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Diversificação com fundos florestais
Uma das vantagens apontadas pelos gestores é a descorrelação com as principais classes de ativos, além das características específicas de produção

Edição 336

Variedade de Fundo de Investimento em Participações (FIP) que começa a ganhar fôlego entre os investidores institucionais brasileiros, os fundos florestais aparecem com destaque entre as opções de diversificação de carteiras com lastro em ativos reais e horizonte de médio a longo prazo. Com o desempenho dependendo mais do crescimento biológico das árvores nas florestas plantadas e das condições da demanda por madeira em segmentos da indústria de base, eles são pouco abalados por eventos econômicos, políticos ou sanitários, como a pandemia, uma vez que operam com contratos pré-definidos de fornecimento de madeira para o setor de papel e celulose e para o abastecimento da indústria siderúrgica. O retorno oferecido, em geral entre 8% e 12% ao ano além do IPCA, é determinado principalmente pelo ciclo de maturação das árvores, que varia entre dez anos e 20 anos.
Seus gestores, ainda concentrados em poucas casas especializadas, vêm a demanda aquecida tanto do lado dos fundos de pensão quanto de investidores estrangeiros, family offices e outros institucionais. “Investimento em florestas vai ser a nova NTN-B, com características de baixa volatilidade, baixo risco e retornos aderentes às necessidades das EFPCs e entidades do RPPS”, avalia Fausto Filho, CIO de renda fixa e produtos alternativos da XP Asset, que acaba de montar um time dedicado a ativos vinculados ao setor de recursos naturais. A gestora, recém-chegada a esse mercado, espera colocar a nova célula em pé até o final deste semestre, fazendo a estruturação e lançamento de um primeiro fundo de investimentos florestais com perspectiva de captar de R$ 2 bilhões.
A descorrelação com as tradicionais classes de ativos e as características específicas de produção, formação de preços e demanda para a madeira junto à indústria estão na base da estruturação de teses vencedoras para os investidores com horizonte de mais longo prazo. “A indústria de papel e celulose vem se recuperando este ano e os preços da celulose subiram em dólar, assim como os preços do aço e do ferro gusa, na siderurgia, que tiveram uma alta significativa, então esses mercados foram beneficiados duplamente pelos preços em dólar e pela variação cambial”, explica o sócio-fundador da Copa Investimentos, Marcelo Sales. Entretanto, ele lembra que a madeira não é impactada por esses repasses, seja como bônus ou como ônus, refletindo condições de comercialização de longo prazo.
A procura pela produção florestal, observa Sales, tende a ficar ainda mais robusta por conta do anúncio recente da nova fábrica de celulose de eucalipto da Suzano, que deverá entrar em operação em Ribas do Rio Pardo (MS) no início de 2024 e pretende ser a maior fábrica de celulose de linha única de eucalipto do mundo, com capacidade para 2,3 milhões de toneladas anuais de celulose. A Copa, gestora independente especializada em investimentos florestais e imobiliários rurais, tem atualmente R$ 1,7 bilhão sob gestão total. Com quatro fundos florestais, a gestora começará a captar investimentos para um quinto fundo que chegará ao mercado em junho, com um portfolio que irá além do florestal para incluir também ativos ligados à produção agrícola. A estimativa é de captar algo entre R$ 700 milhões a R$ 1 bilhão nessa estragégia, que vai buscar retorno de 10% a 12% mais IPCA.
A queda dos preços da celulose no ano passado não preocupou a Copa durante a crise, reforça o gestor: “Nossos contratos têm, em 90% dos casos, preços pré-definidos e, além disso, a indústria que abastecemos acabou saindo fortalecida desse período”. Nesse mercado, entre casos bons e alguns nem tanto, o essencial é assegurar que as teses sejam assertivas, observa Sales.

