantes, títulos públicos e fundos de investimento, que propiciaram retornos de 14,85%, 12,43%, 12,01% e 11,01%, respectivamente, segundo a Inside Pensions. Em relação aos fundos com os quais as entidades operam, o grande destaque foram os veículos voltados a investimentos no exterior, com valorização ao redor de 40%, vindo a seguir os de participações (18,20%), empresas emergentes (13,11%), ações (9,85%), renda fixa (8,60%) e os multimercados (8,29%).
“Os fundos de investimento no exterior vêm apresentando excelente desempenho há mais de ano”, observa Brinckmann. “Em razão disso, várias entidades já estão próximas ao teto de aplicações estabelecido para essa modalidade, de 10% do patrimônio líquido. E há muitas que só aguardam a elevação do limite, que consideram reduzido, para aumentar as apostas.”

A Vivest, o maior fundo de pensão de patrocínio privado do país, com patrimônio por volta de R$ 35 bilhões, apurou um retorno de 14,03% em 2020, o seu segundo melhor resultado em sete anos, atrás apenas dos 17,25% de 2019. Ainda assim, o índice ficou bem aquém da meta atuarial de 30,82% de seus dez planos BDs, atrelada ao IGP-DI, índice que apresentou variação de 23,07% no ano passado. Para solucionar o problema, a entidade obteve, em abril, autorização da Previc para adotar o IPCA em dois desses planos e planeja dar continuidade às trocas. “Até o fim do ano, acreditamos que pelo menos mais dois BDs passarão a adotar o IPCA como referência. Os demais ficarão para 2022”, diz o diretor de investimentos e patrimônio Jorge Simino Júnior.
O cronograma para a execução dos ajustes – que demandam aprovações nas instâncias internas, divulgação das propostas de trocas aos participantes por seis meses e, por fim, chancelas da Previc – sinaliza dificuldades para a Vivest em 2021. No primeiro quadrimestre, a rentabilidade consolidada da entidade atingiu a marca de 7,18%, 3,32 pontos percentuais abaixo da meta dos planos BD, que respondiam por 68% do patrimônio da casa em dezembro. Para complicar o quadro, a entidade teve de resgatar, em 1º de abril, R$ 10,13 bilhões aplicados em Notas do Tesouro Nacional da Série C (NTN-Cs), títulos atrelados ao IGP-M, “primo-irmão” do IGP-DI, nas palavras de Simino, que deixaram de ser emitidos pelo Tesouro na primeira década do século.
“O vencimento desse lote de NTN-Cs, que contribuiu de forma decisiva para o desempenho da Vivest no exercício passado, aumentou o descasamento entre os passivos e ativos”, diz o executivo. “As chances de não conseguirmos bater a meta atuarial em 2021 são grandes.”
Quase a metade dos recursos resgatados em abril já foi reaplicada. A maior parte foi destinada à compra de NTNs da Série B (NTN-Bs) com taxas médias de 4% ao ano além da variação do IPCA. Os investimentos em renda variável doméstica e externa somaram 40%, em parcelas iguais, cabendo fatias de 9% para debêntures participativas da Vale e de 4% para renda fixa no exterior. “O restante será aplicado em, no máximo quatro meses”, diz Simino. “As taxas da NTN-Bs vêm se tornando mais atrativas. Além disso, estamos atentos à renda variável no mercado local e aos investimentos no exterior, que têm espaço para aumentar presença em alguns planos.”

Próxima de atingir a marca de R$ 2 bilhões de patrimônio, a Fundação de Previdência Complementar do Estado de São Paulo (Prevcom) não tem motivos para se queixar de 2020. Depois de acumular no primeiro trimestre uma perda de 2,84%, a entidade voltou a operar no azul em junho e encerrou o exercício passado com uma rentabilidade de 8,84%, 0,21 ponto percentual abaixo do índice de referência, que foi reduzido de 5% para 4% ao ano além da variação do IPCA . “Mantivemos a calma e o sangue frio nos momentos mais agudos da crise, não realizamos movimentos bruscos. Depois, executamos ajustes pontuais na carteira, com aplicações em small caps e em fundos de investimento no exterior”, conta o diretor-presidente Carlos Henrique Flory.
Com os juros em patamares reduzidos, a Prevcom programa alterações mais profundas a médio prazo em sua carteira, que tem 72% dos recursos aplicados em renda fixa. Duas das principais opções serão fundos de investimento no exterior, hoje com uma participação de 6% no portfólio, e de participações (FIPs). A estreia neste último segmento ocorreu em 2020, com a alocação de R$ 16,70 milhões em um fundo voltado à recuperação de empresas. Nos últimos meses, uma segunda alocação na classe foi realizada em um fundo ancorado em projetos de infraestrutura.
“Os FIPs já respondem por 1,5% do nosso patrimônio e tendem a ganhar mais espaço no portfólio, até porque ainda estamos realizando aportes de capital nos dois fundos que elegemos até o momento”, diz Flory. “Há poucas semanas, descartamos a alocação de recursos em um outro fundo dessa classe, mas permanecemos abertos a ofertas na área. Os FIPs são uma excelente alternativa para os fundos de renda fixa, que não estão entregando resultados.”