O maior risco desse tipo de alocação é ter uma tese de investimentos estruturada sobre premissas equivocadas na estimativa de produção, no preço da madeira, em custos e produtividade. “São cálculos simples, mas errar nessa conta pode levar a underwritings muito otimistas e à frustração dos investidores. Há fundos de pensão que passaram por isso no mercado e hoje não podem sequer ouvir falar de florestais, porém é preciso lembrar que tudo depende de estabelecer as teses corretas”, afirma. Ele lembra ainda que o respeito ambiental, conceito cada vez mais direcionador de investimentos no mercado, já é um pré-requisito incorporado ao segmento florestal no Brasil.
A diversificação está na base da tese de investimentos da Copa. O que significa que seus 80 mil hectares de florestas de eucalipto sob gestão incluem projetos em regiões diferentes do País – MG, BA, RS e MS - além de abrangerem diversos tipos de mercados, modelagens e empresas. Outro ponto fundamental é fazer “tudo dentro de casa”. Graças a esse modelo, e a um time de mais de 400 pessoas no campo, a casa consegue agregar mais valor aos projetos e ainda traz um ganho estratégico para o investidor, diz Sales: “não há um terceiro para ser responsabilizado”.
O primeiro fundo da Copa, criado há 12 anos, já fez desinvestimentos em uma companhia de Minas Gerais do setor siderúrgico e praticamente auto-esgotou a madeira. “Atuamos em todas as vertentes de mercado, o que incluiu a montagem de um fundo em parceria rural com a Suzano, que compra ou arrenda florestas e terras já prontas. Dividimos o risco de produção com a empresa, eles têm um percentual fixo e o nosso volume de madeira é fixo”. Esse fundo, o Copa III, um FIP florestal multiestratégia criado em 2016, já desinvestiu de uma empresa no RS, um ativo grande da finlandesa Stora Enso com 20 mil hectares de florestas, o que representou desinvestimento de 40% da carteira, e comprou terras e florestas em Ribas do Rio Pardo (MS). Seu retorno, diz Sales, foi bem superior à média do mercado.

Para a Lacan, gestora especializada em fundos florestais que lançou seu primeiro fundo em 2012 e o segundo em 2016, devendo encerrar a captação de seu terceiro fundo no final deste ano, o atual ambiente de juro baixo, longe das metas atuariais dos fundos de pensão, justifica o interesse desses investidores por essa classe de ativos. A resiliência dos ativos florestais ajuda a reforçar sua atratividade. “Além disso, é um investimento intrinsecamente sustentável, que atende às metas de redução das emissões de carbono pela iniciativa privada e reduz pressões sobre a área de mata nativa. Há também uma demanda crescente pela produção de madeira para biomassa e para a produção de tecidos à base de celulose, assim como pela substituição do plástico pelo papel/papelão na indústria”, lembra Guilherme Monteiro, sócio da área comercial e de relações com investidores da Lacan. Assim como a Copa, a Lacan é signatária do PRI e tem suas florestas certificadas pela FSC (Forest Stewardship Council). O crescimento do mercado de créditos de carbono, aliás, está no radar da Lacan.
“A demanda por florestas de eucalipto e pinus – as duas principais espécies plantadas no Brasil - tende a aumentar muito, podemos dizer que florestas são o futuro tanto quanto as empresas de tecnologia”, analisa Guilherme Monteiro. Com 36 fundos de pensão entre seus cotistas, a Lacan tem atualmente 80 mil hectares de áreas plantadas e espera chegar a 100 mil hectares até o final do ano.
Outro ponto forte dessa classe de fundos está na vantagem competitiva dos ativos florestais no mercado global, assim como acontece com os ativos do agronegócio brasileiros, sendo essa “uma vocação indiscutível do Brasil”, diz o gestor dos fundos florestais da Lacan, Guilherme Ferreira. Ele lembra que os retornos oferecidos por esses fundos, que costumam oscilar entre 9% e 10% ao ano além da inflação, têm sido consistentes ao longo do tempo. “Em 2020 devolvemos R$ 50 milhões aos investidores de um dos nossos fundos e este ano devolveremos pelo menos R$ 65 milhões, dos quais R$ 25 milhões já foram pagos”. Os fundos da Lacan têm apresentado um fluxo de caixa com baixa volatilidade, o que permite fazer essas amortizações anuais. “É um diferencial em relação aos outros investimentos alternativos, pois a nossa geração de caixa depende do crescimento biológico das árvores e não de fatores políticos ou econômicos e a maior parte dos projetos já nasce com contratos de venda”, diz Ferreira.
O aumento dos preços da madeira, em geral, teve reflexos nos preços do papel e da celulose de eucalipto. Também foram reajustados preços de madeira de pinus para painéis utilizados em serraria, construção civil e móveis. “No MS, em doze meses houve uma alta de 11% nos preços do nosso principal mercado, o eucalipto. Na região Sul, onde temos projetos de produção de madeira de pinus, os preços subiram 20% em doze meses”, conta Ferreira. O aumento da demanda atingiu inclusive os segmentos de madeira para papelão ondulado e painéis de madeira, incluindo a celulose de fibra curta e celulose para tecidos, entre outros. Há várias fábricas em expansão e isso tem sido refletido pelos preços em todo o país, diz Ferreira. No Sul, fábricas como a da Klabin e outras já anunciadas na região devem ajudar a reforçar a demanda.
O terceiro fundo da Lacan, que iniciou captação no ano passado, parte dos mesmos pilares utilizados pelas demais estratégias da casa, investindo em projetos nas principais regiões consolidadas e com a maior parte da madeira já vendida. A diferença é que terá maior diversificação regional, de produto e de mercado. Os investimentos englobam tanto madeira para produzir celulose de fibra curta quanto de fibra longa, biomassa e madeira sólida. “Ao contrário dos nossos dois primeiros fundos, que são mais focados em celulose de fibra curta, a nova carteira diversifica mais e vai ao Sul do País, nos estados do Paraná e de Santa Catarina, para entrar no segmento de madeira de pinus”, detalha Ferreira. A Lacan estuda ainda a possibilidade de entrar no mercado de ativos do agronegócio.

A demanda das EFPC pelos florestais está caminhando para se consolidar, acredita Marcelo Sales, mas é dividida com os family offices e outros institucionais. Um dos fundos da Copa, por exemplo, tem 60% investidos por EFPC, 20% por estrangeiros e o restante por family offices. Na Lacan, o terceiro fundo, que encerra captação no final deste ano, já captou R$ 350 milhões de um total de R$ 500 milhões, sendo 60% disso para fundos de pensão, 30% para estrangeiros e 10% para family offices”, conta Guilherme Ferreira.
A Previ-Ericsson é um dos casos emblemáticos de opção pela alocação em fundos florestais entre as fundações brasileiras. Os investimentos alternativos da entidade somavam, em dezembro de 2020, R$ 178 milhões ou 11,58% do patrimônio total de R$ 1,543 bilhão. Desse percentual, 5,11 pontos percentuais estão alocados em FIPs, com pouco menos de um terço dessa carteira em florestais, conta o diretor superintendente da entidade, Rogério Tatulli. O investimento começou a ser feito em 2011 e incluiu três fundos da Lacan e um da BTG Timber. O retorno ficou em torno de IPCA mais 8,5% ao ano. “O primeiro fundo da Lacan foi a nossa primeira opção nesse mercado e foi um sucesso, por conta da capacidade do gestor, sua governança e o nosso aprendizado, já que éramos totalmente inexperientes nessa classe de fundos”, diz Tatulli.
O principal ganho tem sido o contato com as assets especialistas e o aprendizado sobre os ativos florestais, que permite selecionar e avaliar a performance dos gestores ao longo do tempo, porque só a placa não resolve. “Assets menores, com maior alinhamento de interesses, podem ser até melhores porque “numa asset de dono”, ao investir 3% do seu patrimônio como pessoa física esse gestor assume um compromisso expressivo com o projeto, o que nem sempre acontece num conglomerado gigante”, pondera Tatulli.
Na Value Prev, fundo de pensão dos funcionários da HP, o segmento de FIPs florestais ainda está no início da curva de aprendizado da fundação. O primeiro investimento, feito em 2020, somará recursos equivalentes a 1% do patrimônio da entidade subscritos num fundo florestal, informa o diretor financeiro João Carlos Ferreira. O principal requisito para aplicar nesse tipo de fundo é a confiança no gestor, acredita Ferreira. “Estamos começando a conhecer esse segmento e só integralizamos 0,3% do volume subscrito até agora; temos acompanhado com cuidado os fundos da Lacan desde o seu início mas só conseguimos convencer os nossos conselheiros a aprovarem essa alocação no ano passado, para entrarmos no terceiro produto lançado pela casa”, conta o diretor.
A carteira de FIPs da Libertas, fundação patrocinada pelas estatais de saneamento, habitação e companhia de desenvolvimento de Minas Gerais, foi estruturada em 2007 e soma R$ 108 milhões, com 43% de seus ativos alocados em fundos florestais. “A estratégia da Lacan diversifica não só por tipo de madeira mas também por região, então decidimos fazer essa aposta porque a casa tem feito boa gestão nos seus dois fundos anteriores, nos quais investimos com bons resultados”, informa o gerente de Investimentos Daniel Oliveira. Ele conta que a fundação chegou a analisar outras casas gestoras, mas acabaram não passando pelo filtro.